segunda-feira, 8 de agosto de 2016

SESSÃO 41 - 10 DE AGOSTO DE 2016



VÊM AÍ OS RUSSOS, VÊM AÍ OS RUSSOS 
(1966)

Norman Jewison (21.6.1926, Toronto, Canadá) é daqueles sólidos realizadores norteamericanos que nunca ganharam a estima dos seus iguais. Vários filmes seus disputaram Oscars (e um ganhou o Oscar de Melhor Filme do Ano: “No Calor da Noite”), mas nunca as nomeações para Melhor Realizador se traduziram no final por estatuetas. Ganhou uma, honorária, quase no final da carreira (1999). Depois de um início passado na televisão, e de algumas comédias no princípio da carreira no cinema, assinou obras meritórias, como “O Aventureiro de Cincinnati” (1965), “Vêm aí os Russos, Vêm aí os Russos” (1966),No Calor da Noite” (1967),O Grande Mestre do Crime” (1968),Chicago, Chicago” (1969), “Um Violino no Telhado” (1971),Jesus Cristo Superstar” (1973), “Rollerball - Os Gladiadores do Século XXI” (1975),...E Justiça para Todos” (1979), “A História do Soldado” (1984), “Agnes de Deus” (1985), “O Feitiço da Lua” (987), entre outras, prolongando o seu trabalho até 2003. Tanto se empenhou em comédias como em musicais, filmes de tese ou ficção científica, e sempre acabava bem as empreitadas.
“Vêm aí os Russos, Vêm aí os Russos”, de 1966, é definitivamente um filme datado. A década de 60 foi interessante de acompanhar quanto à guerra fria que se vivia entre EUA e URSS. Depois dos momentos de grande tensão, entre 1961 e 1962, com a invasão da Baía dos Porcos e a Crise dos Mísseis em Cuba, as relações entre as duas superpotências parece terem serenado um pouco, criando indícios de paz ancorados numa possível coexistência pacífica, com Nixon e Brejenev estabelecendo alguns acordos que serenaram um pouco a ebulição internacional. É neste contexto que aparece “The Russians Are Coming, the Russians Are Coming”, com argumento de William Rose, segundo o romance “The Off-Islanders”, de Nathaniel Benchley. Todo o filme se baseia na histeria norte-americana quanto a possíveis ataques soviéticos e aponta para uma moralidade final de concórdia e paz entre os povos (afinal os russos também salvam criancinhas em lugar de as comerem ao pequeno almoço).


A ideia é francamente divertida: em manobras, certamente de espionagem, perto da costa Oeste norte-americana, um submarino soviético encalha muito próximo de uma das praias da ilha (fictícia) de Gloucester. Realmente, o filme foi rodado na costa norte da Califórnia, principalmente em Mendocino, as cenas do porto são em Noyo Harbor, uma cidade ao sul de Fort Bragg. O capitão do submarino, um irado e incompetente Спрут ("polvo", na sua tradução), envia a terra o tenente Rozanov, juntamente com um grupo de oito marinheiros, para encontrarem e “alugarem” um barco para arrastar o submarino, desencalhando-o e levando-o para o mar alto. O grupo acaba por ocupar a casa de uma família em férias, os Whittaker, e a partir daí desencadeia-se a onda de histeria provocada pela “invasão” dos russos que “descem de paraquedas”, “ocuparam o aeroporto” (e que aeroporto!), estão um pouco por todo o lado, e às centenas. As peripécias são muitas e diversificadas, umas são muito bem conseguidas, outras arrastam-se um pouco, mas o resultado final é hilariante, a “moral” humanista, e sobretudo a interpretação muito conseguida, com um elenco de habituais segundas figuras, aqui em momentos de fulgor: Alan Arkin, Carl Reiner, Eva Marie Saint, Brian Keith, Paul Ford, Theodore Bikel, Tessie O'Shea, John Phillip Law, Ben Blue ou Michael J. Pollard são inesquecíveis.
Algumas curiosidades finais: o submarino que aparece no filme foi fabricado pelos produtores, dado que a marinha dos EUA se recusou a emprestar um e impediu o estúdio de trazer um submarino russo real. Mas os aviões que se veem, esses são reais, F-101 Voodoo Jets da 84th Fighter-Interceptor Squadron, provenientes da vizinha Base Aérea de Hamilton.
Diga-se ainda que, segundo Norman Jewison, o filme teve um impacto considerável tanto em Washington quanto Moscovo. Um senador, Ernest Gruening, chegou a referir-se a ele num discurso no Congresso, e uma cópia foi exibida no Kremlin, onde terá provocado lágrimas nalguns assistentes, entre eles o cineasta Sergei Bondarchuk.
Entre vários outros prémios e nomeações, “The Russians Are Coming the Russians Are Coming” foi nomeado para os Oscars de Melhor Filme, Melhor Argumento, Melhor Actor (Alan Arkin) e Melhor Montagem. Não ganharia nenhum. Mas nos Globos de Ouro teve melhor sorte. Alcançou o Globo para Melhor Filme de comédia ou musical, e Alan Arkin levou a estatueta de Melhor Actor na mesma categoria. Foram ainda nomeados John Phillip Law e o argumento.


VÊM AÍ OS RUSSOS, VÊM AÍ OS RUSSOS
Título original: The Russians Are Coming the Russians Are Coming

Realização: Norman Jewison (EUA, 1966); Argumento: William Rose, segundo romance de Nathaniel Benchley ("The Off-Islanders"); Produção: Norman Jewison, Walter Mirisch; Música: Johnny Mandel; Fotografia (cor): Joseph F. Biroc; Montagem: Hal Ashby, J. Terry Williams; Casting: Lynn Stalmaster;  Direcção artística: Robert F. Boyle; Decoração: Darrell Silvera;  Maquilhagem: Del Armstrong, Naomi Cavin, Sydney Guilaroff; Direcção de Produção: Jim Henderling, Fred Lemoine, Allen K. Wood; Assistentes de realização: Kurt Neumann, Leslie Gorall; Departamento de arte: Anthony Bavero, Lewis E. Hurst Jr., James F. McGuire, Thomas J. Wright; Som: Al Overton, Clem Portman, John Romness,  Sidney Sutherland;  Efeitos especiais: Daniel Hays; Companhia de produção: The Mirisch Corporation; Intérpretes: Carl Reiner (Walt Whittaker), Eva Marie Saint (Elspeth Whittaker), Alan Arkin (Lt. Rozanov), Brian Keith (chefe de policia Link Mattocks), Jonathan Winters (Norman Jonas), Paul Ford (Fendall Hawkins), Theodore Bikel (capitão do submarino),, Tessie O'Shea (Alice Foss (telefonista), John Phillip Law (Alexei Kolchin), Ben Blue (Luther Grilk), Andrea Dromm (Alison Palmer), Sheldon Collins (Pete Whittaker), Guy Raymond (Lester Tilly), Cliff Norton, Richard Schaal, Philip Coolidge, Don Keefer, Cindy Putnam, Parker Fennelly, Doro Merande, Vaughn Taylor, Johnny Whitaker, Danny Klega, Ray Baxter, Paul Verdier, Nikita Knatz, Constantine Baksheef, Alex Hassilev, Milos Milos, Gino Gottarelli, Paul Barselou, Sidney Clute, Laurence Haddon, Paul Lambert, Larry D. Mann, James McCallion, Michael J. Pollard, etc. Duração: 126 minutos; Distribuição em PortugalLNK Audiovisuais; Classificação etária: M/ 12 anos.

SESSÃO 40 - 9 DE AGOSTO DE 2016



1941: ANO LOUCO EM HOLLYWOOD (1979)

Com cerca de 30 anos, Steven Spielberg continua o menino-prodígio de Hollywood, versão anos 70. Que dizer, aliás, de um jovem que com 20 e poucos anos roda Um Assassino pelas Costas (Duel), para continuar a carreira com obras como Asfalto Quente, Tubarão e Encontros Imediatos do Terceiro Grau, antes de se estrear também na comédia, com 1941 - Ano Louco em Hollywood?  Deverá chamar-se «genial» a um autor que toca tantos campos (o filme de violência, o fantástico, a ficção científica, o terror, a comédia…) e que o faz com tamanho sentido do espectáculo, e uma tal demonstração de inteligência, lucidez e sensibilidade?
“1941” é uma comédia que procura renovar o burlesco, na linha de algumas tentativas como “O Mundo Maluco”, “A Grandes Corrida à Volta do Mundo”, “Os Alegres Malucos das Máquinas Voadoras”, entre outros títulos possíveis de citar.  A história tem algo a ver com um filme de Jewison, “Vêm aí os Russos!”, com algumas alterações de data e de inimigo. Desta feita quem ameaça a paz dos EUA e desencadeia histeria são os nipónicos comandados por Toshiro Mifune e o seu colaborador nazi, Christopher Lee. Estamos em Los Angeles-Hollywood; corria, obviamente, o ano 1941. Alguns dias antes dera-se o massacre de Pearl Harbour. O povo dos Estados Unidos está particularmente sensível ao avanço dos «amarelos», o que não quer dizer que Hollywood não continue a produzir e a exibir o «Dumbo» de Walt Disney (que enternece até às lágrimas o general americano) e a promover grandes concursos de dança (que por vezes terminam em violentos arraiais de pancadaria, como no caso vertente Spielberg testemunha com um gosto por um humor destrutivo de uma agressividade e ritmo nunca vistos em cinema). Mas, no alto da grande roda do luna-parque dois vigias aí colocados espreitam as possíveis manobras do inimigo, enquanto o exército coloca tanques e peças anti-aéreas nas quintas dos arredores («não quero a guerra no meu quintal», grita a dona do terreno invadido), particularmente bem colocados no caso de um ataque costeiro.  Por todo o lado se vê a ameaça «boche», mas particularmente suspeito é o riso amarelo. Um submarino que se movimenta nas águas territoriais americanas (e que surge nas imagens iniciais de 1941 parodiando o Tubarão do próprio Spielberg) é seguido com interesse redobrado. Mas se a histeria é total no campo americano, não é menos autêntica no submergido mundo nipónico, onde se interroga Hollis Wood (o impagável Slim Pickens), com base num qui pro quo sonoro.


O delírio atinge o paroxismo passadas as cenas iniciais que situam a acção e definem personagens. A loucura progride e a invenção do humor de John Millius (argumentista) e Spielberg parte à desfilada com o freio nos dentes. Nada deterá o piloto que manda encher depósitos de aviões nas estações de gasolina da estrada, nem os condutores de um tanque de guerra ou os sensuais comandantes (?) de outro avião que evolui nos céus de Hollywood, ao sabor dos espasmos amorosos dos seus distraídos tripulantes.
O antimilitarismo agressivo de 1941 é mais do que evidente, sendo extensivo não só aos frenéticos generais norte-americanos (onde alguns se chamam Mad e «mad» são), mas também aos japoneses e alemães, todos eles irmanados numa fúria destrutiva que parece converter em brincadeira sem significado de maior o futuro dos seus povos e da humanidade. Mas se este sentimento antimilitarista é evidente, a verdade é que 1941 não procura carregar demasiado as cores da «mensagem», para se situar no campo da diversão pura, ainda que sempre inteligente e excelentemente trabalhada, não só no plano narrativo e rítmico, como no domínio (aqui impressionante) dos cenários, das massas humanas e do seu exuberante entrecruzar. O que terá custado à Columbia e à Universal a bonita quantia de 34 milhões de dólares, gastos a erguer um décor monumental (quase todo o filme é rodado em cenários e estúdio) para o fazer explodir seguidamente, à força de rajadas de metralhadora e demais fogo-de-artifício. E não se diga que é fácil dominar os meios postos à disposição de Spielberg, nem comandar com o rigor de um ballet os milhares de figurantes que perseguem o inimigo e exorcizam terror à força de desvairados rasgos de histérica loucura.


1941 (ANO LOUCO EM HOLLYWOOD)
Título original: 1941

Realização: Steven Spielberg (EUA, 1979); Argumento: Robert Zemeckis, Bob Gale e John Milius; Música: John Williams; Fotografia (cor): William A. Fraker; Produção: Buzz Feitshans, John Milius, Michael Kahn e Janet Healy; Montagem: Michael Kahn; Design de produção: Dean Edward Mitzner; Direcção artística: William F. O´ Brien; Decoração: John Austin e Jim Hasinger; Guarda-roupa: Deborah Nadoolman; Maquilhagem: Bob Westemoreland; Direcção de Produção: Chuck Myers e Herb Willis; Assistentes de realização: Jerry Ziesmer, Steve Perry e Chris Soldo;  Som: Gene Cantamesa, Buzz Knudson, Robert Glass, Don MacDougall e Chris Jenkins; Coreografia: Paul de Rolf e Judy van Wormer; Efeitos especiais: A.D. Flowers; Efeitos visuais: L.B. Abbott, Larry Albright, Larry Robinson; Companhias de produção: A-Team Productions para a Universal e Columbia Pictures; Intérpretes: Dan Aykroyd (sargento Tree), Ned Beatty (Ward Douglas), John Belushi (Wild Bill Kelso), Lorraine Gary (Joan Douglas), Murray Hamilton (Claude), Christopher Lee (capitão con Kleinschmidt), Tim Matheson (capitão Loomis Birkhead), Toshiro Mifune (comandante Miramura), Warren Oates (coronel Maddox), Robert Stack (general Joseph W. Stilwell), Treat Williams (Sitarski), Nancy Allen (Donn Stratton), Lucille Bensen («Gas Mama»), Jordan Brian (Macey), John Candy (Foley), Elisha Cook (o patrão), Eddie Deezen (Herb), Bobby DiCicco (Wally), Dianne Kay (betty Douglas), Perry Lang (Dennis), Patti PuPone (Lydia Hedberg), J. Patrick McNamara (sargento Willard Dubois), Frank McRae (Quincy Jones), Penny Marshall (Miss Fitzroy), Stephen Mond (Gus Douglas), Slim Pickens (Hollis Wood), Wendie Jo Sperber (Maxine), Lionel Stander (Angelo Scioli), Dub Taylor (Sr. Malcomb), Ignatius Wolfington (Meyer Mishkin), Christian Zika (Stevie Douglas), Sam Fuller (o comandante), Mickey Rourke (Reese), John Landis (Mizerany), Michael McKean (Willy). Duração: 118 minutos; Distribuição em Portugal: Lusomundo Audiovisuais; Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 28 de Março de 1980.