domingo, 1 de maio de 2016

SESSÃO 15 - 10 DE MAIO DE 2016


A ULTRAPASSAGEM (1962)

“Il Sorpasso” é definitivamente uma das obras-primas da cinematografia italiana e um dos grandes filmes de Dino Risi, que consegue com esta comédia atingir um nível de qualidade estética e de significado temático mais do que evidentes. Transformou-se num filme de culto. De resto, define plenamente um estilo e um pensamento que têm a ver unicamente com um “autor”. Há vários temas que começam a impor-se como constantes na obra deste cineasta: a viagem como iniciação, a estrada como cenário, o carro, forma de promoção social, mas também local privilegiado de confissões, o aldrabão fala-barato em oposição ao idealista tímido, a dispersão de personagens populares (o mesmo actor em diversos registos, ou diversos actores compondo uma galeria de tipos, que podem coexistir ou não na mesma obra), a crítica contundente à Itália do pós-guerra, aquela que ficou conhecida como a do “milagre económico”, a que deserdou a esquerda da utopia, a que reabilitou a direita vencida na guerra, promovida pela reconstrução (por isso aparecem tantos construtores civis nos seus filmes, quase invariavelmente na qualidade de traficantes de influências e corruptos profissionais). Sobretudo começa a impor-se um olhar comprometido para com a realidade social italiana (mas não só), onde não se salva quase ninguém, onde apenas se olham com alguma simpatia pequenos meliantes. Mas, curiosamente, há alguma dose de compreensão humana para quase toda a gente. Dino Risi critica, por vezes com violência, mas nunca propõe a “pena capital” (óbvia forma metafórica de me referir a um humanismo latente no olhar do cineasta e às magníficas composições dos seus actores de eleição, que, por serem tão magníficos, nunca deixam de inspirar alguma simpatia, mesmo quando procedem das formas mais vis). Dino Risi critica pelo riso a “humana condição”, sem grandes esperanças de transformações, é certo, mas com a serena tranquilidade de quem sabe que, apesar de tudo continuar a ser como é, vale a pena intervir pela arte, pela crítica, pelo desenho da crise.
Com argumento de Ettore Scola, Ruggero Maccari e Dino Risi, este é um filme lendário, rodado em 1962, que funciona admiravelmente como panorâmica de observação mordaz e crítica da sociedade italiana destes anos de retoma económica, de despreocupada e súbita prosperidade que, vinda depois da privação da guerra, cria igualmente uma atmosfera de leviandade e arrivismo desnorteados. As privações provocadas pelo fascismo e pela ocupação alemã, as lutas da Resistência, a vitória dos Aliados e a paz trouxeram consigo um conjunto de esperanças e de utopias que cedo cederam perante os comportamentos do dia-a-dia, quer da direita mais reacionária, que se “moderniza” e se refunda, quer da esquerda mais extrema, que se emburguesa ou se radicaliza, em ambos os casos perdendo o pé e isolando-se da realidade. O que fica deste contexto é uma sociedade sem valores, materialista, consumista, pensando apenas na promoção social, no lucro a todo o preço, no desenrascanço. O automóvel é, nesta situação, um elemento essencial que funciona como símbolo. Uma novidade, como símbolo de uma democratização generalizada. Um símbolo de status. É Dino Risi quem o afirma: “A Itália da guerra é a terra da bicicleta ou dos que andam a pé, depois veio a “motorina” (motorizada, a Lambreta) e por fim “la macchina”, o fabuloso automóvel.”


O filme passa-se no feriado de 15 de Agosto, em Roma. O “ferragosto”, assim se denomina o dia, comemora a assunção da Virgem Maria. A capital fica deserta, não há vivalma, nas ruas quase não circulam viaturas, todas as lojas fecham. Mas Bruno Cortona (Vittorio Gassman) é uma excepção e circula no seu Lancia Aurelia B24 Sport, pelas ruas de Roma, com a celeridade de uma piloto de Fórmula 1. Como veremos ao longo do filme, não tem nada que fazer, mas o que não tem a fazer faz depressa. Anda sempre em busca de alguma coisa. Nesta altura, procura um telefone, pára na berma da estrada para beber, olha para uma janela de um andar defronte e descobre um jovem estudante de direito, a quem pede para ligar para o número tal e perguntar por Marcela, informando-a que está atrasado, mas vai chegar. Outra constante na sua vida: estar atrasado para chegar não se sabe onde, mas anunciar que vai chegar. Roberto Mariani (Jean-Louis Trintignant), que prepara exames para Setembro, e não vê senão livros de estudo, e a ausência de uma bela vizinha, sem saber no que se mete convida Bruno a subir. É muito mais simples ser ele mesmo a telefonar. Nada a fazer. Bruno assenhoreia-se da situação, toma conta de Roberto, que, meio adormecido numa onda de um transbordante vitalismo, acaba por embarcar numa extenuante viagem pelas estradas da Itália, abrindo deste modo o filme a um “road movie”, que iria inclusive influenciar directamente (e confessadamente) o “Easy Rider”, de Denis Hopper e Peter Fonda…
Já agora, para se perceber as características da personagem, um pequeno apontamento. Bruno telefona a Marcela, que não atende. Bruno protesta: “Que vão para o inferno! Idiotas! Combinámos encontrarmo-nos às 11 horas, é meio-dia e já não estão!”
Que Roberto é “o aluno”, ficamos a saber desde logo, na sua apresentação. Mas não sabíamos ainda que o iniciador é Bruno, que o levará pelos perigosos caminhos do viver perigosamente, de uma forma sedutora, é óbvio, mas fundamentalmente perigosa, pondo em risco a sua própria vida, mas também a dos outros, de uma maneira egoísta, irresponsável, absurda. No início dos anos 60, nas estradas italianas, conduz a 120, ultrapassa sem qualquer precaução, agride verbalmente os outros automobilistas, brinca com peões, motoristas e ciclistas, instala-se um pouco por todo lado como se a casa fosse sua (inclusive na casa da sua ex-mulher, que tem para com ele uma atitude muito semelhante à que os espectadores lhe dedicam: alguma simpatia, alguma compreensão para com o miúdo que não cresceu, e que se mantém mimado vida fora, até uma altura em que a idade não perdoa já). O carro é aqui o elemento de referência, tem colado no painel de comandos um retrato de Brigite Bardot, o “sex simbol” europeu destes tempos, com uma bela inscrição de um moralismo machista: “Sê prudente, que te espero em casa!” Quando ultrapassa um ciclista, Bruno grita-lhe: “Compra uma Vespa!”, para logo a seguir completar o raciocínio: “O ciclismo não me interessa, é antiestético, engrossa as coxas. Prefiro bilhar ou cavalos…”.
As “boutades” de Bruno não têm fim. Passam por três padres alemães, a contas com um furo num dos pneus do automóvel. A uma pergunta de Bruno, um dos jovens sacerdotes responde em latim, Bruno não percebe, Roberto traduz: “Eles perguntam se temos um macaco.” “E como se diz que não temos?”, pergunta Bruno. Roberto responde: “Num habemus...” Bruno vira-se para os alemães e, no seu melhor latinório, faz-se compreender: “Num habemus macaco, ciao!”, e parte a toda a velocidade.
Quando surge a canção de Domenico Modugno, Bruno refere-se a um filme de Antonioni (O Eclipse), dizendo que esta música tem “aquela coisa, a solidão, a incomunicabilidade, e aquela outra coisa que está na moda, a alienação, como nos filmes de Antonioni.” Pergunta a Roberto se viu “O Eclipse”. Antes que Roberto diga o que quer que seja, Bruno opina, decisivo: “Eu dormi o tempo todo, foi uma bela soneca. Muito bom realizador, esse Antonioni!” (recorde-se que Dino Risi e Antonioni se estrearam em “Páginas da Vida”, de Zavattini).
Enquanto o carro vai circulando pelas estradas de Itália, a banda sonora vai registando alguns dos “hits” desses anos, mostrando também neste registo sonoro a descontração e ligeireza da sociedade italiana. Ouvimos canções e vozes que marcaram um período, o que também é uma das características do cinema de Risi. “Quando, Quando, Quando”, de Tony Renis e Alberto Testa, na voz de Emílio Pericoli, “St. Tropez Twist”, de Cenci-Faiella, “Per un attimo”, de Luigi Naddeo, “Don’t Play that Song” (You Lied), de Ahmet M. Etergun e Betty Nelson, as três cantadas por Peppino di Capri, “Giani”, de Tassone–Cássia, na voz de Miranda Martino, “Vecchio Frak”, de e na voz de Domenico Modugno, ou “Pinne Fucili Occhiali”, de Rossi-Vianello,  na interpretação de Vianello. Mas é, sobretudo, “Guarda come Dondolo”, igualmente de Rossi-Vianello, na voz de Edoardo Vianello, que dá o tom ao filme e o faz recordar musicalmente.
Esta viagem por Itália vai sendo pontuada por paragens que nos permitem conhecer melhor os protagonistas que se servem quase sempre da viagem no carro para estreitar relações e melhor se conhecerem um ao outro. Mas é quando param em casa da ex-mulher de Bruno que se percebe algum do passado e muitas das suas frustrações e fracassos, e é nessa altura igualmente que se descobre a filha de Bruno, e as relações entre os pais e ela, a sua atracção por um comendador bem servido de liras e de idade; é quando Roberto redescobre a casa dos tios, onde passou grande parte da sua meninice, que se compreende a sua timidez, a ignorância da vida, os pequenos traumas da sua adolescência. É no restaurante, onde dá de caras com o patrão, que o contratou e que o descobre na boa vida em vez de estar a trabalhar, que vem ao de cima o outro lado da personalidade de Bruno, a sua cobardia, o fala-barato, o desenrascanço. Que todavia não se detém perante nada e parte para a pista de dança com a mulher do patrão, a quem seduz (e por quem é descaradamente seduzido).
Curiosidades sobre a realização desta obra: Alberto Sordi foi o primeiro actor pensado para o principal papel, mas como estava contratado em exclusivo pelo produtor Dino De Laurentiis, Dino Risi teve de optar por Gassman. Com Alberto Sordi, certamente que a densidade do personagem seria diferente. Diferente também poderia ter sido o final da obra, com Roberto a matar Bruno (o que parece chegou a estar na ideia de Risi), mas este final não foi sequer rodado por razões de orçamento.
Este é um filme que denuncia um quase completo pessimismo do cineasta para com a humanidade, por igual. Não há personagens positivas (felizmente Dino Risi não seguia a filosofia do realismo soviético!), há apenas subtis gradações que vão da mediocridade de uma existência cinzenta até à hipocrisia mais brutal de exploradores sem escrúpulos, passando pelo vitalismo patético de quem foi apanhado numa engrenagem suicida (ou assassina) e não consegue sequer tempo para parar e pensar. Nesta sociedade, onde o que conta é “ultrapassar” e passar à frente, as consequências acabam por ser sempre trágicas.

A ULTRAPASSAGEM
Título original: Il Sorpasso ou The Easy Life
Realização: Dino Risi (Itália, 1962); Argumento: Dino Risi, Ettore Scola, Ruggero Maccari, Ettore Scola, Ruggero Maccari; Produção: Mario Cecchi Gori; Música: Riz Ortolani; Fotografia (p/b): Alfio Contini; Montagem: Maurizio Lucidi; Design de produção: Ugo Pericoli; Guarda-roupa: Ugo Pericoli; Maquilhagem: Gustavo Sisi; Direcção de produção: Pio Angeletti, Umberto Santoni; Assistentes de Realização: Guglielmo Ambrosi; Departamento de arte: Enrico Fiorentini; Efeitos Especiais: Aurelio Pennacchia; Companhias de produção: Incei Film, Fair Film, Sancro Film; Intérpretes: Vittorio Gassman (Bruno Cortona), Catherine Spaak (Lilly Cortona), Jean-Louis Trintignant (Roberto Mariani), Claudio Gora (Bibi), Luciana Angiolillo (mulher de Bruno), Linda Sini (Tia Lídia), Franca Polesello, Barbara Simon, Lilly Darelli, Mila Stanic, Nando Angelini (Amedeo), Edda Ferronao, Luigi Zerbinati (comendador), Bruna Simionato, etc.; Locais de rodagem: Roma, Castiglioncello, Livorno, Toscânia, Itália; Duração: 105 minutos; Classificação etária: M/ 12 anos; Distribuição em Portugal (DVD): Lusomundo Audiovisuais; Estreia em Portugal: 4 de Dezembro de 1964.

DINO RISI (1916-2008)
Em 1953, em pleno apogeu do “Neo-Realismo” em Itália, um grupo de realizadores e argumentistas lançou uma obra colectiva que ficou conhecida como manifesto desse movimento estético, cultural, cinematográfico e social e político também. Chamava-se “Retalhos da Vida” (no original “L’ Amore in città”) e agrupava alguns cineastas, cada um deles assinando um episódio, Michelangelo Antonioni, Federico Fellini, Alberto Lattuada, Carlo Lizzan, Francesco Maselli, Dino Risi e Cesare Zavattini. Lattuada e Dino Risi afastaram-se um pouco da ortodoxia do neo-realismo, optando por uma crítica de costumes de raiz satírica da realidade italiana do pós- guerra que nos deu exemplos magníficos de obras inesquecíveis. No caso de Dino Risi, ele foi um cineasta magnífico, um retratista implacável, um aguarelista inspirado na descrição de um tempo, de uma sociedade, de um clima social.
Dino Risi nasceu a 23 de Dezembro de 1916, em Milão, Lombardia, Itália, e faleceu a 7 Junho de 2008, em Roma, Lázio, igualmente em Itália. Ele próprio escreveu que “nascera do ano da Revolução Russa e no ano do primeiro “Giro d’Italia.” Agora que desapareceu, aos 91 anos, foi considerado unanimemente como “o pai da comédia de costumes italiana”. Mas, durante muitos anos, foi geralmente subestimado, considerado “menor”, o que parece paradoxal para um cineasta que conta, na sua vasta filmografia, algumas obras-primas do cinema italiano, simultaneamente de uma qualidade cinematográfica e interesse sociológico ímpares e grandes sucessos de público. “A Ultrapassagem”, “Uma Vida Difícil”, “Os Monstros” ou “Perfume de Mulher” bastavam para o colocar no panteão da cinematografia transalpina. 
Apareceu no cinema, em 1941, um pouco por acaso. Um dia, falando com o amigo Alberto Lattuada, que preparava o novo filme de Mario Soldati, “Piccolo mondo antico”, foi-lhe proposto um lugar na equipa técnica, que aceitou mais por desporto do que por gosto. A seguir esteve como assistente de realização do próprio Alberto Lattuada, em "Giacomo l'idealista" (1942). Mas estudava medicina, especializa-se em psiquiatria e começa a trabalhar como interno no hospital de Pádua, e depois no hospício de Voghera. Tudo indicava que nascia mais um médico, mas afinal o bichinho do cinema fez estragos. Com a guerra, resolve partir para a Suíça, onde conhece a futura mulher, tira um curso de encenação com Jaques Feyder, e faz amizades com o encenador e dramaturgo Giorgio Strehler.
De regresso a Itália, finda a guerra, volta a Milão em 1945. Começa a escrever contos e textos para jornais e revistas, e críticas de cinema para “Milano Sera”, nessa altura dirigido por Elio Vittorino e Alfonso Gatto. Gigi Martello, um produtor, convida então Dino Risi a realizar uma série de cerca de vinte curtas e médias-metragens documentais, o que o ocupa entre os anos de 46 e 50. Um desses trabalhos, talvez o mais citado, é "Buio in sala", que é vendido a Carlo Ponti, que o chama para Roma, onde se instala, e começa a escrever, com outros, um argumento para uma diva da altura, Silvana Mangano. O filme será “Anna”, que Lattuada dirige, e que se afirma como um dos maiores êxitos de sempre do cinema italiano. Dino Risi via abrir-se a porta da grande indústria. Em 1951, filma "Vacanze col gangster", tenta rodar, em 1953, um filme na produtora brasileira, de São Paulo, “Vera Cruz”, sem sucesso. Depois, com Sophia Loren e Vittorio de Sica, dirige o seu primeiro filme de fôlego, "O Signo de Vénus", e o título de encerramento de uma trilogia iniciada por Luigi Comencini e que fez furor na época, "Pão, amor e..." (ambos em 1955). "Pobres mas Belas" (Poveri ma belli), interpretado por Marisa Allasio, em 1956, é um relativo triunfo. O neo-realismo tinha esgotado as suas fórmulas e Dino Risi, com alguns outros realizadores e argumentistas, retomam a fórmula, mas sob o prisma de comédia de costumes. Entre 1960 e 1961, realiza “Il Mattatore”, com Vittorio Gassman, que prenuncia uma vasta e prodigiosa colaboração entre actor e cineasta, e depois "Un Amore a Roma" e "A Porte Chiuse", duas obras dramáticas sem grande sucesso, a que se seguem duas das suas obras maiores, “Una Vita Difficile” e "Il Sorpasso". Este último, “A Ultrapassagem”, será possivelmente, a sua grande obra. Conta-se que na noite da estreia, ele e o produtor Mario Cecchi Gori esperaram no exterior do cinema as reacções do público. Desgostoso pelo facto de haver muito poucos espectadores, Dino Risi regressou mais cedo a casa. Três horas depois diziam-lhe pelo telefone que fora um sucesso, e no dia seguinte a sala estava esgotada. Dino Risi tornara-se numa nova lenda viva do cinema italiano. “Fiz mais de cinquenta filmes, e estive sempre seguro de que um deles poderia vir a ser uma obra-prima”. "”Profumo di Donna”, de 1974, reúne Gassman e Agostina Belli, e com ele recebe o César de melhor filme estrangeiro lançado nesse ano em França. Mais tarde, servirá de base a uma nova versão, norte-americana, assinada por Martin Brest, com Al Pacino no protagonista.
Em 1993, o Festival de Cannes reconhece a obra deste cineasta brilhante, exibindo um ciclo com quinze das suas obras mais reputadas. Em 2002, recebe um Leão de Ouro pelo conjunto da sua carreira em Veneza (2002). Em 2004, no dia 2 de Julho, durante o qual se celebra a implantação da República, o presidente Carlo Azeglio Ciampi condecorou Dino Risi com a ordem “Cavaliere di Gran Croce”.
Quando Dino Risi morreu, Sofia Loren foi a voz de quantos o conheciam bem: "É uma grande perda para o cinema italiano". "Fazia uma comédia de costumes italiana, mas que na realidade era universal", disse o crítico italiano Valerio Caprara, lembrando que Risi "jamais se prendeu às exigências estéticas da moda". Era "um Billy Wilder à italiana", afirmou o jornal “La Repubblica”, com alguma razão.

FILMOGRAFIA

Como realizador (titulos essenciais): 1946: I Bersaglieri della Signora (documentário); 1953: L’ Amore in Città (Retalhos da Vida) (com Michelangelo Antonioni, Federico Fellini, Alberto Lattuada, Carlo Lizzani, Francesco Maselli, e Cesare Zavattini; 1955: Il Segno di Venere ou The Sign of Venus (O Signo de Vénus); 1955: Pane, Amore e… (Pão, Amor e…); 1957: Poveri ma Belli (Os Galãs do Bairro); La Nonna Sabella ou L’ Impossible Isabelle ou Oh! Sabella (A Avó Isabel); Belle ma Povere (Belas mas Pobres); 1959: Il Vedovo (O Viúvo Alegre); Venezia, la luna e tu (Vebeza, a Lua e Tu); 1960: Il Mattatore (O Castigador) ; 1961: A porte chiuse (À Porta Fechada); 1961: Una Vita difficile (Uma Vida Dificil); 1962: Il Sorpasso (A Ultrapassagem); 1963: Il Successo (O Sucesso); La Marcia su Roma; Il Giovedi (Dia de Ferias); I Mostri (Os Monstros); 1965: Il Gaucho (O Gaucho) ; 1968: Il Profeta (O Profeta); 1969: Vedo Nudo (Vejo Tudo Nu); 1971: La Moglie del Prete (A Mulher do Padre); Noi donne siamo fatte così (Nós, as Mulheres somos Assim); In Nome del Popolo Italiano (Em Nome do Povo Italiano); 1973: Mordi e Fuggi (Fim de Semana Ilegítimo); Sessomatto (Sexo Louco); 1974: Profumo di Donna (Perfume de Mulher); 1976: Telefoni Bianchi; 1977: Anima Persa (Almas Perdidas); La Stanza del vescovo ou La Chambre de l'évèque ou The Bishop's Bedroom ou The Bishop's Room (A Alcova do Bispo); 1977: I Nuovi Mostri (Os Novos Monstros): Mario Monicelli ("Autostop" e "First Aid"), Dino Risi ("Con i saluti degli amici", "Tantum ergo", "Pornodiva", "Mammina mammona" e "Senza parole"), Ettore Scola ("L'uccellino della Val Padana", "Il sospetto", "Hostaria", "Come una regina", "Cittadino esemplare", "Sequestro di persona cara" e "Elogio funebre"); 1978: Primo Amore (Nostalgia do Amor); 1979: Caro Papà ou Cher papa ou Dear Father ou Dear Papa (Caro Papá); 1981: Fantasma d'Amore ou Fantôme d'Amour (Fantasma de Amor); 1987: Teresa.

SESSÃO 14 - 3 DE MAIO DE 2016



GANGSTERS FALHADOS (1958)

Alexandre Marius Jacob, conhecido apenas por Marius Jacob (1879 –1954) foi um célebre francês, ladrão de inspiração anarquista, que parece ter estado na origem da criação de Maurice Leblanc para a sua personagem Arsène Lupin. Marius Jacob é uma lenda no campo da criminalidade francesa. Ardiloso, inteligente, roubando aos ricos para dar aos pobres, estribando-se em conceitos políticos para as suas façanhas, mantinha um humor e irreverência inegáveis. Conta-se que um dia assaltou uma casa e descobriu que esta era pertença do escritor Pierre Loti. Marius Jacob voltou a colocar tudo nos seus lugares e deixou uma nota: “Assaltei por engano a sua casa. Um escritor que vive da sua escrita merece um salário.” Assinava Attila. E deixava um PS: “junto 10 francos para substituir o vidro partido”. Foi muito comentado um assalto seu a uma ourivesaria, utilizando a técnica do chapéu-de-chuva. Julga-se que terá sido esta personagem a estar na base de um filme de Jules Dassin, de 1955, “Du rififi chez les hommes”, um clássico dos “filmes de roubo”, que por sua vez terá servido de pretexto para, entre muitas outras obras, a excelente paródia que Mario Monicelli realizou em 1958, “Gangsters Falhados” (I Soliti Ignoti).
O filme reúne um conjunto de magníficos actores que se juntam enquanto personagens que alimentam a esperança de praticar um grande roubo num banco, ou numa loja de penhores onde existe um apetecível cofre-forte carregado de jóias. São arraia-miúda do submundo do crime. Tudo começa pelo roubo frustrado de um carro. Apanhado pela polícia, o malogrado assaltante quer servir-se de um embuste para sair da prisão e dar o grande golpe. Para isso precisa de uma “ovelha”, designação dada a quem estiver pelos ajustes de, contra uma boa indemnização, se apresentar às autoridades como autor do assalto, libertando o verdadeiro culpado. A procura do tipo certo para este “negócio” é desde logo um dos grandes momentos do filme. Num bairro suburbano de Roma, perguntam a um grupo de miúdos se conhecem o Mário. “Aqui há centenas de Mários!” responde um dos inquiridos. “Mas este é ladrão”, acrescenta quem procura. “Continua a haver centenas”, conclui o jovem que continua a jogar à bola.
Depois de várias peripécias, organiza-se um gang de pequenos escroques. Peppe (Vittorio Gassman) é um pugilista manhoso, que aceita o papel de “ovelha” para sacar a Cosimo (Memmo Carotenuto) as informações sobre o golpe que está a preparar. Tiberio (Marcello Mastroianni) é um fotógrafo sem máquina, que empenhou, que tem a mulher presa por contrabando de cigarros (parece a dupla de “Ontem, Hoje e Amanhã”, que surgirá pouco anos depois) e vive com um bebé ao colo. Mario Angeletti (Renato Salvatori) não tem eira nem beira e catrapisca a irmã do siciliano Ferribotte (Tiberio Murgia), que vela pela castidade de Carmelina (Claudia Cardinale) com denodado rigor. Entre outros mais, surge ainda Dante Cruciani (Totò), especialista em arrombar cofres. Um verdadeiro artista de prestígio assegurado que “nunca se encontra no local do crime quando este acontece”.
Para se entrar no andar do banco, é necessário antes uma penosa peregrinação por telhados e terraços e aturados estudos à distância. Depois, urge perfurar uma parede e tudo se julga sob controlo, mas pode sempre surgir o imprevisto. É o caso, que não se revela para não se perder o inesperado.
"Gangsters Falhados" é uma das mais conseguidas obras de Mario Monicelli e uma das mais características comédias italianas dos anos 50. Com uma sólida base de análise social, partindo de um inteligente e hábil argumento, cozinhado a várias mãos (Agenore Incrocci, Furio Scarpelli, Suso Cecchi D'Amico e do próprio Mario Monicelli, ao que consta partindo de um conto de Italo Calvino, "Furto in una pasticceria", o que não aparece creditado no genérico), “I Soliti Ignoti” é um retrato de uma sociedade saída da guerra e de uma traumatizante passagem pelos conturbados tempos do fascismo italiano. A Itália percorria já o que para alguns era o período dourado do “milagre económico” que deixava, todavia, na miséria largas fatias da população que se entregava à prática da pequena delinquência e a uma economia paralela, procurando assim sobreviver à exclusão social. Os ambientes humanos e os cenários urbanos do filme mostram isso mesmo e a tonalidade humorística não exclui a crítica (muito pelo contrário, acentua-a). A estrutura narrativa está solidamente implantada, Monicelli tem o dom de desenvolver sabiamente os apontamentos satíricos e o desenho das personagens, algumas inesquecíveis, representadas por um elenco onde sobressaem os nomes de Vittorio Gassman, Renato Salvatori, Marcello Mastroianni, Claudia Cardinale, Memmo Carotenuto, Carla Gravina, Tiberio Murgia, Carlo Pisacane, além de Totó, um dos maiores e dos mais originais actores de sempre no campo da comédia.  



GANGSTERS FALHADOS
Título original: I soliti ignoti
Realização: Mario Monicelli (Itália, 1958); Argumento: Agenore Incrocci, Furio Scarpelli, Suso Cecchi D'Amico, Mario Monicelli, drgundo conto de Italo Calvino ("Furto in una pasticceria"); Produção: Franco Cristaldi; Música: Piero Umiliani; Fotografia (p/b): Gianni Di Venanzo; Montagem: Adriana Novelli; Design de produção: Piero Gherardi; Decoração: Vito Anzalone; Guarda-roupa: Piero Gherardi; Maquilhagem: Romolo de Martino; Direcção de Produção: Gino Millozza, Nicolò Pomilia; Assistente de realização: Mario Maffei; Departamento de arte: Italo Tomassi; Som: Oscar Di Santo, Luigi Puri; Companhias de produção:Cinecittà (Stabilimenti Cinematografici, Lux Film, Vides Cinematografica; Intérpretes: Vittorio Gassman (Peppe il pantera), Renato Salvatori (Mario Angeletti), Memmo Carotenuto (Cosimo), Rossana Rory (Norma), Carla Gravina (Nicoletta), Marcello Mastroianni (Tiberio), Totò (Dante Cruciani), Tiberio Murgia (Michele, dito o Ferribotte), Claudia Cardinale (Carmelina), Gina Rovere (Teresa), Gina Amendola (Mario), Elvira Tonelli (Assunta), Elena Fabrizi (Signora Ada), Pasquale Misiano (Massimo), Renato Terra (Eladio), Aldo Trifiletti (Fernando), Nino Marchetti (Luigi), Mario De Simon, Edith Bruck, Franco Carli, Mario Feliciani, Ida Masetti, Mimmo Poli, Lisa Romey, Amerigo Santarelli, Gustavo Serena, Roberto Spiombi, etc. Duração: 106 minutos; Distribuição em Portugal: Cristald Filmes; Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 13 de Novembro de 1959.  


A COMÉDIA À ITALIANA
Terá sido Mario Monicelli, um dos nomes mais representativos da comédia à italiana, quem a definiu nestes termos: “trata em termos cómicos, divertidos, irónicos, humorísticos argumentos que são muitas vezes dramáticos. É isso que distingue a comédia à italiana de todas as outras comédias”. Surgida no prolongamento do neorrealismo, os seus títulos mais significativos aparecem entre meados dos anos 50 e finais da década de 70 do século passado. Muito revelador é o facto de esta comédia surgir algum tempo depois de terminada a II Guerra Mundial, depois da Itália começar a ultrapassar o desastre económico, político e social que a guerra provocara no seu tecido, numa altura em que o plano Marshall começava a dar alguns resultados, em que o boom económico explodia, em que a burguesia nacional de reorganiza, bem assim como as forças mais conservadoras. Tudo isso acarretou consequências diversas, umas positivas, outras negativas. Entre estas manifestou-se uma corrupção galopante, o surgimento de uma burguesia endinheirada de novos-ricos, uma desigualdade social mais radicalizada, uma progressiva descredibilização dos valores e uma ofensiva valorização do dinheiro dominando tudo e todos. As instituições políticas, religiosas, jurídicas (e tantas outras) são asperamente criticadas. Simultaneamente, ao lado do dinheiro que tudo compra, surge um hedonismo patológico, onde o sexo ocupa destacado lugar.
Tendo como base estes temas, a comédia italiana exprime-se em dois tempos e dois níveis. Uma, mais amável e menos empenhada, é vista como um “neorrealismo rosa”. Outra, intelectualmente mais incisiva e culturalmente interventiva, revela um importante conjunto de cineastas como Dino Risi, Pietro Germi, Mario Monicelli, Luigi Comencini, Vittorio De Sica, Ettore Scola, Steno, Pasquale Festa Campanile, Antonio Pietrangeli, Lina Wertmüller, Luigi Zampa, Luigi Magni, Nanni Loy, Camillo Mastrocinque, Luciano Salce, Sergio Corbucci e alguns argumentistas de muito bom nível, basta citar Steno, Age e Scarpelli, Rodolfo Sonego, Sergio Amidei, Piero De Bernardi, Leo Benvenuti, Ettore Scola ou Suso Cecchi D'Amico.
Cronologicamente, poderemos referir algumas obras essenciais, deixando muitas outras de fora, dado que o período foi extremamente fértil: “Guardie e ladri”, 1951, de Mario Monicelli e Steno; “I soliti ignoti”, 1958, de Mario Monicelli; “La grande guerra”, 1959, de Mario Monicelli; “Il vedovo”, 1959, de Dino Risi; “Tutti a casa”, 1960, de Luigi Comencini; “Il mattatore”, 1960, de Dino Risi; “Divorzio all'italiana”, 1961, de Pietro Germi; “Una vita difficile”, 1961, de Dino Risi; “L'onorata società”, 1961, de Riccardo Pazzaglia; “A cavallo della tigre”, 1961, de Luigi Comencini; “I due marescialli”, 1961, de Sergio Corbucci; “Il sorpasso”, 1962, de Dino Risi; “Ieri, oggi, domani”, 1963, de Vittorio De Sica; “Il boom”, 1963, de Vittorio De Sica; “I compagni”, 1963, de Mario Monicelli; “Una storia moderna: l'ape regina”, 1963, de Marco Ferreri; “I mostri”, 1963, de Dino Risi; “Sedotta e abbandonata”, 1964, de Pietro Germi; “La donna scimmia”, 1964, de Marco Ferreri; “Matrimonio all'italiana”, 1964, de Vittorio De Sica; “Signore & signori”, 1965, de Pietro Germi; “L'armata Brancaleone”, 1966, de Mario Monicelli; “La ragazza con la pistola”, 1968, de Mario Monicelli; “Il medico della mutua”, 1968, de Luigi Zampa; “Riusciranno i nostri eroi a ritrovare l'amico misteriosamente scomparso in Africa?”, 1968, de Ettore Scola; “Il commissario Pepe”, 1969, de Ettore Scola; “Nell'anno del Signore”, 1969, de Luigi Magni; “Dramma della gelosia - Tutti i particolari in cronaca”, 1970, de Ettore Scola; “Brancaleone alle crociate”, 1970, de Mario Monicelli; “In nome del popolo italiano”, 1971, de Dino Risi; “Mimì metallurgico ferito nell'onore”, 1972, de Lina Wertmüller; “Detenuto in attesa de giudizio”, 1972, de Nanni Loy; “Alfredo Alfredo”, 1972, de Pietro Germi; “Lo scopone scientifico”, 1972 de Luigi Comencini; “Vogliamo i colonnelli”, 1973, de Mario Monicelli; “Pane e cioccolata”, 1973, de Franco Brusati; “Film d'amore e d'anarchia”, 1973, de Lina Wertmüller; “Travolti da un insolito destino nell'azzurro mare d'agosto”, 1974 de Lina Wertmüller; “C'eravamo tanto amati”, 1974, de Ettore Scola; “Profumo de donna”, 1974, de Dino Risi; “Romanzo popolare”, 1974, de Mario Monicelli; “Finché c'è guerra c'è speranza”, 1974, de Alberto Sordi; “La poliziotta”, 1974, de Steno; “Amici miei”, 1975, de Mario Monicelli; “La mazurka del barone, della santa e del fico fiorone”, 1975, de Pupi Avati; “Pasqualino Settebellezze”, 1975, de Lina Wertmüller; “Signore e signori, buonanotte”, 1976, de Luigi Comencini, Nanni Loy, Luigi Magni, Mario Monicelli, Ettore Scola; “Brutti, sporchi e cattivi”, 1976, de Ettore Scola; “Una giornata particolare”, 1977, de Ettore Scola; “La stanza del vescovo”, 1977, de Dino Risi; “I nuovi mostri”, 1977, de Mario Monicelli, Dino Risi, Ettore Scola; “Il gatto”, 1977, de Luigi Comencini; “In nome del Papa Re”, 1977, de Luigi Magni; “La terrazza”, 1980, de Ettore Scola; “Amici miei atto II”, 1982, de Mario Monicelli.

Falando dos actores, a Itália tem um rei de prestígio inabalável, no campo do cinema, que vem dos anos 30 e prolonga a sua glória até finais da década de 60: Totó. O seu percurso faz-se um pouco à margem de todas as correntes, é um caminho individual que, todavia, se cruza obviamente com a comédia italiana. Mas, no período restrito a que corresponde à idade de ouro da comédia italiana, muitos grandes actores se notabilizaram, uns mais precisamente no campo do humor, outros incorporando essa faceta em filmografias muito mais abrangentes, indo do drama à comédia. São eles, no primeiro caso, Alberto Sordi, Ugo Tognazzi, Vittorio Gassman, Marcello Mastroianni, Nino Manfredi, Sylvia Koscina, Laura Antonelli, Agostina Belli, Renato Salvatori, Mario Carotenuto, Memmo Carotenuto, Tina Pica, Marisa Merlini, Leopoldo Trieste, Franco Franchi e Ciccio Ingrassia, ao lado de, no segundo caso, Sophia Loren, Gina Lollobrigida, Claudia Cardinale, Silvana Mangano, Monica Vitti, Vittorio De Sica, Gino Cervi, Gian Maria Volontè, Enrico Maria Salerno, Salvo Randone, Walter Chiari, Franca Valeri, Stefania Sandrelli, Gastone Moschin, Carla Gravina, Adolfo Celi, Giancarlo Giannini, Michele Placido, Stefano Satta Flores, Mariangela Melato, e tantos outros. De resto, mesmo depois dos anos 60, surgiram novos actores, muitos deles de recursos mais limitados, que mantiveram a comédia entre os sucessos populares do cinema italiano. Alguns exemplos: Paolo Villaggio, Gigi Proietti, Lino Banfi, Renzo Montagnani, Gianfranco D'Angelo, Edwige Fenech, Gloria Guida, Alvaro Vitali, Bombolo ou Enzo Cannavale, sobretudo no campo da comédia erótica. Mas uma nova geração de cineastas renovou o campo da comédia nos últimos tempos, com excelentes resultados, casos de Nanni Moretti, Roberto Benigni, Carlo Verdone, Massimo Troisi, Francesco Nuti, Maurizio Nichetti, Alessandro Benvenuti, Gabriele Salvatores, Paolo Virzì, Francesca Archibugi, Daniele Luchetti e Silvio Soldini, ou ainda Leonardo Pieraccioni, Vincenzo Salemme e Giovanni Veronesi. Em Portugal pouco cinema italiano recente se vê. 

SESSÃO 13 - 26 DE ABRIL DE 2016


POLÍCIAS E LADRÕES (1951)

“Guardie e Ladri” data de 1951 e surge assinado por Mario Monicelli e Steno, uma dupla de realizadores muito representativa da chamada comédia italiana, sobretudo no seu lado mais popular, o que fica bem demonstrado nesta obra interpretada de forma magistral por Totò e Aldo Fabrizi. Será de sublinhar que nesta época, inícios da década de 50, o neorrealismo tinha ainda uma forte presença em Itália e que, apesar do seu registo em tons de comédia, esta é obviamente uma obra que se apresenta como legítima herdeira desse movimento estético que teve no cinema um importante desenvolvimento.
Esta é a história de dois pobres diabos, dois tipos populares, representando cada um lados opostos da lei. Ferdinando Esposito (Totò) é um vigarista de pequeno calibre que sobrevive, ele e a família, de expedientes diversos, mas quase todos à margem da lei. Vamos encontrá-lo, juntamente com o seu cúmplice, Amilcare (Aldo Giuffrè), nas ruínas do Coliseu de Roma, “descobrindo” uma moeda antiga e enganando um turista americano, um tal Mr. Locuzzo, que é igualmente o presidente de uma comissão de caridade americana, o que irá dar origem a um desaconselhável reencontro quando Esposito se candidata, juntamente com um conjunto de “filhos” de ocasião, à ajuda americana. Mr. Locuzzo reconhece o aldrabão, denuncia-o às autoridades, e inicia-se então uma inusitada perseguição, com o anafado agente da polícia Lorenzo Bottoni (Aldo Fabrizi) a correr atrás do burlão. A caçada parece nunca mais acabar, mas o fôlego dos corredores sim, o que permite um momento de pausa e reflexão conjunta.
Finalmente, Bottoni acaba por dar voz de prisão ao delinquente, mas este escapa, o polícia é castigado e suspenso das suas funções, arriscando-se a perder o emprego. À paisana, sem farda nem arma, Bottoni jura encontrar o fugidio Esposito. Vai a casa deste, conhece a família, sem se dar a conhecer, e a partir daí a empatia entre todos é evidente. Afinal, polícia e ladrão são resultado de um mesmo povo, de uma mesma sociedade, de mesmas questões sociais.


Apesar de colocados de lados opostos de uma realidade social, Esposito e Bottoni são dois exemplos muito semelhantes saídos de uma certa sociedade. Ambos sobrevivem miseravelmente, um servindo a ordem estabelecida, o outro procurando subvertê-la no dia-a-dia. Nenhum deles tem consciência política, ambos funcionam pelo pragmatismo das situações. Ambos irão perceber que existe muito mais a uni-los do que aquilo que os separa. Uma solidariedade possível vai estabelecer-se entre os dois (e as famílias de ambos), sem que, todavia, a estrutura da sociedade seja posta em causa. Esposito e Bottoni são já amigos, mas um irá prender o outro e enviá-lo para a cadeia e quando Esposito pressente o drama e a dúvida no rosto do polícia será ele o primeiro a decidir entregar-se. Ambos aceitam a ordem estabelecida. “Guardie e Ladri” mostra a realidade, não procura apontar caminhos. 
Este título da filmografia conjunta de Steno e Monicelli esteve a concurso da quinta edição do Festival de Cannes, onde ganhou o prémio para Melhor Argumento, sendo ainda distinguido Totò pela sua interpretação. Em 1952, Totò, pela sua actuação nesta obra, recebeu igualmente o Prémio de Melhor Actor, atribuído pelo Sindicato dos Críticos de Cinema Italianos. Um actor que até aí não era visto com grande interesse pelos intelectuais italianos ganhava as suas credenciais.
Curiosamente este filme era para ser dirigido por Luigi Zampa, que declinou o projecto por o julgar demasiado arriscado em termos de censura (nessa versão Peppino De Filippo seria o polícia e Anna Magnani a sua mulher). Zampa já tinha tido alguns problemas com filmes anteriores, e não queria voltar a envolver-se com os censores. Tinha razão, dado que a versão final de “Polícias e Ladrões” iria desencadear reacções violentas por parte das autoridades que não viam com bons olhos esta familiaridade de um polícia e um ladrão. Quase durante um ano, o filme lutou com a censura até obter ordem de soltura. Foi um sucesso imediato junto do público italiano. O que confere justiça à realização discreta mas eficaz, ao excelente argumento e à magnífica interpretação dos dois protagonistas, que erguem personagens de uma densidade humana indesmentível.
Finalmente, conte-se uma curiosidade ligada à rodagem: durante a perseguição de Fabrizi a Totò, pelas ruas da cidade, quando o polícia grita “Ladrão! Prendam-no!”, dois agentes da autoridade autêntico, tomaram o grito por verdadeiro e resolveram pegar nas armas e atirar para o ar, para intimidar o ladrão. Morto de medo, Totò pára, esperando que a situação se esclareça. Tudo acabou, rezam as crónicas, com autógrafos de Fabrizi e Totò para os “vero carabinieri”.


POLÍCIAS E LADRÕES
Título original: Guardie e ladri
Realização: Mario Monicelli e Steno (Itália, 1951); Argumento: Vitaliano Brancati, Aldo Fabrizi, Ennio Flaiano, Ruggero Maccari, Mario Monicell, Steno, Piero Tellini; Produção: Dino De Laurentiis, Carlo Ponti; Música: Alessandro Cicognini; Fotografia (p/b): Mario Bava; Montagem: Franco Fraticelli, Adriana Novelli; Design de produção: Flavio Mogherini; Decoração: Flavio Mogherini; Direcção de Produção:Nicolò Pomilia, Bruno Todini; Assistentes de realização: Rudy Bauer, Mario Mariani; Som: Aldo Calpini, Biagio Fiorelli; Companhias de produção: De Laurentiis, Golden Film, Lux Film, Ponti; Intérpretes: Aldo Fabrizi (Lorenzo Bottoni), Totò (Ferdinando Esposito), Ave Ninchi (Giovanna Bottoni), Pina (Donata Esposito), William Tubbs (Mr. Locuzzo, o turista), Rossana Podestà (Liliana Bottoni), Gino Leurini (Alfredo), Aldo Giuffrè (Amilcare), Carlo Delle Piane (Libero Esposito), Ernesto Almirante, Paolo Modugno, Pietro Carloni, Mario Castellani, Armando Guarnieri, Ciro Berardi, Giulio Calì, Gino Scotti, Luciano Bonanni, Rocco D'Assunta, Aldo Alimonti, Riccardo Antolini, Alida Cappellini, Ettore Jannetti, etc. Duração: 105 minutos; Distribuição em Portugal: Estevez Seven; Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 21 de Novembro de 1952.


TOTÒ ou ANTONIO DE CURTIS (1898-1967)
Totò é considerado unanimemente o maior actor cómico italiano e, seguramente, um dos maiores a nível mundial. Nascido a 15 de Fevereiro de 1898, em Nápoles, Itália, Antonio Clemente era filho de Anna Clemente e de pai desconhecido. Mas, segundo o próprio actor, e mais tarde reconhecido legalmente, o seu pai foi Giuseppe De Curtis, filho do importante marquês De Curtis, que, todavia, se terá sempre oposto aos amores do filho com a bela, mas muito popular Anna, impedindo o casamento.
Exuberante e pouco dado aos estudos, Antonio Clemente cedo deixou a escola, passou por vários empregos até se aproximar do teatro, sua grande paixão. Terá sido ainda muito jovem que, numa mais acalorada luta com alguém da sua idade, terá levado um murro que lhe desviou para sempre o septo nasal. Entre 1913 e 1914 estreia-se no teatro, com o pseudónimo de Clerment. Entretanto, durante a I Guerra Mundial, oferece-se como voluntário, mas, uma vez na frente, finge um ataque de coração que o leva para a rectaguarda. Finda a guerra, regressa ao teatro, passa por companhias onde trava conhecimento com Eduardo e Peppino De Filippo ou Cesare Bixio. Por entre números de variedades e canções, Antonio adquire certa notoriedade. Em 1927, integra a companhia de operetas e revistas Achille Maresca, realizando grandes tournées. A crítica começa a referenciá-lo como o “cómico grotesco” que se destaca nos palcos italianos. Estreia-se como o nome de Totò, em Padova, na peça “Madama Follia”. Por essa altura, 1928, o pai, o já marquês Giuseppe De Curtis, reconhece legalmente a paternidade, algo que foi muito importante para Antonio Clemente, que passa a assinar Antonio De Curtis. Mas, na verdade, a sua designação completa passa a ser (e leia-se em italiano que tem mais sabor): Antonio Griffo Focas Flavio Angelo, Ducas Comneno Porfirogenito Gagliardi De Curtis di Bisanzio, Altezza Imperiale, Conte Palatino, Cavaliere del Sacro Romano Impero, esarca di Ravenna, duca di Macedonia e Illiria, principe di Costantinopoli, di Cicilia, di Tessaglia, di Ponto, di Moldavia, di Dardania, del Peloponneso, conte di Cipro e di Epiro, conte e duca di Drivasto e di Duraz.
Totò era já um actor de reputação consolidada no teatro, onde se notavam as características do seu humor muito próprio. Era conhecido como “marioneta desarticulada”. Apaixona-se por uma cantora, Liliana Castagnola, com quem mantém uma ligação amorosa, que acaba por se suicidar. Anos mais tarde, será Diana Bandini Lucchesini Rogliani, espectadora de uma actuação sua no teatro, que se apaixona por Totò. Vivem juntos, têm uma filha, em 1933, casam em 1935. Divorciam-se em 1940. Entretanto, Totò cria a sua própria companhia entre 1932 e 1933 e vive um período de grande glória nos palcos italianos. Em 1937, interpreta "Fermo con le mani!", de Gero Zambuto, a que se segue " Animali Pazzi", de Carlo Ludovico Bragaglia. Mas a carreira de Totò no cinema leva o seu tempo a arrancar. Apenas em 1947, com “I Due Orfanelli", de Mario Mattòli, atinge a glória, que se irá repercutir por uma filmografia de mais de uma centena de títulos.
A sua obra é sobretudo popular. Os seus filmes eram essencialmente para todo o público, mas direccionados a camadas mais plebeias, muito embora as suas origens aristocratas. Mas a faceta napolitana predominou sempre. Raras vezes foi dirigido por grandes cineastas (o que só aconteceu no final da carreira, quando finalmente se reconheceu a grandeza e a originalidade da sua arte), o que nem sempre funcionou mal. Os técnicos competentes permitiram a Totò improvisar, irradiar o seu talento, desenvolver personagens, impor um estilo próprio. Rodava meia dúzia de filmes por ano, quase todos paródias a grandes sucessos cinematográficos internacionais (basta consultar a filmografia em anexo, para se perceber isso) e multiplicava-se em figuras que mantinham uma forma muito particular de actuação. A sua linguagem (o seu linguajar melhor dizendo) era incomparável e o gesticular excessivo invulgarmente expressivo. Recriando personalidades muito populares, Totò nunca deixou, porém, de ser o príncipe da comédia. 


Filmografia essencial / como actor (de um total de cerca de 108 títulos): 1935: Fermo con le mani !, de Gero Zambuto; 1937: Animali pazzi, de Carlo Ludovico Bragaglia; 1940: San Giovanni decollato (O Homem dos Sete Ofícios), de Amleto Palermi e Giorgio Bianchi; 1945: Il Ratto delle sabine (Totó, Professor de Trombone), de Mario Bonnard; 1947: I due orfanelli (Totó, Perdeu a Cabeça), de Mario Mattoli; 1948: Totò al giro de Italia (Totó, Ás do Pedal), de Mario Mattoli; 1948: Fifa e arena (Mulheres, Música e Toiros), de Mario Mattoli; 1949: L'Imperatore di Capri (Totó, Imperador de Capri), de Luigi Comencini; Totò cerca casa (Totó Procura Casa), de Mario Monicelli e Steno; Totò le Moko (Totó Desceu à Cidade), de Carlo Ludovico Bragagli; 1950: Napoli milionaria (Nápoles Milionária), de Eduardo De Filippo; Totò sceicco (Totó Sheik), de Mario Mattoli; Le sei mogli di Barbablù (Totó e o Barba Azul), de Carlo Ludovico Bragaglia; 1950: Totò cerca moglie (Totó Procura Mulher), de Carlo Ludovico Bragaglia; 1950: Totò Tarzan (Totó Tarzan), de Mario Mattoli; 1951: Guardie e ladri (Policias e Ladrões), de Mario Monicelli e Steno; Totò e i re di Roma, de Mario Monicelli e Steno; Totò terzo uomo (Totó Terceiro Homem), de Mario Mattoli; 1952: Totò e le donne (Toto Entre as Mulheres), de Mario Monicelli e Steno; Totò a colori (Totó a Cores), de Steno; 1953: Il più comico spettacolo del mondo (O Mais Cómico Espectáculo do Mundo), de Mario Mattoli; Un Turco napoletano (O Turco Napolitano), de Mario Mattoli; Totò, Peppino e una di quelle (Novo Dia), de Aldo Fabrizi; 1954: L'Oro di Napoli (O Ouro de Nápoles), de Vittorio De Sica, episódio “Il Guappo”; Dov'è la libertà ? (Onde Está a Liberdade?), de Roberto Rossellini; Miseria e nobiltà (Totó Rico e Pobre), de Mario Mattoli; Tempi nostril (Os Nossos Tempos), de Alessandro Blasetti e Paul Paviot; Totò cerca pace (Totó Procura Paz), de Mario Mattoli; 1955: Siamo uomini o caporali (Somos Homens ou Quê?), de Camillo Mastrocinque; Totò e Carolina (Totò e Carolina), de Mario Monicelli; 1956: La Banda degli onesti (Totó e as Notas Falsas), de Camillo Mastrocinque; Totò, Peppino e i… fuorilegge (Totó Fora da Lei), de Camillo Mastrocinque; Totò, Peppino e... la malafemmina (Os Tios da Província), de Camillo Mastrocinque; 1958: La Legge è legge (Totó, Fernandel e a Lei), de Christian-Jaque; I Soliti ignoti (Gangsters Falhados), de Mario Monicelli; Totò nella luna (Totó na Lua), de Steno; Totò a Parigi (Totó em Paris), de Camillo Mastrocinque; 1959: I Tartassati (Totó Contribuinte), de Steno; Arrangiatevi! (Casa Nova...Vida Nova), de Mauro Bolognini; La Cambiale (A Letra), de Camillo Mastrocinque; Totò, Eva e il pennello proibito (Totó em Madrid), de Steno; 1960: Totò, Fabrizi e i giovani de oggi (Totó, Fabrizi e os Meninos de Hoje), de Mario Mattoli; 1960: Chi si ferma è perduto (Totó Torce o Pepino), de Sergio Corbucci; Risate di gioia (O Ladrão Apaixonado), de Mario Monicelli; Signori si nasce (Totó Fidalgo), de Mario Mattoli; 1961: Totò, Peppino e... la dolce vita (Totò e a Doce Vida), de Sergio Corbucci; I due marescialli (Os Dois Carabineiros), de Sergio Corbucci; Sua Eccellenza si fermò a mangiare, de Mario Mattoli; Tototruffa '62 (Totó Vigarista), de Camillo Mastrocinque; 1962: I due colonnelli, de Steno; 1962: Totò contro Maciste (Totó Contra Maciste), de Fernando Cerchio; Totò diabolicus (Totó Diabólico), de Steno; Totò di notte n. 1, de Mario Amendola; Totò e Peppino divisi a Berlino (Totó e Peppino em Berlim), de Giorgio Bianchi; 1963: Il monaco di Monza, de Sergio Corbucci; Gli onorevoli; de Sergio Corbucci; 1963: Totò contro i 4 (Totó Contra Quatro), de Steno; Totò e Cleopatra (Totó e Cleópatra), de Fernando Cerchio; Totò sexy, de Mario Amendola; 1964: Le Belle famiglie, de Ugo Gregoretti; Che fine ha fatto Totò baby?, de Ottavio Alessi; Totò contro il pirata nero, de Fernando Cerchio; Totò de Arabia (Totó da Arábia), de José Antonio de la Loma; 1965: Gli amanti latini, de Mario Costa; La Mandragola (Marido Velho, Mulher Nova) de Alberto Lattuada; Rita, la figlia Americana, de Piero Vivarelli; 1966: Uccellacci e uccellini (Passarinhos e Passarões), de Pier Paolo Pasolini; Le Streghe (A Magia da Mulher), episódio “La Terra vista dalla luna”, de Pier Paolo Pasolini; 1967: Operazione San Gennaro (Golpe de Mestre à Napolitana), de Dino Risi; Il padre di famiglia (O pai de família), de Nanni Loy (não credenciado); Don Giovannini (TV) de Bruno Corbucci; Il Latitante; Il Grande maestro; La Scommessa; Totò a Napoli; Totò Ye Ye; Il Tuttofare (TV), todos de  Daniele de Anza; 1968: Capriccio all'italiana, episódio “Il Mostro della Domenica”, de Steno, e episódio “Che cosa sono le nuvole ?”, de Pier Paolo Pasolini. 

segunda-feira, 21 de março de 2016

SESSÃO 12 - 19 DE ABRIL DE 2016


DOM CAMILO (1952)

“Le Petit Monde de Don Camillo”, de Giovanni Guareschi, é o romance de onde parte este filme de Julien Duvivier, que iria afirmar-se como um enorme sucesso de bilheteira e de popularidade, em França e Itália, países produtores, mas igualmente um pouco por todo o mundo, dando origem a uma série de continuações, protagonizadas pelos dois principais intérpretes, Fernandel (Don Camillo) e Gino Cervi (Peppone). “Don Camilo”, de 1952, é o título de arranque, a que se seguem “Le Retour de Don Camillo” (O Regresso de Dom Camilo), de novo assinado por Julien Duvivier (1953), “La Grande Bagarre de Don Camillo” ou “Don Camillo e l'on. Peppone” (Dom Camilo e as Eleições), de Carmine Gallone (1955), “Don Camillo Monseigneur” ou "Don Camillo monsignore... ma non troppo" (Dom Camilo, Monsenhor), outra vez de Carmine Gallone (1961) e “Don Camillo en Russie” ou "Il compagno Don Camillo" (Dom Camilo na Rússia), de Luigi Comencini (1966). Outro título se anunciava com a mesma dupla, “Don Camillo e i giovani d'oggi” ou “Don Camillo et les Contestataires” (1972), com realização de Christian-Jacque, mas por doença, e posterior morte, de Fernandel, os protagonistas foram substituídos. Este filme acabaria por ser dirigido por Mario Camerini, tendo como principais intérpretes Gastone Moschin e Lionel Stander, respectivamente os novos rostos de Don Camilo e Peppone. Sem o mesmo sucesso da dupla inicial. Mais infeliz ainda foi a recuperação ensaiada em 1984, com um “Don Camillo”, dirigido e interpretado por Terence Hill, que tinha como Peppone Colin Blakely. Em televisão, também houve algumas tentativas, em série, uma brasileira, de 1957, “Pequeno Mundo de D. Camilo”, com Dionísio Azevedo, Heitor de Andrade e Chico de Assis, outra inglesa, de 1981, “The Little World of Don Camillo”, interpretada por Mario Adorf e Brian Blessed.
Falando de Giovanni Guareschi (1908-1968) teremos de salientar o facto de este jornalista e romancista italiano se ter tornado mundialmente célebre com a sua série de obras de ficção baseada nas personagens de Don Camillo e Peppone. O primeiro romance surgiu em 1948 e rapidamente se transformou num bestseller internacional, o que foi ampliado pela sua adaptação ao cinema. Seguiram-se algumas sequelas: “Don Camillo retorno” (1951), “Don Camillo e il suo gregge” (1953), ou “Il compagno Don Camillo” (1963), e ainda, publicadas já a título póstumo, “Don Camillo e i giovani d'oggi” (1969), “Gente così (it)” (1983) e “Lo spumarino pallido” (1984). Guareschi publicou ainda outros romances humorísticos. Sendo um dos escritores mais populares em todo o mundo neste período, não se furtou a uma polémica que lhe denegriu a imagem: foi acusado de ter assinado um manifesto de apoio público às leis racistas do governo fascista de Mussolini. Mas nunca se provou que tivesse sido ele próprio a assinar o manifesto. A controvérsia manteve-se, apesar de ter pertencido à Resistência.    
 
Nascido na região da Emília-Romanha situada no norte de Itália, em Fontanelle, Roccabianca, na província de Parma, foi nessa zona que localizou a acção dos seus romances dedicados a Don Camilo. “Numa pequena localidade entre o rio Pó e os Apeninos”. O escritor declarou: “por detrás de “Don Camillo”, está a minha casa, Parma, a planície ao longo do rio Pó, ou a paixão política exasperada, onde o povo se mantinha todavia sedutor, generoso, hospitaleiro e cheio de humor”.
“Don Camilo” vive do conflito permanente que se estabelece entre Don Camilo, um pároco de aldeia a quem Jesus diz que “as mãos foram concebidas para orar, não para lutar” e a que ele responde em surdina, “mas os pés não”, e Peppone, o presidente da Câmara, comunista, triunfador das eleições de 1946. Se Peppone organiza um comício na praça central, Don Camilo vai tocar os sinos da sua igreja para que os discursos não se ouçam. Se um organiza um armazém de armas e pólvora, o outro faz as munições irem pelo ar. Se um quer inaugurar um Jardim Infantil, o outro quer erguer uma “Casa do Povo”. E não falta mesmo um Romeu e Juieta divididos por famílias que se detestam, uma comunista ferrenha e pobre, a outra beata e rica. Mas tudo acaba em harmonia, pois Don Camilo e Peppone são faces de uma mesma moeda, o povo italiano, e ambos querem o melhor para os seus rebanhos, tanto mais que ambos se conhecem desde criança. O filme reflete o ambiente vivido em Itália (mas também em França) depois do fim da II Guerra Mundial, quando o Partido Comunista ganhou uma notória influência que a Resistência lhe trouxe, mas olhado sempre com desconfiança, mesmo algo mais, por grande parte da população. A direita religiosa e a alta finança temiam o poder desta esquerda que lhe iria retirar privilégios, enquanto alguns outros quadrantes da sociedade, mais esclarecidos, não desculpavam alguns crimes cometidos pelos bolcheviques, sobretudo na época de Estaline.
O filme é bem construído e desenvolvido, com algumas sequências muito divertidas, magnificamente interpretado por Fernandel e Gino Cervi. Ambos erguem duas personagens inesquecíveis. Fernandel, no auge da sua popularidade e no domínio perfeito de um talento invulgar, compõe uma figura de pároco truculento, muito senhor do seu nariz, que “fala” com o seu Cristo no interior da igreja e questiona Peppone a toda a hora.
Julien Duvivier (1896-1967), o realizador, foi um daqueles cineastas que a “nouvelle vague” anatematizou, com a designação de “cineasta de papa”, o que nalguns casos se revelou uma injustiça. Julien Duvivier é um desses casos. “Golem”, “La Belle Équipe”, “Pépé le Moko”, “Un carnet de bal”, “La Fin du jour”, “Panique”, “Voici le temps des assassins”, “Sous le ciel de Paris” ou este “Le Petit Monde de Don Camillo” são obras dignas de apreço, cotando entre o que de melhor o cinema francês produziu nas décadas de 30-50.


DOM CAMILO
Título original: Don Camillo
Realização: Julien Duvivier (França, Itália, 1952); Argumento: Julien Duvivier, René Barjavel, Oreste, segundo romance de Giovanni Guareschi; Produção: Giuseppe Amato, Robert Chabert, Angelo Rizzoli, Marcel Roux; Música: Alessandro Cicognini; Fotografia (p/b): Nicolas Hayer; Montagem: Maria Rosada; Direcção artística: Virgilio Marchi; Decoração: Ferdinando Ruffo; Maquilhagem: Leandro Marini; Direcção de Produção: Piero Cocco, Roberto Cocco, Romano Dandi; Assistentes de realização: Alberto Cardone, Serge Vallin; Departamento de arte: Italo Tomass; Som: Bruno Brunacci, Jacques Carrère, Maurice Laroche; Companhias de produção: Produzione Film Giuseppe Amato (Rizzoli - Amato), Rizzoli Editore (Rizzoli - Amato), Francinex; Intérpretes: Fernandel (Don Camillo), Gino Cervi (Giuseppe 'Peppone' Bottazzi), Vera Talchi (Gina Filotti), Franco Interlenghi (Mariolino della Bruciata), Sylvie (Signora Cristina), Charles Vissières, Clara Auteri Pepe, Italo Clerici, Peppino De Martino, Carlo Duse, Manuel Gary, Leda Gloria, Luciano Manara, Armando Migliari, Giovanni Onorato, Franco Pesce, Mario Siletti, Olga Solbelli, Marco Tulli, Gualtiero Tumiati, Saro Urzì, Giorgio Albertazzi, Emilio Cigoli, Barbara Florian, Dina Romano, Ruggero Ruggeri, etc. Duração: 107 minutos; Distribuição em Portugal: Tribanda / Estevez Seven Lda; Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 27 de Abril de 1953.


FERNANDEL (1903-1971)
Fernand-Joseph-Désiré Contandin, mais conhecido simplesmente por Fernandel, nasceu em Marselha, a 8 de Maio de 1903 e morreu em Paris a 26 de Fevereiro de 1971. Filho de Denis Contandin, cantor e actor amador, e de Désirée Bédouin, também actriz amadora, cedo se tornou notado pelos seus dotes para o espectáculo. Ganhou na sua terra natal um concurso para jovens cantores no teatro Châtelet. Passa por diversos empregos sem, todavia, se estabelecer nalgum. O seu interesse era a canção, o music-hall, o teatro. Em Outubro de 1926, Fernandel começa a cantar nos inícios das sessões de cinema no Odéon de Marseille. Em 1928, chega a Paris, ao Bobino, e o sucesso dá-lhe um contrato de 19 semanas no circuito de cinemas Pathé de Paris. A carreira ascendente não pára mais. Passa pelo Élysée-Palace de Vichy e depois pelo Casino de Paris e pelo teatro Mogador. Canta e interpreta números cómicos e é aí que será descoberto pelo realizador Marc Allégret, que lhe oferece um papel no filme de Sacha Guitry “Le Blanc et le Noir”, que assinala assim a sua estreia no cinema, em 1930. Jean Renoir contrata-o para o colocar ao lado de Michel Simon, em “On purge bébé”, segundo peça de Georges Feydeau. Contracena com Jean Gabin em “Cœur de lilas”. Em 1932, é protagonista de “Le Rosier de madame Husson”, de Dominique Bernard-Deschamps. Os sucessos começam a suceder-se: “Un de la légion et François Ier”, de Christian-Jacque (1936), ou “Angèle” (1934), “Regain” (1937), “Le Schpountz” (1938), “La Fille du puisatier” (1940), e “Topaze” (1951), todos de Marcel Pagnol. Com a II Guerra Mundial, é mobilizado, e canta canções como “Francine” (1939), denunciando a propaganda alemã. Após o fim do conflito, e durante a década de 50, surgem novos filmes inesquecíveis: “L'Auberge rouge” (1951), de Claude Autant-Lara, “Ali Baba et les Quarante voleurs” (1954), de Jacques Becker, e “La Vache et le Prisonnier” (1959), de Henri Verneuil. Mas é sobretudo com a série “Don Camillo”, adaptada de obras de Giovannino Guareschi, que se torna a vedeta nº 1 do cinema francês, com um índice de popularidade invulgar: “Le Petit Monde de don Camillo” (1951) e “Le Retour de don Camillo” (1953) de Julien Duvivier, “La Grande Bagarre de don Camillo” (1955), “Don Camillo Monseigneur” (1961), “Don Camillo en Russie” (1965) e “Don Camillo et les Contestataires”, que começa a rodar em 1970, mas que abandona por doença. Morre de cancro no ano seguinte. Fernandel, ao lado de Louis de Funès, Bourvil e Jean Gabin, foi dos actores que levou mais espectadores às salas francesas. Mais de 202 milhões entre 1945 e 1970. Em 18 de janeiro de 1953, quando se encontrava em Roma, o Papa Pio XII convida-o a ir ao Vaticano, para ele conhecer o “padre mais falado da cristandade, depois do Papa”. Realizou 3 filmes, “Simplet” (1942), “Adrien” (1943) e “Adhémar ou le Jouet de la fatalité” (1951). Em 1963 funda com Jean Gabin a sociedade produtora “Gafer15”, cujo primeiro filme foi “L'Âge ingrat”, de Gilles Grangier. O general Charles de Gaulle disse um dia que Fernandel era o único francês tão conhecido como ele em todo o mundo. O escritor Marcel Pagnol declarou que “ele era um dos maiores e dos mais célebres actores do seu tempo, só comparável a Charlie Chaplin”.


Filmografia essencial / Como actor (de um conjunto de 156 títulos): 1931: Branco e Negro (Le blanc et le noir), de Marc Allégret, Robert Florey; On purge bébé, de Jean Renoir; 1932: Le Rosier de Madame Husson, de Dominique Bernard-Deschamps; 1937: François Premier (Sonho de Grandeza), de Christian-Jaque; Un carnet de bal (Um Carnet de Baile), de Julien Duvivier; 1938: Le Schpountz (Schpountz, o anjinho), de Marcel Pagnol; 1940: La Fille du puisatier, de Marcel Pagnol; 1944: Un chapeau de paille d’Italie (Chapéus há Muitos), de Maurice Cammage; 1951: Topaze (Topázio), de Marcel Pagnol; 1951: Tu m’as sauvé la vie, de Sacha Guitry; L’Auberge Rouge (Estalagem Sangrenta), de Claude Autant-Lara; 1952: Don Camillo (Dom Camilo), de Julien Duvivier; 1953: Le Boulanger de Valorgue (O Padeiro de Valorgue), de Henri Verneuil; Le retour de Don Camillo (O Regresso de D. Camilo), de Julien Duvivier; 1954: Ali Baba et les quarante voleurs (Ali Baba e os 40 Ladrões), de Jacques Becker; 1955: Don Camillo e l'on. Peppone (D. Camilo e as Eleições), de Carmine Gallone; 1956: Don Juan (D. Juan), de John Berry; Around the World in Eighty Days (A Volta ao Mundo em Oitenta Dias), de Michael Anderson; Era di venerdì 17 (Quatro Passos nas Nuvens), de Mario Soldati; 1957: L’Homme à imperméable (O Homem Impermeável), de Bernard Blier; Le Chômeur de Clochemerle (O Mandrião de Clochemerle), de Jean Boyer; 1958: La legge è legge (Totó, Fernandel e a Lei), de Christian-Jacque; 1959: Le Grand chef (O Grande Chefe), de Henri Verneuil; Confident de ces dames (Confidente de Senhoras), de Jean Boyer; La Vache et le prisonnier (A Vaca e o Prisioneiro), de Henri Verneuil; 1960: Crésus (O Nababo), de Jean Giono; Le Caïd (Gangsters à Força), de Bernard Borderie; 1961: Il giudizio universale (O Último Julgament), de Vittorio De Sica; Don Camillo monsignore... ma non troppo (Dom Camilo Monsenhor), de Carmine Gallone; 1962: Le Diable et les Dix commandements (O Diabo e os Dez Mandamentos), de Julien Duvivier; 1963: Le Bon roi Dagobert, de Pierre Chevalier; La Cuisine au beurre (Grelhados com manteiga), de Gilles Grangier; 1964: L’Âge ingrat (A Idade Ingrata), de Gilles Grangier; 1965: Il compagno Don Camillo (Dom Camilo na Rússia), de Luigi Comencini; 1966: La Bourse et la vie, de Jean-Pierre Mocky; Le Voyage du perè (A Viagem), de Denys de La Patellière; 1970: Heureux qui comme Ulysse), de Henri Colpi; Don Camillo e i giovani d'oggi" (D. Camilo e os jovens de hoje), de Christian- Jacque (curta-metragem). 

SESSÃO 11 - 12 DE ABRIL DE 2016



BEM-VINDO AO NORTE (2008)

1.    A COMÉDIA NO CINEMA FRANCÊS
O cinema francês tem uma larga tradição na comédia, desde os tempos do mudo, onde Max Linder chegou a rivalizar com alguns dos maiores cómicos norte-americanos. Depois, sempre existiram bons cómicos e boas comédias ao logo dos tempos, com alguns génios a sobressair. O caso do genial Jacques Tati, entre os anos 40 e 60, é exemplar. Mas há outros grandes nomes a reter, desde Fernandel a Louis de Funès, passando por Pierre Etaix, Darry Cowl, Bourvil, Michel Serrault, Coluche, Philippe Noiret, Michel Galabru, Jean Lefebvre, Pierre Richards, Josiane Balasko, Michel Blanc, Jean Rochefort, Jean Dujardin, e tantos outros. Existe ainda uma ilustre lista de realizadores que deram o seu melhor à comédia, desde os clássicos Sacha Guitry ou Marcel Pagnol, até nomes e personalidades tão distintas como Alain Jessua, Philippe de Broca, George Lautner, Edouard Molinaro, Robert Dhéry, Gérard Oury, Francis Veber, Claude Zidi, entre outros. Nenhum génio, é certo, mas realizadores competentes e eficazes, que funcionaram muito na base de bons argumentos e bons intérpretes. Para lá destes realizadores retintamente de comédia, há que referir certas incursões de grandes cineastas como Luis Buñuel, Alain Resnais, Éric Rohmer, François Truffaut ou François Ozon, no mesmo campo, com excelentes resultados.
De resto, e sem querer ser exaustivo, nos últimos anos existiram algumas boas comédias no cinema francês e muitas delas com relevante sucesso público. Apenas alguns títulos a terem conta, sem qualquer ordem entre si, apenas respeitando a memória: “O Fabuloso Destino de Amélie” (2001) de Jean-Pierre Jeunet; “A Família Bélier” (2014), de Eric Lartigau; “8 Mulheres” (2002) ou “Dentro de Casa” (2012), ambos de François Ozon, “Coisas Secretas” (2002), de Jean-Claude Brisseau; “Um Monstro em Paris” (2011), de Bibo Bergeron; “Pequenas Mentiras Entre Amigos” (2010), de Guillaume Canet; “A Residência Espanhola” (2002) ou “As Bonecas Russas” (2005), ambos de Cédric Klapisch; “O Menino Nicolau” (2009), de Laurent Tirard; “A Datilógrafa” (2012), de Régis Roinsard; “O Jantar de Palermas” (1998), de Francis Veber; “Professor Lazhar” (2011), de Philippe Falardeau; “Não Incomodar” (2014), de Patrice Leconte; “Palácio das Necessidades” (2013), de Bertrand Tavernier; “T4xi” (2007), de Gérard Krawczyk ou “Amigos Improváveis” (2011), de Olivier Nakache e Eric Toledano. Falamos apenas de filmes estreados depois de 2000, com uma excepção.
Há mesmo um filme franco português nesta lista de grandes sucessos: “A Gaiola Dourada” (2013), de Ruben Alves. E, obviamente, “Bem-vindo ao Norte” (2008), de Dany Boon, o maior sucesso de público em França (e nalgumas partes do mundo), depois de “A Grande Paródia”. 



2.    BEM-VINDO AO NORTE
Falando de números: “Bienvenue chez les Ch'tis” custou cerca de 11 milhões e arrecadou mais de 162 milhões de euros. Um excelente negócio. Em França, e em estreia, fez 20 489 303 entradas, e, fora de França, cresceu mais 4 222 202 espectadores só no ano de 2008. Muitas vezes o sucesso de bilheteira pouco tem a ver com a qualidade da obra. Neste caso, sem se assumir como uma obra-prima, “Bem-vindo ao Norte” é um trabalho cuidado, divertido, partindo de uma boa ideia bem desenvolvida, servida por bons actores, e com alguns momentos de humor saboroso. A ideia é interessante, mas nada original. Há já muitos filmes a partir de situações semelhantes: o desajuste entre culturas, o preconceito quanto ao diferente, as ideias feitas que se revelam nada consistentes. Philippe Abrams (Kad Merad) é director de uma estação de correios em Salon-de-Provence. Casado com Julie, uma mulher com alguns problemas, depressiva e desconfiada, tenta encontrar uma solução para permanecer no Sul e se possível ser enviado para a Côte d’Azur. Para o conseguir, Philippe faz batota, declara-se inválido, para ter preferência, mas é descoberto e, em vez de ir para o Sul, como castigo é destacado para Bergues, uma pequena cidade do Norte.
Irá partir sozinho, bem agasalhado como se fosse para o Ártico, prevendo terríveis encontros com trogloditas imundos e bárbaros, que falam uma linguagem que ninguém entende, o “cheutimi”. Para sua grande surpresa, o frio não é incomodativo, a região bonita, os habitantes simpáticos, até há gajos porreiros e raparigas bonitas, com os mesmos problemas de qualquer parisiense ou cidadão da Riviera. Faz amigos como Antoine (Dany Boon), o carteiro, mas vai mantendo com a mulher e a restante família as aparências de habitar uma tormenta. Até que um dia Julie comove-se com a solidão do sacrificado Philippe e resolve ir visitá-lo. Pois, o resto são as peripécias do costume, desenvolvidas com graça e alguma crítica oportuna.
Dany Boon, tal como o companheiro de aventura Kad Merad, é um comediante e humorista que vai trabalhando no teatro com base em sketches que escreve para o palco, mas que alguns são aproveitados para o cinema. Não se estranha assim que o filme seja uma sucessão de episódios, pequenas anedotas que uma ténue linha de ficção vai interligando.
“Bienvenue chez les Ch’tis” é o seu segundo filme de fundo (o primeiro fora “La Maison du Bonheur”, já também um sucesso considerável de bilheteira) e, sem extasiar o espectador mais exigente, não deixa de constituir uma agradável surpresa, num domínio onde nem sempre as novidades são de molde a justificar grandes entusiasmos.



BEM-VINDO AO NORTE
Título original: Bienvenue chez les Ch'tis

Realização: Dany Boon (França, 2008); Argumento: Dany Boon, Alexandre Charlot, Franck Magnier; Produção: Claude Berri, Eric Hubert, Jérôme Seydoux; Música: Philippe Rombi; Fotografia (cor): Pierre Aïm; Montagem: Luc Barnier, Julie Delord; Casting: Elise Leire, Gérard Moulévrier; Design de produção: Alain Veyssier; Direcção artística: Elise Leire; Decoração: Sébastien Monteux-Halleur, Florence Sadaune; Maquilhagem: Lucie Deblayé, Juliette Martin; Direcção de Produção: Virginia Anderson, Gwenael Camuzard, Bruno Morin, Philippe Morlier; Assistentes de realização: Mélanie Dieter, Nicolas Guy, Sébastien Marziniak, Ana Morales, Guillaume Morand, Maryam Muradian, Louis-Julien Petit, Elodie Roy, Remi Veron; Departamento de arte: Daniel Cadet, Benoit Godde, Thierry Gratien, Antonio Nogueira, Guillaume Watrinet; Som: Lucien Balibar, Franck Desmoulins, Roman Dymny, Carl Goetgheluck, François Groult, Gréggory Poncelet, Stéphane Vizet; Efeitos especiais: Noel Chainbaux, Yves Domenjoud; Efeitos visuais: Ludivine Ducrocq, Audrey Kleinclaus, Marc Latil, Frederic Moreau, Sarah Moreau, Fred Roz; Companhias de produção: Pathé Renn Productions, Hirsch, Les Productions du Chicon, TF1 Films Production, Canal+, Centre National de la Cinématographie (CNC), Centre Régional des Ressources Audiovisuelles (CRRAV) (CRRAV du Nord-Pas-de-Calais), CinéCinéma, Région Nord-Pas-de-Calais; Intérpretes: Kad Merad (Philippe Abrams), Dany Boon (Antoine Bailleul), Zoé Félix (Julie Abrams), Lorenzo Ausilia-Foret (Raphaël Abrams), Anne Marivin (Annabelle Deconninck), Philippe Duquesne (Fabrice Canoli), Guy Lecluyse (Yann Vandernoout), Line Renaud (a mãe de Antoine), Michel Galabru, Stéphane Freiss, Patrick Bosso, Jérôme Commandeur, Alexandre Carrière, Fred Personne, Franck Andrieux, Jean-Christophe Herbeth, Jean-François Picotin, Jenny Clève, Claude Talpaert, Sylviane Goudal, Yaël Boon, Christophe Rossignon, Zinedine Soualem, Maryline Delbarre, Guillaume Morand, Yann Königsberg, Nadège Beausson-Diagne, Jean-François Elberg, Eric Bleuzé, Bruno Tuchszer, Mickaël Angele, Patrick Cohen, Louisette Douchin, Jean-Marc Vauthier, Cédric Magyari, Théo Behague, Mathieu Sophys, Laëtitia Maisonhaute, Suzie Pilloux, e ainda a Harmonie-Batterie Municipale de Bergues; Duração: 106 minutos; Distribuição em Portugal: Castello Lopes Multimédia; Classificação etária: M/ 6 anos; Data de estreia em Portugal: 18 de Setembro de 2008.

SESSÃO 10 - 5 DE ABRIL DE 2016


A GRANDE PARÓDIA (1966)

Gérard Oury (1919-2006) é um curioso realizador francês que começou a sua carreira como actor, depois passou a realizador de filmes sobretudo policiais e de aventura, até se centrar na comédia, em meados dos anos 60 do século XX, com excelentes resultados de bilheteira e mesmo de crítica. “O Oportunista” (1965), “A Grande Paródia” (1966), “O Cérebro” (1969), “A Mania das Grandezas” (1971) ou “As Aventuras do Rabi Jacob” (1973) marcam o seu melhor período com “La Grande Vadrouille” a assumir destacado lugar nas preferências do público francês: ainda hoje os 17 milhões de espectadores na estreia, só foram ultrapassados por um outro título “Titanic”. “Bienvenue chez les Ch'tis” (Bem Vindo ao Norte) bateu-o em receitas, mas não em número de espectadores.
Casado com a belíssima actriz Michèle Morgan (1960 - 2006), Gérard Oury teve uma formação clássica, foi actor na Comédie-Française, mas foi a sua amizade e colaboração com actores como Bourvil, Louis de Funès ou Jean-Paul Belmondo, com quem trabalhou particularmente que lhe trouxeram os louros de que ainda hoje se pode orgulhar, dado que permanece um dos mais vistos realizadores franceses de sempre. Quando “A Grande Paródia” passa num qualquer canal de televisão francesa o sucesso é garantido.
Gérard Oury, que escreveu o argumento desta comédia, em colaboração com Danièle Thompson, Marcel Jullian, Georges Tabet e André Tabet, conheceu bem a época da Ocupação nazi em França, dadas as suas origens judaicas, que o obrigou a fugir do país durante a primeira metade da década de 40. É nesse período que se passa “La Grande Vadrouille”.

Durante um raide da britânica Royal Air Force em céus franceses, três pilotos são obrigados a lançarem-se de paraquedas, depois do avião onde seguiam ter sido atingido. Cada um vai para seu lado e precisam desesperadamente do auxílio de franceses para escaparem aos nazis que patrulham as avenidas e estradas. Um deles vai cair junto de um operário que pinta a fachada de um prédio, Augustin Bouvet (Bourvil), o outro refugia-se junto do maestro Stanislas Lefort (Louis de Funès), que ensaia um concerto na Ópera. Claro que ambos os franceses, apesar de muito diferentes em muitos aspectos, resolvem ajudar os ingleses e tentar colocá-los a salvo, fora das fronteiras gaulesas ocupadas. A história de base é esta e será este esquema que permitirá um conjunto de peripécias que irão despoletar uma torrente de gargalhadas e sorrisos, sobretudo porque a direcção de Gérard Oury é fluente e elegante e as interpretações de Louis de Funès, Bourvil e Terry-Thomas são excepcionais, muito bem acompanhadas por todo o restante elenco.
Mas a reunião de actores como Louis de Funès e Bourvil, quase sempre a intervirem em conjunto, mesmo numa determinada sequência, um às cavalitas do outro, colocou alguns problemas ao realizador, dada as características diversas dos dois intérpretes. Ao que consta Bourvil era um adepto de vários ensaios antes de começar a rodar, e Louis de Funès, pelo contrário, não ensaiava antes de filmar e ia aprimorando a representação à medida que as takes que iam multiplicando. Um melhorava de cada vez que se repetia a filmagem do plano, outro ia perdendo espontaneidade e justeza.
Como em quase todos os filmes, falando apenas de cinema, onde aparecem duplas, a contradição é essencial. O gordo e o magro, o alto e o baixo, aqui o modesto operário pachorrento e o artista histérico e caprichoso. A definição das personagens funcionou brilhantemente, e esta diferença de comportamentos é uma das razões do sucesso do filme, logo do humor que lhe está subjacente.


Há sequências magníficas, desde o encontro nuns banhos turcos, onde os ingleses ficaram de se reunir, até uma outra passada numa pensão de província, onde os quartos dos franceses e dos alemães se confundem por uma ocasional troca de números. Uma perseguição numa carroça conduzida por uma jovem freira é outro momento hilariante, numa comédia onde estes se sucedem num ritmo muito bem estudado e programado. 
Louis de Funès foi um cómico dos mais populares em todo o mundo, apesar de não ser unânime a apreciação do seu estilo de humor. Para alguns é um dos génios da comédia, para outros os seus métodos são relativamente fáceis e repetitivos. Mas “La Grande Vadrouille” é indiscutivelmente um dos seus melhores trabalhos, onde mais controla o frenesim da sua representação e alguns tiques que multiplica invariavelmente. De resto, a presença do sólido Bourvil a seu lado muito contribui para o êxito desse filme. Nalguns aspectos, aliás, relembra um outro, interpretado por ambos, e por Jean Gabin, em 1956, “Ao Longo de Paris” (La Traversée de Paris), de Claude Autant-Lara, onde Louis de Funès tinha ainda um papel secundário.
Rodado quase todo em cenários naturais, exteriores e interiores (foi graças a André Malraux, Ministro da Cultura de então, que se pode filmar no interior da Opéra Garnier), o filme conta ainda com uma voluptuosa fotografia assinada por um mestre, Claude Renoir, filho do actor Pierre Renoir, sobrinho do realizador Jean Renoir e neto do pintor Pierre-Auguste Renoir.

A GRANDE PARÓDIA
Título original: La Grande Vadrouille
Realização: Gérard Oury (França, Inglaterra, 1966); Argumento: Gérard Oury, Danièle Thompson, Marcel Jullian, Georges Tabet, André Tabet; Produção: Robert Dorfmann; Música: Georges Auric; Fotografia (cor): André Domage, Claude Renoir; Montagem: Albert Jurgenson; Design de produção: Jean André, Théobald Meurisse; Guarda-roupa: Tanine Autré, Léon Zay; Maquilhagem: Odette Berroyer, Pierre Berroyer; Direcção de Produção: Pierre Saint-Blancat, Georges Vallon; Assistentes de realização: Claude Clément, Lucile Costa, Gérard Guérin; Departamento de arte: Robert André, Gabriel Béchir, Robert Christidès; Som: Antoine Bonfanti, Urbain Loiseau; Efeitos especiais: Daniel Braunschwe, Claude Carliez, Gil Delamare, Michel Durin, Pierre Durin, Jean Fouchet; Companhias de produção: Les Films Corona, The Rank Organisation; Intérpretes: Bourvil (Augustin Bouvet), Louis de Funès (Stanislas Lefort), Marie Dubois (Juliette), Terry-Thomas (Sir Reginald), Claudio Brook (Peter Cunningham), Andréa Parisy (Irmã Marie-Odile), Colette Brosset (Germaine), Mike Marshall (Alan MacIntosh), Mary Marquet (Madre Superiora), Pierre Berti, Benno Sterzenbach, Sieghardt Rupp, Reinhard Kolldehoff, Helmuth Schneider, Paul Préboist, Hans Meyer, Guy Grosso, Michel Modo, Peter Jacob, Rudy Lenoir, Noël Darzal, Pierre Roussel, Pierre Bastien, Jacques Sablon, Mag-Avril, Jacques Bodoin, Gabriel Gobin, Paul Mercey, Henri Génès, etc. Duração: 132 minutos; Distribuição em Portugal: Castello Lopes Multimédia; Classificação etária: M/ 12 anos.


LOUIS DE FUNÈS (1914-1983)
Louis Germain de Funès de Galarza nasceu a 31 de Julho de 1914, em Courbevoie, Hauts-de-Seine, França, e viria a falecer a 27 de Janeiro de 1983, em Nantes, Loire-Atlantique, França, vítima de um ataque de coração. O pai, Carlos Luis de Funès de Galarza, era advogado em Sevilha, e a mãe, Leonor Soto Reguera, tinha origem galega e ascendência portuguesa. Começou a aprender piano aos 5 anos. Estudou no Lycée Condorcet, em Paris, e, depois de passar por diversas profissões, trabalhou num bar como pianista. Olhos azuis, careca e de estatura baixa, nervoso e inquieto, de verbo fácil e trapalhão, de mimica esfusiante, nada indicaria tornar-se numa coqueluche de popularidade, alcançando o primeiro lugar nas preferências do público francês por diversas vezes. Estuda teatro com Simon. Começou a carreira no cinema em 1945, em “La Tentation de Barbizon”, de Jean Stelli, continuando a entrar no elenco de dezenas de filmes de todos os géneros, até se impor como protagonista e tornar-se mundialmente conhecido, a partir de 1964, ao interpretar pela primeira vez o seu personagem mais famoso, um mal-humorado gendarme. Mas os seus maiores êxitos estariam por vir, como “A Grande Paródia” ou “As Loucas Aventuras do Rabbi Jacob”. Entre 1964 e 1979, esteve sempre em lugar destacado no box-office de França, atingindo os 17,27 mihões de espectadores com “A Grande Paródia”. Nos anos 50 foi ganhando popularidade, com obras como “Ah ! les belles bacchantes” (1954), “La Traversée de Paris” (1956), “Comme un cheveu sur la soupe” (1957) ou “Ni vu, ni connu” (1958), continuando depois uma vasta filmografia donde se destacam inúmeros sucessos de público: “Pouic-Pouic” (1963), “Le Gendarme de Saint-Tropez” (1964) e continuações, a trilogia “Fantômas” (1964), “Le Corniaud” (1965), “La Grande Vadrouille” (1966), “Le Grand Restaurant” (1966), “Oscar” (1967), “Les Grandes Vacances” (1967), “Le Petit Baigneur” (1967), “Hibernatus” (1969), “Jo” (1971), “La Folie des Grandeurs” (1971), “Les Aventures de Rabbi Jacob” (1973), “L'Aile ou la Cuisse” (1976), “La Zizanie” (1977) e “La Soupe aux choux (1981). Escreveu vários argumentos e co-realizou com Jean Girault, “L'Avare”, segundo Moliere, em 1980.
A 21 de Março de 1975, enquanto representava no teatro “La Valse des Toréadors”, sente-se mal, e é-lhe diagnosticado um enfarte de miocárdio. No hospital, pouco depois, recai com novo enfarte. Permanece dois meses no hospital Necker, recupera, mas condiciona a partir daí toda a sua actividade. Herda parte e compra a restante do castelo de Clermont, onde passa a descansar nos intervalos de filmagens. Casado com Germaine Louise Elodie Carroyer (1936 - 1942) e Jeanne De Funès (1943 - 1983), esta última sobrinha de Guy de Maupassant.

Filmografia essencial (de um total de 157 títulos) / como actor: 1945: La Tentation de Barbizon, de Jean Stelli; 1947: Antoine et Antoinette (O Tonio e a Toninhas), de Jacques Becker; 1951: La poison, de Sacha Guitry; 1952: Ils étaient cinq, de Jack Pinoteau; Les Dents longue, de Daniel Gélin; 1953: La Vie d'un honnête homme, de Sacha Guitry; 1954: Les Intrigantes, de Henri Decoin; 1955: Napoléon (Napoleão), de Sacha Guitry; Si Paris nous était conté (Se Paris falasse...), de Sacha Guitry; 1956: La Traversée de Paris (Ao Longo de Paris), de Claude Autant-Lara; 1960: Le Capitaine Fracasse (O Capitão Sem Medo), de Pierre Gaspard-Huit; Candide ou l'optimisme au XXe siècle, de Norbert Carbonnaux; 1961: La Belle Américaine (A Bela Americana), de Robert Dhéry; 1964: Le gendarme de Saint-Tropez (O Gendarme de Saint Tropez), de Jean Girault; Fantômas (Fantomas), de André Hunebelle; 1965: Le Corniaud (O Oportunista), de Gérard Oury; Le gendarme à New York (O Gendarme em Nova Iorque), de Jean Girault; Fantômas se déchaîne (Fantomas Passa ao Ataque), de André Hunebelle; 1966: Le Grand Restaurant (O Grande Restaurante), de Jacques Besnard; La Grande Vadrouille (A Grande Paródia), de Gérard Oury; Fantômas contre Scotland Yard (Fantomas Contra a Scotland Yard), de André Hunebelle; 1967: Les grandes vacances (As Férias Grandes), de Jean Girault; Oscar (Onde está o Oscar?), de Édouard Molinaro; 1968: Le Petit Baigneur (O Pequeno Banhista), de Robert Dhéry; Le tatoué (Com a Fortuna às Costas), de Denys de La Patellière; Le gendarme se marie (O Gendarme Casa-se), de Jean Girault; 1969: Hibernatus (O Avozinho Congelado), de Édouard Molinaro; 1970: L'homme orchestre (O Homem Orquestra), de Serge Korber; Le gendarme en balade (O Gendarme em Férias, de Jean Girault; 1971: Sur un arbre perche (Numa Árvore Empoleirado), de Serge Korber; Jo (Um Buraco no Coreto), de Jean Girault; La folie des grandeurs (A Mania das Grandezas), de Gérard Oury; 1973: Les aventures de Rabbi Jacob (As Aventuras do Rabi Jacob), de Gérard Oury; 1976: L'aile ou la cuisse (O Peito ou a Perna), de Claude Zidi; 1978: La Zizanie (O Incorrigível Teimoso), de Daubray-Lacaze;1979: Le gendarme et les extra-terrestres (O Gendarme e os Extraterrestres), de Jean Girault; 1980: L'avare (O Avarento), de Louis de Funès e Jean Girault; 1981: La Soupe aux choux, de Jean Girault; 1982: Le gendarme et les gendarmettes (O Gendarme e as Gendarmetas), de Ludovic Cruchot.

Como realizador: 1980 O Avarento (juntamente com Jean Girault).