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domingo, 1 de maio de 2016

SESSÃO 14 - 3 DE MAIO DE 2016



GANGSTERS FALHADOS (1958)

Alexandre Marius Jacob, conhecido apenas por Marius Jacob (1879 –1954) foi um célebre francês, ladrão de inspiração anarquista, que parece ter estado na origem da criação de Maurice Leblanc para a sua personagem Arsène Lupin. Marius Jacob é uma lenda no campo da criminalidade francesa. Ardiloso, inteligente, roubando aos ricos para dar aos pobres, estribando-se em conceitos políticos para as suas façanhas, mantinha um humor e irreverência inegáveis. Conta-se que um dia assaltou uma casa e descobriu que esta era pertença do escritor Pierre Loti. Marius Jacob voltou a colocar tudo nos seus lugares e deixou uma nota: “Assaltei por engano a sua casa. Um escritor que vive da sua escrita merece um salário.” Assinava Attila. E deixava um PS: “junto 10 francos para substituir o vidro partido”. Foi muito comentado um assalto seu a uma ourivesaria, utilizando a técnica do chapéu-de-chuva. Julga-se que terá sido esta personagem a estar na base de um filme de Jules Dassin, de 1955, “Du rififi chez les hommes”, um clássico dos “filmes de roubo”, que por sua vez terá servido de pretexto para, entre muitas outras obras, a excelente paródia que Mario Monicelli realizou em 1958, “Gangsters Falhados” (I Soliti Ignoti).
O filme reúne um conjunto de magníficos actores que se juntam enquanto personagens que alimentam a esperança de praticar um grande roubo num banco, ou numa loja de penhores onde existe um apetecível cofre-forte carregado de jóias. São arraia-miúda do submundo do crime. Tudo começa pelo roubo frustrado de um carro. Apanhado pela polícia, o malogrado assaltante quer servir-se de um embuste para sair da prisão e dar o grande golpe. Para isso precisa de uma “ovelha”, designação dada a quem estiver pelos ajustes de, contra uma boa indemnização, se apresentar às autoridades como autor do assalto, libertando o verdadeiro culpado. A procura do tipo certo para este “negócio” é desde logo um dos grandes momentos do filme. Num bairro suburbano de Roma, perguntam a um grupo de miúdos se conhecem o Mário. “Aqui há centenas de Mários!” responde um dos inquiridos. “Mas este é ladrão”, acrescenta quem procura. “Continua a haver centenas”, conclui o jovem que continua a jogar à bola.
Depois de várias peripécias, organiza-se um gang de pequenos escroques. Peppe (Vittorio Gassman) é um pugilista manhoso, que aceita o papel de “ovelha” para sacar a Cosimo (Memmo Carotenuto) as informações sobre o golpe que está a preparar. Tiberio (Marcello Mastroianni) é um fotógrafo sem máquina, que empenhou, que tem a mulher presa por contrabando de cigarros (parece a dupla de “Ontem, Hoje e Amanhã”, que surgirá pouco anos depois) e vive com um bebé ao colo. Mario Angeletti (Renato Salvatori) não tem eira nem beira e catrapisca a irmã do siciliano Ferribotte (Tiberio Murgia), que vela pela castidade de Carmelina (Claudia Cardinale) com denodado rigor. Entre outros mais, surge ainda Dante Cruciani (Totò), especialista em arrombar cofres. Um verdadeiro artista de prestígio assegurado que “nunca se encontra no local do crime quando este acontece”.
Para se entrar no andar do banco, é necessário antes uma penosa peregrinação por telhados e terraços e aturados estudos à distância. Depois, urge perfurar uma parede e tudo se julga sob controlo, mas pode sempre surgir o imprevisto. É o caso, que não se revela para não se perder o inesperado.
"Gangsters Falhados" é uma das mais conseguidas obras de Mario Monicelli e uma das mais características comédias italianas dos anos 50. Com uma sólida base de análise social, partindo de um inteligente e hábil argumento, cozinhado a várias mãos (Agenore Incrocci, Furio Scarpelli, Suso Cecchi D'Amico e do próprio Mario Monicelli, ao que consta partindo de um conto de Italo Calvino, "Furto in una pasticceria", o que não aparece creditado no genérico), “I Soliti Ignoti” é um retrato de uma sociedade saída da guerra e de uma traumatizante passagem pelos conturbados tempos do fascismo italiano. A Itália percorria já o que para alguns era o período dourado do “milagre económico” que deixava, todavia, na miséria largas fatias da população que se entregava à prática da pequena delinquência e a uma economia paralela, procurando assim sobreviver à exclusão social. Os ambientes humanos e os cenários urbanos do filme mostram isso mesmo e a tonalidade humorística não exclui a crítica (muito pelo contrário, acentua-a). A estrutura narrativa está solidamente implantada, Monicelli tem o dom de desenvolver sabiamente os apontamentos satíricos e o desenho das personagens, algumas inesquecíveis, representadas por um elenco onde sobressaem os nomes de Vittorio Gassman, Renato Salvatori, Marcello Mastroianni, Claudia Cardinale, Memmo Carotenuto, Carla Gravina, Tiberio Murgia, Carlo Pisacane, além de Totó, um dos maiores e dos mais originais actores de sempre no campo da comédia.  



GANGSTERS FALHADOS
Título original: I soliti ignoti
Realização: Mario Monicelli (Itália, 1958); Argumento: Agenore Incrocci, Furio Scarpelli, Suso Cecchi D'Amico, Mario Monicelli, drgundo conto de Italo Calvino ("Furto in una pasticceria"); Produção: Franco Cristaldi; Música: Piero Umiliani; Fotografia (p/b): Gianni Di Venanzo; Montagem: Adriana Novelli; Design de produção: Piero Gherardi; Decoração: Vito Anzalone; Guarda-roupa: Piero Gherardi; Maquilhagem: Romolo de Martino; Direcção de Produção: Gino Millozza, Nicolò Pomilia; Assistente de realização: Mario Maffei; Departamento de arte: Italo Tomassi; Som: Oscar Di Santo, Luigi Puri; Companhias de produção:Cinecittà (Stabilimenti Cinematografici, Lux Film, Vides Cinematografica; Intérpretes: Vittorio Gassman (Peppe il pantera), Renato Salvatori (Mario Angeletti), Memmo Carotenuto (Cosimo), Rossana Rory (Norma), Carla Gravina (Nicoletta), Marcello Mastroianni (Tiberio), Totò (Dante Cruciani), Tiberio Murgia (Michele, dito o Ferribotte), Claudia Cardinale (Carmelina), Gina Rovere (Teresa), Gina Amendola (Mario), Elvira Tonelli (Assunta), Elena Fabrizi (Signora Ada), Pasquale Misiano (Massimo), Renato Terra (Eladio), Aldo Trifiletti (Fernando), Nino Marchetti (Luigi), Mario De Simon, Edith Bruck, Franco Carli, Mario Feliciani, Ida Masetti, Mimmo Poli, Lisa Romey, Amerigo Santarelli, Gustavo Serena, Roberto Spiombi, etc. Duração: 106 minutos; Distribuição em Portugal: Cristald Filmes; Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 13 de Novembro de 1959.  


A COMÉDIA À ITALIANA
Terá sido Mario Monicelli, um dos nomes mais representativos da comédia à italiana, quem a definiu nestes termos: “trata em termos cómicos, divertidos, irónicos, humorísticos argumentos que são muitas vezes dramáticos. É isso que distingue a comédia à italiana de todas as outras comédias”. Surgida no prolongamento do neorrealismo, os seus títulos mais significativos aparecem entre meados dos anos 50 e finais da década de 70 do século passado. Muito revelador é o facto de esta comédia surgir algum tempo depois de terminada a II Guerra Mundial, depois da Itália começar a ultrapassar o desastre económico, político e social que a guerra provocara no seu tecido, numa altura em que o plano Marshall começava a dar alguns resultados, em que o boom económico explodia, em que a burguesia nacional de reorganiza, bem assim como as forças mais conservadoras. Tudo isso acarretou consequências diversas, umas positivas, outras negativas. Entre estas manifestou-se uma corrupção galopante, o surgimento de uma burguesia endinheirada de novos-ricos, uma desigualdade social mais radicalizada, uma progressiva descredibilização dos valores e uma ofensiva valorização do dinheiro dominando tudo e todos. As instituições políticas, religiosas, jurídicas (e tantas outras) são asperamente criticadas. Simultaneamente, ao lado do dinheiro que tudo compra, surge um hedonismo patológico, onde o sexo ocupa destacado lugar.
Tendo como base estes temas, a comédia italiana exprime-se em dois tempos e dois níveis. Uma, mais amável e menos empenhada, é vista como um “neorrealismo rosa”. Outra, intelectualmente mais incisiva e culturalmente interventiva, revela um importante conjunto de cineastas como Dino Risi, Pietro Germi, Mario Monicelli, Luigi Comencini, Vittorio De Sica, Ettore Scola, Steno, Pasquale Festa Campanile, Antonio Pietrangeli, Lina Wertmüller, Luigi Zampa, Luigi Magni, Nanni Loy, Camillo Mastrocinque, Luciano Salce, Sergio Corbucci e alguns argumentistas de muito bom nível, basta citar Steno, Age e Scarpelli, Rodolfo Sonego, Sergio Amidei, Piero De Bernardi, Leo Benvenuti, Ettore Scola ou Suso Cecchi D'Amico.
Cronologicamente, poderemos referir algumas obras essenciais, deixando muitas outras de fora, dado que o período foi extremamente fértil: “Guardie e ladri”, 1951, de Mario Monicelli e Steno; “I soliti ignoti”, 1958, de Mario Monicelli; “La grande guerra”, 1959, de Mario Monicelli; “Il vedovo”, 1959, de Dino Risi; “Tutti a casa”, 1960, de Luigi Comencini; “Il mattatore”, 1960, de Dino Risi; “Divorzio all'italiana”, 1961, de Pietro Germi; “Una vita difficile”, 1961, de Dino Risi; “L'onorata società”, 1961, de Riccardo Pazzaglia; “A cavallo della tigre”, 1961, de Luigi Comencini; “I due marescialli”, 1961, de Sergio Corbucci; “Il sorpasso”, 1962, de Dino Risi; “Ieri, oggi, domani”, 1963, de Vittorio De Sica; “Il boom”, 1963, de Vittorio De Sica; “I compagni”, 1963, de Mario Monicelli; “Una storia moderna: l'ape regina”, 1963, de Marco Ferreri; “I mostri”, 1963, de Dino Risi; “Sedotta e abbandonata”, 1964, de Pietro Germi; “La donna scimmia”, 1964, de Marco Ferreri; “Matrimonio all'italiana”, 1964, de Vittorio De Sica; “Signore & signori”, 1965, de Pietro Germi; “L'armata Brancaleone”, 1966, de Mario Monicelli; “La ragazza con la pistola”, 1968, de Mario Monicelli; “Il medico della mutua”, 1968, de Luigi Zampa; “Riusciranno i nostri eroi a ritrovare l'amico misteriosamente scomparso in Africa?”, 1968, de Ettore Scola; “Il commissario Pepe”, 1969, de Ettore Scola; “Nell'anno del Signore”, 1969, de Luigi Magni; “Dramma della gelosia - Tutti i particolari in cronaca”, 1970, de Ettore Scola; “Brancaleone alle crociate”, 1970, de Mario Monicelli; “In nome del popolo italiano”, 1971, de Dino Risi; “Mimì metallurgico ferito nell'onore”, 1972, de Lina Wertmüller; “Detenuto in attesa de giudizio”, 1972, de Nanni Loy; “Alfredo Alfredo”, 1972, de Pietro Germi; “Lo scopone scientifico”, 1972 de Luigi Comencini; “Vogliamo i colonnelli”, 1973, de Mario Monicelli; “Pane e cioccolata”, 1973, de Franco Brusati; “Film d'amore e d'anarchia”, 1973, de Lina Wertmüller; “Travolti da un insolito destino nell'azzurro mare d'agosto”, 1974 de Lina Wertmüller; “C'eravamo tanto amati”, 1974, de Ettore Scola; “Profumo de donna”, 1974, de Dino Risi; “Romanzo popolare”, 1974, de Mario Monicelli; “Finché c'è guerra c'è speranza”, 1974, de Alberto Sordi; “La poliziotta”, 1974, de Steno; “Amici miei”, 1975, de Mario Monicelli; “La mazurka del barone, della santa e del fico fiorone”, 1975, de Pupi Avati; “Pasqualino Settebellezze”, 1975, de Lina Wertmüller; “Signore e signori, buonanotte”, 1976, de Luigi Comencini, Nanni Loy, Luigi Magni, Mario Monicelli, Ettore Scola; “Brutti, sporchi e cattivi”, 1976, de Ettore Scola; “Una giornata particolare”, 1977, de Ettore Scola; “La stanza del vescovo”, 1977, de Dino Risi; “I nuovi mostri”, 1977, de Mario Monicelli, Dino Risi, Ettore Scola; “Il gatto”, 1977, de Luigi Comencini; “In nome del Papa Re”, 1977, de Luigi Magni; “La terrazza”, 1980, de Ettore Scola; “Amici miei atto II”, 1982, de Mario Monicelli.

Falando dos actores, a Itália tem um rei de prestígio inabalável, no campo do cinema, que vem dos anos 30 e prolonga a sua glória até finais da década de 60: Totó. O seu percurso faz-se um pouco à margem de todas as correntes, é um caminho individual que, todavia, se cruza obviamente com a comédia italiana. Mas, no período restrito a que corresponde à idade de ouro da comédia italiana, muitos grandes actores se notabilizaram, uns mais precisamente no campo do humor, outros incorporando essa faceta em filmografias muito mais abrangentes, indo do drama à comédia. São eles, no primeiro caso, Alberto Sordi, Ugo Tognazzi, Vittorio Gassman, Marcello Mastroianni, Nino Manfredi, Sylvia Koscina, Laura Antonelli, Agostina Belli, Renato Salvatori, Mario Carotenuto, Memmo Carotenuto, Tina Pica, Marisa Merlini, Leopoldo Trieste, Franco Franchi e Ciccio Ingrassia, ao lado de, no segundo caso, Sophia Loren, Gina Lollobrigida, Claudia Cardinale, Silvana Mangano, Monica Vitti, Vittorio De Sica, Gino Cervi, Gian Maria Volontè, Enrico Maria Salerno, Salvo Randone, Walter Chiari, Franca Valeri, Stefania Sandrelli, Gastone Moschin, Carla Gravina, Adolfo Celi, Giancarlo Giannini, Michele Placido, Stefano Satta Flores, Mariangela Melato, e tantos outros. De resto, mesmo depois dos anos 60, surgiram novos actores, muitos deles de recursos mais limitados, que mantiveram a comédia entre os sucessos populares do cinema italiano. Alguns exemplos: Paolo Villaggio, Gigi Proietti, Lino Banfi, Renzo Montagnani, Gianfranco D'Angelo, Edwige Fenech, Gloria Guida, Alvaro Vitali, Bombolo ou Enzo Cannavale, sobretudo no campo da comédia erótica. Mas uma nova geração de cineastas renovou o campo da comédia nos últimos tempos, com excelentes resultados, casos de Nanni Moretti, Roberto Benigni, Carlo Verdone, Massimo Troisi, Francesco Nuti, Maurizio Nichetti, Alessandro Benvenuti, Gabriele Salvatores, Paolo Virzì, Francesca Archibugi, Daniele Luchetti e Silvio Soldini, ou ainda Leonardo Pieraccioni, Vincenzo Salemme e Giovanni Veronesi. Em Portugal pouco cinema italiano recente se vê. 

SESSÃO 13 - 26 DE ABRIL DE 2016


POLÍCIAS E LADRÕES (1951)

“Guardie e Ladri” data de 1951 e surge assinado por Mario Monicelli e Steno, uma dupla de realizadores muito representativa da chamada comédia italiana, sobretudo no seu lado mais popular, o que fica bem demonstrado nesta obra interpretada de forma magistral por Totò e Aldo Fabrizi. Será de sublinhar que nesta época, inícios da década de 50, o neorrealismo tinha ainda uma forte presença em Itália e que, apesar do seu registo em tons de comédia, esta é obviamente uma obra que se apresenta como legítima herdeira desse movimento estético que teve no cinema um importante desenvolvimento.
Esta é a história de dois pobres diabos, dois tipos populares, representando cada um lados opostos da lei. Ferdinando Esposito (Totò) é um vigarista de pequeno calibre que sobrevive, ele e a família, de expedientes diversos, mas quase todos à margem da lei. Vamos encontrá-lo, juntamente com o seu cúmplice, Amilcare (Aldo Giuffrè), nas ruínas do Coliseu de Roma, “descobrindo” uma moeda antiga e enganando um turista americano, um tal Mr. Locuzzo, que é igualmente o presidente de uma comissão de caridade americana, o que irá dar origem a um desaconselhável reencontro quando Esposito se candidata, juntamente com um conjunto de “filhos” de ocasião, à ajuda americana. Mr. Locuzzo reconhece o aldrabão, denuncia-o às autoridades, e inicia-se então uma inusitada perseguição, com o anafado agente da polícia Lorenzo Bottoni (Aldo Fabrizi) a correr atrás do burlão. A caçada parece nunca mais acabar, mas o fôlego dos corredores sim, o que permite um momento de pausa e reflexão conjunta.
Finalmente, Bottoni acaba por dar voz de prisão ao delinquente, mas este escapa, o polícia é castigado e suspenso das suas funções, arriscando-se a perder o emprego. À paisana, sem farda nem arma, Bottoni jura encontrar o fugidio Esposito. Vai a casa deste, conhece a família, sem se dar a conhecer, e a partir daí a empatia entre todos é evidente. Afinal, polícia e ladrão são resultado de um mesmo povo, de uma mesma sociedade, de mesmas questões sociais.


Apesar de colocados de lados opostos de uma realidade social, Esposito e Bottoni são dois exemplos muito semelhantes saídos de uma certa sociedade. Ambos sobrevivem miseravelmente, um servindo a ordem estabelecida, o outro procurando subvertê-la no dia-a-dia. Nenhum deles tem consciência política, ambos funcionam pelo pragmatismo das situações. Ambos irão perceber que existe muito mais a uni-los do que aquilo que os separa. Uma solidariedade possível vai estabelecer-se entre os dois (e as famílias de ambos), sem que, todavia, a estrutura da sociedade seja posta em causa. Esposito e Bottoni são já amigos, mas um irá prender o outro e enviá-lo para a cadeia e quando Esposito pressente o drama e a dúvida no rosto do polícia será ele o primeiro a decidir entregar-se. Ambos aceitam a ordem estabelecida. “Guardie e Ladri” mostra a realidade, não procura apontar caminhos. 
Este título da filmografia conjunta de Steno e Monicelli esteve a concurso da quinta edição do Festival de Cannes, onde ganhou o prémio para Melhor Argumento, sendo ainda distinguido Totò pela sua interpretação. Em 1952, Totò, pela sua actuação nesta obra, recebeu igualmente o Prémio de Melhor Actor, atribuído pelo Sindicato dos Críticos de Cinema Italianos. Um actor que até aí não era visto com grande interesse pelos intelectuais italianos ganhava as suas credenciais.
Curiosamente este filme era para ser dirigido por Luigi Zampa, que declinou o projecto por o julgar demasiado arriscado em termos de censura (nessa versão Peppino De Filippo seria o polícia e Anna Magnani a sua mulher). Zampa já tinha tido alguns problemas com filmes anteriores, e não queria voltar a envolver-se com os censores. Tinha razão, dado que a versão final de “Polícias e Ladrões” iria desencadear reacções violentas por parte das autoridades que não viam com bons olhos esta familiaridade de um polícia e um ladrão. Quase durante um ano, o filme lutou com a censura até obter ordem de soltura. Foi um sucesso imediato junto do público italiano. O que confere justiça à realização discreta mas eficaz, ao excelente argumento e à magnífica interpretação dos dois protagonistas, que erguem personagens de uma densidade humana indesmentível.
Finalmente, conte-se uma curiosidade ligada à rodagem: durante a perseguição de Fabrizi a Totò, pelas ruas da cidade, quando o polícia grita “Ladrão! Prendam-no!”, dois agentes da autoridade autêntico, tomaram o grito por verdadeiro e resolveram pegar nas armas e atirar para o ar, para intimidar o ladrão. Morto de medo, Totò pára, esperando que a situação se esclareça. Tudo acabou, rezam as crónicas, com autógrafos de Fabrizi e Totò para os “vero carabinieri”.


POLÍCIAS E LADRÕES
Título original: Guardie e ladri
Realização: Mario Monicelli e Steno (Itália, 1951); Argumento: Vitaliano Brancati, Aldo Fabrizi, Ennio Flaiano, Ruggero Maccari, Mario Monicell, Steno, Piero Tellini; Produção: Dino De Laurentiis, Carlo Ponti; Música: Alessandro Cicognini; Fotografia (p/b): Mario Bava; Montagem: Franco Fraticelli, Adriana Novelli; Design de produção: Flavio Mogherini; Decoração: Flavio Mogherini; Direcção de Produção:Nicolò Pomilia, Bruno Todini; Assistentes de realização: Rudy Bauer, Mario Mariani; Som: Aldo Calpini, Biagio Fiorelli; Companhias de produção: De Laurentiis, Golden Film, Lux Film, Ponti; Intérpretes: Aldo Fabrizi (Lorenzo Bottoni), Totò (Ferdinando Esposito), Ave Ninchi (Giovanna Bottoni), Pina (Donata Esposito), William Tubbs (Mr. Locuzzo, o turista), Rossana Podestà (Liliana Bottoni), Gino Leurini (Alfredo), Aldo Giuffrè (Amilcare), Carlo Delle Piane (Libero Esposito), Ernesto Almirante, Paolo Modugno, Pietro Carloni, Mario Castellani, Armando Guarnieri, Ciro Berardi, Giulio Calì, Gino Scotti, Luciano Bonanni, Rocco D'Assunta, Aldo Alimonti, Riccardo Antolini, Alida Cappellini, Ettore Jannetti, etc. Duração: 105 minutos; Distribuição em Portugal: Estevez Seven; Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 21 de Novembro de 1952.


TOTÒ ou ANTONIO DE CURTIS (1898-1967)
Totò é considerado unanimemente o maior actor cómico italiano e, seguramente, um dos maiores a nível mundial. Nascido a 15 de Fevereiro de 1898, em Nápoles, Itália, Antonio Clemente era filho de Anna Clemente e de pai desconhecido. Mas, segundo o próprio actor, e mais tarde reconhecido legalmente, o seu pai foi Giuseppe De Curtis, filho do importante marquês De Curtis, que, todavia, se terá sempre oposto aos amores do filho com a bela, mas muito popular Anna, impedindo o casamento.
Exuberante e pouco dado aos estudos, Antonio Clemente cedo deixou a escola, passou por vários empregos até se aproximar do teatro, sua grande paixão. Terá sido ainda muito jovem que, numa mais acalorada luta com alguém da sua idade, terá levado um murro que lhe desviou para sempre o septo nasal. Entre 1913 e 1914 estreia-se no teatro, com o pseudónimo de Clerment. Entretanto, durante a I Guerra Mundial, oferece-se como voluntário, mas, uma vez na frente, finge um ataque de coração que o leva para a rectaguarda. Finda a guerra, regressa ao teatro, passa por companhias onde trava conhecimento com Eduardo e Peppino De Filippo ou Cesare Bixio. Por entre números de variedades e canções, Antonio adquire certa notoriedade. Em 1927, integra a companhia de operetas e revistas Achille Maresca, realizando grandes tournées. A crítica começa a referenciá-lo como o “cómico grotesco” que se destaca nos palcos italianos. Estreia-se como o nome de Totò, em Padova, na peça “Madama Follia”. Por essa altura, 1928, o pai, o já marquês Giuseppe De Curtis, reconhece legalmente a paternidade, algo que foi muito importante para Antonio Clemente, que passa a assinar Antonio De Curtis. Mas, na verdade, a sua designação completa passa a ser (e leia-se em italiano que tem mais sabor): Antonio Griffo Focas Flavio Angelo, Ducas Comneno Porfirogenito Gagliardi De Curtis di Bisanzio, Altezza Imperiale, Conte Palatino, Cavaliere del Sacro Romano Impero, esarca di Ravenna, duca di Macedonia e Illiria, principe di Costantinopoli, di Cicilia, di Tessaglia, di Ponto, di Moldavia, di Dardania, del Peloponneso, conte di Cipro e di Epiro, conte e duca di Drivasto e di Duraz.
Totò era já um actor de reputação consolidada no teatro, onde se notavam as características do seu humor muito próprio. Era conhecido como “marioneta desarticulada”. Apaixona-se por uma cantora, Liliana Castagnola, com quem mantém uma ligação amorosa, que acaba por se suicidar. Anos mais tarde, será Diana Bandini Lucchesini Rogliani, espectadora de uma actuação sua no teatro, que se apaixona por Totò. Vivem juntos, têm uma filha, em 1933, casam em 1935. Divorciam-se em 1940. Entretanto, Totò cria a sua própria companhia entre 1932 e 1933 e vive um período de grande glória nos palcos italianos. Em 1937, interpreta "Fermo con le mani!", de Gero Zambuto, a que se segue " Animali Pazzi", de Carlo Ludovico Bragaglia. Mas a carreira de Totò no cinema leva o seu tempo a arrancar. Apenas em 1947, com “I Due Orfanelli", de Mario Mattòli, atinge a glória, que se irá repercutir por uma filmografia de mais de uma centena de títulos.
A sua obra é sobretudo popular. Os seus filmes eram essencialmente para todo o público, mas direccionados a camadas mais plebeias, muito embora as suas origens aristocratas. Mas a faceta napolitana predominou sempre. Raras vezes foi dirigido por grandes cineastas (o que só aconteceu no final da carreira, quando finalmente se reconheceu a grandeza e a originalidade da sua arte), o que nem sempre funcionou mal. Os técnicos competentes permitiram a Totò improvisar, irradiar o seu talento, desenvolver personagens, impor um estilo próprio. Rodava meia dúzia de filmes por ano, quase todos paródias a grandes sucessos cinematográficos internacionais (basta consultar a filmografia em anexo, para se perceber isso) e multiplicava-se em figuras que mantinham uma forma muito particular de actuação. A sua linguagem (o seu linguajar melhor dizendo) era incomparável e o gesticular excessivo invulgarmente expressivo. Recriando personalidades muito populares, Totò nunca deixou, porém, de ser o príncipe da comédia. 


Filmografia essencial / como actor (de um total de cerca de 108 títulos): 1935: Fermo con le mani !, de Gero Zambuto; 1937: Animali pazzi, de Carlo Ludovico Bragaglia; 1940: San Giovanni decollato (O Homem dos Sete Ofícios), de Amleto Palermi e Giorgio Bianchi; 1945: Il Ratto delle sabine (Totó, Professor de Trombone), de Mario Bonnard; 1947: I due orfanelli (Totó, Perdeu a Cabeça), de Mario Mattoli; 1948: Totò al giro de Italia (Totó, Ás do Pedal), de Mario Mattoli; 1948: Fifa e arena (Mulheres, Música e Toiros), de Mario Mattoli; 1949: L'Imperatore di Capri (Totó, Imperador de Capri), de Luigi Comencini; Totò cerca casa (Totó Procura Casa), de Mario Monicelli e Steno; Totò le Moko (Totó Desceu à Cidade), de Carlo Ludovico Bragagli; 1950: Napoli milionaria (Nápoles Milionária), de Eduardo De Filippo; Totò sceicco (Totó Sheik), de Mario Mattoli; Le sei mogli di Barbablù (Totó e o Barba Azul), de Carlo Ludovico Bragaglia; 1950: Totò cerca moglie (Totó Procura Mulher), de Carlo Ludovico Bragaglia; 1950: Totò Tarzan (Totó Tarzan), de Mario Mattoli; 1951: Guardie e ladri (Policias e Ladrões), de Mario Monicelli e Steno; Totò e i re di Roma, de Mario Monicelli e Steno; Totò terzo uomo (Totó Terceiro Homem), de Mario Mattoli; 1952: Totò e le donne (Toto Entre as Mulheres), de Mario Monicelli e Steno; Totò a colori (Totó a Cores), de Steno; 1953: Il più comico spettacolo del mondo (O Mais Cómico Espectáculo do Mundo), de Mario Mattoli; Un Turco napoletano (O Turco Napolitano), de Mario Mattoli; Totò, Peppino e una di quelle (Novo Dia), de Aldo Fabrizi; 1954: L'Oro di Napoli (O Ouro de Nápoles), de Vittorio De Sica, episódio “Il Guappo”; Dov'è la libertà ? (Onde Está a Liberdade?), de Roberto Rossellini; Miseria e nobiltà (Totó Rico e Pobre), de Mario Mattoli; Tempi nostril (Os Nossos Tempos), de Alessandro Blasetti e Paul Paviot; Totò cerca pace (Totó Procura Paz), de Mario Mattoli; 1955: Siamo uomini o caporali (Somos Homens ou Quê?), de Camillo Mastrocinque; Totò e Carolina (Totò e Carolina), de Mario Monicelli; 1956: La Banda degli onesti (Totó e as Notas Falsas), de Camillo Mastrocinque; Totò, Peppino e i… fuorilegge (Totó Fora da Lei), de Camillo Mastrocinque; Totò, Peppino e... la malafemmina (Os Tios da Província), de Camillo Mastrocinque; 1958: La Legge è legge (Totó, Fernandel e a Lei), de Christian-Jaque; I Soliti ignoti (Gangsters Falhados), de Mario Monicelli; Totò nella luna (Totó na Lua), de Steno; Totò a Parigi (Totó em Paris), de Camillo Mastrocinque; 1959: I Tartassati (Totó Contribuinte), de Steno; Arrangiatevi! (Casa Nova...Vida Nova), de Mauro Bolognini; La Cambiale (A Letra), de Camillo Mastrocinque; Totò, Eva e il pennello proibito (Totó em Madrid), de Steno; 1960: Totò, Fabrizi e i giovani de oggi (Totó, Fabrizi e os Meninos de Hoje), de Mario Mattoli; 1960: Chi si ferma è perduto (Totó Torce o Pepino), de Sergio Corbucci; Risate di gioia (O Ladrão Apaixonado), de Mario Monicelli; Signori si nasce (Totó Fidalgo), de Mario Mattoli; 1961: Totò, Peppino e... la dolce vita (Totò e a Doce Vida), de Sergio Corbucci; I due marescialli (Os Dois Carabineiros), de Sergio Corbucci; Sua Eccellenza si fermò a mangiare, de Mario Mattoli; Tototruffa '62 (Totó Vigarista), de Camillo Mastrocinque; 1962: I due colonnelli, de Steno; 1962: Totò contro Maciste (Totó Contra Maciste), de Fernando Cerchio; Totò diabolicus (Totó Diabólico), de Steno; Totò di notte n. 1, de Mario Amendola; Totò e Peppino divisi a Berlino (Totó e Peppino em Berlim), de Giorgio Bianchi; 1963: Il monaco di Monza, de Sergio Corbucci; Gli onorevoli; de Sergio Corbucci; 1963: Totò contro i 4 (Totó Contra Quatro), de Steno; Totò e Cleopatra (Totó e Cleópatra), de Fernando Cerchio; Totò sexy, de Mario Amendola; 1964: Le Belle famiglie, de Ugo Gregoretti; Che fine ha fatto Totò baby?, de Ottavio Alessi; Totò contro il pirata nero, de Fernando Cerchio; Totò de Arabia (Totó da Arábia), de José Antonio de la Loma; 1965: Gli amanti latini, de Mario Costa; La Mandragola (Marido Velho, Mulher Nova) de Alberto Lattuada; Rita, la figlia Americana, de Piero Vivarelli; 1966: Uccellacci e uccellini (Passarinhos e Passarões), de Pier Paolo Pasolini; Le Streghe (A Magia da Mulher), episódio “La Terra vista dalla luna”, de Pier Paolo Pasolini; 1967: Operazione San Gennaro (Golpe de Mestre à Napolitana), de Dino Risi; Il padre di famiglia (O pai de família), de Nanni Loy (não credenciado); Don Giovannini (TV) de Bruno Corbucci; Il Latitante; Il Grande maestro; La Scommessa; Totò a Napoli; Totò Ye Ye; Il Tuttofare (TV), todos de  Daniele de Anza; 1968: Capriccio all'italiana, episódio “Il Mostro della Domenica”, de Steno, e episódio “Che cosa sono le nuvole ?”, de Pier Paolo Pasolini.