segunda-feira, 21 de março de 2016

SESSÃO 10 - 5 DE ABRIL DE 2016


A GRANDE PARÓDIA (1966)

Gérard Oury (1919-2006) é um curioso realizador francês que começou a sua carreira como actor, depois passou a realizador de filmes sobretudo policiais e de aventura, até se centrar na comédia, em meados dos anos 60 do século XX, com excelentes resultados de bilheteira e mesmo de crítica. “O Oportunista” (1965), “A Grande Paródia” (1966), “O Cérebro” (1969), “A Mania das Grandezas” (1971) ou “As Aventuras do Rabi Jacob” (1973) marcam o seu melhor período com “La Grande Vadrouille” a assumir destacado lugar nas preferências do público francês: ainda hoje os 17 milhões de espectadores na estreia, só foram ultrapassados por um outro título “Titanic”. “Bienvenue chez les Ch'tis” (Bem Vindo ao Norte) bateu-o em receitas, mas não em número de espectadores.
Casado com a belíssima actriz Michèle Morgan (1960 - 2006), Gérard Oury teve uma formação clássica, foi actor na Comédie-Française, mas foi a sua amizade e colaboração com actores como Bourvil, Louis de Funès ou Jean-Paul Belmondo, com quem trabalhou particularmente que lhe trouxeram os louros de que ainda hoje se pode orgulhar, dado que permanece um dos mais vistos realizadores franceses de sempre. Quando “A Grande Paródia” passa num qualquer canal de televisão francesa o sucesso é garantido.
Gérard Oury, que escreveu o argumento desta comédia, em colaboração com Danièle Thompson, Marcel Jullian, Georges Tabet e André Tabet, conheceu bem a época da Ocupação nazi em França, dadas as suas origens judaicas, que o obrigou a fugir do país durante a primeira metade da década de 40. É nesse período que se passa “La Grande Vadrouille”.

Durante um raide da britânica Royal Air Force em céus franceses, três pilotos são obrigados a lançarem-se de paraquedas, depois do avião onde seguiam ter sido atingido. Cada um vai para seu lado e precisam desesperadamente do auxílio de franceses para escaparem aos nazis que patrulham as avenidas e estradas. Um deles vai cair junto de um operário que pinta a fachada de um prédio, Augustin Bouvet (Bourvil), o outro refugia-se junto do maestro Stanislas Lefort (Louis de Funès), que ensaia um concerto na Ópera. Claro que ambos os franceses, apesar de muito diferentes em muitos aspectos, resolvem ajudar os ingleses e tentar colocá-los a salvo, fora das fronteiras gaulesas ocupadas. A história de base é esta e será este esquema que permitirá um conjunto de peripécias que irão despoletar uma torrente de gargalhadas e sorrisos, sobretudo porque a direcção de Gérard Oury é fluente e elegante e as interpretações de Louis de Funès, Bourvil e Terry-Thomas são excepcionais, muito bem acompanhadas por todo o restante elenco.
Mas a reunião de actores como Louis de Funès e Bourvil, quase sempre a intervirem em conjunto, mesmo numa determinada sequência, um às cavalitas do outro, colocou alguns problemas ao realizador, dada as características diversas dos dois intérpretes. Ao que consta Bourvil era um adepto de vários ensaios antes de começar a rodar, e Louis de Funès, pelo contrário, não ensaiava antes de filmar e ia aprimorando a representação à medida que as takes que iam multiplicando. Um melhorava de cada vez que se repetia a filmagem do plano, outro ia perdendo espontaneidade e justeza.
Como em quase todos os filmes, falando apenas de cinema, onde aparecem duplas, a contradição é essencial. O gordo e o magro, o alto e o baixo, aqui o modesto operário pachorrento e o artista histérico e caprichoso. A definição das personagens funcionou brilhantemente, e esta diferença de comportamentos é uma das razões do sucesso do filme, logo do humor que lhe está subjacente.


Há sequências magníficas, desde o encontro nuns banhos turcos, onde os ingleses ficaram de se reunir, até uma outra passada numa pensão de província, onde os quartos dos franceses e dos alemães se confundem por uma ocasional troca de números. Uma perseguição numa carroça conduzida por uma jovem freira é outro momento hilariante, numa comédia onde estes se sucedem num ritmo muito bem estudado e programado. 
Louis de Funès foi um cómico dos mais populares em todo o mundo, apesar de não ser unânime a apreciação do seu estilo de humor. Para alguns é um dos génios da comédia, para outros os seus métodos são relativamente fáceis e repetitivos. Mas “La Grande Vadrouille” é indiscutivelmente um dos seus melhores trabalhos, onde mais controla o frenesim da sua representação e alguns tiques que multiplica invariavelmente. De resto, a presença do sólido Bourvil a seu lado muito contribui para o êxito desse filme. Nalguns aspectos, aliás, relembra um outro, interpretado por ambos, e por Jean Gabin, em 1956, “Ao Longo de Paris” (La Traversée de Paris), de Claude Autant-Lara, onde Louis de Funès tinha ainda um papel secundário.
Rodado quase todo em cenários naturais, exteriores e interiores (foi graças a André Malraux, Ministro da Cultura de então, que se pode filmar no interior da Opéra Garnier), o filme conta ainda com uma voluptuosa fotografia assinada por um mestre, Claude Renoir, filho do actor Pierre Renoir, sobrinho do realizador Jean Renoir e neto do pintor Pierre-Auguste Renoir.

A GRANDE PARÓDIA
Título original: La Grande Vadrouille
Realização: Gérard Oury (França, Inglaterra, 1966); Argumento: Gérard Oury, Danièle Thompson, Marcel Jullian, Georges Tabet, André Tabet; Produção: Robert Dorfmann; Música: Georges Auric; Fotografia (cor): André Domage, Claude Renoir; Montagem: Albert Jurgenson; Design de produção: Jean André, Théobald Meurisse; Guarda-roupa: Tanine Autré, Léon Zay; Maquilhagem: Odette Berroyer, Pierre Berroyer; Direcção de Produção: Pierre Saint-Blancat, Georges Vallon; Assistentes de realização: Claude Clément, Lucile Costa, Gérard Guérin; Departamento de arte: Robert André, Gabriel Béchir, Robert Christidès; Som: Antoine Bonfanti, Urbain Loiseau; Efeitos especiais: Daniel Braunschwe, Claude Carliez, Gil Delamare, Michel Durin, Pierre Durin, Jean Fouchet; Companhias de produção: Les Films Corona, The Rank Organisation; Intérpretes: Bourvil (Augustin Bouvet), Louis de Funès (Stanislas Lefort), Marie Dubois (Juliette), Terry-Thomas (Sir Reginald), Claudio Brook (Peter Cunningham), Andréa Parisy (Irmã Marie-Odile), Colette Brosset (Germaine), Mike Marshall (Alan MacIntosh), Mary Marquet (Madre Superiora), Pierre Berti, Benno Sterzenbach, Sieghardt Rupp, Reinhard Kolldehoff, Helmuth Schneider, Paul Préboist, Hans Meyer, Guy Grosso, Michel Modo, Peter Jacob, Rudy Lenoir, Noël Darzal, Pierre Roussel, Pierre Bastien, Jacques Sablon, Mag-Avril, Jacques Bodoin, Gabriel Gobin, Paul Mercey, Henri Génès, etc. Duração: 132 minutos; Distribuição em Portugal: Castello Lopes Multimédia; Classificação etária: M/ 12 anos.


LOUIS DE FUNÈS (1914-1983)
Louis Germain de Funès de Galarza nasceu a 31 de Julho de 1914, em Courbevoie, Hauts-de-Seine, França, e viria a falecer a 27 de Janeiro de 1983, em Nantes, Loire-Atlantique, França, vítima de um ataque de coração. O pai, Carlos Luis de Funès de Galarza, era advogado em Sevilha, e a mãe, Leonor Soto Reguera, tinha origem galega e ascendência portuguesa. Começou a aprender piano aos 5 anos. Estudou no Lycée Condorcet, em Paris, e, depois de passar por diversas profissões, trabalhou num bar como pianista. Olhos azuis, careca e de estatura baixa, nervoso e inquieto, de verbo fácil e trapalhão, de mimica esfusiante, nada indicaria tornar-se numa coqueluche de popularidade, alcançando o primeiro lugar nas preferências do público francês por diversas vezes. Estuda teatro com Simon. Começou a carreira no cinema em 1945, em “La Tentation de Barbizon”, de Jean Stelli, continuando a entrar no elenco de dezenas de filmes de todos os géneros, até se impor como protagonista e tornar-se mundialmente conhecido, a partir de 1964, ao interpretar pela primeira vez o seu personagem mais famoso, um mal-humorado gendarme. Mas os seus maiores êxitos estariam por vir, como “A Grande Paródia” ou “As Loucas Aventuras do Rabbi Jacob”. Entre 1964 e 1979, esteve sempre em lugar destacado no box-office de França, atingindo os 17,27 mihões de espectadores com “A Grande Paródia”. Nos anos 50 foi ganhando popularidade, com obras como “Ah ! les belles bacchantes” (1954), “La Traversée de Paris” (1956), “Comme un cheveu sur la soupe” (1957) ou “Ni vu, ni connu” (1958), continuando depois uma vasta filmografia donde se destacam inúmeros sucessos de público: “Pouic-Pouic” (1963), “Le Gendarme de Saint-Tropez” (1964) e continuações, a trilogia “Fantômas” (1964), “Le Corniaud” (1965), “La Grande Vadrouille” (1966), “Le Grand Restaurant” (1966), “Oscar” (1967), “Les Grandes Vacances” (1967), “Le Petit Baigneur” (1967), “Hibernatus” (1969), “Jo” (1971), “La Folie des Grandeurs” (1971), “Les Aventures de Rabbi Jacob” (1973), “L'Aile ou la Cuisse” (1976), “La Zizanie” (1977) e “La Soupe aux choux (1981). Escreveu vários argumentos e co-realizou com Jean Girault, “L'Avare”, segundo Moliere, em 1980.
A 21 de Março de 1975, enquanto representava no teatro “La Valse des Toréadors”, sente-se mal, e é-lhe diagnosticado um enfarte de miocárdio. No hospital, pouco depois, recai com novo enfarte. Permanece dois meses no hospital Necker, recupera, mas condiciona a partir daí toda a sua actividade. Herda parte e compra a restante do castelo de Clermont, onde passa a descansar nos intervalos de filmagens. Casado com Germaine Louise Elodie Carroyer (1936 - 1942) e Jeanne De Funès (1943 - 1983), esta última sobrinha de Guy de Maupassant.

Filmografia essencial (de um total de 157 títulos) / como actor: 1945: La Tentation de Barbizon, de Jean Stelli; 1947: Antoine et Antoinette (O Tonio e a Toninhas), de Jacques Becker; 1951: La poison, de Sacha Guitry; 1952: Ils étaient cinq, de Jack Pinoteau; Les Dents longue, de Daniel Gélin; 1953: La Vie d'un honnête homme, de Sacha Guitry; 1954: Les Intrigantes, de Henri Decoin; 1955: Napoléon (Napoleão), de Sacha Guitry; Si Paris nous était conté (Se Paris falasse...), de Sacha Guitry; 1956: La Traversée de Paris (Ao Longo de Paris), de Claude Autant-Lara; 1960: Le Capitaine Fracasse (O Capitão Sem Medo), de Pierre Gaspard-Huit; Candide ou l'optimisme au XXe siècle, de Norbert Carbonnaux; 1961: La Belle Américaine (A Bela Americana), de Robert Dhéry; 1964: Le gendarme de Saint-Tropez (O Gendarme de Saint Tropez), de Jean Girault; Fantômas (Fantomas), de André Hunebelle; 1965: Le Corniaud (O Oportunista), de Gérard Oury; Le gendarme à New York (O Gendarme em Nova Iorque), de Jean Girault; Fantômas se déchaîne (Fantomas Passa ao Ataque), de André Hunebelle; 1966: Le Grand Restaurant (O Grande Restaurante), de Jacques Besnard; La Grande Vadrouille (A Grande Paródia), de Gérard Oury; Fantômas contre Scotland Yard (Fantomas Contra a Scotland Yard), de André Hunebelle; 1967: Les grandes vacances (As Férias Grandes), de Jean Girault; Oscar (Onde está o Oscar?), de Édouard Molinaro; 1968: Le Petit Baigneur (O Pequeno Banhista), de Robert Dhéry; Le tatoué (Com a Fortuna às Costas), de Denys de La Patellière; Le gendarme se marie (O Gendarme Casa-se), de Jean Girault; 1969: Hibernatus (O Avozinho Congelado), de Édouard Molinaro; 1970: L'homme orchestre (O Homem Orquestra), de Serge Korber; Le gendarme en balade (O Gendarme em Férias, de Jean Girault; 1971: Sur un arbre perche (Numa Árvore Empoleirado), de Serge Korber; Jo (Um Buraco no Coreto), de Jean Girault; La folie des grandeurs (A Mania das Grandezas), de Gérard Oury; 1973: Les aventures de Rabbi Jacob (As Aventuras do Rabi Jacob), de Gérard Oury; 1976: L'aile ou la cuisse (O Peito ou a Perna), de Claude Zidi; 1978: La Zizanie (O Incorrigível Teimoso), de Daubray-Lacaze;1979: Le gendarme et les extra-terrestres (O Gendarme e os Extraterrestres), de Jean Girault; 1980: L'avare (O Avarento), de Louis de Funès e Jean Girault; 1981: La Soupe aux choux, de Jean Girault; 1982: Le gendarme et les gendarmettes (O Gendarme e as Gendarmetas), de Ludovic Cruchot.

Como realizador: 1980 O Avarento (juntamente com Jean Girault). 

SESSÃO 9 - 29 DE MARÇO DE 2016


O APAIXONADO (1962)

Não se poderá dizer que Pierre Étaix tenha sido um actor-realizador que tenha arregimentado uma legião de adeptos, mesmo no tempo em que foi mais celebrado, durante a década de 60 do século XX. Mas foi um nome considerado, respeitado e terá congregado um grupo de fiéis que viram nele um continuador inspirado e personalizado da obra de muitos outros cineastas que fizeram do humor o seu campo de batalha. Deve dizer-se desde logo que Pierre Étaix deve muito e prolonga o humor de Jacques Tati, com quem trabalhou em “O Meu Tio”. A mesma discrição, a mesma delicadeza, o mesmo olhar enternecedor sobre as pessoas. Mas haverá ainda algo de Chaplin, é óbvio (qual o cómico que o recusa?), muito de Buster Keaton, desde a quase ausência de expressão facial até uma certa tristeza interior que o habita, também um pouco de Harry Langdon, talvez até uma pitada da ingenuidade de Jerry Lewis, e alguma tradição francesa, seguramente via Max Linder. Quem escolhe como referência alguns dos melhores, não pode passar despercebido. Mas para ser grande é preciso ter uma personalidade própria, passar por todas essas influências mas criar uma obra pessoal, única. Pierre Étaix conseguiu-o e se, hoje em dia, não é mais conhecido isso deve-se seguramente a problemas vários que impediram os seus filmes de serem mostrados ao público durante décadas, em virtude de questões legais inultrapassáveis até há pouco. Só muito recentemente, para grande alegria dos seus fãs incondicionais, surgiu no mercado francês uma caixa com toda a sua obra cinematográfica, editada em DVD. São cinco longas-metragens e várias curtas que voltam a recordar um dos cineastas mais interessantes do cinema francês no domínio da comédia. Já agora, acrescente-se que a edição é muito cuidada, fazendo-se acompanhar de um livro de design esmerado que, infelizmente, pouca literatura informativa traz sobre o autor. Prevalece a fotografia sobre o texto, o que não satisfaz a necessidade de quem quer saber mais sobre a vida e a obra de Pierre Étaix. Mas o relançamento da obra deste cineasta e actor magnífico parece justificar finalmente um interesse mundial. A reposição das suas obras nos EUA, no Canadá e em França, para só citar alguns locais, tem sido calorosa. Razão de satisfação dupla para quem nunca o esqueceu desde os tempos em que viu pela vez primeira as suas obras no cinema.


“Le Soupirant”, de 1962, é a sua primeira longa-metragem e foi com espanto que foi recebida. É óbvia desde início a homenagem ao cinema mudo, na construção do gag, sobretudo visual, e pela quase ausência de diálogos. Mas não de sons, dado que o tratamento da banda sonora é complexo e extremamente curioso para a definição do humor. O início do filme é imediatamente desconcertante. Uma imagem que tudo indica ser um foguetão a descolar de alguma base de lançamentos, mas que se descobre depois que se trata do local de trabalho de um fanático por astrologia. Numa casa apalaçada, no interior de uma família nitidamente abonada, Pierre vive envolto no fumo dos seus cigarros e encerrado no seu quarto transformado num bunker de um apaixonado pela conquista do espaço. A mãe pinta, o pai bebe às escondidas, e uma sueca suspira por uma atenção de Pierre, que só tem olhos para o telescópio. Até que um dia os pais se revoltam e chamam a atenção do filho para a necessidade de ele se casar e iniciar uma vida normal. O mais rápido será perguntar à inquilina sueca que passa uns tempos em sua casa se quer casar com ele, mas a bela nórdica não domina a língua e não percebe as intenções do tímido e distraído lunático. Sai assim para a noite parisiense, em busca de uma mulher que queira casar com ele, e as peripécias são muitas, divertidas, oscilando entre o equívoco e o mal-entendido. Mas o humor é sempre de uma elegância e delicadeza invulgares, os gags construídos com uma sobriedade e rigor admiráveis, a economia de meios é absoluta e os resultados magníficos. “Le Soupirant” é definitivamente um filme admirável, onde a candura do protagonista se mescla a uma crítica social de fina observação, atenta ao pormenor, sibilina no remoque, mas nunca descuidando uma certa ternura para com as figuras visadas. A crítica expressa ao mundo do espectáculo e à forma como se aproveita a vedeta com fins comerciais é de uma evidente clareza e justeza. 


O rigor da escrita de Piere Étaix é raro numa primeira obra. A forma como compõe a figura de Pierre, sobre a qual assenta todo o filme, é notável, criando uma personagem lunática, cortada da realidade que, por imposição familiar, se vê obrigada a sair do seu casulo espacial, para se embrenhar na realidade, à procura do amor. Mas o amor não se procura, encontra-se e por vezes está ali mesmo ao virar da esquina ou mesmo paredes meias, ou frente aos olhos que, habituados a perscrutar o infinito, ignoram a realidade imediata.
Tendo começado a sua carreira como artista plástico, depois palhaço de circo, Etaix era um artista completo, dominando várias técnicas e exigindo de si sempre a perfeição. Um guião de um filme seu, a que chamava a “bíblia” durante a rodagem, agrupava a planificação técnica, o storyboard, com os desenhos de todos os planos do filme, retratos de personagens, descrições, etc.

O APAIXONADO
Título original: Le Soupirant
Realização: Pierre Étaix (França, 1962); Argumento: Pierre Étaix & Jean-Claude Carrière; Produção: Paul Claudon; Música: Jean Paillaud; Fotografia (p/b): Pierre Levent; Montagem: Pierre Gillette; Design de produção: Raymond Tournon; Maquilhagem: Anatole Paris; Direcção de Produção: Tonio Suné; Assistentes de realização: André Bureau, Claude Pierre-Bloch; Departamento de arte: Jean-Claude Carrière; Som: Jean Bertrand, Jean Nény; Companhias de produção: C.A.P.A.C., Cocinor, Copra Films; Intérpretes: Pierre Étaix (Pierre), France Arnel (Stella), Laurence Lignières (Laurence), Claude Massot (pai de Pierre), Denise Péronne (mãe de Pierre), Karin VeselyIlka), Robert Blome, Pierre Maguelon, Dominique Clément, Dora Diana, Bernard Dumaine, Armelle Engel, Édouard Francomme, Jeannette François, Lucien Frégis, Brigitte Juslin, Patrice Laffont, Kim Lokay, Georges Loriot, Jean-Pierre Moutier, Sally Pearce, Guy Piérauld, Gilles Rosset, Robert Sabatier, Roger Trapp, Anna Abigaël, Béatrice Arnac, Charles Bayard, Pierre Vernet, etc. Duração: 83 minutos; Distribuição em Portugal: Atalanta Filmes; Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 14 de Janeiro de 1964.


PIERRE ÉTAIX (1928 -)
Pierre Etaix nasceu em Roanne, França, no dia 23 de Novembro de 1928. Como muitos outros artistas que se dedicaram ao humor, é um homem de sete ofícios: actor, realizador, argumentista, dramaturgo, clown, desenhador e muito mais. Começou a carreira como desenhador de vitrais, no atelier de Théodore-Gérard Hanssen. Passa a viver em Paris, inicialmente do seu talento de ilustrador, e também já do humor, em cabarets e music-halls, como “Le Cheval d'Or”, “Les Trois Baudets”, “A.B.C”, “Alhambra”, “Bobino” e “Olympia”, ou como palhaço de circo, de seu nome Nino. Em 1954, trabalha com Jacques Tati em “O Meu Tio” e ganha o gosto pelo cinema. “Rupture” é a curta-metragem de estreia, que ergue com a colaboração de Jean-Claude Carrière. Ganha o Oscar de Melhor Curta-Metragem de 1963, ano em que se abalança na longa-metragem com “Le Soupirant”, a que se seguem “Yoyo”, uma homenagem ao circo, “Tant qu'on a la santé” (1965), “Le Grand Amour” (1968) e “Pays de cocagne” (1969). Segue-se uma longa travessia do deserto, apenas quebrada por algumas aparições como actor em filmes de outros cineastas. Funda a “École Nationale de Cirque” (1973), com Annie Fratellini, com quem casara em 1969. Em 1985, escreve uma peça de teatro, “L'âge de monsieur est avancée”, espécie de homenagem a Sacha Guitry e à arte do teatro, que mais tarde irá interpretar no teatro e realizar e interpretar para a TV. O seu último trabalho como realizador (1989) é um espectáculo utilizando o omnimax, uma encomenda da La Géode em la Villette para celebrar o bicentenário da Revolução.
Entretanto, a vida de Pierre Étaix não era fácil. Um litígio judicial com a empresa produtora dos seus filmes impediu-os de circularem, quer em salas ou em dvd. A Fondation Groupama Gan pour le Cinéma restaura em 2007 “Yoyo”, apresenta-o em Cannes, mas o boicote renasce até 2011, quando os tribunais dão razão ao cineasta e as obras são recolocadas em distribuição. 
Segue-se a consagração universal: em 2009 uma retrospectiva, no Grand Lyon, “Vive Pierre Étaix!”; em 2010, um novo espectáculo de music-hall “Miousik Papillon”, em tournée por várias cidades e na TV; em 16 de Novembro de 2011, a Academy Of Motion Picture Arts And Sciences, de Hollywood, homenageia-o em Los Angeles, com uma cerimónia, "Pierre Étaix: The Laughter Returns"; em 2012, no  Slapstick Festival, recebe o prémio “Aardman/Slapstick” e,  no mesmo ano, o prémio Jean Mitry no Festival de Pordenone (Itália). Os seus filmes voltam às salas nos EUA e Canadá, com grande sucesso e sai uma caixa com a sua obra integral em DVD. Ainda em 2012, volta à pista e é-lhe conferido o grau de Comandante da “Ordre des Arts et Lettres”. No ano seguinte, recebe o Grande Prémio da SACD (Société des Auteurs et Compositeurs Dramatiques) pelo conjunto da sua obra e em Março de 2015 é-lhe atribuído o prémio de carreira durante a cerimónia do 10º aniversário do Prémio Henri Langlois & Rencontres Internationales du Cinéma de Patrimoine.

Filmografia
Como realizador: 1961: Rupture (c-m); 1962: Heureux Anniversaire (C-m); Le Soupirant (O Apaixonado); 1965: Yoyo (Yoyo); 1966: Tant qu'on a la santé (Entretanto Haja Saúde); En pleine forme (c-m; inédita até 2010); 1969: Le Grand Amour (O Grande Amor); 1971: Pays de cocagne; 1987: L'Âge de monsieur est avancé (TV); 1987: Souris noire - episódio “Le Rapt” (TV); 1988: Le Cauchemar de Méliès (TV); 1989: J'écris dans l'espace.
Como actor / Principais filmes: 1956: Mon oncle (O Meu Tio), de Jacques Tati; 1959: Pickpocket (O Carteirista), de Robert Bresson; 1960: Tire-au-flanc 62, de Claude de Givray; 1961: Rupture, de Pierre Étaix; 1962: Une grosse tête (Chega-lhe que ainda mexe!), de Claude de Givray; Le Pèlerinage, de Jean L'Hôte; Heureux anniversaire, de Pierre Étaix; 1963: Le Soupirant (O Apaixonado), de Pierre Étaix; 1964: Yoyo (Yoyo), de Pierre Étaix; 1966: Tant qu'on a la santé (Entretanto Haja Saúde), de Pierre Étaix; 1966 Le Voleur (O Ladrão de Paris), de Louis Malle; 1968: Le Grand Amour (O Grande Amor), de Pierre Étaix; 1971: Les Clowns, de Federico Fellini; 1972: The Day the Clown Cried, de Jerry Lewis; 1973: Bel Ordure, de Jean Marbœuf ; 1974: Sérieux comme le plaisi,r de Robert Benayoun; 1985: Max mon amour (Max, Meu Amor), de Nagisa Oshima; 1987: L'âge de monsieur est avancé, de Pierre Étaix; 1989: Henry & June (Henry e June), de Philip Kaufman; 2006: Jardins en automne (Jardins no Outono), de Otar Iosseliani; 2009: Micmacs à tire-larigot (Micmacs - Uma Brilhante Confusão), de Jean-Pierre Jeunet; 2010: Chantrapas, de Otar Iosseliani; 2011: Le Havre, de Aki Kaurismäki; 2015: Chant d'hiver, de Otar Iosseliani
Na televisão: 1980: Lundi, téléfilm - la voyante; 1983: L'Étrange château du docteur Lerne; 1983: La Métamorphose, de Jean-Daniel Verhaeghe; 1984: L'Aide-mémoire, de Pierre Boutron; 1987: Les Idiots, de Jean-Daniel Verhaeghe; 1989: Bouvard et Pécuchet de Jean-Daniel Verhaeghe; 2010: Groland magzine (TV);

Teatro: 1972: À quoi on joue?, de Pierre Étaix, Théâtre Hébertot; 1983: L'Âge de Monsieur est avancé, de Pierre Étaix, Comédie des Champs Élysées; 2010: Miousik Papillon, de Pierre Étaix, Théâtre de Vidy

segunda-feira, 14 de março de 2016

SESSÃO 8 - 22 DE MARÇO DE 2016


O MEU TIO (1958)

A genialidade de Jacques Tati fica bem documentada em qualquer uma das suas longas-metragens, mas creio que “O Meu Tio” é talvez o seu trabalho mais reconhecido e mais elogiado. Terceira longa-metragem, segunda protagonizada pelo Senhor Hulot, “Mon Oncle” é uma admirável comédia sobre a (falsa) modernidade, a ostentação do novo-riquismo, algo muito flagrante em todas as idades, mas muito sentido na década de 50 do século passado, dado que foi um período de ouro da implantação generalizada do uso do carro e da generalização do uso dos eletrodomésticos. Mais ainda, uma época onde um design agressivo de mobiliário de interiores e exteriores, que hoje em dia é visto com certa nostalgia vintage, mas que não altura era por muitos apenas visto como de um mau gosto e de um desconforto invulgares. Neste, e em muito outros aspectos, “Mon Oncle” relembra o brilhante “Tempos Modernos”, de Charlie Chaplin, havendo em ambos um desadaptado que não se consegue integrar num mundo onde as últimas invenções, em lugar de facilitarem a vida do homem comum, a dificultam. Charlot e Hulot têm, por isso, muitos pontos de contacto.
O filme oscila entre dois universos inconciliáveis: por um lado um director de uma fábrica de mangueiras de plástico, homem com uma família “muito moderna”, os Arpel, certamente por influência da sua mulher que não perde uma ocasião para mostrar a excelência do seu jardim, da sua cozinha, do interior da casa, com “as divisões todas abertas umas para as outras”, e que faz gala de nunca deixar entrar uma visita no seu jardim sem ligar o repuxo do peixe que lança água para o espaço, dando as boas vindas ao intruso. Obviamente que o repuxo é vedeta de alguns gags magníficos, porque às vezes é ligado para um desinteressante operário que vem entregar uma encomenda ou para alguém da casa que já não o merece. Ou então é desligado, porque não queremos tapetes persas e, afinal, trata-se da vizinha com estranha indumentária não reconhecível de imediato. O repuxo é o símbolo da saloiice daquela estranha família, onde só o filho adolescente parece ser alguém normal, sobretudo quando sai com o tio, o tal Senhor Hulot, que vive num bairro modesto, popular, habita uma casa onde para chegar às suas águas furtadas tem de percorrer um labirinto de corredores e escadas que acompanhamos do exterior, tal como o fotógrafo de “Janela Indiscreta”, de Hitchcock, acompanha as traseiras do seu andar (uma obra de 1954 que pode bem ter sugerido este Tati, de 1958). 


Hulot é o indivíduo bem avontadado, imune a cerimónias e salamaleques, que gosta de viver e não se preocupa com a indumentária e ainda menos com o que os outros possam pensar dele. Faz a sua vida, é simpático para todos, não se dá nada bem com as modernices inúteis, nem com a jactância dos novos-ricos, e causa grandes problemas, sem o pretender, sempre que o procuram encaixar numa estrutura social estável, como por exemplo numa fábrica de mangueiras de plástico que a partir dai se assemelha mais a uma fábrica de salsichas. O sobrinho Gerard adora sair com ele porque sabe que vai estar em liberdade, longe do rigor maníaco dos pais, perto de saborear um bom jogo de futebol na lama, boas guloseimas populares, e de pregar partidas como a fabulosa invenção do assobio junto a um candeeiro de iluminação pública que vai provocar normalmente alguma consternação nos passantes. Mais um gag delicioso, num filme que os inventa consecutivamente, mantendo todavia uma toada de comédia delicada e doce, por onde perpassa a voluptuosa nostalgia dos velhos tempos onde a harmonia do homem com a natureza era mais saudável.
A senhora Arpel mostra a sua casa aos convidados para um lanche no jardim, dizendo “E essa é minha sala de estar”, e uma das visitantes nota: “Um pouco vazia, não?”. Ao que a senhora Arpel responde: “Mas é moderna!”. Minimalista diríamos hoje. A moda acima de tudo, o último grito do design a impor-se. Não é eficaz, não serve para nada, mas é moderno!


A construção do humor em Tati é de um rigor invulgar. Os gags são na sua maioria visuais, é certo, mas na verdade, se atentarmos bem, o papel do som, quer da música, quer dos efeitos sonoros, dos ruídos, é absolutamente invulgar de bem trabalhado e explorado. Os ruídos das máquinas, dos gadgets, dos movimentos humanos, das corridas dos cães, tudo é obsessivamente construído na minucia. Exemplar e brilhante. 
O contraponto entre o moderno inútil e hostil e o mais tradicional, modesto, quente e afectuoso (recorde-se o bairro onde vive Hulot, com a sua taberna e os frequentadores habituais, os cães, o varredor de rua que não sai do mesmo sítio, agarrado a conversas infindáveis…) diz bem de que lado que encontram as simpatias de Hulot. Tati explicou-o: “Não acredito que as linhas geométricas tornem as pessoas amáveis”.
A crítica a esta sociedade falsa e hipócrita é inquestionável, mas Tati nunca grita, nunca se irrita demasiado, acredita que o simples olhar de frente a realidade é suficiente para o espectador formar o seu juízo. E sorrir. “O Meu Tio” é uma comédia, mas onde o riso vigoroso nunca aflora, deixando permanecer nos lábios da assistência um sorriso cúmplice, saboroso, divertido, terno, humano. “O Meu Tio” é, por isso tudo, uma das melhores comédias de sempre. E Tati um “must” em qualquer lista das 10 melhores de todos os tempos.

O MEU TIO
Título original: Mon oncle
Realização: Jacques Tati (França, Itália, 1958); Argumento: Jacques Lagrange, Jean L'Hôte, Jacques Tati; Produção: Louis Dolivet, Jacques Tati, Alain Térouanne, Fred Orain; Música: Franck Barcellini, Alain Romans, Norbert Glanzberg; Fotografia (cor): Jean Bourgoin; Montagem: Suzanne Baron; Design de produção: Henri Schmitt; Decoração: Henri Schmitt; Guarda-roupa: Jacques Cottin; Maquilhagem: Boris Karabanoff; Direcção de Produção: Bernard Maurice; Assistentes de realização: Henri Marquet, Pierre Étaix; Departamento de arte: Eugène Roman; Som: Jacques Carrère; Efeitos visuais: Bertrand Levallois, Ugo Bimar; Companhias de produção: Gaumont Distribution, Specta Films, Gray-Film, Alter Films; Intérpretes: Jacques Tati (Monsieur Hulot) (não creditado), Jean-Pierre Zola (Charles Arpel, Adrienne (Betty), Jean-François (Walter), Dominique Marie (vizinha), Yvonne (Gerard Arpel), Régis Fontenay,Claude Badolle, Max Martel, Nicolas Bataille, Daki, Dominique Derly, André Dino, Suzanne Franck, Édouard Francomme, Michel Goyot, René Lord, Elsa Mancini, Jean Meyet, Denise Péronne, Nicole Regnault, Claire Rocca, Jean-Claude Rémoleux,etc. Duração: 117 minutos; Distribuição em Portugal: Atalanta Filmes; Classificação etária: M/ 6anos; Data de estreia em Portugal: 21 de Fevereiro de 1975.


JACQUES TATI (1907-1982)
Com três filmes apenas, ele foi desde logo considerado um dos maiores criadores cómicos do cinema de todos os tempos e de todos os lugares. Apenas com “Há Festa na Aldeia”, “As Férias do Sr. Hulot” e “O Meu Tio”, ele conseguiu impor-se com uma obra de uma consistência e coerência total, de uma exigência e modernidade absoluta e, todavia, de adesão imediata por parte de todos os públicos. Conseguiu tornar-se recordado para sempre. Quando, numa roda de amigos, se fala num desses títulos, ou vem à baila o nome de Jacques Tati, seu autor, ou de M. Hulot, sua fabulosa criação, é certo e sabido que a enumeração de uns quantos “gags” e de algumas situações inesquecíveis, irão processar-se por entre lágrimas de puro deleite e de um prazer irreprimíveis.
Curiosamente (infelizmente também), a carreira de Tati teve uma fase ascendente, de reconhecimento internacional, que culminaria em 1958 com a atribuição do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro a "Mon Oncle”, iniciando-se depois disso uma fase de progressivo apagamento, que o deixaria sem trabalhar durante longos anos. Na verdade, depois de “O Meu Tio”, apenas em 1967 voltaria aos ecrãs com uma nova obra, rodada em 70 milímetros, “Play Time”, que traria o autor a Lisboa, para apresentar o filme na saudosa sala do Monumental. O resultado comercial não foi brilhante, as dúvidas dos produtores recaíram sobre ele e, em 1971, “Trafic” não conheceria melhor sorte. Apenas em 1974, em condições bastante precárias, voltaria a rodar “Parade”, que ficaria como o seu testamento cinematográfico.
Foi esse homem, que deu um novo rumo ao humor francês, que morreu em Paris, com 75 anos, vítima de uma embolia pulmonar, no dia 4 de Novembro de 1982. De ascendência russa, nascera a 9 de Outubro de 1907, na região de Pecq, departamento de Seine-en-Oise, em França, filho de um encadernador de profissão, de nome Tatischeff. Tati nasceu, aliás, com o nome de Jacques Tatischeff, abreviando-o depois para Jacques Tati, quando adoptou um nome artístico para as suas primeiras actuações em “music-hall”.
Desde muito novo que se entregara intensamente a práticas desportivas, tendo sido jogador de râguebi no Racing Clube de Paris, além de tentar ainda o boxe e o ténis. Quando, aos 23 anos, se estreia no “music-hall” é um excelente mimo, capaz mesmo de transformar a velha arte de pantomina em algo de inesperadamente novo e espectacular, como se pode deduzir das palavras de Colette, depois de assistir ao seu “show” no ABC: "Em Jacques Tati, cavalo e cavaleiro, toda o Paris verá, estuante de vida, a criatura fabulosa, o Centauro”. Este mesmo "número” seria mais tarde recriado em “Parade”.
O cinema começou por registar, em numerosas curtas-metragens, as pantominas de Jacques Tati, como nessa excelente “Cuida da Tua Esquerda” ou Cuida do Teu Gancho Esquerdo, paródia ao boxe, realizada em 1936 por outro jovem, René Clement, e que correria em telas portuguesas só muito mais tarde. Em 1946, porém, dá-se o grande encontro da arte do actor Jacques Tati com as suas possibilidades de realizador que passou a ser. “A Escola de Carteiros” (L'École des Factuers), filme de duas bobines, ganha o prémio Max Linder, e chama a atenção de todos para a novidade de estilo e de intenções do cineasta. E assim o produtor Fred Orain resolve confiar-lhe a rodagem de um filme de fundo, que tem como base a linha cómica de “A Escola de Carteiros”, e se chamará “Há Festa na Aldeia” (Jour de Fete). Foram tais os métodos utilizados, tão novo o estilo de humor, tão diferentes os processos de realização e interpretação que os distribuidores se negaram a projectar o filme e, para pagar certos trabalhos em atraso, o produtor teve de vender a sua casa de campo. Finalmente estreado, “Há Festa na Aldeia” venceu em toda a linha e terá rendido ao produtor uma recompensa estimulante para o sacrifício feito. Quer como produtor de arte das imagens, quer como espectáculo de bilheteira. “Jour de Fete” foi um sucesso estrondoso que ainda hoje faz as delícias de quantos o vêem e o saboreiam. É uma obra livre, singela, tocada por um humor visual extraordinário, em cujas imagens passa a imperturbável e insólita figura de um carteiro alto e desengonçado, de farto bigode, anunciando já, na sua mímica quase silenciosa, herdeira de Max Linder e Buster Keaton, a personagem admirável do Senhor Hulot.  
Apresentado no festival de Cannes de 1953, “As Férias do Senhor Hulot” não só confirmaram as promessas do filme anterior, como inventaram uma nova figura do cómico mundial, capaz de, numa só peripécia, descobrir uma nova linguagem e estruturar toda uma teoria do humor.
A terna alegria do senhor Hulot e a sátira gentil, mas acutilante, de Jacques Tati aos convencionalismos, hipocrisia e mentiras do nosso mundo moderno, estão por inteiro contidas em “O Meu Tio” (Mon Oncle), rodado já a cores, em 1958, que foi então um fabuloso êxito internacional. Aí se satiriza fundamentalmente a escravidão técnica e os costumes do nosso tempo, enquanto se define, com maior precisão, a personagem do senhor Hulot. É Tati quem profere estas palavras que podem resumir com clareza os seus primeiros trabalhos e toda a sua filosofia: “É para descobrir os segredos da vida quotidiana que o cinema existe, não para repetir cenas e gestos estereotipados”. 

Depois é o grande silêncio durante dez anos, o que não deixa de ser estranho, dado que nesse momento Tati é um triunfador que os produtores disputam. Mas ele nega-se à produção em série e espera até 1967 para estrear “Play Time” (Vida Moderna). O filme, que teve um orçamento grande e uma receita não totalmente recompensadora, coloca o autor numa situação diferente. Agora terá que esperar por nova oportunidade; que só irá surgir em 1971. Com “Trafic” (Sim, Sr. Hulot), uma obra que denuncia já um certo cansaço criativo e alguma morosidade na invenção do “gag” e no seu desenvolvimento. Em 1974, irá voltar a Cannes com “Parade”, rodado para a televisão, e que acabaria por ser estreado em salas de cinema, apesar de gravado em “vídeo”. Esta viagem nostálgica pelo mundo do circo, assume-se como nova e arrojada aventura de um criador com sede de inovação. Muitos anos antes de “O Mistério de 0berward”, de Antonioni, “Parade” é já um filme inicialmente trabalhado em vídeo e depois passado a cinema, abrindo assim novas perspectivas a uma colaboração que, hoje-em dia, se sabe extremamente frutuosa. Para além disso, “Parade” é Tati do melhor, reconduzindo à pureza e à sinceridade originais onde a candura do olhar se mistura com única crítica agreste à moderna civilização e aos seus traumas.

SESSÃO 7 - 15 DE MARÇO DE 2016

AS FÉRIAS DO SR. HULOT (1953)

Depois de alguma curtas-metragens e da estreia no filme de fundo, em 1949, com “Jour de Fête” (Há Festa na Aldeia), Jacques Tati lança a fabulosa personagem do Senhor Hulot, em “Les Vacances de Monsieur Hulot” em 1953. Indiscutivelmente uma das grandes figuras de ficção, cómica ou não, criadas no cinema, o Sr. Hulot voltaria a surgir em mais três títulos, todos eles admiráveis, ainda que o êxito público tenha variado: “O Meu Tio” (1958), “Play Time – Vida Moderna” (1967) e “Sim, Sr. Hulot” (Trafic, 1971).
O filme organiza-se de uma forma muito simples (aparentemente simples, mas de uma complexidade de mestre de relojoaria), estilo crónica do dia a dia de uma estância balnear francesa, durante o seu período de Verão. O que unifica toda a acção é a pequena comunidade que se reúne na praia de Saint-Marc-sur-Mer, localidade perto de Saint-Nazaire, que nunca é nomeada enquanto tal, excepto no selo do postal final, mas que hoje ostenta uma estátua da criação de Tati, e regida pelo escultor francês Emmanuel Debarre, dominando o oceano e muito perto do “Hôtel de la Plage” que serviu de cenário central ao filme.
Estamos nos anos 50 do século passado, as férias de Verão são uma “obrigação” anualmente desejada por uma certa pequena e média burguesia que se desloca para os seus locais preferidos, carregada de malas e apetrechos afins, a fim de cumprir religiosamente um ritual. Instalam-se sornamente na pensãozinha do sítio, ou alugam uma vivenda ou andar, e disfrutam mansamente dos prazeres dos banhos de mar, dos pequenos passeios, das partidas de ténis, dos gelados e das guloseimas da estação, regressando todos a toque de sineta para as refeições do dia, jogando a sua bisca à noite, ouvindo rádio, ou namoriscando mais ou menos às escondidas. Isto é o normal. Mas depois há o elemento estranho que vem alterar toda a ordem instituída: o Senhor Hulot. Quem pensa ter umas férias descansadas e pacatas esquece-se do carro do Senhor Hulot, das técnicas de ténis do Senhor Hulot, da boa vontade sempre desajeitada do Senhor Hulot, do desastroso passeio de caiaque do Senhor Hulot, das suas incursões pela praia, do seu gosto por jazz em altos berros, da imprudência na barraca de fogo de artifício, das pegadas de lama, da pele de tigre que se enrosca nas esporas, dos piqueniques organizados em ordem militarizada, das cadeiras trocadas nas partidas de cartas, dos bailes mascarados, e do seu generoso amor pelas crianças, pela bela ocupante da mansarda, e pelos mais desfavorecidos.


O efeito desestabilizador do humor volta a encontrar aqui toda a sua justificação. O funeral que decorre no cemitério local seria um funeral mais, até que chega o Senhor Hulot e o seu carro avariado. A câmara do pneu que é colocada inocentemente no chão, vai provocar a desregularização da cerimónia, quando é tomada por mais uma coroa de flores, que depois vai esvaziar-se. O Senhor Hulot é integrado a contra gosto na família do finado e tudo acaba em discretas gargalhadas. Mas a realidade preexiste frágil. O casal de velhotes que passeia lentamente pelas amuradas da praia, sempre em passo desencontrado, ela à frente, ele logo a seguir, de braços cruzados atrás das costas, é, por si só, sem lhe acrescentar qualquer gag, já um motivo de humor. Digamos que nalguns casos basta olhar a realidade, para ela se desarticular e mostrar o ridículo que está subjacente. O que demonstra por parte do autor um extraordinário espírito de observação, que lhe permite reproduzir um conjunto de personagens absolutamente inesquecíveis, desde o dono e o criado do “Hôtel de la Plage” (o criado poderá ter estado na base do Manuel da série “Fawlty Towers”) até qualquer um dos veraneantes.
Logo nos planos iniciais, passados numa estação de caminhos-de-ferro (precisamente a gare de Argentan), o cómico instala-se pela simples observação e reprodução. Numa plataforma de embarque está uma pequena multidão à espera do comboio quando se ouve através de um roufenho altifalante um qualquer informação que leva toda a gente a descer e subir escadas para chegar a outra plataforma, quando o comboio vai chegar numa via diferente. O caos aqui é a realidade que o provoca. O humor limita-se a registar o facto. Este é o tipo de humor de Jacques Tati, obviamente crítico em relação a alguns aspectos da vida em sociedade, mas quase sempre terno e doce nas suas observações. Haverá um ou outro olhar mais intenso, para o capitalista que passa as ferias agarrado ao telefone, a controlar os valores da bolsa ou a produção nas fábricas, mas o que move Tati é sobretudo valorizar o humano em detrimento do desumano. A vida no interior da pensão seria muito mais agradável se as refeições não fossem servidas a toque de sineta e se todos não se fossem deitar mal acaba a emissão de rádio. É a massificação dos gestos que Tati aqui critica, o que irá prosseguir na sua obra futura. De forma muito mais radical em  “O Meu Tio”, “Play Time” ou “Trafic”, onde essa observação crítica se torna muito mais contundente, tendo em conta sobretudo o aspecto de massificação da vida quotidiana nas grandes metrópoles.
Uma das características principais do cinema de Jacques Tati prende-se com o facto de o seu humor ser quase sempre físico, utilizando muito pouco as palavras, mas não descurando de forma alguma o som. A banda sonora de “As Férias do Sr. Hulot” é particularmente cuidada e meticulosa. Mas, por outro lado, o filme tem muito do cinema mudo, vive de uma respiração gestual. Curiosidade a reter: para Tati um filme não está acabado quando se estreia comercialmente. Parece que a versão que se estreou em 1953 era a terceira dada por terminada e depois retocada. Em 1978, Tati volta a pegar no filme, filma uma nova sequência (em homenagem a “Tubarão”, de Spielberg) e introdu-la na nova versão (a sequência de Hulot no caiaque que se dobra e se assemelha a um tubarão). Introduz igualmente variações na banda sonora, música e sons, e na duração do filme, transformando este numa “obra em progressão”, o que seria um conceito “avant la lettre”.


Segundo depoimento de Nicolas Hulot, uma conhecida vedeta do jornalismo televisivo francês, terá sido o seu avô, um arquitecto que projectara o edifício onde habitava Tati, que terá servido de inspiração para o nome da personagem. Tati teria mesmo pedido autorização para utilizar este nome ao arquitecto que, além do nome (muito parecido sonoramente com Charlot), teria uma silhueta física que terá aproximado Tati igualmente da figura criada. Assim terá nascido esta incontornável personagem, alta, desengonçada, vestindo uma gabardine (quando não está em férias de Verão), chapéu e cachimbo. Quase não usando a palavra para estabelecer contacto com os próximos, mostrando-se um autentico desadaptado em relação ao mundo que o rodeia. O que se vai agravando a cada nova obra de Tati.  
O filme teve um orçamento reduzido, muitos apoios de amigos do realizador, e muitas contrariedades durantes as filmagens, nomeadamente com mau tempo, acidentes e questões técnicas. Mas o resultado perdura durante as décadas e ainda hoje é considerado uma das obras-primas de um cineasta genial. “Les Vacances de Monsieur Hulot” foi prémio da crítica no Festival de Cannes, em 1953, Prémio Louis-Delluc, Paris e Prix Femina, Bruxelas, ainda no mesmo ano, Golden Laurel, em Edimburgo, 1955, e considerado o melhor filme visto em Cuba em 1956. Está inscrito na lista das 50 obras que os jovens com menos de 14 anos devem ver, organizada pelo BFI (British Film Institut, 2005).



AS FÉRIAS DO SR. HULOT
Título original: Les Vacances de Monsieur Hulot
Realização: Jacques Tati (França, 1953); Argumento: Pierre Aubert, Jacques Lagrange, Henri Marquet, Jacques Tati; Produção: Fred Orain, Jacques Tati; Música: Alain Romans; Fotografia (p/b): Jacques Mercanton, Jean Mousselle; Montagem: Suzanne Baron, Charles Bretoneiche, Jacques Grassi; Design de produção: Roger Briaucourt, Henri Schmitt; Decoração: Henri Schmitt; Direcção de Produção: Fred Orain; Assistentes de realização: Pierre Aubert; Departamento de arte: Pierre Clauzel, André Pierdel; Som: Jacques Carrère, Roger Cosson, Guy Michel-Ange; Efeitos visuais: Trey Freeman; Companhias de produção: Discina Film, Cady Films, Specta Films; Intérpretes: Jacques Tati (Monsieur Hulot), Louis (Fred), André Dubois (Comandante), Lucien Frégis (dono de Hotel), Raymond Carl (criado), Nathalie Pascaud (Martine), Micheline Rolla (Tia), Valentine Camax (senhora inglesa), Suzy Willy (mulher do comandante), René Lacourt, Marguerite Gérard, Georges Adlin, Michèle Brabo, Édouard Francomme, etc. Duração: 114 minutos; Distribuição em Portugal: Atalanta Filmes; Classificação etária: M/ 6 anos; Data de estreia em Portugal: 22 de Fevereiro de 1954 (Tivoli).


JACQUES TATI
Filmografia:
Como actor e realizador: 1932: Oscar, Champion de Tennis, de Jack Forrester (curta-metragem), com Jacques Tati; 1934: On Demande une Brute (Procura-se Brutamontes), de Charles Barrois (curta-metragem), com Jacques Tati; 1935: Gai Dimanche (Domingo Animado), de Jacques Berr (curta-matragem), com Jacques Tati; 1936: Soigne Ton Gauche (Cuida do Teu Gancho Esquerdo ou Cuida da Tua Esquerda), de René Clément (curta-metragem), com Jacques Tati; 1938: Retour à la Terre (curta-metragem), com Jacques Tati (Tati escreve o argumento, mas desconhece-se o realizador); 1945: Sylvie et le Fântome (Sílvia e o Fantasma), de Claude Antant-Lara (Jacques Tati interpreta o papel de um soldado celebrando o armistício num bar); 1947: L'École des Facteurs (A Escola de Carteiros), de Jacques Tati (curta-metragem), com Jacques Tati; 1949: Jour de Fête (Há Festa na Aldeia), de Jacques Tati; primeira longa-metragem escrita, realizada e interpretada por Jacques Tati; 1953: Les Vacances de M. Hulot, (As Férias do Sr. Hulot); realização, argumento e interpretação de Jacques Tati; 1958: Mon Oncle (O Meu Tio); realização, argumento e interpretação de Jacques Tati; 1967: Play Time (Vida Moderna); realização, argumento e interpretação de Jacques Tati; Cours du soir (Aulas Nocturnas), de Nicolas Ribowski, (curta-metragem), com Jacques Tati; 1971: Trafic (Sim. Sr. Hulot); realização, argumento e interpretação de Jacques Tati; 1972: Obraz uz obraz, talk show na televisão jugoslava, onde Jacques Tati parece num episódio emitido a 22 de Abril de 1972; 1974: Parade (Parade); realização, argumento e interpretação de Jacques Tati.
Como argumentista, surge ainda associado a outras obras: 1975: Mein Onkel Theodor oder Wie man viel Geld im Schlaf verdient, de Gustav Ehmck; 2002: Forza Bastia (Força, Bastia), de Jacques Tati, Sophie Tatischeff; e 2010: L'illusionniste (O Mágico), de Sylvain Chomet (filme de animação).


(sobre obra e vida de Jacques Tati ver nota na folha de “O Meu Tio”).

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

SESSÃO 6 - 8 DE MARÇO DE 2016


AS NOITES LOUCAS DO DR. JERRYLL (1963)

Há muitos estudiosos da obra de Jerry Lewis que afirmam que “The Nutty Professor” é o filme mais completo e perfeito deste cineasta. Por mim, “The Patsy” ocupa essa preferência, não andando muito longe, porém, desta genial adaptação da obra de Robert Louis Stevenson, no original intitulada “The Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde” (na sua tradução portuguesa “O Médico e o Monstro”) e que já de si deu origem a variadíssimas versões cinematográficas. Mas, curiosamente, nenhuma com a intenção subscrita por Jerry Lewis. Na verdade, o que o romance de Stevenson pressupõe é uma interpretação psicanalítica da personalidade de cada ser humano, normalmente dividida entre duas posições, coexistentes no seu interior, predispondo-se ora para o Bem ora para o Mal, consoante uma ou outra dessas tendências se sobreponha à outra. Pode dizer-se que será um confronto entre a natureza animal do ser humano e o seu duplo civilizado, educado, ensinado a viver em comunidade.
No clássico de Robert Louis Stevenson o que está expresso é um cientista, um médico bem integrado na sociedade que, mercê de uma fórmula por si inventada, deixa a descoberto o lado maligno da sua personalidade. Daí “o médico e o monstro”. Mas em quase todas as versões conhecidas, o médico é um ser normal (o que é que isso quero dizer já de si), e o monstro é mesmo “monstro”, em todas as acepções do termo. Foi assim com John Barrymore, na primeira adaptação, ainda muda, assinada por John S. Robertson (1920), foi assim com Fredric March, no filme de Rouben Mamoulian (1931), continuou assim com Spencer Tracy, ao lado de Ingrid Bergman, no título de Victor Fleming, voltou a ser com Jack Palance, no telefilme de Charles Jarrott (1968), e ainda com Christopher Lee, ao lado do seu inseparável Peter Cushing, em “Eu, Monstro” (I, Monster), de Stephen Weeks (1971), ou com Kirk Douglas, na versão televisiva de David Winters (1973).


Há dezenas e dezenas de versões, em imagem real e animação, oriundas de todos os pontos do globo, a cores e a preto e branco, quase sempre em estilo de terror, mas também em paródia, há musicais e teenagers movies, há obras-primas e coisas inenarráveis, e existe uma versão espantosa de Jean Renoir, “O Testamento do Médico e do Monstro” (Le testament du Docteur Cordelier), com uma fenomenal interpretação de Jean-Louis Barrault (1959). De resto, para muito proximamente anunciam-se, pelo menos, duas novas versões, ambas norte-americanas, assinadas por Jesse MaGill (com o próprio no protagonista), e por B. Luciano Barsuglia (com Gianni Capaldi).
Um mundo inesgotável, mas com uma progressão dramática mais ou menos estabelecida. Jerry Lewis modifica a norma e introduz uma alteração extremamente curiosa. O professor Julius Kelp é um cientista lunático, que dá aulas na Universidade, e que um dia, através de uma receita mágica por si inventada, dá corpo a Buddy Love, um ídolo de multidões, bem vestido e aprumado, egoísta até dizer basta, insuportavelmente convencido, cantor de fazer desmaiar toda a plateia feminina. O bem apresentável playboy é um ser odioso, o despistado, temeroso e estouvado professor é afinal quem se salva como pessoa. 


Este o esquema geral de “As Noites Loucas do Dr. Jerryll”, onde a inventiva e a originalidade do humor de Jerry Lewis atinge um dos seus estádios mais elevados e brilhantes. Jerry é o artista completo, escreve o argumento (juntamente com seu habitual colaborador Bill Richmond), produz, realiza e interpreta e como actor veste a pele de duas personagens extremamente diferentes, opostas mesmo, canta, dança, utiliza processos do cinema mudo, mas não esquece o som e desenvolve alguns gags puramente sonoros que se aliam magnificamente ao humor visual e gestual, não esquecendo as lições que Tashlin lhe trouxe do cinema de animação. Em suma, um pequeno génio do cinema cómico que se afirma ainda como um “autor” integral. Quem vir por exemplo este filme e “The Patsy” em sessões seguidas, perceberá que ambos querem dizer o mesmo: ninguém deve querer ser o que não é. Realmente, todos os filmes de Jerry estão impregnados por uma filosofia de vida óbvia. O cineasta realiza os chamados “filmes para toda a família”, um pouco na linha dos estúdios Disney, mas com diferenças assinaláveis, onde as lições de um sádio humanismo predominam. Depois, há várias constantes nos seus filmes. Os jovens são particularmente visados, os bailes de estudantes e de fim de curso aparecem em quase todos eles, o gosto pelo espectáculo, pelo cinema (e, neste particular, pelo cinema mudo e o burlesco) e pelos velhos comediantes é visível na homenagem que ostensivamente os elencos escolhidos representam, o amor triunfa sempre, ainda que raramente exista um “happy end” definitivo (“The Nutty Professor” apresenta mesmo vários finais).
O humor de Jerry Lewis é profundamente visual e físico. Vejam-se as cenas no ginásio, com o professor Kelp a querer aperfeiçoar o seu desastrado desempenho. A sua falta de visão relembra o clássico Mr. Magoo, e quando lhe passam uns pesos para as mãos os resultados são extravagantes. Não estamos ao nível do humor realista, mas do humor abstracto, surrealista (por isso os surrealistas franceses o elegeram como seu ídolo). Tudo se passa no domínio das convenções (ou da ausência de convenções) do desenho animado. O cientista explode com a universidade, mas é descoberto um pouco chamuscado, é certo, incrustado no solo, debaixo de uma porta por onde passaram dezenas de pessoas em fuga. Realismo? Nenhum. Este é o segredo de alguma comédia e é o grande sucesso criativo de Lewis.


Depois há o jogo histriónico. As plateias norte-americanas faziam o êxito destas comédias, mas a intelectualidade torcia o nariz. Para muitos, não passava de um palhaço, como se ser palhaço fosse desprestigiante. Nas estreias europeias foi saudado como um grande actor e um génio na realização.
Jerry Lewis começou a sua carreira, como se sabe, a fazer dupla com Dean Martin, que era o galã sedutor e o cantor meloso que seduzia as miúdas. Mas, durante muito tempo, por detrás das câmaras, era Jerry quem dominava já o show. Ele escrevia e por vezes realizava de forma não creditada no genérico. Quando se liberta da dupla, há um ajuste de contas. Em “The Nutty Professor”, Kelp é o Jerry de outrora e Buddy Love o Dean Martin. Uma das cenas mais extraordinárias deste título é a primeira aparição de Boddy Love no bar nocturno onde se reúnem os seus alunos. É uma encenação perfeita, uma apresentação em estilo de superstar que deixa toda a plateia paralisada. Sabe-se depois que as aparências iludem. O que é também um dos princípios da construção do humor em Lewis. Por vezes de um humor que tem muito de sonoro. Veja-se a cena em que o professor caminha por um corredor a tentar passar desapercebido, mas com os sapatos a provocarem uma chiadeira medonha. Kelp descalça-se, continua a andar e a chiadeira prevalece. O humor sonoro mantém-se. Buddy Love passou uma noite de excessos e, no dia seguinte, Kelp surge na sala de aulas particularmente suscetível aos sons. Uma aluna a assoar-se, um livro a bater na carteira, a porta a fechar-se, qualquer ruído provoca uma tempestade. A invenção é constante, demonstrando o talento do actor, mas igualmente a intencionada da crítica e a modernidade do cinema deste homem dos sete ofícios que deixa um legado impressionante, um dos mais representativos do cinema americano do pós-guerra.
33 anos depois (1996), Eddie Murphy ressuscita o argumento de Jerry Lewis, numa nova versão de "The Nutty Professor" (O Professor Chanfrado), numa realização de Tom Shadyac. O obeso prof. Sherman Klump quer tornar-se num elegante Buddy Love, com resultados desastrosos. O filme furta-se à inocência e à pureza do olhar de Jerry, entrando pela piada grosseira e pelo gag de gosto duvidoso, sem ganhar nada com isso.

AS NOITES LOUCAS DO DR. JERRYLL
Título original: The Nutty Professor
Realização: Jerry Lewis (EUA, 1963); Argumento: Jerry Lewis, Bill Richmond; Produção: Ernest D. Glucksman, Arthur P. Schmidt; Música: Walter Scharf; Fotografia (cor): W. Wallace Kelley; Montagem: John Woodcock; Casting: Edward R. Morse; Direcção artística: Hal Pereira, Walter H. Tyler; Decoração: Robert R. Benton, Sam Comer; Guarda-roupa: Edith Head; Maquilhagem: Nellie Manley, Jack Stone, Wally Westmore, Agnes Flanagan; Direcção de Produção: Hal Bell, William Davidson; Assistentes de realização: Ralph Axness, Jack Barry, William R. Poole; Departamento de arte: Martin Pendleton; Som: Charles Grenzbach, Hugo Grenzbach; Efeitos visuais: Paul K. Lerpae; Companhias de produção: Paramount Pictures, Jerry Lewis Enterprises; Intérpretes: Jerry Lewis (Professor Julius Kelp / Buddy Love), Stella Stevens (Stella Purdy), Del Moore (Dr. Mortimer S. Warfield), Kathleen Freeman (Millie Lemmon), Med Flory (Warzewski – jogador de futebol), Norman Alden (jogador de futebol /estudante), Howard Morris (Mr. Elmer Kelp), Elvia Allman (Edwina Kelp), Milton Frome (Dr. M. Sheppard Leevee), Buddy Lester (Barman), Marvin Kaplan, David Landfield, Skip Ward, Julie Parrish, Henry Gibson, Les Brown and His Band of Renown, Murray Alper, Roger Bacon, Todd Barron, Mel Berger, Nicky Blair, Billy Bletcher, Les Brown Jr., Mushy Callahan, Hugh Cannon, Seymour Cassel, Selette Cole, Lorraine Crawford, George DeNormand, Robert Donner, Art Gilmore (Narrador), etc. Duração: 107 minutos; Distribuição em Portugal: Lusomundo Audiovisuais; Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 31 de Janeiro de 1964.


JERRY LEWIS (1926 -)
Jerry Lewis, de seu verdadeiro nome Joseph Levitch, nasceu em Newark (New Jersey), EUA, em 16 de Março de 1926. Filho de um casal de comediantes (o pai, Danny Lewis, actor de "vaudeville"; a mãe, Ray Rothberg, pianista de "cabaret"), teve uma infância atribulada, em constantes deambulações, ora sob a educação de algumas tias, ou de sua avó Sarah. Os estudos foram igualmente acidentados, tendo permanecido alguns anos na Irvington High School onde, aos catorze anos - depois de algumas aparições episódicas em "cafés-concertos" onde o pai actuava - se estreia no teatro da escola e depois no Mosque Theatre. Um dia, porém, quando um instrutor de trabalhos manuais lhe diz que "todos os judeus são estúpidos", ele responde-lhe com um vibrante soco que, obviamente, o expulsará da escola. Aos quinze anos irá procurar trabalho. Empregado de um "drugstore", vendedor de legumes, empregado numa fábrica de chapéus, são experiências que, posteriormente, irá rever em sequências de filmes seus. Em 1940, Jerry Lewis entra para os estúdios da Paramount, em Nova lorque, como operário de estúdio. Assim se inicia a viagem de aproximação de Jerry Lewis aos holofotes de cena, das luzes do espectáculo. Um dia, um actor inglês, Reginafd Gardiner, inventa-lhe um número de imitação de cantores e actores como Sinatra, Betty Hutton, Danny Kaye, etc. Em 1944, já Jerry Lewis trabalha com algum êxito nos cinemas da cadeia Paramount. Canta nas orquestras de Tommy Dorsey e de Ted Fiorito, onde encontra uma outra cantora de nome Patti Palmer, com quem vem a casar nesse mesmo ano. Com vinte anos, Jerry Lewis encontra um tal Dino Crocetti, vulgarmente conhecido por Dean Martin, com quem iria associar-se. A 25 de Julho de 1946, no Club 500, de Atlantic City, estreia-se a dupla que irá sucessivamente aparecer no Casino Latin, de Chicago, no Havana-Madrid, de Nova lorque, no Capital Theater, de Washington, no Slapey Saxie, de Hollywood, no Copacabana, de Nova lorque. Será aqui precisamente, em 1949, que o produtor Hal Wallis os irá "descobrir" e oferecer-lhes um interessante contrato de longa duração na Paramount, contrato que irá prolongar-se até 1956. Entretanto, entre 1948 e 1949, apareceram numerosas vezes na televisão, particularmente no primeiro "Toast of the Town", que se tornará mais tarde no célebre "Ed Sullivan Show" (1948). Em 1950, Jerry Lewis é eleito "Most Promising Male Star in TV" (o mais promissor actor masculino). Em 1949 aparece pela primeira vez no cinema, em “My Friend Irma”, de George Marshall. Igualmente na rádio as actuações da dupla são muito notadas, nomeadamente na "Colgate Comedy Hour". Em 1951, declaram-no "o actor mais popular de Hollywood" e, entre os anos de 51 a 54, a dupla Lewis-Martin é considerada um dos "top ten money-making stars". Em 1955, 1956 e 1959 é "mestre-de-cerimónias" na atribuição dos Oscars de Hollywood. Entretanto, em 25 de Julho de 1956, Dean Martin e Jerry Lewis, depois de alguns anos de trabalho em comum, e de algumas desavenças (sobretudo em virtude dos "ciúmes" de Martin, que se considerava ultrapassado pelo seu sócio), separam-se definitivamente, fazendo a sua última aparição em conjunto no Copacabana de Nova lorque. Em 1958, Jerry Lewis e a Paramount assinam um contrato, pelo qual o actor será obrigado a interpretar catorze filmes, à média de dois por ano. Em 1960, estreia-se como realizador em "The Bellboy". Em 1966, deixa a Paramount e toma-se um produtor independente, rodando quer para a Columbia, para a Fox, a Warner ou a United Artists.
Desde os seus inícios no cinema, Lewis fundou a sua própria produtora, "Ron-Gar" e dirigiu numerosas curtas-metragens, "pastiches" de filmes célebres (como "O Mundo a seus pés" ou "Até à Eternidade"), interpretados por si próprio e por amigos como Janet Leigh e Tony Curtis. Por outro lado, sabe-se que ele mesmo dirigiu muitos filmes e espectáculos da parelha, deixando aparecer as assinaturas de Hal Waker ou Norman Taurog para não vexar Dean Martin. Fora dos seus filmes, Jerry Lewis dá espectáculos todos os anos, durante dois meses, em Las Vegas. Na TV (onde interpretou o seu único papel em "The Jazz Singer"), além de numerosas aparições em emissões ("Today", último trabalho ao lado de Dean Martin, "Person to Person", "Youth Wants to Know", etc.), foi vedeta de "The Colgate Comedy Hour" (com Dean Martin, de 1950 a 1955), "The Martin and Lewis Show" (dirigido, entre outros, por Bud Yorkin). A 21 de Setembro de 1963, criou o "Jerry Lewis Show", filmado no "Jerry Lewis Theatre", inaugurado na circunstância. Produzido por Jerry, dirigido por John Dorsey, escrito por Lewis, Bill Richmond, Bob Howard e Dick Cavett, foi o primeiro espectáculo regular de duas horas, "em directo" da televisão americana. Participaram nos primeiros "Jerry Lewis Shows" (a série foi interrompida, em virtude de ter sido mal recebida pelos críticos, mas também porque nela apareceriam demasiados "judeus e negros"), além de J. L. e, entre outros Harry James, Dei Moore, Jimmy Durante, Bob Stack, Jack Jones, Sammy Davis Jr., Les Browns e a orquestra, Carl Reiner, Mickey Rooney, Peter Falk, Sid Caesar, Stanley Kramer, etc.
Jerry Lewis possui uma estação de rádio privada: a K.J.P.L.É ainda a figura principal de um magazine de "histórias em quadradinhos" que tem o seu nome. Gravou igualmente vários discos e fundou um curso de arte dramática. Utiliza os alunos nos seus filmes. Todas as películas interpretadas por Jerry Lewis (até 1965) foram produzidas pela Paramount, em geral por Hal Wallis e depois pelo próprio Jerry Lewis. A sua casa produtora chamou-se primeiramente York-Films e depois Jerry Lewis Films Incorporated. A partir de 1965, o actor preferiu produzir inteiramente os seus filmes e entregá-los depois a uma companhia que os distribui internacionalmente. Caso da Columbia, para “Uma Poltrona para Três” e “O Charlatão”; caso de United Artists para “One More Time”, por exemplo.
Jerry tentou igualmente a construção de uma cadeia de pequenos cinemas. Os E.U.A. e o Canadá chegaram a contar mais de cem salas e inaugurou o primeiro "Jerry Lewis Cinema" na Europa, em Paris. A partir dos anos 70, a sua estrela deixou de brilhar tão intensamente. Filmes como “Vai Trabalhar, Malandro!” ou “Jerry Tu és Louco” foram relativos fracassos de bilheteira. Alguns cineastas lembram-se dele para aparições de homenagem, como em “O Rei da Comédia”, de Martin Scorsese (1982), “Cookie”, de Susan Seidelman (1989), “Sábado à Noite”, de Billy Crystal e “Arizona”, de Emir Kusturica (ambos de 1992) ou “Comédia Louca”, de Peter Chelsom (1995). Presentemente anunciam-se projectos onde vai surgir: “The Trust”, de Alex Brewer, Ben Brewer (2016), ou “Big Finish”, do argentino Martin Guigui (em preparação).

Principais filmes:
1. Filmes da dupla Jerry Lewis / Dean Martin
1949: My Friend Irma (A Minha Amiga Irma), de George Marshall; 1950: My Friend Irma Goes West (A Minha Amiga Maluca), de Hal Walker; At War with the Army (Recrutas...Sentido!), de Hal Walker; That's My Boy (Eles no Colégio), de Hal Walker; 1952: Sailor Beware (Marujo, o Conquistador), de Hal Walker; Jumping Jacks (Os Heróis do Medo), de Norman Taurog; 1953: The Stooge (O Estoira-Vergas), de Norman Taurog; Scared Stiff (O Castelo do Terror), de George Marshall; The Caddy (O Grande Jogador), de Norman Taurog; 1954: Money From Home (Dinheiro em Caixa), de George Marshall; Living it Up (O Rapaz Atómico), de Norman Taurog; Three Ring Circus (O Rei do Circo), de Joseph Pevney; 1955: You're Never Too Young (Barbeiro e Professor), de Norman Taurog; Artists And Models IPintores e Raparigas), de Frank Tashlin; 1956: Pardners (O Rei do Laço), de Norman Taurog; Hollywood or Bust (Um Espada para Hollywood), de Frank Tashlin.

2. Filmes protagonizados por Jerry Lewis
1957: The Delicate Delinquent (O Delinquente Delicado), de Don McGuire; The Sad Sack (O Herói do Regimento), de George Marshall; 1958: Rock A Bye Baby (Jerry Ama-Seca), de Frank Tashlin; The Geisha Boy (Jerry no Japão), de Frank Tashlin; 1959: Don't Give Up the Ship (Capitão sem Barco), de Normal Taurog; 1960: Visit to a Small Planet (O Primeiro Turista do Espaço), de Norman Taurog; Cinderella (Cinderelo dos Pés Grandes), de Frank Tashlin; 1962: It's Only Money (Dinheiro e Só Dinheiro), de Frank Tashlin; 1963: Who's Minding the Store (Um Namorado com Sorte), de Frank Tashlin; 1964: The Disorderly Orderly (Jerry, Enfermeiro sem Diploma), de Frank Tashlin; 1965: Boeing-Boeing (Boeinq-Boeinq), de John Rich; 1966: Way ... Way Out (Um Maluco em Órbita), de Gordon Douglas; 1968: Don't Raise The Bridge, Lower The River (Jerry em Londres), de Jerry Paris; 1969: Hook, Llne And Sinker (Jerry, Pescador em Águas Turvas), de George Marshall;
Para além destes filmes, onde Jerry Lewis desempenha sempre o principal papel, outros houve onde fez curtas aparições, como guest star: 1959: Lll'Abner (No País da Alegria), de Norman Panama; 1963: It's A Mad, Mad, Mad, Mad World (0 Mundo Maluco), de Stanley Kramer; 1982: “The King of Comedy” (O Rei da Comédia), de Martin Scorsese; 1989: “Cookie”, de Susan Seidelman, 1992: “Mr. Saturday Night” (Sábado à Noite), de Billy Crystal e “Arizona”, de Emir Kusturica, ou 1995: “Funny Bones” (Comédia Louca), de Peter Chelsom). 

3. Realizações de Jerrv Lewis

1960: The Bellboy (Jerry no Grande Hotel); 1961: The Ladie's Man (0 Homem das Mulheres); The Errand Boy (O Mandarete);1963: The Nutty Professor (As Noites do Dr. Jerryl); 1964: The Patsy (Jerry 8 3/4); 1965: The Family Jewels (Jerry e os 6 Tios); 1966: Three on a Couch (Uma Poltrona para Três); 1967: The Big Mouth (0 Charlatão); 1969: Which Way to the Front? (0nde Fica a Guerra?); 1970: One More Time (0 Morto Era o Outro); 1972: Le Jour ou le Clown Pleura (filme congelado por um diferendo entre o produtor e J. Lewis); 1980: Hardly Working (Vai Trabalhar, Malandro!); 1983: Smorgasbord (Jerry, Tu és Louco).