segunda-feira, 14 de março de 2016

SESSÃO 8 - 22 DE MARÇO DE 2016


O MEU TIO (1958)

A genialidade de Jacques Tati fica bem documentada em qualquer uma das suas longas-metragens, mas creio que “O Meu Tio” é talvez o seu trabalho mais reconhecido e mais elogiado. Terceira longa-metragem, segunda protagonizada pelo Senhor Hulot, “Mon Oncle” é uma admirável comédia sobre a (falsa) modernidade, a ostentação do novo-riquismo, algo muito flagrante em todas as idades, mas muito sentido na década de 50 do século passado, dado que foi um período de ouro da implantação generalizada do uso do carro e da generalização do uso dos eletrodomésticos. Mais ainda, uma época onde um design agressivo de mobiliário de interiores e exteriores, que hoje em dia é visto com certa nostalgia vintage, mas que não altura era por muitos apenas visto como de um mau gosto e de um desconforto invulgares. Neste, e em muito outros aspectos, “Mon Oncle” relembra o brilhante “Tempos Modernos”, de Charlie Chaplin, havendo em ambos um desadaptado que não se consegue integrar num mundo onde as últimas invenções, em lugar de facilitarem a vida do homem comum, a dificultam. Charlot e Hulot têm, por isso, muitos pontos de contacto.
O filme oscila entre dois universos inconciliáveis: por um lado um director de uma fábrica de mangueiras de plástico, homem com uma família “muito moderna”, os Arpel, certamente por influência da sua mulher que não perde uma ocasião para mostrar a excelência do seu jardim, da sua cozinha, do interior da casa, com “as divisões todas abertas umas para as outras”, e que faz gala de nunca deixar entrar uma visita no seu jardim sem ligar o repuxo do peixe que lança água para o espaço, dando as boas vindas ao intruso. Obviamente que o repuxo é vedeta de alguns gags magníficos, porque às vezes é ligado para um desinteressante operário que vem entregar uma encomenda ou para alguém da casa que já não o merece. Ou então é desligado, porque não queremos tapetes persas e, afinal, trata-se da vizinha com estranha indumentária não reconhecível de imediato. O repuxo é o símbolo da saloiice daquela estranha família, onde só o filho adolescente parece ser alguém normal, sobretudo quando sai com o tio, o tal Senhor Hulot, que vive num bairro modesto, popular, habita uma casa onde para chegar às suas águas furtadas tem de percorrer um labirinto de corredores e escadas que acompanhamos do exterior, tal como o fotógrafo de “Janela Indiscreta”, de Hitchcock, acompanha as traseiras do seu andar (uma obra de 1954 que pode bem ter sugerido este Tati, de 1958). 


Hulot é o indivíduo bem avontadado, imune a cerimónias e salamaleques, que gosta de viver e não se preocupa com a indumentária e ainda menos com o que os outros possam pensar dele. Faz a sua vida, é simpático para todos, não se dá nada bem com as modernices inúteis, nem com a jactância dos novos-ricos, e causa grandes problemas, sem o pretender, sempre que o procuram encaixar numa estrutura social estável, como por exemplo numa fábrica de mangueiras de plástico que a partir dai se assemelha mais a uma fábrica de salsichas. O sobrinho Gerard adora sair com ele porque sabe que vai estar em liberdade, longe do rigor maníaco dos pais, perto de saborear um bom jogo de futebol na lama, boas guloseimas populares, e de pregar partidas como a fabulosa invenção do assobio junto a um candeeiro de iluminação pública que vai provocar normalmente alguma consternação nos passantes. Mais um gag delicioso, num filme que os inventa consecutivamente, mantendo todavia uma toada de comédia delicada e doce, por onde perpassa a voluptuosa nostalgia dos velhos tempos onde a harmonia do homem com a natureza era mais saudável.
A senhora Arpel mostra a sua casa aos convidados para um lanche no jardim, dizendo “E essa é minha sala de estar”, e uma das visitantes nota: “Um pouco vazia, não?”. Ao que a senhora Arpel responde: “Mas é moderna!”. Minimalista diríamos hoje. A moda acima de tudo, o último grito do design a impor-se. Não é eficaz, não serve para nada, mas é moderno!


A construção do humor em Tati é de um rigor invulgar. Os gags são na sua maioria visuais, é certo, mas na verdade, se atentarmos bem, o papel do som, quer da música, quer dos efeitos sonoros, dos ruídos, é absolutamente invulgar de bem trabalhado e explorado. Os ruídos das máquinas, dos gadgets, dos movimentos humanos, das corridas dos cães, tudo é obsessivamente construído na minucia. Exemplar e brilhante. 
O contraponto entre o moderno inútil e hostil e o mais tradicional, modesto, quente e afectuoso (recorde-se o bairro onde vive Hulot, com a sua taberna e os frequentadores habituais, os cães, o varredor de rua que não sai do mesmo sítio, agarrado a conversas infindáveis…) diz bem de que lado que encontram as simpatias de Hulot. Tati explicou-o: “Não acredito que as linhas geométricas tornem as pessoas amáveis”.
A crítica a esta sociedade falsa e hipócrita é inquestionável, mas Tati nunca grita, nunca se irrita demasiado, acredita que o simples olhar de frente a realidade é suficiente para o espectador formar o seu juízo. E sorrir. “O Meu Tio” é uma comédia, mas onde o riso vigoroso nunca aflora, deixando permanecer nos lábios da assistência um sorriso cúmplice, saboroso, divertido, terno, humano. “O Meu Tio” é, por isso tudo, uma das melhores comédias de sempre. E Tati um “must” em qualquer lista das 10 melhores de todos os tempos.

O MEU TIO
Título original: Mon oncle
Realização: Jacques Tati (França, Itália, 1958); Argumento: Jacques Lagrange, Jean L'Hôte, Jacques Tati; Produção: Louis Dolivet, Jacques Tati, Alain Térouanne, Fred Orain; Música: Franck Barcellini, Alain Romans, Norbert Glanzberg; Fotografia (cor): Jean Bourgoin; Montagem: Suzanne Baron; Design de produção: Henri Schmitt; Decoração: Henri Schmitt; Guarda-roupa: Jacques Cottin; Maquilhagem: Boris Karabanoff; Direcção de Produção: Bernard Maurice; Assistentes de realização: Henri Marquet, Pierre Étaix; Departamento de arte: Eugène Roman; Som: Jacques Carrère; Efeitos visuais: Bertrand Levallois, Ugo Bimar; Companhias de produção: Gaumont Distribution, Specta Films, Gray-Film, Alter Films; Intérpretes: Jacques Tati (Monsieur Hulot) (não creditado), Jean-Pierre Zola (Charles Arpel, Adrienne (Betty), Jean-François (Walter), Dominique Marie (vizinha), Yvonne (Gerard Arpel), Régis Fontenay,Claude Badolle, Max Martel, Nicolas Bataille, Daki, Dominique Derly, André Dino, Suzanne Franck, Édouard Francomme, Michel Goyot, René Lord, Elsa Mancini, Jean Meyet, Denise Péronne, Nicole Regnault, Claire Rocca, Jean-Claude Rémoleux,etc. Duração: 117 minutos; Distribuição em Portugal: Atalanta Filmes; Classificação etária: M/ 6anos; Data de estreia em Portugal: 21 de Fevereiro de 1975.


JACQUES TATI (1907-1982)
Com três filmes apenas, ele foi desde logo considerado um dos maiores criadores cómicos do cinema de todos os tempos e de todos os lugares. Apenas com “Há Festa na Aldeia”, “As Férias do Sr. Hulot” e “O Meu Tio”, ele conseguiu impor-se com uma obra de uma consistência e coerência total, de uma exigência e modernidade absoluta e, todavia, de adesão imediata por parte de todos os públicos. Conseguiu tornar-se recordado para sempre. Quando, numa roda de amigos, se fala num desses títulos, ou vem à baila o nome de Jacques Tati, seu autor, ou de M. Hulot, sua fabulosa criação, é certo e sabido que a enumeração de uns quantos “gags” e de algumas situações inesquecíveis, irão processar-se por entre lágrimas de puro deleite e de um prazer irreprimíveis.
Curiosamente (infelizmente também), a carreira de Tati teve uma fase ascendente, de reconhecimento internacional, que culminaria em 1958 com a atribuição do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro a "Mon Oncle”, iniciando-se depois disso uma fase de progressivo apagamento, que o deixaria sem trabalhar durante longos anos. Na verdade, depois de “O Meu Tio”, apenas em 1967 voltaria aos ecrãs com uma nova obra, rodada em 70 milímetros, “Play Time”, que traria o autor a Lisboa, para apresentar o filme na saudosa sala do Monumental. O resultado comercial não foi brilhante, as dúvidas dos produtores recaíram sobre ele e, em 1971, “Trafic” não conheceria melhor sorte. Apenas em 1974, em condições bastante precárias, voltaria a rodar “Parade”, que ficaria como o seu testamento cinematográfico.
Foi esse homem, que deu um novo rumo ao humor francês, que morreu em Paris, com 75 anos, vítima de uma embolia pulmonar, no dia 4 de Novembro de 1982. De ascendência russa, nascera a 9 de Outubro de 1907, na região de Pecq, departamento de Seine-en-Oise, em França, filho de um encadernador de profissão, de nome Tatischeff. Tati nasceu, aliás, com o nome de Jacques Tatischeff, abreviando-o depois para Jacques Tati, quando adoptou um nome artístico para as suas primeiras actuações em “music-hall”.
Desde muito novo que se entregara intensamente a práticas desportivas, tendo sido jogador de râguebi no Racing Clube de Paris, além de tentar ainda o boxe e o ténis. Quando, aos 23 anos, se estreia no “music-hall” é um excelente mimo, capaz mesmo de transformar a velha arte de pantomina em algo de inesperadamente novo e espectacular, como se pode deduzir das palavras de Colette, depois de assistir ao seu “show” no ABC: "Em Jacques Tati, cavalo e cavaleiro, toda o Paris verá, estuante de vida, a criatura fabulosa, o Centauro”. Este mesmo "número” seria mais tarde recriado em “Parade”.
O cinema começou por registar, em numerosas curtas-metragens, as pantominas de Jacques Tati, como nessa excelente “Cuida da Tua Esquerda” ou Cuida do Teu Gancho Esquerdo, paródia ao boxe, realizada em 1936 por outro jovem, René Clement, e que correria em telas portuguesas só muito mais tarde. Em 1946, porém, dá-se o grande encontro da arte do actor Jacques Tati com as suas possibilidades de realizador que passou a ser. “A Escola de Carteiros” (L'École des Factuers), filme de duas bobines, ganha o prémio Max Linder, e chama a atenção de todos para a novidade de estilo e de intenções do cineasta. E assim o produtor Fred Orain resolve confiar-lhe a rodagem de um filme de fundo, que tem como base a linha cómica de “A Escola de Carteiros”, e se chamará “Há Festa na Aldeia” (Jour de Fete). Foram tais os métodos utilizados, tão novo o estilo de humor, tão diferentes os processos de realização e interpretação que os distribuidores se negaram a projectar o filme e, para pagar certos trabalhos em atraso, o produtor teve de vender a sua casa de campo. Finalmente estreado, “Há Festa na Aldeia” venceu em toda a linha e terá rendido ao produtor uma recompensa estimulante para o sacrifício feito. Quer como produtor de arte das imagens, quer como espectáculo de bilheteira. “Jour de Fete” foi um sucesso estrondoso que ainda hoje faz as delícias de quantos o vêem e o saboreiam. É uma obra livre, singela, tocada por um humor visual extraordinário, em cujas imagens passa a imperturbável e insólita figura de um carteiro alto e desengonçado, de farto bigode, anunciando já, na sua mímica quase silenciosa, herdeira de Max Linder e Buster Keaton, a personagem admirável do Senhor Hulot.  
Apresentado no festival de Cannes de 1953, “As Férias do Senhor Hulot” não só confirmaram as promessas do filme anterior, como inventaram uma nova figura do cómico mundial, capaz de, numa só peripécia, descobrir uma nova linguagem e estruturar toda uma teoria do humor.
A terna alegria do senhor Hulot e a sátira gentil, mas acutilante, de Jacques Tati aos convencionalismos, hipocrisia e mentiras do nosso mundo moderno, estão por inteiro contidas em “O Meu Tio” (Mon Oncle), rodado já a cores, em 1958, que foi então um fabuloso êxito internacional. Aí se satiriza fundamentalmente a escravidão técnica e os costumes do nosso tempo, enquanto se define, com maior precisão, a personagem do senhor Hulot. É Tati quem profere estas palavras que podem resumir com clareza os seus primeiros trabalhos e toda a sua filosofia: “É para descobrir os segredos da vida quotidiana que o cinema existe, não para repetir cenas e gestos estereotipados”. 

Depois é o grande silêncio durante dez anos, o que não deixa de ser estranho, dado que nesse momento Tati é um triunfador que os produtores disputam. Mas ele nega-se à produção em série e espera até 1967 para estrear “Play Time” (Vida Moderna). O filme, que teve um orçamento grande e uma receita não totalmente recompensadora, coloca o autor numa situação diferente. Agora terá que esperar por nova oportunidade; que só irá surgir em 1971. Com “Trafic” (Sim, Sr. Hulot), uma obra que denuncia já um certo cansaço criativo e alguma morosidade na invenção do “gag” e no seu desenvolvimento. Em 1974, irá voltar a Cannes com “Parade”, rodado para a televisão, e que acabaria por ser estreado em salas de cinema, apesar de gravado em “vídeo”. Esta viagem nostálgica pelo mundo do circo, assume-se como nova e arrojada aventura de um criador com sede de inovação. Muitos anos antes de “O Mistério de 0berward”, de Antonioni, “Parade” é já um filme inicialmente trabalhado em vídeo e depois passado a cinema, abrindo assim novas perspectivas a uma colaboração que, hoje-em dia, se sabe extremamente frutuosa. Para além disso, “Parade” é Tati do melhor, reconduzindo à pureza e à sinceridade originais onde a candura do olhar se mistura com única crítica agreste à moderna civilização e aos seus traumas.

SESSÃO 7 - 15 DE MARÇO DE 2016

AS FÉRIAS DO SR. HULOT (1953)

Depois de alguma curtas-metragens e da estreia no filme de fundo, em 1949, com “Jour de Fête” (Há Festa na Aldeia), Jacques Tati lança a fabulosa personagem do Senhor Hulot, em “Les Vacances de Monsieur Hulot” em 1953. Indiscutivelmente uma das grandes figuras de ficção, cómica ou não, criadas no cinema, o Sr. Hulot voltaria a surgir em mais três títulos, todos eles admiráveis, ainda que o êxito público tenha variado: “O Meu Tio” (1958), “Play Time – Vida Moderna” (1967) e “Sim, Sr. Hulot” (Trafic, 1971).
O filme organiza-se de uma forma muito simples (aparentemente simples, mas de uma complexidade de mestre de relojoaria), estilo crónica do dia a dia de uma estância balnear francesa, durante o seu período de Verão. O que unifica toda a acção é a pequena comunidade que se reúne na praia de Saint-Marc-sur-Mer, localidade perto de Saint-Nazaire, que nunca é nomeada enquanto tal, excepto no selo do postal final, mas que hoje ostenta uma estátua da criação de Tati, e regida pelo escultor francês Emmanuel Debarre, dominando o oceano e muito perto do “Hôtel de la Plage” que serviu de cenário central ao filme.
Estamos nos anos 50 do século passado, as férias de Verão são uma “obrigação” anualmente desejada por uma certa pequena e média burguesia que se desloca para os seus locais preferidos, carregada de malas e apetrechos afins, a fim de cumprir religiosamente um ritual. Instalam-se sornamente na pensãozinha do sítio, ou alugam uma vivenda ou andar, e disfrutam mansamente dos prazeres dos banhos de mar, dos pequenos passeios, das partidas de ténis, dos gelados e das guloseimas da estação, regressando todos a toque de sineta para as refeições do dia, jogando a sua bisca à noite, ouvindo rádio, ou namoriscando mais ou menos às escondidas. Isto é o normal. Mas depois há o elemento estranho que vem alterar toda a ordem instituída: o Senhor Hulot. Quem pensa ter umas férias descansadas e pacatas esquece-se do carro do Senhor Hulot, das técnicas de ténis do Senhor Hulot, da boa vontade sempre desajeitada do Senhor Hulot, do desastroso passeio de caiaque do Senhor Hulot, das suas incursões pela praia, do seu gosto por jazz em altos berros, da imprudência na barraca de fogo de artifício, das pegadas de lama, da pele de tigre que se enrosca nas esporas, dos piqueniques organizados em ordem militarizada, das cadeiras trocadas nas partidas de cartas, dos bailes mascarados, e do seu generoso amor pelas crianças, pela bela ocupante da mansarda, e pelos mais desfavorecidos.


O efeito desestabilizador do humor volta a encontrar aqui toda a sua justificação. O funeral que decorre no cemitério local seria um funeral mais, até que chega o Senhor Hulot e o seu carro avariado. A câmara do pneu que é colocada inocentemente no chão, vai provocar a desregularização da cerimónia, quando é tomada por mais uma coroa de flores, que depois vai esvaziar-se. O Senhor Hulot é integrado a contra gosto na família do finado e tudo acaba em discretas gargalhadas. Mas a realidade preexiste frágil. O casal de velhotes que passeia lentamente pelas amuradas da praia, sempre em passo desencontrado, ela à frente, ele logo a seguir, de braços cruzados atrás das costas, é, por si só, sem lhe acrescentar qualquer gag, já um motivo de humor. Digamos que nalguns casos basta olhar a realidade, para ela se desarticular e mostrar o ridículo que está subjacente. O que demonstra por parte do autor um extraordinário espírito de observação, que lhe permite reproduzir um conjunto de personagens absolutamente inesquecíveis, desde o dono e o criado do “Hôtel de la Plage” (o criado poderá ter estado na base do Manuel da série “Fawlty Towers”) até qualquer um dos veraneantes.
Logo nos planos iniciais, passados numa estação de caminhos-de-ferro (precisamente a gare de Argentan), o cómico instala-se pela simples observação e reprodução. Numa plataforma de embarque está uma pequena multidão à espera do comboio quando se ouve através de um roufenho altifalante um qualquer informação que leva toda a gente a descer e subir escadas para chegar a outra plataforma, quando o comboio vai chegar numa via diferente. O caos aqui é a realidade que o provoca. O humor limita-se a registar o facto. Este é o tipo de humor de Jacques Tati, obviamente crítico em relação a alguns aspectos da vida em sociedade, mas quase sempre terno e doce nas suas observações. Haverá um ou outro olhar mais intenso, para o capitalista que passa as ferias agarrado ao telefone, a controlar os valores da bolsa ou a produção nas fábricas, mas o que move Tati é sobretudo valorizar o humano em detrimento do desumano. A vida no interior da pensão seria muito mais agradável se as refeições não fossem servidas a toque de sineta e se todos não se fossem deitar mal acaba a emissão de rádio. É a massificação dos gestos que Tati aqui critica, o que irá prosseguir na sua obra futura. De forma muito mais radical em  “O Meu Tio”, “Play Time” ou “Trafic”, onde essa observação crítica se torna muito mais contundente, tendo em conta sobretudo o aspecto de massificação da vida quotidiana nas grandes metrópoles.
Uma das características principais do cinema de Jacques Tati prende-se com o facto de o seu humor ser quase sempre físico, utilizando muito pouco as palavras, mas não descurando de forma alguma o som. A banda sonora de “As Férias do Sr. Hulot” é particularmente cuidada e meticulosa. Mas, por outro lado, o filme tem muito do cinema mudo, vive de uma respiração gestual. Curiosidade a reter: para Tati um filme não está acabado quando se estreia comercialmente. Parece que a versão que se estreou em 1953 era a terceira dada por terminada e depois retocada. Em 1978, Tati volta a pegar no filme, filma uma nova sequência (em homenagem a “Tubarão”, de Spielberg) e introdu-la na nova versão (a sequência de Hulot no caiaque que se dobra e se assemelha a um tubarão). Introduz igualmente variações na banda sonora, música e sons, e na duração do filme, transformando este numa “obra em progressão”, o que seria um conceito “avant la lettre”.


Segundo depoimento de Nicolas Hulot, uma conhecida vedeta do jornalismo televisivo francês, terá sido o seu avô, um arquitecto que projectara o edifício onde habitava Tati, que terá servido de inspiração para o nome da personagem. Tati teria mesmo pedido autorização para utilizar este nome ao arquitecto que, além do nome (muito parecido sonoramente com Charlot), teria uma silhueta física que terá aproximado Tati igualmente da figura criada. Assim terá nascido esta incontornável personagem, alta, desengonçada, vestindo uma gabardine (quando não está em férias de Verão), chapéu e cachimbo. Quase não usando a palavra para estabelecer contacto com os próximos, mostrando-se um autentico desadaptado em relação ao mundo que o rodeia. O que se vai agravando a cada nova obra de Tati.  
O filme teve um orçamento reduzido, muitos apoios de amigos do realizador, e muitas contrariedades durantes as filmagens, nomeadamente com mau tempo, acidentes e questões técnicas. Mas o resultado perdura durante as décadas e ainda hoje é considerado uma das obras-primas de um cineasta genial. “Les Vacances de Monsieur Hulot” foi prémio da crítica no Festival de Cannes, em 1953, Prémio Louis-Delluc, Paris e Prix Femina, Bruxelas, ainda no mesmo ano, Golden Laurel, em Edimburgo, 1955, e considerado o melhor filme visto em Cuba em 1956. Está inscrito na lista das 50 obras que os jovens com menos de 14 anos devem ver, organizada pelo BFI (British Film Institut, 2005).



AS FÉRIAS DO SR. HULOT
Título original: Les Vacances de Monsieur Hulot
Realização: Jacques Tati (França, 1953); Argumento: Pierre Aubert, Jacques Lagrange, Henri Marquet, Jacques Tati; Produção: Fred Orain, Jacques Tati; Música: Alain Romans; Fotografia (p/b): Jacques Mercanton, Jean Mousselle; Montagem: Suzanne Baron, Charles Bretoneiche, Jacques Grassi; Design de produção: Roger Briaucourt, Henri Schmitt; Decoração: Henri Schmitt; Direcção de Produção: Fred Orain; Assistentes de realização: Pierre Aubert; Departamento de arte: Pierre Clauzel, André Pierdel; Som: Jacques Carrère, Roger Cosson, Guy Michel-Ange; Efeitos visuais: Trey Freeman; Companhias de produção: Discina Film, Cady Films, Specta Films; Intérpretes: Jacques Tati (Monsieur Hulot), Louis (Fred), André Dubois (Comandante), Lucien Frégis (dono de Hotel), Raymond Carl (criado), Nathalie Pascaud (Martine), Micheline Rolla (Tia), Valentine Camax (senhora inglesa), Suzy Willy (mulher do comandante), René Lacourt, Marguerite Gérard, Georges Adlin, Michèle Brabo, Édouard Francomme, etc. Duração: 114 minutos; Distribuição em Portugal: Atalanta Filmes; Classificação etária: M/ 6 anos; Data de estreia em Portugal: 22 de Fevereiro de 1954 (Tivoli).


JACQUES TATI
Filmografia:
Como actor e realizador: 1932: Oscar, Champion de Tennis, de Jack Forrester (curta-metragem), com Jacques Tati; 1934: On Demande une Brute (Procura-se Brutamontes), de Charles Barrois (curta-metragem), com Jacques Tati; 1935: Gai Dimanche (Domingo Animado), de Jacques Berr (curta-matragem), com Jacques Tati; 1936: Soigne Ton Gauche (Cuida do Teu Gancho Esquerdo ou Cuida da Tua Esquerda), de René Clément (curta-metragem), com Jacques Tati; 1938: Retour à la Terre (curta-metragem), com Jacques Tati (Tati escreve o argumento, mas desconhece-se o realizador); 1945: Sylvie et le Fântome (Sílvia e o Fantasma), de Claude Antant-Lara (Jacques Tati interpreta o papel de um soldado celebrando o armistício num bar); 1947: L'École des Facteurs (A Escola de Carteiros), de Jacques Tati (curta-metragem), com Jacques Tati; 1949: Jour de Fête (Há Festa na Aldeia), de Jacques Tati; primeira longa-metragem escrita, realizada e interpretada por Jacques Tati; 1953: Les Vacances de M. Hulot, (As Férias do Sr. Hulot); realização, argumento e interpretação de Jacques Tati; 1958: Mon Oncle (O Meu Tio); realização, argumento e interpretação de Jacques Tati; 1967: Play Time (Vida Moderna); realização, argumento e interpretação de Jacques Tati; Cours du soir (Aulas Nocturnas), de Nicolas Ribowski, (curta-metragem), com Jacques Tati; 1971: Trafic (Sim. Sr. Hulot); realização, argumento e interpretação de Jacques Tati; 1972: Obraz uz obraz, talk show na televisão jugoslava, onde Jacques Tati parece num episódio emitido a 22 de Abril de 1972; 1974: Parade (Parade); realização, argumento e interpretação de Jacques Tati.
Como argumentista, surge ainda associado a outras obras: 1975: Mein Onkel Theodor oder Wie man viel Geld im Schlaf verdient, de Gustav Ehmck; 2002: Forza Bastia (Força, Bastia), de Jacques Tati, Sophie Tatischeff; e 2010: L'illusionniste (O Mágico), de Sylvain Chomet (filme de animação).


(sobre obra e vida de Jacques Tati ver nota na folha de “O Meu Tio”).

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

SESSÃO 6 - 8 DE MARÇO DE 2016


AS NOITES LOUCAS DO DR. JERRYLL (1963)

Há muitos estudiosos da obra de Jerry Lewis que afirmam que “The Nutty Professor” é o filme mais completo e perfeito deste cineasta. Por mim, “The Patsy” ocupa essa preferência, não andando muito longe, porém, desta genial adaptação da obra de Robert Louis Stevenson, no original intitulada “The Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde” (na sua tradução portuguesa “O Médico e o Monstro”) e que já de si deu origem a variadíssimas versões cinematográficas. Mas, curiosamente, nenhuma com a intenção subscrita por Jerry Lewis. Na verdade, o que o romance de Stevenson pressupõe é uma interpretação psicanalítica da personalidade de cada ser humano, normalmente dividida entre duas posições, coexistentes no seu interior, predispondo-se ora para o Bem ora para o Mal, consoante uma ou outra dessas tendências se sobreponha à outra. Pode dizer-se que será um confronto entre a natureza animal do ser humano e o seu duplo civilizado, educado, ensinado a viver em comunidade.
No clássico de Robert Louis Stevenson o que está expresso é um cientista, um médico bem integrado na sociedade que, mercê de uma fórmula por si inventada, deixa a descoberto o lado maligno da sua personalidade. Daí “o médico e o monstro”. Mas em quase todas as versões conhecidas, o médico é um ser normal (o que é que isso quero dizer já de si), e o monstro é mesmo “monstro”, em todas as acepções do termo. Foi assim com John Barrymore, na primeira adaptação, ainda muda, assinada por John S. Robertson (1920), foi assim com Fredric March, no filme de Rouben Mamoulian (1931), continuou assim com Spencer Tracy, ao lado de Ingrid Bergman, no título de Victor Fleming, voltou a ser com Jack Palance, no telefilme de Charles Jarrott (1968), e ainda com Christopher Lee, ao lado do seu inseparável Peter Cushing, em “Eu, Monstro” (I, Monster), de Stephen Weeks (1971), ou com Kirk Douglas, na versão televisiva de David Winters (1973).


Há dezenas e dezenas de versões, em imagem real e animação, oriundas de todos os pontos do globo, a cores e a preto e branco, quase sempre em estilo de terror, mas também em paródia, há musicais e teenagers movies, há obras-primas e coisas inenarráveis, e existe uma versão espantosa de Jean Renoir, “O Testamento do Médico e do Monstro” (Le testament du Docteur Cordelier), com uma fenomenal interpretação de Jean-Louis Barrault (1959). De resto, para muito proximamente anunciam-se, pelo menos, duas novas versões, ambas norte-americanas, assinadas por Jesse MaGill (com o próprio no protagonista), e por B. Luciano Barsuglia (com Gianni Capaldi).
Um mundo inesgotável, mas com uma progressão dramática mais ou menos estabelecida. Jerry Lewis modifica a norma e introduz uma alteração extremamente curiosa. O professor Julius Kelp é um cientista lunático, que dá aulas na Universidade, e que um dia, através de uma receita mágica por si inventada, dá corpo a Buddy Love, um ídolo de multidões, bem vestido e aprumado, egoísta até dizer basta, insuportavelmente convencido, cantor de fazer desmaiar toda a plateia feminina. O bem apresentável playboy é um ser odioso, o despistado, temeroso e estouvado professor é afinal quem se salva como pessoa. 


Este o esquema geral de “As Noites Loucas do Dr. Jerryll”, onde a inventiva e a originalidade do humor de Jerry Lewis atinge um dos seus estádios mais elevados e brilhantes. Jerry é o artista completo, escreve o argumento (juntamente com seu habitual colaborador Bill Richmond), produz, realiza e interpreta e como actor veste a pele de duas personagens extremamente diferentes, opostas mesmo, canta, dança, utiliza processos do cinema mudo, mas não esquece o som e desenvolve alguns gags puramente sonoros que se aliam magnificamente ao humor visual e gestual, não esquecendo as lições que Tashlin lhe trouxe do cinema de animação. Em suma, um pequeno génio do cinema cómico que se afirma ainda como um “autor” integral. Quem vir por exemplo este filme e “The Patsy” em sessões seguidas, perceberá que ambos querem dizer o mesmo: ninguém deve querer ser o que não é. Realmente, todos os filmes de Jerry estão impregnados por uma filosofia de vida óbvia. O cineasta realiza os chamados “filmes para toda a família”, um pouco na linha dos estúdios Disney, mas com diferenças assinaláveis, onde as lições de um sádio humanismo predominam. Depois, há várias constantes nos seus filmes. Os jovens são particularmente visados, os bailes de estudantes e de fim de curso aparecem em quase todos eles, o gosto pelo espectáculo, pelo cinema (e, neste particular, pelo cinema mudo e o burlesco) e pelos velhos comediantes é visível na homenagem que ostensivamente os elencos escolhidos representam, o amor triunfa sempre, ainda que raramente exista um “happy end” definitivo (“The Nutty Professor” apresenta mesmo vários finais).
O humor de Jerry Lewis é profundamente visual e físico. Vejam-se as cenas no ginásio, com o professor Kelp a querer aperfeiçoar o seu desastrado desempenho. A sua falta de visão relembra o clássico Mr. Magoo, e quando lhe passam uns pesos para as mãos os resultados são extravagantes. Não estamos ao nível do humor realista, mas do humor abstracto, surrealista (por isso os surrealistas franceses o elegeram como seu ídolo). Tudo se passa no domínio das convenções (ou da ausência de convenções) do desenho animado. O cientista explode com a universidade, mas é descoberto um pouco chamuscado, é certo, incrustado no solo, debaixo de uma porta por onde passaram dezenas de pessoas em fuga. Realismo? Nenhum. Este é o segredo de alguma comédia e é o grande sucesso criativo de Lewis.


Depois há o jogo histriónico. As plateias norte-americanas faziam o êxito destas comédias, mas a intelectualidade torcia o nariz. Para muitos, não passava de um palhaço, como se ser palhaço fosse desprestigiante. Nas estreias europeias foi saudado como um grande actor e um génio na realização.
Jerry Lewis começou a sua carreira, como se sabe, a fazer dupla com Dean Martin, que era o galã sedutor e o cantor meloso que seduzia as miúdas. Mas, durante muito tempo, por detrás das câmaras, era Jerry quem dominava já o show. Ele escrevia e por vezes realizava de forma não creditada no genérico. Quando se liberta da dupla, há um ajuste de contas. Em “The Nutty Professor”, Kelp é o Jerry de outrora e Buddy Love o Dean Martin. Uma das cenas mais extraordinárias deste título é a primeira aparição de Boddy Love no bar nocturno onde se reúnem os seus alunos. É uma encenação perfeita, uma apresentação em estilo de superstar que deixa toda a plateia paralisada. Sabe-se depois que as aparências iludem. O que é também um dos princípios da construção do humor em Lewis. Por vezes de um humor que tem muito de sonoro. Veja-se a cena em que o professor caminha por um corredor a tentar passar desapercebido, mas com os sapatos a provocarem uma chiadeira medonha. Kelp descalça-se, continua a andar e a chiadeira prevalece. O humor sonoro mantém-se. Buddy Love passou uma noite de excessos e, no dia seguinte, Kelp surge na sala de aulas particularmente suscetível aos sons. Uma aluna a assoar-se, um livro a bater na carteira, a porta a fechar-se, qualquer ruído provoca uma tempestade. A invenção é constante, demonstrando o talento do actor, mas igualmente a intencionada da crítica e a modernidade do cinema deste homem dos sete ofícios que deixa um legado impressionante, um dos mais representativos do cinema americano do pós-guerra.
33 anos depois (1996), Eddie Murphy ressuscita o argumento de Jerry Lewis, numa nova versão de "The Nutty Professor" (O Professor Chanfrado), numa realização de Tom Shadyac. O obeso prof. Sherman Klump quer tornar-se num elegante Buddy Love, com resultados desastrosos. O filme furta-se à inocência e à pureza do olhar de Jerry, entrando pela piada grosseira e pelo gag de gosto duvidoso, sem ganhar nada com isso.

AS NOITES LOUCAS DO DR. JERRYLL
Título original: The Nutty Professor
Realização: Jerry Lewis (EUA, 1963); Argumento: Jerry Lewis, Bill Richmond; Produção: Ernest D. Glucksman, Arthur P. Schmidt; Música: Walter Scharf; Fotografia (cor): W. Wallace Kelley; Montagem: John Woodcock; Casting: Edward R. Morse; Direcção artística: Hal Pereira, Walter H. Tyler; Decoração: Robert R. Benton, Sam Comer; Guarda-roupa: Edith Head; Maquilhagem: Nellie Manley, Jack Stone, Wally Westmore, Agnes Flanagan; Direcção de Produção: Hal Bell, William Davidson; Assistentes de realização: Ralph Axness, Jack Barry, William R. Poole; Departamento de arte: Martin Pendleton; Som: Charles Grenzbach, Hugo Grenzbach; Efeitos visuais: Paul K. Lerpae; Companhias de produção: Paramount Pictures, Jerry Lewis Enterprises; Intérpretes: Jerry Lewis (Professor Julius Kelp / Buddy Love), Stella Stevens (Stella Purdy), Del Moore (Dr. Mortimer S. Warfield), Kathleen Freeman (Millie Lemmon), Med Flory (Warzewski – jogador de futebol), Norman Alden (jogador de futebol /estudante), Howard Morris (Mr. Elmer Kelp), Elvia Allman (Edwina Kelp), Milton Frome (Dr. M. Sheppard Leevee), Buddy Lester (Barman), Marvin Kaplan, David Landfield, Skip Ward, Julie Parrish, Henry Gibson, Les Brown and His Band of Renown, Murray Alper, Roger Bacon, Todd Barron, Mel Berger, Nicky Blair, Billy Bletcher, Les Brown Jr., Mushy Callahan, Hugh Cannon, Seymour Cassel, Selette Cole, Lorraine Crawford, George DeNormand, Robert Donner, Art Gilmore (Narrador), etc. Duração: 107 minutos; Distribuição em Portugal: Lusomundo Audiovisuais; Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 31 de Janeiro de 1964.


JERRY LEWIS (1926 -)
Jerry Lewis, de seu verdadeiro nome Joseph Levitch, nasceu em Newark (New Jersey), EUA, em 16 de Março de 1926. Filho de um casal de comediantes (o pai, Danny Lewis, actor de "vaudeville"; a mãe, Ray Rothberg, pianista de "cabaret"), teve uma infância atribulada, em constantes deambulações, ora sob a educação de algumas tias, ou de sua avó Sarah. Os estudos foram igualmente acidentados, tendo permanecido alguns anos na Irvington High School onde, aos catorze anos - depois de algumas aparições episódicas em "cafés-concertos" onde o pai actuava - se estreia no teatro da escola e depois no Mosque Theatre. Um dia, porém, quando um instrutor de trabalhos manuais lhe diz que "todos os judeus são estúpidos", ele responde-lhe com um vibrante soco que, obviamente, o expulsará da escola. Aos quinze anos irá procurar trabalho. Empregado de um "drugstore", vendedor de legumes, empregado numa fábrica de chapéus, são experiências que, posteriormente, irá rever em sequências de filmes seus. Em 1940, Jerry Lewis entra para os estúdios da Paramount, em Nova lorque, como operário de estúdio. Assim se inicia a viagem de aproximação de Jerry Lewis aos holofotes de cena, das luzes do espectáculo. Um dia, um actor inglês, Reginafd Gardiner, inventa-lhe um número de imitação de cantores e actores como Sinatra, Betty Hutton, Danny Kaye, etc. Em 1944, já Jerry Lewis trabalha com algum êxito nos cinemas da cadeia Paramount. Canta nas orquestras de Tommy Dorsey e de Ted Fiorito, onde encontra uma outra cantora de nome Patti Palmer, com quem vem a casar nesse mesmo ano. Com vinte anos, Jerry Lewis encontra um tal Dino Crocetti, vulgarmente conhecido por Dean Martin, com quem iria associar-se. A 25 de Julho de 1946, no Club 500, de Atlantic City, estreia-se a dupla que irá sucessivamente aparecer no Casino Latin, de Chicago, no Havana-Madrid, de Nova lorque, no Capital Theater, de Washington, no Slapey Saxie, de Hollywood, no Copacabana, de Nova lorque. Será aqui precisamente, em 1949, que o produtor Hal Wallis os irá "descobrir" e oferecer-lhes um interessante contrato de longa duração na Paramount, contrato que irá prolongar-se até 1956. Entretanto, entre 1948 e 1949, apareceram numerosas vezes na televisão, particularmente no primeiro "Toast of the Town", que se tornará mais tarde no célebre "Ed Sullivan Show" (1948). Em 1950, Jerry Lewis é eleito "Most Promising Male Star in TV" (o mais promissor actor masculino). Em 1949 aparece pela primeira vez no cinema, em “My Friend Irma”, de George Marshall. Igualmente na rádio as actuações da dupla são muito notadas, nomeadamente na "Colgate Comedy Hour". Em 1951, declaram-no "o actor mais popular de Hollywood" e, entre os anos de 51 a 54, a dupla Lewis-Martin é considerada um dos "top ten money-making stars". Em 1955, 1956 e 1959 é "mestre-de-cerimónias" na atribuição dos Oscars de Hollywood. Entretanto, em 25 de Julho de 1956, Dean Martin e Jerry Lewis, depois de alguns anos de trabalho em comum, e de algumas desavenças (sobretudo em virtude dos "ciúmes" de Martin, que se considerava ultrapassado pelo seu sócio), separam-se definitivamente, fazendo a sua última aparição em conjunto no Copacabana de Nova lorque. Em 1958, Jerry Lewis e a Paramount assinam um contrato, pelo qual o actor será obrigado a interpretar catorze filmes, à média de dois por ano. Em 1960, estreia-se como realizador em "The Bellboy". Em 1966, deixa a Paramount e toma-se um produtor independente, rodando quer para a Columbia, para a Fox, a Warner ou a United Artists.
Desde os seus inícios no cinema, Lewis fundou a sua própria produtora, "Ron-Gar" e dirigiu numerosas curtas-metragens, "pastiches" de filmes célebres (como "O Mundo a seus pés" ou "Até à Eternidade"), interpretados por si próprio e por amigos como Janet Leigh e Tony Curtis. Por outro lado, sabe-se que ele mesmo dirigiu muitos filmes e espectáculos da parelha, deixando aparecer as assinaturas de Hal Waker ou Norman Taurog para não vexar Dean Martin. Fora dos seus filmes, Jerry Lewis dá espectáculos todos os anos, durante dois meses, em Las Vegas. Na TV (onde interpretou o seu único papel em "The Jazz Singer"), além de numerosas aparições em emissões ("Today", último trabalho ao lado de Dean Martin, "Person to Person", "Youth Wants to Know", etc.), foi vedeta de "The Colgate Comedy Hour" (com Dean Martin, de 1950 a 1955), "The Martin and Lewis Show" (dirigido, entre outros, por Bud Yorkin). A 21 de Setembro de 1963, criou o "Jerry Lewis Show", filmado no "Jerry Lewis Theatre", inaugurado na circunstância. Produzido por Jerry, dirigido por John Dorsey, escrito por Lewis, Bill Richmond, Bob Howard e Dick Cavett, foi o primeiro espectáculo regular de duas horas, "em directo" da televisão americana. Participaram nos primeiros "Jerry Lewis Shows" (a série foi interrompida, em virtude de ter sido mal recebida pelos críticos, mas também porque nela apareceriam demasiados "judeus e negros"), além de J. L. e, entre outros Harry James, Dei Moore, Jimmy Durante, Bob Stack, Jack Jones, Sammy Davis Jr., Les Browns e a orquestra, Carl Reiner, Mickey Rooney, Peter Falk, Sid Caesar, Stanley Kramer, etc.
Jerry Lewis possui uma estação de rádio privada: a K.J.P.L.É ainda a figura principal de um magazine de "histórias em quadradinhos" que tem o seu nome. Gravou igualmente vários discos e fundou um curso de arte dramática. Utiliza os alunos nos seus filmes. Todas as películas interpretadas por Jerry Lewis (até 1965) foram produzidas pela Paramount, em geral por Hal Wallis e depois pelo próprio Jerry Lewis. A sua casa produtora chamou-se primeiramente York-Films e depois Jerry Lewis Films Incorporated. A partir de 1965, o actor preferiu produzir inteiramente os seus filmes e entregá-los depois a uma companhia que os distribui internacionalmente. Caso da Columbia, para “Uma Poltrona para Três” e “O Charlatão”; caso de United Artists para “One More Time”, por exemplo.
Jerry tentou igualmente a construção de uma cadeia de pequenos cinemas. Os E.U.A. e o Canadá chegaram a contar mais de cem salas e inaugurou o primeiro "Jerry Lewis Cinema" na Europa, em Paris. A partir dos anos 70, a sua estrela deixou de brilhar tão intensamente. Filmes como “Vai Trabalhar, Malandro!” ou “Jerry Tu és Louco” foram relativos fracassos de bilheteira. Alguns cineastas lembram-se dele para aparições de homenagem, como em “O Rei da Comédia”, de Martin Scorsese (1982), “Cookie”, de Susan Seidelman (1989), “Sábado à Noite”, de Billy Crystal e “Arizona”, de Emir Kusturica (ambos de 1992) ou “Comédia Louca”, de Peter Chelsom (1995). Presentemente anunciam-se projectos onde vai surgir: “The Trust”, de Alex Brewer, Ben Brewer (2016), ou “Big Finish”, do argentino Martin Guigui (em preparação).

Principais filmes:
1. Filmes da dupla Jerry Lewis / Dean Martin
1949: My Friend Irma (A Minha Amiga Irma), de George Marshall; 1950: My Friend Irma Goes West (A Minha Amiga Maluca), de Hal Walker; At War with the Army (Recrutas...Sentido!), de Hal Walker; That's My Boy (Eles no Colégio), de Hal Walker; 1952: Sailor Beware (Marujo, o Conquistador), de Hal Walker; Jumping Jacks (Os Heróis do Medo), de Norman Taurog; 1953: The Stooge (O Estoira-Vergas), de Norman Taurog; Scared Stiff (O Castelo do Terror), de George Marshall; The Caddy (O Grande Jogador), de Norman Taurog; 1954: Money From Home (Dinheiro em Caixa), de George Marshall; Living it Up (O Rapaz Atómico), de Norman Taurog; Three Ring Circus (O Rei do Circo), de Joseph Pevney; 1955: You're Never Too Young (Barbeiro e Professor), de Norman Taurog; Artists And Models IPintores e Raparigas), de Frank Tashlin; 1956: Pardners (O Rei do Laço), de Norman Taurog; Hollywood or Bust (Um Espada para Hollywood), de Frank Tashlin.

2. Filmes protagonizados por Jerry Lewis
1957: The Delicate Delinquent (O Delinquente Delicado), de Don McGuire; The Sad Sack (O Herói do Regimento), de George Marshall; 1958: Rock A Bye Baby (Jerry Ama-Seca), de Frank Tashlin; The Geisha Boy (Jerry no Japão), de Frank Tashlin; 1959: Don't Give Up the Ship (Capitão sem Barco), de Normal Taurog; 1960: Visit to a Small Planet (O Primeiro Turista do Espaço), de Norman Taurog; Cinderella (Cinderelo dos Pés Grandes), de Frank Tashlin; 1962: It's Only Money (Dinheiro e Só Dinheiro), de Frank Tashlin; 1963: Who's Minding the Store (Um Namorado com Sorte), de Frank Tashlin; 1964: The Disorderly Orderly (Jerry, Enfermeiro sem Diploma), de Frank Tashlin; 1965: Boeing-Boeing (Boeinq-Boeinq), de John Rich; 1966: Way ... Way Out (Um Maluco em Órbita), de Gordon Douglas; 1968: Don't Raise The Bridge, Lower The River (Jerry em Londres), de Jerry Paris; 1969: Hook, Llne And Sinker (Jerry, Pescador em Águas Turvas), de George Marshall;
Para além destes filmes, onde Jerry Lewis desempenha sempre o principal papel, outros houve onde fez curtas aparições, como guest star: 1959: Lll'Abner (No País da Alegria), de Norman Panama; 1963: It's A Mad, Mad, Mad, Mad World (0 Mundo Maluco), de Stanley Kramer; 1982: “The King of Comedy” (O Rei da Comédia), de Martin Scorsese; 1989: “Cookie”, de Susan Seidelman, 1992: “Mr. Saturday Night” (Sábado à Noite), de Billy Crystal e “Arizona”, de Emir Kusturica, ou 1995: “Funny Bones” (Comédia Louca), de Peter Chelsom). 

3. Realizações de Jerrv Lewis

1960: The Bellboy (Jerry no Grande Hotel); 1961: The Ladie's Man (0 Homem das Mulheres); The Errand Boy (O Mandarete);1963: The Nutty Professor (As Noites do Dr. Jerryl); 1964: The Patsy (Jerry 8 3/4); 1965: The Family Jewels (Jerry e os 6 Tios); 1966: Three on a Couch (Uma Poltrona para Três); 1967: The Big Mouth (0 Charlatão); 1969: Which Way to the Front? (0nde Fica a Guerra?); 1970: One More Time (0 Morto Era o Outro); 1972: Le Jour ou le Clown Pleura (filme congelado por um diferendo entre o produtor e J. Lewis); 1980: Hardly Working (Vai Trabalhar, Malandro!); 1983: Smorgasbord (Jerry, Tu és Louco). 

SESSÃO 5 - 1 DE MARÇO DE 2016


JERRY 8 3/4 (1964)

Com “The Nutty Professor” (As Noites do Dr. Jerryl), de 1963, “The Patsy” (Jerry 8 3/4), do ano seguinte, Jerry Lewis afirma-se não só como um dos grandes génios da comédia cinematográfica, mas igualmente como um grande cineasta e um autor completo. Ele não é só o actor que reinventa um género, mas também um argumentista talentoso e extremamente inteligente e, ao mesmo tempo, um realizador subtil, sensível, inovador, moderno.
“The Patsy” em português pode ter várias interpretações, desde pacóvio, tolo, ingénuo, trouxa, bode expiatório mas, em todas elas, acabará por resumir-se a alguém que, pelas suas características, facilmente se deixa enganar. O título português procura apanhar o impacto de Fellini 8 ½, estreado anos antes, para o associar a esta obra de Jerry que também se passa no mundo do cinema. Não é a Cinecittà de Fellini, mas Hollywood. A Hollywood dos sonhos de Malcolm Smith, um certo cinéfilo fanático de “Um Espada para Hollywood” que agora surge na figura de um empregado de hotel na meca do cinema, que um dia se descobre elevado à categoria de estrela do mundo do espectáculo, sem que tenha feito nada para isso.
Na verdade, nas imagens iniciais a câmara acompanha o despenhar de um avião e sabe-se depois que entre os passageiros se encontrava o célebre comediante Wally Brandford. Os jornais choram a morte do popular actor, mas a sua equipa chora o facto de poder vir a ficar sem emprego. Quem escreve os guiões, quem trata do marketing, quem responde ao correio, quem se ocupa da imagem do actor, quem apura a voz ou quem examina os contratos, sem actor fica desempregado. A menos que surja rapidamente alguém que o substitua. Mas quem pode ser esse alguém, que seja suficientemente ingénuo e manejável para se adaptar ao papel? É nessa altura da reunião que entra Stanley Belt (Jerry Lewis) com a bandeja com taças e champanhe para a equipa afastar as mágoas. A entrada é, como se espera, a mais desastrada possível e Stanley é desde logo olhado como possível sucessor do defunto. E todos se aprestam em transformar o desajeitado bell boy num actor de primeiríssima água. Lições de dicção, de música, de arte de representar, de boas maneiras, idas ao alfaiate das vedetas (onde Stanley Belt quer fatos ao jeito de George Raft e descobre ali ao lado o seu intérprete preferido), visitas a cabeleireiros de nomeada, tudo fazem os membros da equipa para não ficarem no desemprego. Mas a personagem visada não mostra qualquer tipo de progressos nesta difícil arte de ser quem não é. 


Ele é duro de ouvido para gravar canções, mas a oportunidade é excelente para se assistir a um fabuloso trio de cantoras, todas elas interpretadas por Jerry Lewis de forma magistral. Dão-se festas de lançamento da nova coqueluche de Hollywood, o que permite a Stanley recordar outros bailes da sua juventude onde tudo corre mal. Mas na festa cruza-se com Hedda Hopper, a própria, uma das mais célebres bisbilhoteiras de Los Angeles, a quem faz notar o horrível chapéu que exibe. Ela acha graça e começa a lançar as bases da moralidade do filme: a autenticidade é o mais importante a vida. Só quando Stanley se descobre igual a si próprio, durante um “The Ed Sullivan Show”, é que a magia nasce. “Tentaram transformar-me no que não sou”, lamenta-se Stanley Belt. O argumento de Jerry Lewis e Bill Richmond é extremamente bem desenvolvido e inteligente na forma como analisa alguns aspectos da máquina de criar e triturar vedetas do mundo do “show business”, no artificialismo desta fábrica de sonhos (a cena final procura mesmo “mostrar” como realidade e ficção se podem associar na manipulação do espectador). A fotografia de W. Wallace Kelleyé magnífica, bem como o cuidado posto na decoração e nos ambientes. Na interpretação, Jerry Lewis procura obviamente homenagear alguns grandes actores como Peter Lorre, Everett Sloane, Phil Harris, Keenan Wynn, John Carradine ou a jovem e bonita Ina Balin, que constituem a equipa órfã de vedeta, mas também uma série de outros que aparecem fugazmente nos chamados “cameos” e que vão dos já citados George Raft, Hedda Hopper ou Ed Sullivan, a Ed Wynn, Mel Tormé, Rhonda Fleming, Scatman Crothers, Phil Foster, Billy Beck, Hans Conried, Richard Deacon, Del Moore, Neil Hamilton, Buddy Lester, Nancy Kulp, Norman Alden, Jack Albertson, Richard Bakalyan, Jerry Dunphy, Kathleen Freeman, Norman Leavitt, Eddie Ryder, Lloyd Thaxton, Lorne Greene, Pernell Roberts, Michael Landon, Dan Blocker e Fritz Feld. Até o argumentista Bill Richmond tem uma curta aparição, como pianista. Personalidades umas mais conhecidas do grande público do que outras (mas todas bastante reconhecíveis para as plateias norte-americanas), o seu aparecimento nesta obra é um óbvio reconhecimento do seu talento e uma justa homenagem do cineasta aos seus pares. Este foi o último filme de Peter Lorre, que morre antes da sua estreia, e um dos derradeiros de Everett Sloane (este actor desaparece depois de integrar outro filme ao lado de Jerry Lewis, “The Disorderly Orderly”, igualmente de 1964).
“The Patsy” inicialmente chamava-se “Son of Bellboy”, procurando de certa forma ser uma continuação de “The Bellboy” (Jerry no Grande Hotel), primeira realização de Jerry Lewis em 1960. Inclusive o protagonista de ambos chama-se Stanley.
Curiosidades extras: a cena inicial do desastre de avião foi inicialmente rodada para "The Mountain" (A Montanha), de Edward Dmytryk (1956). Introduzida com aproposito nesta obra. Existe um filme de 1928, interpretado por Marion Davies, chamado igualmente “The Patsy”. Nada a ver com este.


JERRY 8 3/4
Título original: The Patsy
Realização: Jerry Lewis (EUA, 1964); Argumento: Jerry Lewis, Bill Richmond; Produção: Ernest D. Glucksman, Arthur P. Schmidt; Música: David Raksin; Fotografia (cor):W. Wallace Kelley; Montagem: John Woodcock; Casting: Edward R. Morse; Direcção artística: Cary Odell, Hal Pereira; Decoração: Sam Comer, Ray Moyer; Guarda-roupa: Edith Head; Maquilhagem: Nellie Manley, Wally Manley, Harry Ray, Jack Stone, Wally Westmore; Direcção de Produção: William Davidson; Assistentes de realização: Ralph Axness, Dale Coleman, Howard Roessel; Departamento de arte: Jim Cottrell, Earl Olin, Gene Lauritzen, Martin Pendleton; Som: Howard Beals, Charles Grenzbach, Hugo Grenzbach, Bud Parman; Efeitos visuais: Farciot Edouart, Paul K. Lerpae; Companhias de produção: Paramount Pictures, Patti Enterprises; Intérpretes: Jerry Lewis (Stanley Belt / SingCantoras do Trio), Ina Balin (Ellen Betz), Everett Sloane (Caryl Fergusson), Phil Harris (Chic Wymore), Keenan (Harry Silver), Peter Lorre (Morgan Heywood), John Carradine (Bruce Alden), Hans Conried (Prof. Mulerr), Richard Deacon (Sy Devore), Del Moore (policia), Scatman Crothers (engraxador), Neil Hamilton (barbeiro), Buddy Lester, Nancy Kulp, Lloyd Thaxton, Norman Alden, Jack Albertson, Henry Slate, Gavin Gordon, Ned Wynn, Rhonda Fleming (Rhonda Fleming), Phil (Mayo Sloan), Hedda Hoppe (Hedda Hopper), George Raft (George Raft), Mel Tormé (Mel Tormé), Ed Wynn (Ed Wynn), Ed Sullivan (Ed Sullivan), The Four Step Brothers (The Step Brothers), etc. Duração: 101 minutos; Distribuição em Portugal: Lusomundo Audiovisuais; Classificação etária: M/ 6 anos.

JERRY LEWIS E A COMÉDIA NORTE-AMERICANA
A comédia americana teve, entre os anos 20 e 30 do século XX, um período particularmente brilhante, durante o qual o burlesco foi rei. São desta época os nomes de Charles Chaplin, Buster Keaton, Mack Sennett, Harold Lloyd, Irmãos Marx, W. C. Fields, Harry Langdon, Laurel e Hardy, Chester Conckin, Mack Swain, Mabel Normand, Ben Turpin, Larry Sernon, Fatty Arbuckle, Charley Chase, Andy Clyde, Louise Fazenda, Joe. E. Brown e alguns mais.
Utilizando os mais variados processos e recorrendo a figuras de características muito diversas, os actores atrás mencionados nada deixaram de pé, após a sua passagem explosiva e purificadora. Era o período das gargalhadas mortíferas que provocavam uma autêntica política de "terra queimada". Depois seguiu-se um tempo relativamente descolorido e medíocre que caracterizou as duas décadas seguintes e se prolongou ameaçadoramente pelos anos de 60. Havia ainda em 40 cineastas como Frank Capra, Leo McCarey, Frank Tashlin, Howard Hawks, George Stevens, entre outros, que nos deram comédias admiráveis. Mas nunca mais apareceu o grande cómico de completa autoria. Os homens para todo o serviço, do drama à comédia, abundavam, em contrapartida. Referimo-nos a Norman Taurog, Michael Gordon, Henry Koster, George Marshall, Normam Panama, Richard Thrope, Joshua Logan, Norman Jevison (na sua primeira fase), Charles Walters, George Sidney, etc., etc. O que não quer dizer que por vezes esses realizadores não lograssem obras de referir. Já na década de 60, como exemplo, aqui deixamos alguns títulos que melhor ilustram a permanência de um género de tradições nobres nos E.U.A: “Conversa de Travesseiro” (Michel Gordon), “Ela e os seus Maridos” (J. lee Thompson), “Uma Americana em Paris” (Robert Parrish), “O Mundo Maluco” (Stanley Krarner), “Vêm aí os Russos!” (Norman Jewison), “As Noivas do Papá” ou “Quando Ele era Ela” (Vincente Minnelli), etc.
Mas os anos de 60, para além de meia dúzia de revelações, rodam-se sob os auspícios de Billy Wilder (“Quanto Mais Quente, Melhor”, “Beija-me Idiota”, “O Apartamento”, “Irma, La Douce”, “Como Ganhar um Milhão”, “A Vida Intima de Sherlock Holmes”, “Amor à Italiana” ou “A Primeira 'Página”); Richard Quine (“Sortilégio de Amor”, “Quando Paris Delira”, “A Ingénua e o Atrevido”, “Como Matar sua Mulher”); Blake Edwards (“A Pantera Cor-de-Rosa”, “Um tiro às Escuras”, “A Grande Corrida à Volta do-Mundo”, “What Did Vou Do in the War Daddy?” ou “A Festa”) e Jerry Lewis. Sobretudo Jerry Lewis. Retomando a tradição dos grandes criadores (Chaplin, Keaton, Marx, Lloyd, etc.), Jerry Lewis foi por essa altura o único a poder ombrear com o nome dos seus geniais predecessores. Posteriormente haveria que ter em conta um autor/actor como Woody Allen (“O Inimigo Público”, “Bananas”, “O Grande Conquistador”. “O ABC do Amor”, “O Herói do Ano 2.000” e tantos outros filmes que alternam a comédia e o drama, por vezes num registo de belíssimo humor da melhor tradição judaica da língua yiddish), ou um cineasta também actor (e também judeu) como Mel Brooks (“O Falhado Amoroso”, “Balbúrdia no Oeste” ou “Frankenstein Júnior”). A verdade é que Jerry Lewis, Woody Allen e Mel Brooks asseguraram um lugar insubstituível ao "humor judeu" norte-americano.
Depois do riso demolidor dos irmãos Marx, depois da turbulência exaustiva de Bucha e Estica, depois do trágico lirismo de um Chaplin ou Keaton, Jerry Lewis, sobretudo a partir de 1960 (data da sua primeira realização, “Jerry no Grande Hotel”), aparece-nos como o mais directo continuador desses cómicos geniais.
A carreira de Jerry Lewis pode dividir-se cronologicamente em três períodos de características definidas, denunciando um esforço contínuo e sistemático de renovação e superação, de amadurecimento de linguagem e enriquecimento de processos.
Quando, em 1949, Hal Wallis contrata a dupla Jerry Lewis-Dean Martin, oferecendo-lhe uma carreira na Paramount, ele pensava sobretudo em arranjar substitutos para uma outra dupla que caía progressivamente em descrédito (Abbott e Costello). Durante alguns anos, grande parte do público e a maioria da crítica teimou em ver neles sucessores menores do burlesco. Jerry Lewis, embora colocado nos “top ten” dos filmes do ano (no que se refere a receitas, logo a adesão de público), era crismado de "palhaço", mero fazedor de "caretas" gratuitas, cómico de segundo plano. Raros foram os eleitos que, para lá do aparente desinteresse de certos filmes (devido à banalidade de alguns argumentos e à mediocridade da realização de quase todos), vislumbraram uma personalidade própria, um cómico de características seguras, um actor que, de obra para obra, aperfeiçoava o seu jogo, dominava os fabulosos recursos histriónicos e gestuais, impondo uma figura e, por detrás dela, uma personalidade.
Nesta primeira época, que vai até 1956, Jerry Lewis (sempre acompanhado por Dean Martin) interpretou dezasseis títulos que, de um modo geral, parodiaram, de forma irregular e resultados variáveis, algumas instituições americanas e diversos "géneros" da cinematografia daquele país. Ele havia passado pelas forças armadas, satirizando o exército ("Recrutas... Sentido"), a marinha ("Marujo, o Conquistador"), a aviação, melhor dizendo, os paraquedistas ("Os Heróis do Medo"), e também as experiências atómicas e o sensacionalismo dos mass media ("O Rapaz Atómico"), o golf ("O Grande Jogador"), as corridas de cavalos ("Dinheiro em Caixa"), o filme de terror ("O Castelo do Terror"), o western ("O Rei do Laço"), o circo ("O Rei do Circo"), o show business ("O Estoira Vergas"), os comics, o filme de gangsters e o "musical" ("Pintores e Raparigas"), Hollywood e o star system ("Um Espada para Hollywood), etc.
À mediocridade de alguns destes filmes, opõe-se a riqueza de imaginação, a vertiginosa sucessão de gags, a fulgurante acutilância crítica de um Frank Tashlin (autor de "Pintores e Raparigas" e "Um Espada para Hollywood"), cuja colaboração com Jerry Lewis parece ter sido profundamente influente na futura carreira do actor. Somente, e por instantes, Norman Taurog se lhe assemelha, nalgumas sequências de "Os Estoiras Vergas", "O Rapaz Atómico" ou "Barbeiro e Professor". Muito, porém, do que de melhor vários destes filmes da primeira fase de Jerry Lewis comportam é-lhe ainda devido, dado que, sob diversos pseudónimos, é o actor quem interfere ao nível da criação de gags e seu desenvolvimento. Com a ruptura verificada em 1956 entre Jerry Lewis e Dean Martin (ruptura essa que é consequência em grande parte, de ciúmes deste último, em virtude do êxito popular do sócio, que lhe ensombrava a imagem), o primeiro torna-se o seu próprio produtor, rodando sob a direcção de Tashlin (de alguma forma, a partir daqui, seu "mestre espiritual"), várias obras de que é protagonista isolado: "Jerry, Ama-seca", "Jerry no Japão", "Cinderelo dos Pés Grandes", "Dinheiro e só Dinheiro", "Um Namorado com Sorte", "Jerry, Enfermeiro sem Diploma", entremeadas com outras que não se lhes comparam em importância e significado. Os contornos da figura de Jerry Lewis vão-se definindo, ganhando contextura, multiplicando-se já em heterónimos, partes de um mesmo todo que o actor pulveriza em direcções diversas. Entre a grande ingenuidade e o profundo pânico perante a realidade que o cerca e a que se não consegue adaptar facilmente, entre a pesada herança do matriarcado e o pavor do sexo oposto, entre o culto abnegado da amizade, que o conduz a situações de excessiva boa vontade (que contra ele próprio se voltam), e a crueldade da humilhação física e moral a que constantemente o sujeitam, entre a inconsciência do perigo e a solidão desesperante, Jerry vai progressivamente desenhando uma personagem que, em traços excessivos é certo, mas de rara lucidez, nos devolve a fisionomia do americano médio, povoado de temores e frustrações, aterrorizado (e fascinado) pelo envolvimento mecânico, pela agressividade do comportamento, pelos traumas colectivos. Um dia, o crítico Robert Benayoun chamou-lhe um "anti-James Dean" e com alguma razão, dado que a figura de "desadaptado" em relação à realidade social norte-americana se expressa a um nível de total desromantização, de ruptura risível. Produto de uma sociedade industrializada até à medula, competitiva ao desregramento, ele é o retrato robot desse descontrolamento geral, que em termos sociológicos se poderá chamar "alienação". Uma personagem em busca de uma identidade, de um equilíbrio impossível, eis Jerry Lewis.

A partir de 1960, à dupla responsabilidade de actor-produtor, alia a de realizador e argumentista creditado. O cómico atingiu a estatura de "autor total" e assume-se por inteiro. "Jerry no Grande Hotel" assinala a estreia e, daí em diante, dez títulos impõem-no como uma das grandes certezas não só da comédia americana, como da cinematografia moderna. Em 1963, com "As Noites Loucas do Dr. Jerryll" (que será possivelmente uma das suas obras mais perfeitas), adapta "O Médico e o Monstro", de Robert L. Stevenson e, a partir dessa base, critica asperamente uma América onde o "intelectual é vexado e ridicularizado e cujo génio é motivo para gracejos perpétuos (Julius Kelp) e onde o monstro da agressiva vulgaridade (Buddy Love) é preferido e louvado" (Benayoun dixit). 

domingo, 21 de fevereiro de 2016

SESSÃO 4 - 23 DE FEVEREIRO DE 2016


UM ESPADA PARA HOLLYWOOD (1956)

Antes da sua actividade a solo, como actor, argumentista, por vezes produtor, quase sempre realizador, Jerry Lewis teve um período durante o qual dividiu o protagonismo com Dean Martin, constituindo-se assim numa dupla que teve grande sucesso. A dupla surge em 1949, em “A Minha Amiga Irma” (My Friend Irma), de George Marshall, e dura 17 títulos e sete anos, precisamente até 1956, quando rodam “Hollywood or Bust”, tendo depois cada um dos actores seguido carreiras a solo bem-sucedidas. Dean Martin era o romântico sedutor que cantava melodias seguramente bem xaroposas e Jerry Lewis era invariavelmente o desajeitado bem-intencionado que punha tudo de pantanas com a sua inabilidade. A dupla funcionava com a complementaridade habitual destes casos (Bucha e Estica, Abbott e Costelo, etc.) e lançou filmes quase sempre de riso seguro, mas nem sempre de qualidade cinematográfica inabalável. Por vezes alguns cineastas mais hábeis conseguiam unir o útil ao agradável e geraram-se então obras muito interessantes. Norman Panama ou Frank Tashlin estão neste caso, sobretudo este último, que dirige exactamente “Um Espada Para Hollywood”.


Esta é a história de Malcolm Smith, um cinéfilo fanático que sonha com Anita Ekberg, uma das vamps mais em voga no cinema internacional (que o diga a sua participação em “Fellini 8 ½”, quatro anos depois). Esta é igualmente a história de Steve Wiley, um pequeno burlão a contas com uma dívida de 3000 dólares contraída junto de um mafioso violento. Um e outro encontram-se na plateia de um teatro de Nova Iorque onde se sorteia um daqueles carros americanos a que se chamava “espada”. Malcolm Smith comprou quase todas as rifas, porque quer ir a Hollywood encontrar-se com a sua actriz preferida. Steve Wiley falsificou todas as rifas, duplicando-as, por forma a antecipar-se a todos os concorrentes, ganhar o carro e fugir para a costa oeste. Surgem assim dois vencedores, uma mesma viagem repartida, um a cantar canções delicodoces, o outro a protagonizar as maiores trapalhadas sempre com a melhor das boas vontades e um tique muito especial para acertar na máquina do jackpot. A viagem de uma costa à outra dos EUA é um desfile de Estados, usos e costumes, paisagens e pin ups indescritíveis, com acidentes e peripécias ilimitadas (desde a velhinha assaltante até ao touro que Jerry toma por vaca leiteira), criando uma sucessão de gags bastante bem explorados pela câmara de Tashlin. Kitsch? Sim, e de que maneira! Mas em muitos dos casos um kitsch assumido e crítico, noutros uma poeira dos tempos que também merece ser apreciada. O genérico é desde logo delicioso e a apresentação de Dean Martin dos cinéfilos das diferentes latitudes do mundo uma obra-prima, onde Jerry Lewis se multiplica em personagens magníficas. Só esse início merece o bilhete. Mas o resto situa-se a muito bom nível e antecipa o grande Jerry que viria a seguir.


UM ESPADA PARA HOLLYWOOD
Título original: Hollywood or Bust
Realização: Frank Tashlin (EUA, 1956); Argumento: Erna Lazarus, Frank Tashlin; Produção: Paul Nathan, Hal B. Wallis; Música: Walter Scharf; Fotografia (cor): Daniel L. Fapp; Montagem: Howard A. Smith; Direcção artística: Henry Bumstead, Hal Pereira; Decoração: Fay Babcock, Sam Comer; Guarda-roupa: Edith Head; Maquilhagem: Wally Westmore; Assistentes de realização: James A. Rosenberger, William Watson, Charles C. Coleman, Gary Nelson; Som: Gene Garvin, Hugo Grenzbac; Efeitos visuais: Farciot Edouart, John P. Fulton; Companhias de produção: Paramount Pictures; Intérpretes: Dean Martin (Steve Wiley), Jerry Lewis (Malcolm Smith), Pat Crowley (Terry Roberts), Max 'Slapsie Maxie' Rosenbloom (Bookie Benny), Anita Ekberg (Anita), Valerie Allen, Leon Alton, Adelle August, Nick Borgani, Paul Bradley, Catherine Brousset, Drew Cahill, Kathryn Card, Paul Cristo, Jack Deery, Jack Delrio, Beach Dickerson, Alphonso DuBois, Minta Durfee, Dominic Fidelibus, Rudy Germane, Joe Gray, Sam Harris, Frank Wilcox, etc. Duração: 95 minutos; Distribuição em Portugal (DVD): Feel Films; Classificação etária: M/ 12 anos.

FRANK TASHLIN 
(1913-1972)
Frank Tashlin, cujo nome de baptismo era Francis Fredrick von Taschlein, nasceu a 19 de Fevereiro de 1913 em Weehawken, New Jersey, EUA, e morreu a 5 de Maio de 1972, em Los Angeles, Califórnia, EUA. Iniciou a sua carreira, nos anos 30 do século XX, como desenhador sob o comando de Paul Terry, na série de animação “Aesop's Film Fables”, passando depois pelo produtor Amadee J. Van Beuren, e pelos estúdios da Warner Bros. Em 1934 cria uma série, “Van Boring”, que ficou a dever muito ao seu anterior mestre Van Beuren. Continua nos estúdios de Ub Iwerks, depois é contratado por Hal Roach como argumentista e criador de gags. Em 1938, vamos encontrá-lo já a trabalhar para Walt Disney, ainda como argumentista, saltando para a Columbia Pictures em 1941, acumulando funções de produção. Mas a animação não o abandona e, em 1943, volta à Warner, onde desenvolve avultado trabalho. São deste tempo, durante a II Guerra Mundial, os cartoons do soldado Snafu. Abandona a animação e dedica-se sobretudo à tarefa de gagman para os Marx Brothers e Lucille Ball ou de escritor de argumento para filmes de Bob Hope ou Red Skelton. Depois de dezenas de curtas-metragens, estreia-se na realização de filmes de fundo, em 1951, com “O Vigarista” (The Lemon Drop Kid), com Bob Hope, mas não aparece creditado no genérico (a realização surge assinada por Sidney Lanfield). A sua primeira longa-metragem é por isso “The First Time”, do ano seguinte. Autor dedicado sobretudo ao humor, para onde importa muito da sua experiência como criador de animação e gagman, Tashlin assina um belo conjunto de comédias como “The Girl Can't Help It”, “Artists and Models”, “Hollywood or Bust”, “Will Success Spoil Rock Hunter?”, “Rock-A-Bye Baby”, “The Geisha Boy”, “Cinderfella”, “It's Only Money”, “Who's Minding the Store?” ou "The Disorderly Orderly". Muitos destes títulos marcam a carreira de Jerry Lewis a solo, sendo que Tashlin é um dos seus mestres incontestáveis. Ainda dirigiu alguns outros filmes interessantes, mas a sua carreira decaiu a partir de meados da década 60. “The Man from the Diners' Club”, com Danny Kaye, "The Alphabet Murders” ou "The Glass Bottom Boat" são títulos ainda a registar.

Principais filmes:

Como realizador inicia-se, entre 1933 e 1947, com dezenas de curtas-metragens de animação e algumas em imagem real. Em 1951, estreia-se na longa-metragem com “The Lemon Drop Kid”, mas o seu nome desaparece do genérico. “The First Time” é o seu primeiro filme de fundo, a que se segue “Son of Paleface” (O Filho do Valentão), ambos de 1952. Outros títulos importantes: 1954: Susan Slept Here (As Três Noites de Susana); 1955: Artists and Models (Artistas e Raparigas); 1956: The Lieutenant Wore Skirts (O Tenente Usava Saias); The Girl Can’t Help It (Uma Rapariga com Sorte); Hollywood or Bust (Um Espada para Hollywood); 1957: Will Success Spoil Rock Hunter? (A Loira Explosiva); 1958: Rock-a-Bye Baby (Jerry Ama-Seca); The Geisha Boy (Jerry no Japão); 1959: Say One for Me (O Céu por Testemunha); 1960: Cinderfella (Cinderelo dos Pés Grandes); 1961: Snow White and the Three Stooges (Branca de Neve e os três Estarolas (não creditado); 1963: Who’s Minding the Store? (Um Namorado com Sorte); The Man from the Diners' Club (O Homem do Diners' Club); 1964: The Disorder Orderly (Jerry, Enfermeiro sem Diploma); 1965: The Alphabet Murders (O Alfabeto do Crime); 1966: The Glass Bottom Boat (Espia em Calcinhas de Renda); 1967: Caprice (Um Perigo Chamado Capricho).