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segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

SESSÃO 5 - 1 DE MARÇO DE 2016


JERRY 8 3/4 (1964)

Com “The Nutty Professor” (As Noites do Dr. Jerryl), de 1963, “The Patsy” (Jerry 8 3/4), do ano seguinte, Jerry Lewis afirma-se não só como um dos grandes génios da comédia cinematográfica, mas igualmente como um grande cineasta e um autor completo. Ele não é só o actor que reinventa um género, mas também um argumentista talentoso e extremamente inteligente e, ao mesmo tempo, um realizador subtil, sensível, inovador, moderno.
“The Patsy” em português pode ter várias interpretações, desde pacóvio, tolo, ingénuo, trouxa, bode expiatório mas, em todas elas, acabará por resumir-se a alguém que, pelas suas características, facilmente se deixa enganar. O título português procura apanhar o impacto de Fellini 8 ½, estreado anos antes, para o associar a esta obra de Jerry que também se passa no mundo do cinema. Não é a Cinecittà de Fellini, mas Hollywood. A Hollywood dos sonhos de Malcolm Smith, um certo cinéfilo fanático de “Um Espada para Hollywood” que agora surge na figura de um empregado de hotel na meca do cinema, que um dia se descobre elevado à categoria de estrela do mundo do espectáculo, sem que tenha feito nada para isso.
Na verdade, nas imagens iniciais a câmara acompanha o despenhar de um avião e sabe-se depois que entre os passageiros se encontrava o célebre comediante Wally Brandford. Os jornais choram a morte do popular actor, mas a sua equipa chora o facto de poder vir a ficar sem emprego. Quem escreve os guiões, quem trata do marketing, quem responde ao correio, quem se ocupa da imagem do actor, quem apura a voz ou quem examina os contratos, sem actor fica desempregado. A menos que surja rapidamente alguém que o substitua. Mas quem pode ser esse alguém, que seja suficientemente ingénuo e manejável para se adaptar ao papel? É nessa altura da reunião que entra Stanley Belt (Jerry Lewis) com a bandeja com taças e champanhe para a equipa afastar as mágoas. A entrada é, como se espera, a mais desastrada possível e Stanley é desde logo olhado como possível sucessor do defunto. E todos se aprestam em transformar o desajeitado bell boy num actor de primeiríssima água. Lições de dicção, de música, de arte de representar, de boas maneiras, idas ao alfaiate das vedetas (onde Stanley Belt quer fatos ao jeito de George Raft e descobre ali ao lado o seu intérprete preferido), visitas a cabeleireiros de nomeada, tudo fazem os membros da equipa para não ficarem no desemprego. Mas a personagem visada não mostra qualquer tipo de progressos nesta difícil arte de ser quem não é. 


Ele é duro de ouvido para gravar canções, mas a oportunidade é excelente para se assistir a um fabuloso trio de cantoras, todas elas interpretadas por Jerry Lewis de forma magistral. Dão-se festas de lançamento da nova coqueluche de Hollywood, o que permite a Stanley recordar outros bailes da sua juventude onde tudo corre mal. Mas na festa cruza-se com Hedda Hopper, a própria, uma das mais célebres bisbilhoteiras de Los Angeles, a quem faz notar o horrível chapéu que exibe. Ela acha graça e começa a lançar as bases da moralidade do filme: a autenticidade é o mais importante a vida. Só quando Stanley se descobre igual a si próprio, durante um “The Ed Sullivan Show”, é que a magia nasce. “Tentaram transformar-me no que não sou”, lamenta-se Stanley Belt. O argumento de Jerry Lewis e Bill Richmond é extremamente bem desenvolvido e inteligente na forma como analisa alguns aspectos da máquina de criar e triturar vedetas do mundo do “show business”, no artificialismo desta fábrica de sonhos (a cena final procura mesmo “mostrar” como realidade e ficção se podem associar na manipulação do espectador). A fotografia de W. Wallace Kelleyé magnífica, bem como o cuidado posto na decoração e nos ambientes. Na interpretação, Jerry Lewis procura obviamente homenagear alguns grandes actores como Peter Lorre, Everett Sloane, Phil Harris, Keenan Wynn, John Carradine ou a jovem e bonita Ina Balin, que constituem a equipa órfã de vedeta, mas também uma série de outros que aparecem fugazmente nos chamados “cameos” e que vão dos já citados George Raft, Hedda Hopper ou Ed Sullivan, a Ed Wynn, Mel Tormé, Rhonda Fleming, Scatman Crothers, Phil Foster, Billy Beck, Hans Conried, Richard Deacon, Del Moore, Neil Hamilton, Buddy Lester, Nancy Kulp, Norman Alden, Jack Albertson, Richard Bakalyan, Jerry Dunphy, Kathleen Freeman, Norman Leavitt, Eddie Ryder, Lloyd Thaxton, Lorne Greene, Pernell Roberts, Michael Landon, Dan Blocker e Fritz Feld. Até o argumentista Bill Richmond tem uma curta aparição, como pianista. Personalidades umas mais conhecidas do grande público do que outras (mas todas bastante reconhecíveis para as plateias norte-americanas), o seu aparecimento nesta obra é um óbvio reconhecimento do seu talento e uma justa homenagem do cineasta aos seus pares. Este foi o último filme de Peter Lorre, que morre antes da sua estreia, e um dos derradeiros de Everett Sloane (este actor desaparece depois de integrar outro filme ao lado de Jerry Lewis, “The Disorderly Orderly”, igualmente de 1964).
“The Patsy” inicialmente chamava-se “Son of Bellboy”, procurando de certa forma ser uma continuação de “The Bellboy” (Jerry no Grande Hotel), primeira realização de Jerry Lewis em 1960. Inclusive o protagonista de ambos chama-se Stanley.
Curiosidades extras: a cena inicial do desastre de avião foi inicialmente rodada para "The Mountain" (A Montanha), de Edward Dmytryk (1956). Introduzida com aproposito nesta obra. Existe um filme de 1928, interpretado por Marion Davies, chamado igualmente “The Patsy”. Nada a ver com este.


JERRY 8 3/4
Título original: The Patsy
Realização: Jerry Lewis (EUA, 1964); Argumento: Jerry Lewis, Bill Richmond; Produção: Ernest D. Glucksman, Arthur P. Schmidt; Música: David Raksin; Fotografia (cor):W. Wallace Kelley; Montagem: John Woodcock; Casting: Edward R. Morse; Direcção artística: Cary Odell, Hal Pereira; Decoração: Sam Comer, Ray Moyer; Guarda-roupa: Edith Head; Maquilhagem: Nellie Manley, Wally Manley, Harry Ray, Jack Stone, Wally Westmore; Direcção de Produção: William Davidson; Assistentes de realização: Ralph Axness, Dale Coleman, Howard Roessel; Departamento de arte: Jim Cottrell, Earl Olin, Gene Lauritzen, Martin Pendleton; Som: Howard Beals, Charles Grenzbach, Hugo Grenzbach, Bud Parman; Efeitos visuais: Farciot Edouart, Paul K. Lerpae; Companhias de produção: Paramount Pictures, Patti Enterprises; Intérpretes: Jerry Lewis (Stanley Belt / SingCantoras do Trio), Ina Balin (Ellen Betz), Everett Sloane (Caryl Fergusson), Phil Harris (Chic Wymore), Keenan (Harry Silver), Peter Lorre (Morgan Heywood), John Carradine (Bruce Alden), Hans Conried (Prof. Mulerr), Richard Deacon (Sy Devore), Del Moore (policia), Scatman Crothers (engraxador), Neil Hamilton (barbeiro), Buddy Lester, Nancy Kulp, Lloyd Thaxton, Norman Alden, Jack Albertson, Henry Slate, Gavin Gordon, Ned Wynn, Rhonda Fleming (Rhonda Fleming), Phil (Mayo Sloan), Hedda Hoppe (Hedda Hopper), George Raft (George Raft), Mel Tormé (Mel Tormé), Ed Wynn (Ed Wynn), Ed Sullivan (Ed Sullivan), The Four Step Brothers (The Step Brothers), etc. Duração: 101 minutos; Distribuição em Portugal: Lusomundo Audiovisuais; Classificação etária: M/ 6 anos.

JERRY LEWIS E A COMÉDIA NORTE-AMERICANA
A comédia americana teve, entre os anos 20 e 30 do século XX, um período particularmente brilhante, durante o qual o burlesco foi rei. São desta época os nomes de Charles Chaplin, Buster Keaton, Mack Sennett, Harold Lloyd, Irmãos Marx, W. C. Fields, Harry Langdon, Laurel e Hardy, Chester Conckin, Mack Swain, Mabel Normand, Ben Turpin, Larry Sernon, Fatty Arbuckle, Charley Chase, Andy Clyde, Louise Fazenda, Joe. E. Brown e alguns mais.
Utilizando os mais variados processos e recorrendo a figuras de características muito diversas, os actores atrás mencionados nada deixaram de pé, após a sua passagem explosiva e purificadora. Era o período das gargalhadas mortíferas que provocavam uma autêntica política de "terra queimada". Depois seguiu-se um tempo relativamente descolorido e medíocre que caracterizou as duas décadas seguintes e se prolongou ameaçadoramente pelos anos de 60. Havia ainda em 40 cineastas como Frank Capra, Leo McCarey, Frank Tashlin, Howard Hawks, George Stevens, entre outros, que nos deram comédias admiráveis. Mas nunca mais apareceu o grande cómico de completa autoria. Os homens para todo o serviço, do drama à comédia, abundavam, em contrapartida. Referimo-nos a Norman Taurog, Michael Gordon, Henry Koster, George Marshall, Normam Panama, Richard Thrope, Joshua Logan, Norman Jevison (na sua primeira fase), Charles Walters, George Sidney, etc., etc. O que não quer dizer que por vezes esses realizadores não lograssem obras de referir. Já na década de 60, como exemplo, aqui deixamos alguns títulos que melhor ilustram a permanência de um género de tradições nobres nos E.U.A: “Conversa de Travesseiro” (Michel Gordon), “Ela e os seus Maridos” (J. lee Thompson), “Uma Americana em Paris” (Robert Parrish), “O Mundo Maluco” (Stanley Krarner), “Vêm aí os Russos!” (Norman Jewison), “As Noivas do Papá” ou “Quando Ele era Ela” (Vincente Minnelli), etc.
Mas os anos de 60, para além de meia dúzia de revelações, rodam-se sob os auspícios de Billy Wilder (“Quanto Mais Quente, Melhor”, “Beija-me Idiota”, “O Apartamento”, “Irma, La Douce”, “Como Ganhar um Milhão”, “A Vida Intima de Sherlock Holmes”, “Amor à Italiana” ou “A Primeira 'Página”); Richard Quine (“Sortilégio de Amor”, “Quando Paris Delira”, “A Ingénua e o Atrevido”, “Como Matar sua Mulher”); Blake Edwards (“A Pantera Cor-de-Rosa”, “Um tiro às Escuras”, “A Grande Corrida à Volta do-Mundo”, “What Did Vou Do in the War Daddy?” ou “A Festa”) e Jerry Lewis. Sobretudo Jerry Lewis. Retomando a tradição dos grandes criadores (Chaplin, Keaton, Marx, Lloyd, etc.), Jerry Lewis foi por essa altura o único a poder ombrear com o nome dos seus geniais predecessores. Posteriormente haveria que ter em conta um autor/actor como Woody Allen (“O Inimigo Público”, “Bananas”, “O Grande Conquistador”. “O ABC do Amor”, “O Herói do Ano 2.000” e tantos outros filmes que alternam a comédia e o drama, por vezes num registo de belíssimo humor da melhor tradição judaica da língua yiddish), ou um cineasta também actor (e também judeu) como Mel Brooks (“O Falhado Amoroso”, “Balbúrdia no Oeste” ou “Frankenstein Júnior”). A verdade é que Jerry Lewis, Woody Allen e Mel Brooks asseguraram um lugar insubstituível ao "humor judeu" norte-americano.
Depois do riso demolidor dos irmãos Marx, depois da turbulência exaustiva de Bucha e Estica, depois do trágico lirismo de um Chaplin ou Keaton, Jerry Lewis, sobretudo a partir de 1960 (data da sua primeira realização, “Jerry no Grande Hotel”), aparece-nos como o mais directo continuador desses cómicos geniais.
A carreira de Jerry Lewis pode dividir-se cronologicamente em três períodos de características definidas, denunciando um esforço contínuo e sistemático de renovação e superação, de amadurecimento de linguagem e enriquecimento de processos.
Quando, em 1949, Hal Wallis contrata a dupla Jerry Lewis-Dean Martin, oferecendo-lhe uma carreira na Paramount, ele pensava sobretudo em arranjar substitutos para uma outra dupla que caía progressivamente em descrédito (Abbott e Costello). Durante alguns anos, grande parte do público e a maioria da crítica teimou em ver neles sucessores menores do burlesco. Jerry Lewis, embora colocado nos “top ten” dos filmes do ano (no que se refere a receitas, logo a adesão de público), era crismado de "palhaço", mero fazedor de "caretas" gratuitas, cómico de segundo plano. Raros foram os eleitos que, para lá do aparente desinteresse de certos filmes (devido à banalidade de alguns argumentos e à mediocridade da realização de quase todos), vislumbraram uma personalidade própria, um cómico de características seguras, um actor que, de obra para obra, aperfeiçoava o seu jogo, dominava os fabulosos recursos histriónicos e gestuais, impondo uma figura e, por detrás dela, uma personalidade.
Nesta primeira época, que vai até 1956, Jerry Lewis (sempre acompanhado por Dean Martin) interpretou dezasseis títulos que, de um modo geral, parodiaram, de forma irregular e resultados variáveis, algumas instituições americanas e diversos "géneros" da cinematografia daquele país. Ele havia passado pelas forças armadas, satirizando o exército ("Recrutas... Sentido"), a marinha ("Marujo, o Conquistador"), a aviação, melhor dizendo, os paraquedistas ("Os Heróis do Medo"), e também as experiências atómicas e o sensacionalismo dos mass media ("O Rapaz Atómico"), o golf ("O Grande Jogador"), as corridas de cavalos ("Dinheiro em Caixa"), o filme de terror ("O Castelo do Terror"), o western ("O Rei do Laço"), o circo ("O Rei do Circo"), o show business ("O Estoira Vergas"), os comics, o filme de gangsters e o "musical" ("Pintores e Raparigas"), Hollywood e o star system ("Um Espada para Hollywood), etc.
À mediocridade de alguns destes filmes, opõe-se a riqueza de imaginação, a vertiginosa sucessão de gags, a fulgurante acutilância crítica de um Frank Tashlin (autor de "Pintores e Raparigas" e "Um Espada para Hollywood"), cuja colaboração com Jerry Lewis parece ter sido profundamente influente na futura carreira do actor. Somente, e por instantes, Norman Taurog se lhe assemelha, nalgumas sequências de "Os Estoiras Vergas", "O Rapaz Atómico" ou "Barbeiro e Professor". Muito, porém, do que de melhor vários destes filmes da primeira fase de Jerry Lewis comportam é-lhe ainda devido, dado que, sob diversos pseudónimos, é o actor quem interfere ao nível da criação de gags e seu desenvolvimento. Com a ruptura verificada em 1956 entre Jerry Lewis e Dean Martin (ruptura essa que é consequência em grande parte, de ciúmes deste último, em virtude do êxito popular do sócio, que lhe ensombrava a imagem), o primeiro torna-se o seu próprio produtor, rodando sob a direcção de Tashlin (de alguma forma, a partir daqui, seu "mestre espiritual"), várias obras de que é protagonista isolado: "Jerry, Ama-seca", "Jerry no Japão", "Cinderelo dos Pés Grandes", "Dinheiro e só Dinheiro", "Um Namorado com Sorte", "Jerry, Enfermeiro sem Diploma", entremeadas com outras que não se lhes comparam em importância e significado. Os contornos da figura de Jerry Lewis vão-se definindo, ganhando contextura, multiplicando-se já em heterónimos, partes de um mesmo todo que o actor pulveriza em direcções diversas. Entre a grande ingenuidade e o profundo pânico perante a realidade que o cerca e a que se não consegue adaptar facilmente, entre a pesada herança do matriarcado e o pavor do sexo oposto, entre o culto abnegado da amizade, que o conduz a situações de excessiva boa vontade (que contra ele próprio se voltam), e a crueldade da humilhação física e moral a que constantemente o sujeitam, entre a inconsciência do perigo e a solidão desesperante, Jerry vai progressivamente desenhando uma personagem que, em traços excessivos é certo, mas de rara lucidez, nos devolve a fisionomia do americano médio, povoado de temores e frustrações, aterrorizado (e fascinado) pelo envolvimento mecânico, pela agressividade do comportamento, pelos traumas colectivos. Um dia, o crítico Robert Benayoun chamou-lhe um "anti-James Dean" e com alguma razão, dado que a figura de "desadaptado" em relação à realidade social norte-americana se expressa a um nível de total desromantização, de ruptura risível. Produto de uma sociedade industrializada até à medula, competitiva ao desregramento, ele é o retrato robot desse descontrolamento geral, que em termos sociológicos se poderá chamar "alienação". Uma personagem em busca de uma identidade, de um equilíbrio impossível, eis Jerry Lewis.

A partir de 1960, à dupla responsabilidade de actor-produtor, alia a de realizador e argumentista creditado. O cómico atingiu a estatura de "autor total" e assume-se por inteiro. "Jerry no Grande Hotel" assinala a estreia e, daí em diante, dez títulos impõem-no como uma das grandes certezas não só da comédia americana, como da cinematografia moderna. Em 1963, com "As Noites Loucas do Dr. Jerryll" (que será possivelmente uma das suas obras mais perfeitas), adapta "O Médico e o Monstro", de Robert L. Stevenson e, a partir dessa base, critica asperamente uma América onde o "intelectual é vexado e ridicularizado e cujo génio é motivo para gracejos perpétuos (Julius Kelp) e onde o monstro da agressiva vulgaridade (Buddy Love) é preferido e louvado" (Benayoun dixit). 

domingo, 21 de fevereiro de 2016

SESSÃO 4 - 23 DE FEVEREIRO DE 2016


UM ESPADA PARA HOLLYWOOD (1956)

Antes da sua actividade a solo, como actor, argumentista, por vezes produtor, quase sempre realizador, Jerry Lewis teve um período durante o qual dividiu o protagonismo com Dean Martin, constituindo-se assim numa dupla que teve grande sucesso. A dupla surge em 1949, em “A Minha Amiga Irma” (My Friend Irma), de George Marshall, e dura 17 títulos e sete anos, precisamente até 1956, quando rodam “Hollywood or Bust”, tendo depois cada um dos actores seguido carreiras a solo bem-sucedidas. Dean Martin era o romântico sedutor que cantava melodias seguramente bem xaroposas e Jerry Lewis era invariavelmente o desajeitado bem-intencionado que punha tudo de pantanas com a sua inabilidade. A dupla funcionava com a complementaridade habitual destes casos (Bucha e Estica, Abbott e Costelo, etc.) e lançou filmes quase sempre de riso seguro, mas nem sempre de qualidade cinematográfica inabalável. Por vezes alguns cineastas mais hábeis conseguiam unir o útil ao agradável e geraram-se então obras muito interessantes. Norman Panama ou Frank Tashlin estão neste caso, sobretudo este último, que dirige exactamente “Um Espada Para Hollywood”.


Esta é a história de Malcolm Smith, um cinéfilo fanático que sonha com Anita Ekberg, uma das vamps mais em voga no cinema internacional (que o diga a sua participação em “Fellini 8 ½”, quatro anos depois). Esta é igualmente a história de Steve Wiley, um pequeno burlão a contas com uma dívida de 3000 dólares contraída junto de um mafioso violento. Um e outro encontram-se na plateia de um teatro de Nova Iorque onde se sorteia um daqueles carros americanos a que se chamava “espada”. Malcolm Smith comprou quase todas as rifas, porque quer ir a Hollywood encontrar-se com a sua actriz preferida. Steve Wiley falsificou todas as rifas, duplicando-as, por forma a antecipar-se a todos os concorrentes, ganhar o carro e fugir para a costa oeste. Surgem assim dois vencedores, uma mesma viagem repartida, um a cantar canções delicodoces, o outro a protagonizar as maiores trapalhadas sempre com a melhor das boas vontades e um tique muito especial para acertar na máquina do jackpot. A viagem de uma costa à outra dos EUA é um desfile de Estados, usos e costumes, paisagens e pin ups indescritíveis, com acidentes e peripécias ilimitadas (desde a velhinha assaltante até ao touro que Jerry toma por vaca leiteira), criando uma sucessão de gags bastante bem explorados pela câmara de Tashlin. Kitsch? Sim, e de que maneira! Mas em muitos dos casos um kitsch assumido e crítico, noutros uma poeira dos tempos que também merece ser apreciada. O genérico é desde logo delicioso e a apresentação de Dean Martin dos cinéfilos das diferentes latitudes do mundo uma obra-prima, onde Jerry Lewis se multiplica em personagens magníficas. Só esse início merece o bilhete. Mas o resto situa-se a muito bom nível e antecipa o grande Jerry que viria a seguir.


UM ESPADA PARA HOLLYWOOD
Título original: Hollywood or Bust
Realização: Frank Tashlin (EUA, 1956); Argumento: Erna Lazarus, Frank Tashlin; Produção: Paul Nathan, Hal B. Wallis; Música: Walter Scharf; Fotografia (cor): Daniel L. Fapp; Montagem: Howard A. Smith; Direcção artística: Henry Bumstead, Hal Pereira; Decoração: Fay Babcock, Sam Comer; Guarda-roupa: Edith Head; Maquilhagem: Wally Westmore; Assistentes de realização: James A. Rosenberger, William Watson, Charles C. Coleman, Gary Nelson; Som: Gene Garvin, Hugo Grenzbac; Efeitos visuais: Farciot Edouart, John P. Fulton; Companhias de produção: Paramount Pictures; Intérpretes: Dean Martin (Steve Wiley), Jerry Lewis (Malcolm Smith), Pat Crowley (Terry Roberts), Max 'Slapsie Maxie' Rosenbloom (Bookie Benny), Anita Ekberg (Anita), Valerie Allen, Leon Alton, Adelle August, Nick Borgani, Paul Bradley, Catherine Brousset, Drew Cahill, Kathryn Card, Paul Cristo, Jack Deery, Jack Delrio, Beach Dickerson, Alphonso DuBois, Minta Durfee, Dominic Fidelibus, Rudy Germane, Joe Gray, Sam Harris, Frank Wilcox, etc. Duração: 95 minutos; Distribuição em Portugal (DVD): Feel Films; Classificação etária: M/ 12 anos.

FRANK TASHLIN 
(1913-1972)
Frank Tashlin, cujo nome de baptismo era Francis Fredrick von Taschlein, nasceu a 19 de Fevereiro de 1913 em Weehawken, New Jersey, EUA, e morreu a 5 de Maio de 1972, em Los Angeles, Califórnia, EUA. Iniciou a sua carreira, nos anos 30 do século XX, como desenhador sob o comando de Paul Terry, na série de animação “Aesop's Film Fables”, passando depois pelo produtor Amadee J. Van Beuren, e pelos estúdios da Warner Bros. Em 1934 cria uma série, “Van Boring”, que ficou a dever muito ao seu anterior mestre Van Beuren. Continua nos estúdios de Ub Iwerks, depois é contratado por Hal Roach como argumentista e criador de gags. Em 1938, vamos encontrá-lo já a trabalhar para Walt Disney, ainda como argumentista, saltando para a Columbia Pictures em 1941, acumulando funções de produção. Mas a animação não o abandona e, em 1943, volta à Warner, onde desenvolve avultado trabalho. São deste tempo, durante a II Guerra Mundial, os cartoons do soldado Snafu. Abandona a animação e dedica-se sobretudo à tarefa de gagman para os Marx Brothers e Lucille Ball ou de escritor de argumento para filmes de Bob Hope ou Red Skelton. Depois de dezenas de curtas-metragens, estreia-se na realização de filmes de fundo, em 1951, com “O Vigarista” (The Lemon Drop Kid), com Bob Hope, mas não aparece creditado no genérico (a realização surge assinada por Sidney Lanfield). A sua primeira longa-metragem é por isso “The First Time”, do ano seguinte. Autor dedicado sobretudo ao humor, para onde importa muito da sua experiência como criador de animação e gagman, Tashlin assina um belo conjunto de comédias como “The Girl Can't Help It”, “Artists and Models”, “Hollywood or Bust”, “Will Success Spoil Rock Hunter?”, “Rock-A-Bye Baby”, “The Geisha Boy”, “Cinderfella”, “It's Only Money”, “Who's Minding the Store?” ou "The Disorderly Orderly". Muitos destes títulos marcam a carreira de Jerry Lewis a solo, sendo que Tashlin é um dos seus mestres incontestáveis. Ainda dirigiu alguns outros filmes interessantes, mas a sua carreira decaiu a partir de meados da década 60. “The Man from the Diners' Club”, com Danny Kaye, "The Alphabet Murders” ou "The Glass Bottom Boat" são títulos ainda a registar.

Principais filmes:

Como realizador inicia-se, entre 1933 e 1947, com dezenas de curtas-metragens de animação e algumas em imagem real. Em 1951, estreia-se na longa-metragem com “The Lemon Drop Kid”, mas o seu nome desaparece do genérico. “The First Time” é o seu primeiro filme de fundo, a que se segue “Son of Paleface” (O Filho do Valentão), ambos de 1952. Outros títulos importantes: 1954: Susan Slept Here (As Três Noites de Susana); 1955: Artists and Models (Artistas e Raparigas); 1956: The Lieutenant Wore Skirts (O Tenente Usava Saias); The Girl Can’t Help It (Uma Rapariga com Sorte); Hollywood or Bust (Um Espada para Hollywood); 1957: Will Success Spoil Rock Hunter? (A Loira Explosiva); 1958: Rock-a-Bye Baby (Jerry Ama-Seca); The Geisha Boy (Jerry no Japão); 1959: Say One for Me (O Céu por Testemunha); 1960: Cinderfella (Cinderelo dos Pés Grandes); 1961: Snow White and the Three Stooges (Branca de Neve e os três Estarolas (não creditado); 1963: Who’s Minding the Store? (Um Namorado com Sorte); The Man from the Diners' Club (O Homem do Diners' Club); 1964: The Disorder Orderly (Jerry, Enfermeiro sem Diploma); 1965: The Alphabet Murders (O Alfabeto do Crime); 1966: The Glass Bottom Boat (Espia em Calcinhas de Renda); 1967: Caprice (Um Perigo Chamado Capricho).