segunda-feira, 11 de julho de 2016

SESSÃO 31 - 6 DE JULHO DE 2016


SER OU NÃO SER (1942)

Ernst Lubitsch nasceu na Alemanha (Berlim, 1892) e inclui-se na longa lista de cineastas (e outras personalidades ligadas ao cinema) que emigraram da Europa para os EUA durante o período de gestação do nacional-socialismo no norte do Velho Continente. Em ondas sucessivas chegaram à América personalidades tão diversas quanto Fritz Lang, Conrad Veidt, William Wyler, Michael Curtiz, Marlene Dietrich, Greta Garbo, Billy Wilder, Fred Zinnemann, Otto Preminger, Joe May, Edgar G. Ulmer, Hedy Lamarr, Max Steiner, Peter Lorre, Richard Boleslavsky, William Dieterle, Rouben Mamoulian, Friedrich Murnau, Douglas Sirk, Charles Vidor, Josef von Sternberg, Erich von Stroheim, James Whale, entre tantas outras, provenientes do Norte e do Centro da Europa. Houve muitos outros, vindos das mais diversas origens europeias que também demandaram terras ianques para prosseguirem carreiras de relevo, o italiano Frank Capra, o inglês Alfred Hitchcock, o francês Jean Renoir, o grego Elia Kazan, o espanhol Luis Buñuel, para só citar alguns casos.
Ernst Lubitsch teve uma educação virada para o teatro, no Sophien Gymnasium, e dividia os seus dias entre a oficina de alfaiate do pai e as suas representações noctunas em cabarets e music-halls. Em 1911, reúne-se ao Deutsches Theater de célebre encenador e produtor Max Reinhardt, o que teve particular relevância na sua formação estética. Trabalhou ainda nos estúdios de cinema, Berlin's Bioscope, primeiro como actor de comédias, depois como realizador. Assina alguns sucessos ainda na Alemanha, como “Os Olhos da Múmia” (1918) ("The Eyes of the Mummy"), com Pola Negri, “Carmen” (1918), “Madame DuBarry” (1919) ou “A Princesa das Ostras” (1919) ("The Oyster Princess"). Aqui começa a lenda da sua particular propensão para um certo tipo de comédia sofisticada, com um humor muito especial, que se tornou conhecido sob a designação de "Lubitsch Touch". O que o leva a ser convidado para os estúdios norte-americanos, onde a combinação do seu talento e cultura, com o pragmatismo do sistema de Hollywood produziram pérolas inesquecíveis que o transformaram num dos mais lendários autores de comédias.


O primeiro filme em Hollywood foi interpretado por Mary Pickford, “Rosita, Cantora das Ruas” (1923), a que se seguiu “Os Perigos do Flirt” (1924). Depois é a vez de uma sucessão de grandes êxitos de bilheteira e de crítica, com títulos como “O Leque de Lady Margarida” (1925), “A Loucura do Charleston” (1926), “O Príncipe Estudante” (1927), “Parada do Amor” (1929), “Monte Carlo” (130), “O Tenente Sedutor” (1931), “O Homem Que Eu Matei” (1932), “Uma Hora Contigo” (1932), “Ladrão de Alcova” (1932), “Uma Mulher para Dois” (1933), “A Viúva Alegre” (1934), “O Anjo” (1937), “A Oitava Mulher do Barba Azul” (1938), “Ninotchka” (1939), “A Loja da Esquina” (1940), “No Que Pensam as Mulheres” (1941), “Ser ou Não Ser” (1942), “O Céu Pode Esperar” (1943), “O Pecado de Cluny Brown” (1946) ou “A Dama de Arminho” (1948), este o seu derradeiro filme, assinado de colaboração com Otto Perminger, que terá terminado as filmagens, por morte de Lubitsch. Este, que sofrera um forte ataque de coração em 1943, viria a falecer a 30 de Novembro de 1947, em Hollywood. Dois amigos, camaradas de profissão, emigrantes como ele, proferiram rápidos, mas incisivos, elogios fúnebres. Billy Wilder fez notar "No more Lubitsch" (“Perdemos Lubitsch”). William Wyler acrescentou "Worse than that - no more Lubitsch films" (“Pior do que isso – não haverá mais filmes de Lubitsch”). Não haverá mais filmes de Lubitsch, mas os que existem chegam e sobram para manter a reputação e matar saudades deste tipo de humor sofisticado e elegante, de uma ironia mordaz, que o digam as suas duas obras mais citadas, “Ninotchka” e “Ser ou não Ser”.
“To Be or Not To Be” é uma comédia com muito de autobiográfico. Recordações de Lubitsch enquanto elemento integrante de companhias de teatro na Alemanha, e receios e pesadelos do mesmo enquanto judeu alemão, refugiado da sinistra ditadura de Hitler. O filme foca a sua acção em Varsóvia, capital da Polónia, numa altura em que os alemães ameaçam invadir o país. Estamos em Agosto de 1939. Uma companhia teatral ensaia uma nova peça, “Gestapo”, parodiando Hitler e a sua política, mas a mesma é proibida pelo governo com receio de que “pode ofender Hitler”. A peça é suspensa, mas a Hitler ninguém faz censura e invade brutalmente a Polónia. A resistência polaca, no interior e no exterior do país, lança a oposição armada, numa altura em que um elemento colaboracionista, o professor Siletsky, ao serviço da Gestapo, tenta entregar aos alemães uma lista de resistentes polacos. Joseph Tura e a mulher, Maria Tura, primeiras figuras da companhia teatral, procuram por todos os meios fazer fracassar esses intentos, usando as suas capacidades de interpretação para se fazerem passar por nazis, entrando assim no quartel general das SS. 


Este fio de intriga permita a Lubitsch desenvolver um conjunto de situações divertidíssimas por um lado, enquanto por outro desafia o poderio nazi, tornado o filme, obviamente, um objecto proscrito em todos os territórios dominados pelas forças armadas germânicas. Em 1942, o cineasta dava-se ao luxo de produzir as suas próprias obras, através da sua produtora, a Romaine Film Corporation (An Ernst Lubitsch Production), o que faz com que tenha tido a maior liberdade para construir esta comédia que, tal como “O Grande Ditador”, de Chaplin, ousava enfrentar abertamente Hitler e o seu poder. Escrita pelo realizador, a pensar nos actores que interpretam os principais papéis, Jack Benny, um famoso comediante por esta altura, e Carole Lombard, uma das divas da cinematografia norte-americana, o filme conta ainda com alguns actores alemães, igualmente refugiados nos EUA, e que anteriormente tinham pertencido à companhia de Max Reinhardt.
O humor é inteligente e sarcástico. Quando as multidões gritam “Heil Hitler!”, surge Hitler, que levanta o braço na tradicional saudação e grita: “Heil me!”. Um dos momentos mais hilariantes do filme, passa-se durante o monólogo de “Hamlet”, quando Maria Tura recebe no seu camarim um jovem tenente seu fã incondicional, e Joseph Tura, no palco, recita o monólogo “To be or not to be”. Quando regressa aos bastidores, Joseph Tura está inconformado: “Aconteceu o que todos os actores temem: saiu um espectador durante a minha actuação!” O que vai acontecer todas as noites: o tenente sentado na segunda fila, quando ouve o início do monólogo salta da cadeira e dirige-se ao camarim da sua paixão. Mas o filme está repleto de bons momentos de cinema, de humor, de crítica vigorosa ao despotismo nazi. Num deles, um figurante da companhia que, no teatro, passa as noites a empunhar lanças, ou espadas, e durante a invasão germânica empunha uma pá para varrer a neve das ruas de Varsóvia, desforra-se e diante dos SS, guarda-costas de Hitler, recita finalmente o solilóquio de Shylock, exaltando a resistência aos ditadores.
Este filme, produzido em cima dos acontecimentos que critica, mostra bem o clima que o rodeia, a força da resposta dos que combatem a ignomínia dessa guerra devastadora. Mais tarde, em 1983, um outro judeu, Mel Brooks, interpreta com sucesso esta mesma obra, num remake dirigido por Alan Johnson, num elenco onde aparecem ainda Christopher Lloyd, José Ferrer, Charles Durning e Anne Bancroft. Muito interessante, mas longe da obra-prima de Lubitsch.


SER OU NÃO SER
Título original: To Be or Not to Be

Realização: Ernst Lubitsch (EUA, 1942); Argumento: Edwin Justus Mayer, segundo história de Melchior Lengyel e Ernst Lubitsch; Produção: Ernst Lubitsch; Música: Werner R. Heymann; Fotografia (p/b): Rudolph Maté; Montagem: Dorothy Spence; Casting: Victor Sutker; Design de produção: Vincent Korda; Decoração: Julia Heron; Maquilhagem: Gordon Bau; Direcção de Produção: Walter Mayo; Assistentes de realização: William McGarry, William Tummel; Departamento de arte: J. McMillan Johnson, Jack Caffey; Som: Frank Maher; Efeitos especiais: Lawrence W. Butler; Companhias de produção: Romaine Film Corporation (An Ernst Lubitsch Production); Intérpretes: Carole Lombard (Maria Tura), Jack Benny (Joseph Tura), Robert Stack (Tem. Stanislav Sobinski), Felix Bressart (Greenberg), Lionel Atwill (Rawitch), Stanley Ridges (Professor Siletsky), Sig Ruman (Cor. Ehrhardt), Tom Dugan (Bronski), Charles Halton (Produtor Dobosh), George Lynn (Actor), Henry Victor (Capit. Schultz), Maude Eburne (Anna), Halliwell Hobbes, Miles Mander, Rudolph Anders, Paul Barrett, Sven Hugo Borg, Peter Caldwell, Alec Craig, Helmut Dantine, Leslie Denison, James Finlayson, James Gillette, Leyland Hodgson, Shep Houghton, etc. Duração: 99 minutos; Distribuição em Portugal: Sonoro Filme (1946); Nacadah Video (DVD); Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 15 de Novembro de 1946.

Lubitsch

SESSÃO 30 - 5 DE JULHO DE 2016

O EXTRAVAGANTE SENHOR RUGGLES (1935)

Foi George Bernard Shaw quem disse que “ingleses e americanos são dois povos separados pela mesma língua”. Não só, como se poderá ver pela excelente comédia de Leo McCarey, “Ruggles of Red Gap”, que parece igualmente ilustrar algumas considerações de Alexis de Tocqueville que, na sua obra dedicada à América, analisa os diferentes comportamentos das relações entre senhores e criados dos dois lados do Atlântico.
O filme baseia-se num romance de Harry Leon Wilson, que conheceu grande sucesso aquando do seu lançamento, em 1915. No mesmo ano, subiu a cena numa adaptação teatral, em musical, com escrita da responsabilidade de Harrison Rhoades, poemas de Harold Atteridge e música de Sigmund Romberg. Estreada no Fulton Theater, precisamente no dia 25 de Dezembro, data festiva que se conciliava bem com o tom geral da obra, conheceu 33 representações. Digamos que cumpriu a época de Natal e Ano Novo.
Também em cinema surgiram versões anteriores a esta assinada por Leo McCarey. Em 1918, “Ruggles of Red Gap” foi assinado por Lawrence C. Windom e tinha Taylor Holmes como protagonista. Em 1923, com idêntico título, estreou-se outra adaptação, dirigida por James Cruze, com um notável Edward Everett Horton como primeira figura. Mas o elenco da realização de 1935 é absolutamente inesquecível. Charles Laughton considerava mesmo que esta tinha sido a sua maior interpretação e este era o seu filme preferido, entre todos quantos tinha na sua vasta (e brilhante) filmografia. Há, todavia, uma outra versão, ainda de muito boa qualidade, interpretada pelo popular Bob Hope, rodada em 1950, “O Homem das Calças Pardas” (Fancy Pants), com direcção de George Marshall, e ainda no elenco Lucille Ball e Bruce Cabot. Na televisão, são diversas as versões: “The Prudential Family Playhouse” (1950), “Ruggles of Red Gap” (1951), “Producers' Showcase” (1954) ou “Ruggles of Red Gap” (1957) e as versões teatrais também abundam. Também na rádio Ruggles se tornou popular. A “Lux Radio Theater" apresentou uma versão de 60 minutos no dia 10 de Julho de 1939 com Charles Ruggles, Charles Laughton e Zasu Pitts revivendo os seus papéis do filme. Houve ainda outras passagens pela rádio norte-americana. "The Screen Guild Theater" emitiu uma em Dezembro de 1945 e "Academy Award Theater" lançou uma outra em Junho de 1946, sempre com Charles Laughton e Charles Ruggles nos principais papéis.


Leo McCarey era, entre os anos 30 e 50, um dos maiores realizadores de comédias, único rival à altura de Frank Capra. Capra resistiu melhor ao tempo, mas McCarey é, neste aspecto, um injustiçado. Era um realizador de enorme talento, com uma sensibilidade muito própria para a comédia. Nascido em Los Angeles, Califórnia, EUA, a 3 de Outubro de 1896, vindo a falecer em Santa Mónica, Califórnia, EUA, a 5 de Julho de 1969, Thomas Leo McCarey iniciou-se no cinema na década de 20, assinando um vasto conjunto de curtas-metragens, muitas delas de humor. Dirigiu obras de Bucha e Estica, W.C. Fields e dos Irmãos Marx (Duck Soup – “Os Grandes Aldrabões”, 1933), partindo depois para uma carreira de grandes sucessos. Foi um dos poucos cineastas que ganhou os três mais importantes Oscars pelo mesmo filme, Melhor Filme, Melhor Realização e Melhor Argumento (Going My Way – “O Bom Pastor”, 1944). Os outros cineastas que se lhe igualam são Billy Wilder, Francis Ford Coppola, James L. Brooks, Peter Jackson, Joel Coen /Ethan Coen, e Alejandro González Iñárritu. Outros títulos importantes na sua filmografia são “Com a Verdade Me Enganas” (1937), “Make Way for Tomorrow” (1937), “Os Sinos de Santa Maria” (1945) ou “O Grande Amor da Minha Vida” (1957). A sua sensibilidade para a comédia era igualada pela emoção que colocava nos seus melodramas.
Ruggles (Charles Laughton) é mordomo de um nobre inglês, George (Roland Young) quando este o perde ao jogo para um americano latifundiário, Egbert Floud (Charles Ruggles), casado com uma expansiva e desabrida Effie Floud (Mary Boland). O casal encontra-se a passar férias em Inglaterra e, quando regressa a casa, leva na bagagem o pomposo e rigoroso mordomo britânico, com toda a sua herança hierárquica e a etiqueta ostensiva de quem sabe qual é o seu lugar e faz questão de o demonstrar. O choque com a cultura norte-americana é brutal. Nos EUA os costumes são absolutamente diferentes, mesmo antagónicos, e ainda por cima Ruggles vai dar com uma família desregrada e boémia. Há ainda a acrescentar o facto de o filme ser de 1935, uma época de pleno New Deal, onde o cinema não tendia a mostrar bem a realidade, mas a indicar caminhos ideais para uma sã convivência social. Com o presidente Roosevelt a procurar levantar o país da ruína da Grande Depressão, o que importava era criar optimismo, mostrar as virtudes da democracia americana e insuflar esperança em melhores dias. Este é, pois, um filme de utopia, não uma obra realista que mostre a opressão dos grandes latifundiários, muitos deles racistas e fortemente classicistas. Em teoria, os EUA eram uma democracia onde todos eram (deveriam ser) iguais. Ruggles a principio estranha, mas depois os usos e costumes da casa entranham-se. De tal forma que acaba mesmo por recitar, quase no final, o célere discurso que Lincoln pronunciou em Gettysburg, onde exaltava de forma eloquente as virtudes da democracia e da sociedade americana. Charles Laughton, tempos depois, confessou que a declamação deste discurso foi "one of the most moving things that ever happened to me", o que o levava por vezes a repeti-lo em circunstâncias festivas (quando terminaram as filmagens de “Revolta na Bounty” (1935) ou “Nossa Senhora de Paris” (1939) voltou a emocionar os companheiros de elenco e equipas técnicas com esta notável obra de oratória, ainda por cima admiravelmente interpretada por um actor de invulgar talento).

Foi Charles Laughton quem pediu aos produtores para ser Leo McCarey a dirigir o filme, pois pretendia qua a sua estreia na comédia ficasse assinalada por um prestigiado autor que havia dirigido, pouco antes, uma comédia dos Marx Brothers que o havia impressionado imenso (Os Grandes Aldrabões, 1933). Teve razão na escolha. Leo McCarey era um cineasta de rara apetência para a comédia, um homem de sensibilidade e bom gosto, delicado e fino no humor, inteligente nas alfinetadas que distribuía, discreto e subtil nos gags, dirigindo com mestria os seus actores. Os paralelismos que estabelece entre a sobriedade britânica, a sua hierarquia estática, os valores tradicionais, a estrita divisão de classes, irão sofrer um rude golpe ao confrontarem-se com a expansiva truculência ianque, com a espontaneidade e a ingenuidade (por vezes o primarismo) dos comportamentos do Oeste dos EUA. A solenidade dos clubes ingleses dá lugar à vulgaridade e luxúria dos saloons norte-americanos. Desta justaposição de civilizações e culturas tira Leo McCarey o partido decisivo para um filme de um humor transbordante, deliciosamente crítico, mas de um humanismo generoso e optimista.
E o elenco é brilhante. Charles Laughton, em Ruggles, é absolutamente brilhante, mas Charles Ruggles, em Egbert Floud, não o é menos, e Mary Boland, Zasu Pitts ou Roland Young estão à altura. Uma comédia admirável, que seria bom ser muito mais conhecida nos nossos dias.


O EXTRAVAGANTE SENHOR RUGGLES
Título original: Ruggles of Red Gap
Realização: Leo McCarey (EUA, 1935); Argumento: Walter DeLeon, Harlan Thompson, Humphrey Pearson, segundo romance de Harry Leon Wilson ("Ruggles of Red Gap"); Produção: Arthur Hornblow Jr.; Música: John Leipold, Heinz Roemheld;Fotografia (p/b): Alfred Gilks; Montagem: Edward Dmytryk; Direcção artística: Hans Dreier, Robert Odell; Guarda-roupa: Travis Banton; Assistentes de realização: A.F. Erickson; Som: Philip Wisdom; Apresentação: Adolph Zukor; Companhia de produção: Paramount Pictures; Intérpretes: Charles Laughton (Ruggles), Mary Boland (Effie Floud), Charles Ruggles (Egbert Floud), Zasu Pitts (Prunella Judson), Roland Young (George), Leila Hyams (Nell Kenner), Maude Eburne ('Ma' Pettingill), Lucien Littlefield, Leota Lorraine, James Burke, Dell Henderson, Clarence Wilson, etc. Duração: 91 minutos; Distribuição em Portugal: Feel Filmes; Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 28 de Maio de 1936.

LEO McCAREY (1898-1969)
Filmografia / como realizador (principais filmes): 1921: Society Secrets (curta-metragem, filme de estreia); 1925: Isn't Life Terrible? (c-m); 1926: Mighty Like a Moose (c-m); 1927: Sugar Daddies (1927 short); 1928: Pass the Gravy (c-m); Should Married Men Go Home? (c-m); Habeas Corpus (c-m); We Faw Down (c-m); 1929: Liberty (c-m); Wrong Again (c-m); Big Business (c-m); 1931: Indiscreet (Indiscreto); 1932: The Kid from Spain (Toureiro à Força); 1933: Duck Soup (Os Grandes Aldrabões); 1934: Belle of the Nineties; Six of a Kind (Segunda Lua-de-Mel); 1935: Ruggles of Red Gap (O Extravagante Senhor Ruggles); 1936: The Milky Way (Via Láctea); 1937: Make Way for Tomorrow; 1937: The Awful Truth (Com a Verdade Me Enganas); 1939: Love Affair (Ele e Ela); 1942: Once Upon a Honeymoon (Lua Sem Mel); 1944: Going My Way (O Bom Pastor); 1945: The Bells of St. Mary's (Os Sinos de Santa Maria); 1948Good Sam (O Bom Samaritano; 1952: My Son John (Perseguem o Meu Filho); 1957: An Affair to Remember (O Grande Amor da Minha Vida); 1958: Rally 

domingo, 26 de junho de 2016

SESSÃO 29 - 29 DE JUNHO DE 2016



NÃO O LEVARÁS CONTIGO (1938)

Com “Não o Levarás Contigo” surpreendemos um outro fabuloso exemplo da época de ouro de Capra e da comédia social. Parece ter ficado claro que este é um cineasta da minha particular estima e admiração, como se pode ter percebido pelas palavras que lhe enderecei, e sobretudo pelo calor com que, julgo, as ter envolvido. Na verdade, admiro muito Frank Capra, sobretudo o Capra da década de 30, até meados da década de 40, o Capra das comédias de forte componente social, o Capra da utopia.
Falemos, agora, um pouco de “Não o Levarás Contigo”, rodado em 1938, depois de Capra ter assistido entusiasmado a uma representação da peça teatral homónima, da autoria de George S. Kaufman e Moss Hart, que com ela ganhariam o Prémio Pulitzer. Como sempre seria o seu argumentista de serviço, Robert Riskin, a adaptá-la primorosamente a cinema. Mas a peça possuía já todos os elementos essenciais ao cinema de Capra. Na verdade, apesar de se tratar de uma adaptação, esta é, indiscutivelmente, outra das obras mais significativas do pensamento de Capra. Tudo o que é caro ao universo do cineasta aí se encontra.
A acção central nasce do confronto de dois estilos de vida: de um lado, um industrial de armamento, austero e egoísta, que só pensa em monopólios e lucros; do outro, a alargada família da sua secretária, generosa e caótica, onde cada um faz o que quer e o que muito bem lhe passa pela cabeça, e onde alguns não pagam impostos, simplesmente "porque não lhes apetece".  O industrial quer comprar a casa onde habita essa família de lunáticos, para aí construir mais uma fábrica. Mas...
Este esquema permite a Capra acumular um conjunto de referências absolutamente reveladoras do seu cinema e do seu pensamento humanista e utópico. O amor e a solidariedade contra o dinheiro e a febre de acumulação de capital, o ruralismo e a simplicidade de comportamento contra a grande metrópole e o artificialismo, a exaltação de valores primordiais como o patriotismo, a família, a beleza dos puros de coração, o amor e a amizade, a solidariedade social, que se expressa na singeleza de um "ama o teu próximo". E para Capra, se esse "próximo" for do sexo contrário, ainda melhor, porque não há história que não esteja nimbada de um secreto erotismo, desde “Uma Noite Aconteceu” até este “Não o Levarás Contigo”.
Por tudo o que acabámos de referir, ainda que de forma extremamente sucinta, “You Can't Take It With You” não pode estar longe de “Doido Com Juízo” ou “Peço a Palavra” e anda muito próximo de “O Mundo é Um Manicómio” ou de “Do Céu Caiu um Estrela”. Toda a filosofia de uma generosa utopia está contida neste grupo de filmes, aparentemente de uma grande simplicidade, mas realmente exemplares na forma como Capra encenava o seu cinema.
Para os mais interessados nestas questões, muitos dos filmes de Capra eram filmados com mais do que uma câmara, para assim as ligações, os chamados "raccords", serem as mais perfeitas possíveis, e permitindo um jogo de campo /contra campo muito vivo e rigoroso.
Admirador dos actores, de quem era visivelmente um amigo, além de director, Capra deixa-os respirar em planos de uma duração um pouco mais longa do que o normal, para permitir o desenvolvimento das suas capacidades, sempre que isso é benéfico para a intensidade dramática da obra. Por isso o seu ritmo de montagem varia, ora nervoso e ágil, ora mais lento e saboreado. E pode dizer-se que, com actores como James Stewart, Jean Arthur, Lionel Barrymore, Misha Auer, Edward Arnold, Ann Miller e tantos outros, Frank Capra se podia considerar um cineasta feliz.


NÃO O LEVARÁS CONTIGO
Título original: You Can't Take It With You
Realização: Frank Capra (EUA, 1938); Argumento: Robert Riskin, segundo peça de George S. Kaufman e Moss Hart; Produção: Frank Capra; Música: Dimitri Tiomkin; Fotografia (p/b): Joseph Walker; Montagem: Gene Havlick; Direcção artística: Stephen Goosson; Maquilhagem: William Knight; Guarda-roupa: Irene, Bernard Newman; Assistentes de realização: Arthur S. Black Jr.; Departamento de arte: Lionel Banks; Som: Edward Bernds, Garry A. Harris; Companhias de produção: Columbia Pictures Corporation; Intérpretes: Jean Arthur (Alice Sycamore), Lionel Barrymore (Martin Vanderhof), James Stewart (Tony Kirby), Edward Arnold (Anthony P. Kirby), Mischa Auer (Kolenkhov), Ann Miller (Essie Carmichael), Spring Byington (Penny Sycamore), Samuel S. Hinds (Paul Sycamore), Donald Meek (Poppins), H.B. Warner (Ramsey), Halliwell Hobbes (DePinna), Dub Taylor (Ed Carmichael), Mary Forbes, Lillian Yarbo, Eddie 'Rochester' Anderson, Clarence Wilson, Josef Swickard, Ann Doran, Christian Rub, Bodil Rosing, Charles Lane, Harry Davenport, Ward Bond, etc. Duração: 126 minutos; Distribuição em Portugal: Warner Home Video; Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 21 de Dezembro de 1939.


OS FILMES DE FRANK CAPRA

Filmografia / Como realizador: 1921: Fultah Fisher's Boarding House (curta-metragem); 1926: The Strong Man (Atleta à força); 1927: Long Pants (Calças Compidas); 1928: For the Love of Mike (Os Três Pais); That Certain Thing; So This Is Love; The Way Of The Strong; The Matinee Idol; Say It Whith Sables (O Preço do Amor); Submarine (O Mergulhador); The Power of the Press; 1929: The Younger Generation (A Geração Moderna); The Donovan Affaire; Fligth; 1930: Ladies of Leisure (na RTP: Damas do Prazer); Rain or Shine; 1931: Dirigible (O Dirigível); The Miracle Woman; Platinum Blonde; Forbidden (O Seu Grande Amor); 1932: American Madness (Loucura Americana); 1933: The Bitter Tea of General Yen (A Grande Muralha); Lady For a Day (Milionária Por Um Dia); 1934: It Happened One Night (Uma Noite Aconteceu); Broadway Bill (Derradeira Vitória); 1936: Mr. Deeds Goes To Town (Doido com Juízo); 1937: Lost Horizon (Horizonte Perdido); 1938: You Can't Take It Whith You (Não o Levarás Contigo); 1939: Mr. Smith Goes To Washington (Peço a Palavra); 1941: Meet John Doe (Um João Ninguêm); Arsenic And Old Laces (O Mundo é um Manicómio); 1942: Why We Fight?: Prelude To War; 1943: Why We Fight?: The Nazis Strike; Why We Fight?: Divide And Conquer; Da série Why We Fight?, Frank Capra produziu e supervisionou a realização dos outros seguintes episódios: Britain (R: Anthony Veiller); The Battle of Britain (R: Anthony Veiller); The Battle of Russia (R: Anatole Litvak); The Battle of Chine (R: Frank Capra e Anatole Litvak); The Negro Soldier in World War II (R: Stuart Heisler); Tunisian Victory (R: Hugh Stewart); War Comes to America (R: Anatole Litvak); Know Your Enemy: Germany (R: Gottfried Reinhardt e Ernest Lubitsch); Know Your  Enemy: Japan (R: Frank Capra e Joris Ivens);  Your Job in Germany; Two Down and One to Go; 1946: It's A Wonderful Life (Do Céu Caiu Uma Estrela); 1948: State of the Union (Um Filho do Povo); 1950: Riding High (Desejo) segunda versão de «Broadway Bill»; 1951: Here Comes the Groom (A Sorte Bate À Porta); 1956: Our Mr. Sun (doc.); 1957: Hemo The Magnificient (doc.); The Strange Case Of The Cosmic Rays (doc.); 1958: The Unchainned Goddess (doc.); 1959: A Hole In The Head (Tristezas Não Pagam Dívidas); 1961: Pocketful Of Miracles (Milagre Por Um Dia) segunda versão de «Lady For A Day»; 1964: Rendez Vous In Space (curta-metragem).

SESSÃO 28 - 28 DE JUNHO DE 2016



O MUNDO È UM MANICÓMIO (1941,1944)

“O Mundo é Um Manicómio” foi dirigido por Frank Capra em 1941, mas só seria estreado na América em 1944. Já iremos saber porquê. Por isso mesmo, o melhor é começar por um pouco de história. 
Frank Capra é seguramente um dos maiores autores de comédias cinematográficas de sempre. Tenho para mim que “Uma Noite Aconteceu”, “Doido com Juízo”, “Não o Levarás Contigo”, “Peço a Palavra”, “Um João Ninguém”, “O Mundo é Um Manicómio” e “Do Céu Caiu uma Estrela”, para só citar estas, constituem um conjunto de comédias verdadeiramente invulgar, todas elas rodadas numa dúzia de anos, precisamente entre 1934 e 1946. Raros autores conseguiram um tal volume de obra com uma tão grande coerência e consistência de temas, com um tão notável grau de eficácia narrativa, de estilo, de humor e de intransigente defesa de valores humanistas que os tempos impuseram e o talento e o espírito de Capra captaram de forma admirável.
A América, e o mundo, atravessavam um período particularmente conturbado. A crise económica era intensa. O "crach" de 1929 deixara pesadas marcas na economia mundial. Roosevelt tentava impor o seu plano de recuperação nacional através do "New Deal" e Frank Capra foi, ao longo dos anos, o seu melhor instrumento.
Mas há que referir aqui um aspecto que me parece absolutamente decisivo para o bom êxito deste empreendimento: Capra não executava encomendas. Capra rodava filmes em que acreditava, que reflectiam o seu tempo e se deixavam impregnar pelo espírito do "New Deal" de uma forma absolutamente espontânea.
Este aspecto sente-se em todos os títulos atrás mencionados e funciona como uma marca de autoria, de tal forma que hoje em dia, quando se vêem filmes de certa forma utópicos e idealistas, se diz serem "à maneira de Capra". Actualmente, a América tem recuperado muito desse espírito, infelizmente talvez um pouco porque os tempos são igualmente de forte crise económica e se impõe uma recuperação desse idealismo e dessa vontade colectiva de vencer a crise solidariamente.


Pois bem, em 1941 Capra encontrava-se no auge da sua carreira, sendo um dos mais bem sucedidos cineastas de Hollywood. Teve à sua disposição contratos fabulosos propostos por David Selznick e pela Fox, mas acabaria por ingressar nas forças armadas, convidado para dirigir um departamento de cinema do Exército. Antes, porém, de ingressar nas fileiras, teve direito a algum tempo que procurou ocupar dirigindo um filme que ele considerava "alimentar, feito para suprir as necessidades alimentares da família."
Capra tinha visto na Broadway uma peça de grande sucesso nessa altura, "Arsenic and Old Lace", da autoria de Joseph Kesselring, e procurou interessar Jack Warner neste projecto. Ele comprometia-se a rodá-lo em quatro semanas, quase integralmente em estúdio, num cenário único, com meia dúzia de actores, entre eles Cary Grant, o mais popular comediante da América.
E assim se fez: o cenário era o interior e parte do exterior da casa de duas bondosas velhinhas que se entretinham a distribuir veneno por velhinhos que enterravam depois na cave, onde um lunático que se fazia passar por Ted Roossevelt lançava as bases do canal do Panamá, nos intervalos de vitoriosas cargas sobre o inimigo. Capra conseguiu que alguns dos actores do elenco da Broadway utilizassem as semanas de férias para virem filmar consigo em Hollywood, com uma excepção de peso: Boris Karloff que fazia o papel de Jonhnathan no teatro e que os empresários não libertaram, foi substituído por Raymond Massey, que aliás ostenta uma caracterização muito semelhante à da figura de Frankenstein, o que permite deliciosos trocadilhos, como poderão ver.
O filme fez-se nas quatro semanas previstas, foi concluído depois em tempo "record", porque, entretanto, ocorreu o ataque de Pearl Harbour e os EUA intensificaram a sua intervenção no conflito, mas “Arsenic and Old Lace” só seria estreado oficialmente em salas norte-americanas em 1944, porque assim o impunha o contrato com a companhia teatral: só depois da peça ter terminado a sua carreira normal nos palcos da Broadway, é que o filme poderia ser lançado.
Estreou e foi um sucesso fulgurante. Se bem que afastando-se um pouco da temática usual de Capra, “O Mundo é Um Manicómio” é uma fabulosa demonstração do talento deste cineasta, do seu estilo, da sua direcção de actores, do seu humor.…Um humor que, passados 60 anos, mantem toda a frescura, toda a espontaneidade, toda a alegria de viver, mesmo quando o humor é um humor negro como é o caso. E pronto é altura de também nós gritarmos "À carga!" e passarmos rapidamente ao filme.


O MUNDO É UM MANICÓMIO
Título original: Arsenic and Old Lace
Realização: Frank Capra (EUA, 1941, 1944); Argumento: Julius J. Epstein, Philip G. Epstein, segundo peça de teatro de Joseph Kesselring; Produção: Jack L. Warner, Frank Capra; Música: Max Steiner; Fotografia (p/b): Sol Polito; Montagem: Daniel Mandell; Direcção artística: Max Parker; Guarda-roupa: Orry-Kelly; Maquilhagem: Perc Westmore, George Bau, Anita De Beltrand, John Wallace;  Direcção de Produção: Eric Stacey, Steve Trilling;  Assistentes de realização: Claude Archer, Russell Saunders; Departamento de arte: Lucien Hafley, Keefe Maley, Alfred Williams, Levi C. Williams; Som: C.A. Riggs, Everett Alton Brown; Efeitos especiais: Robert Burks, Byron Haskin; Companhia de produção: A Warner Bros.-First National Picture; Intérpretes: Cary Grant (Mortimer Brewster), Priscilla Lane (Elaine Harper), Raymond Massey (Jonathan Brewster), Jack Carson (O'Hara), Edward Everett Horton (Mr. Witherspoon), Peter Lorre (Dr. Einstein), James Gleason (LTenente. Rooney), Josephine Hull (Abby Brewster), Jean Adair (Martha Brewster), John Alexander ('Teddy Roosevelt' Brewster), Grant Mitchell (Reverendo Harper), Edward McNamara (Brophy), Garry Owen, John Ridgely, Vaughan Glaser, Chester Clute, Charles Lane, Edward McWade, Spencer Charters, Jimmy the Crow, Sol Gorss, Herbert Gunn, Roland Jones, Hank Mann, Spec O'Donnell, Lee Phelps, Don Phillips, Raymond Walburn, Leo White, Jean Wong, etc. Duração: 118 minutos; Distribuição em Portugal: Warner Home Video; Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 3 de Fevereiro de 1947.


FRANK CAPRA (1897-1991)
Frank Capra foi considerado um dos mestres da comédia social. “Uma Noite Aconteceu”, “Doido com Juízo”, “Não o Levarás Contigo”, “Peço a Palavra”, “Um João Ninguém”, “O Mundo é Um Manicómio”, “Do Céu Caiu uma Estrela” ou “Horizonte Perdido” são títulos respeitantes às décadas de 30 e 40, a sua época de consagração e plenitude.
Frank Capra é de origem siciliana. Nasceu a 18 de Maio de 1897, na localidade de Bisaquino, na tumultuosa ilha da Sicília. A família emigrou para os EUA quando ele contava apenas seis anos de idade, instalando-se em Los Angeles. Mas a sua educação leva-o para o campo das ciências, formando-se em 1918, em Engenharia Química. Passa pelo exército, e, ao sair, encontra a América à beira do colapso económico. É difícil arranjar emprego, e por isso aproveita para viajar à boleia pelos estados do Arizona, Nevada e Califórnia. Diz a lenda que, durante a "lei seca", recusou o convite de um dirigente da mafia local para montar um fábrica clandestina, cujos alambiques não deitassem cheiro. Em vez disso, respondeu a um anúncio que pedia "realizador" para um novo estúdio. Quem colocara o anúncio no jornal fora um actor shakespeareano de nome Walter Montague, que fundara as "Productions Fireside", onde Frank Capra se estreia com uma curta metragem sobre um poema de Rudyard Kipling. Pouco tempo depois, passa a trabalhar num laboratório de cinema, onde assiste à rodagem de várias obras, algumas delas dirigidas por cineastas como Eric Von Stroheim, o que lhe permite ir aprendendo o ofício. Aparece no elenco técnico de diversos filmes, como acessorista, montador, argumentista, inventor de gags. É nesta condição que é contratado por Hal Roach e, posteriormente, por Mack Sennett para a sua fábrica de comédias, onde começa a sua colaboração com o cómico Harry Langdon. Dois dos mais célebres filmes de Langdon são realizados por Capra, em 1926, “Atleta à Força” e “Calças Compridas”.
Mas o mau feitio do actor leva-o a deixar Marc Sennett, e depois a despedir Capra. Em 1928, de novo sem emprego, é contratado por um pequeno estúdio, a Columbia Pictures, nessa altura dirigida por Harry Cohn. Aí irá permanecer durante uma dúzia de anos, ajudando a fazer da Columbia um dos grandes estúdios de Hollywood. Roda filmes a uma velocidade vertiginosa e quase todos se tornam êxitos de bilheteira. A América atravessa um dos seus piores momentos de sempre e Capra é sensível ao estado de espírito dos seus concidadãos. As suas obras, melodramas, como “A Grande Muralha”, dramas como “Milionária por um Dia”, comédias como “Loucura Americana”, começam a impor um estilo, a que mais tarde se chamará o "Capra Touch" (o toque Capra), que o celebrizará.
Mas Frank Capra vive obcecado pela conquista de um Oscar, prémio atribuído pela recém-criada Academia de Hollywood. Faz parte da história das cerimónias de atribuição dessas invejadas estatuetas um episódio protagonizado por ele. Em 1933, realiza “A Grande Muralha”, que inaugura, com pompa e circunstância, o Radio City Music Hall, de Nova Iorque. O êxito é grande, mas quanto a Oscars o filme ficou em branco. A película seguinte, “Milagre por um Dia”, reservava-lhe finalmente uma nomeação para o "melhor realizador". No dia da atribuição dos prémios, Capra estava tão seguro de si que, quando o apresentador anuncia o Oscar ganho por Frank..., Capra não espera por mais nada e dirige-se para o palco. O Oscar iria para Frank, sim, mas para Frank Lloyd, que dirigira “Cavalgada”. Foi um mau momento que, todavia, duraria pouco. Em 1934, com “It Happened One Night”, Capra vê este seu trabalho arrebatar os 5 Oscars mais importantes: melhor filme, melhor realização, melhor actor principal (Clark Gable), melhor actriz principal (Claudette Colbert) e melhor argumento (atribuído a Robert Riskin, colaborador regular de Capra e seguramente uma das bases do seu triunfo). Na história de Hollywood só dois outros realizadores repetem a graça: em 1975, Milos Forman, com “Voando Sobre um Ninho de Cucos”, e, posteriormente, em 1991, Jonathan Demme, com “O Silêncio dos Inocentes”.
Com “Uma Noite Aconteceu” Frank Capra ascendeu à gloria que ele tanto perseguia há já alguns anos. Os Oscars que recebeu, as críticas que então se publicaram, os prémios que acumulou, as honrarias que lhe encheram o ego, mas sobretudo a forma calorosa como o filme foi recebido pelo público de todo o mundo, transportaram o cineasta "ao Everest do cinema", como o próprio autor confessa na sua autobiografia que, sintomaticamente, se chama, no original, “The Name Above the Title”. E é precisamente essa biografia, extremamente curiosa e repleta de histórias divertidas e pitorescas sobre Hollywood e o universo do cinema, que iremos continuar a citar.


Capra sabe que o mundo do espectáculo era, e é ainda hoje, implacável para com os perdedores. Sabia que homens que tiveram o mundo na mão, como Griffith e Marc Sennett, viveram na penumbra do esquecimento os últimos anos das suas vidas. Manter o êxito é difícil e qualquer erro pode ser o último. Depois do triunfo de “It Happened One Night”, Frank Capra ficou apavorado com o que fazer a seguir. E não quis mesmo fazer mais nada. Mas, para que ninguém o perturbasse nesse retiro, resolveu inventar uma doença. Diariamente se dizia muito cansado, e conseguia mesmo que o termómetro fosse registando aqueles incómodos 37- 7 , 37- 9 que iam afligindo os médicos e a família, e o afastavam dos estúdios da Columbia Pictures, onde o produtor Harry Cohn afadigadamente lhe ia descobrindo projectos. A coisa foi de tal ordem, que ao fim de algum tempo, os vários médicos que ia visitando, à força de nada lhe encontrarem, lhe prognosticaram uma tuberculose. Mas Capra, qual doente imaginário, sentia-se bem, mesmo com a tuberculose. O que ele não queria mesmo era voltar aos estúdios e ter de responder publicamente pelas responsabilidades assumidas com o seu último filme. Até que um dia...
Um dia, estava ele no quentinho da sua sala, ouvindo pela rádio as ameaçadoras gabarolices de Hitler, quando um admirador pediu para o ver. Não se sabe muito bem como tudo aconteceu, Capra deixa o episódio envolto num certo mistério, daqueles de que se fazem os mitos, mas a verdade, segundo o relato do cineasta, é que lhe apareceu um homenzinho careca de fortes lunetas que o acusa de ser um cobarde. E mais do que isso, uma ofensa a Deus. E prosseguiu na sua invectiva: "Está a ouvir essa voz demoníaca, referia-se a Hitler, que tenta desesperadamente contaminar o mundo com o seu ódio. A quantas pessoas se dirige ele? A quinze, vinte milhões. O senhor, e agora dirigia-se a Capra, pode falar a centenas de milhões de pessoas durante duas horas e na obscuridade. O talento que tem, não lhe pertence, não o adquiriu por meios próprios. Foi Deus quem lho deu. Ele ofertou-lhe esse dom para o colocar ao seu serviço. Quando se recusa a utilizá-lo, está a ofender a Deus e à Humanidade. Adeus." E o homenzinho foi-se embora, ficando Capra no mais profundo silêncio, diz ele que deixando escorregar pelo rosto umas lágrimas de vergonha. E no dia seguinte estava a trabalhar no argumento de "Opera Hat", donde resultaria “Mr. Deeds Goes To Town”.
Não se sabe se a história é verdadeira, mas não deixa de ser reveladora. Reveladora é uma palavra que tem a ver com Revelação. O cinema de Capra não mais deixaria de ser um cinema de Revelação, mas de uma Revelação profundamente enraizada em questões sociais essenciais. Logo a começar por “Doido com Juízo” que é bem o manifesto de um autor, e talvez neste aspecto a sua obra mais perfeita, pelo menos a mais significativa.
Numa época de profunda crise económica e social, num período de angústia e mesmo desespero, como foi o início da década de 30 na América, Frank Capra criou um herói provinciano, ingénuo mas intimamente forte e seguro de si e das suas convicções, que desafia a cidade desumana, as instituições públicas e privadas, dominadas pela corrupção, e que, mais do que tudo isso, consegue trazer consigo a revelação do amor e da solidariedade social. É o herói individual que a América vai consagrar no rosto incorruptível de Gary Cooper. Diz a lenda também que um actor amigo de Capra um dia lhe disse: "Deixa de te preocupar com o que deves dizer às pessoas. Isso fá-.las fugir. Limita-te a contar histórias simples de homens e mulheres e a fazer rir. Este é o teu ponto forte. Inconscientemente farás deslizar nos teus filmes uma mensagem, seja ela qual for. Não podes impedir-te disso." Capra fez as suas histórias, e deixou-as viver com o seu coração. A mensagem era sempre a mesma, porque era a sua forma de ver e sentir o mundo e os seus problemas. A utopia dos bons sentimentos pode ser apenas isso, mas o retrato que fica subjacente permanece intocável. E nada no filme é tão simples que se possa dizer pueril. Mesmo a ingenuidade do herói que sai do “país real" para afrontar a metrópole corrupta, acaba por sucumbir e ser salvo por uma outra revelação, a do amor de uma mulher da cidade, diga-se que excelentemente interpretada por Jean Arthur. Esta é a América dos anos de crise da década de 30. 
O cinema de Capra expressa um populismo voluntarista e utópico, exemplo típico de uma fé total na democracia, sobretudo na democracia norte-americana dos primórdios que Lincoln e Jefferson construíram. Capra e os seus heróis trazem consigo a reposição dos valores esquecidos ou adulterados da democracia. Valores esquecidos ou adulterados na América, valores totalmente subvertidos na Europa, onde, nesse final dos anos 30 e na década seguinte, os totalitarismos cresciam, com o nazismo, o fascismo, o comunismo a instalarem-se um pouco por todo o lado.
Capra acredita no Homem, no seu Humanismo, na sua possibilidade de reformar o sistema, de o transformar através do amor e da dedicação a causas justas. Capra acredita que a integridade e a honestidade de uns tantos irão impedir a perversão do sistema empreendida por alguns em proveito próprio. Capra acredita, portanto, que o Mal não triunfa, se o Bem se mantiver vigilante e for suficientemente corajoso para intervir e lancetar a gangrena. E Capra diz tudo isto com fé e alegria, fazendo filmes simples na sua aparência, lineares na sua estrutura, que irão galvanizar o povo americano. Por isso Capra foi o melhor instrumento da política de Franklin Roosevelt para o ressurgimento da América através do New Deal. E foi-o sobretudo porque não fazia filmes de encomenda. Ninguém lhe dizia o que devia dizer. Ele fazia os filmes que queria, que por uma feliz coincidência de propósitos se integravam plenamente no espírito do New Deal, o projecto político da reconstrução norte-americana, que procurava sobretudo devolver a voz ao cidadão e esperar que fosse ele a tomar nas suas mãos o destino da América.
Mas, se a esperança da reconstrução nacional se dirigia para o esforço do cidadão anónimo, a vontade política ia no sentido de criar um rudimento do Estado providência que ofertasse ao cidadão as ferramentas económicas, através do crédito, e lhe criasse zonas de segurança social, para combater e vencer a grande Depressão. Com base no pensamento de homens como Thomas Jefferson, Franklin Roosevelt esperava, disse ele, "refazer a vida nacional segundo um modelo que, voltasse ou não a antiga prosperidade, provocasse um maior sentido de justiça social e respondesse aos pedidos de uma nova democracia." Houve quem visse nas ideias de Roosevelt um perigo "vermelho", mas os rudimentos de socialização da sociedade eram apoiados até pela igreja. O próprio Papa Pio XI pedia uma mais forte participação católica na reconstrução da ordem social, e muitas outras religiões, populares nos EUA, associavam-se-lhe nas intenções. A II Guerra Mundial iria terminar com o esforço do New Deal, mas esta época de franca prosperidade e de uma maior justiça social ficaria para sempre marcada na história dos EUA com uma pedra branca, inclusive no campo literário e artístico. Muitos foram os escritores, de John dos Passos a Steinbeck e Hemingway, muitos foram os artistas, na música, na pintura, no teatro, no cinema, a sentirem o chamamento social, o apelo do povo para a reconstrução da sociedade em moldes mais justos e humanos. Capra foi apenas um entre muitos, mas no campo do cinema, e sobretudo na comédia, ele foi exemplar. Como exemplar foi também John Ford no drama social, desde “A Estrada do Tabaco” às “Vinhas da Ira”.
Durante a II Guerra Mundial, Frank Capra, mobilizado pelas forças armadas norte-americanas, supervisionou um conjunto admirável de documentários, subordinados ao título genérico “Why We Fight”, e que pretendiam precisamente mostrar aos americanos porque é que eles deveriam entrar na guerra e combater a ameaça nazi, mostrando quem eram os inimigos, e testemunhando algumas das mais famosas batalhas realmente vividas na carne, de Inglaterra à Tunisia ou à China. Sob as ordens de Capra estiveram cineastas como John Ford, Anatole Litvak ou Joris Ivens, e o conjunto destes filmes é o mais espantoso e brilhante documento que a II Guerra Mundial nos deixou como resposta ao "terrificante" Triunfo da Vontade, da alemã Leni Riefenstahl.
No pós-guerra, Capra ainda nos daria filmes extremamente interessantes, entre as quais mais uma obra-prima indiscutível, “Do Céu Caiu uma Estrela”, que data de 1946. Nas décadas de 50 e 60, “Tristezas não pagam Dívidas” e “Milagre por Um Dia”, "remake" de uma obra anteriormente realizada pelo próprio Capra, são ainda títulos a não menosprezar, bem assim como toda a sua actividade no campo do documentarismo científico e educacional, em encomendas da Bell System, actividade que o ocupou entre 1952 e 1957.
Capra, glória de Hollywood, faleceu a 3 de Setembro de 1991, com 94 anos de idade e uma vida cheia de histórias que ele descreveu parcialmente numa bem humorada e ágil autobiografia a que deu por título "The Name Above the Title".

*Ver filmografia de Frank Capra na folha de “Não o Levarás Contigo”.

domingo, 19 de junho de 2016

SESSÃO 27 - 22 DE JUNHO DE 2016 (2)



ABBOTT E COSTELLO EM ÁFRICA (1949)


Se “Bucha e Estica” foi a dupla de sucesso que passou do mudo para o sonoro mantendo alguma qualidade e relevância, “Abbott e Costello” tentaram prolongar o feito, com alguma competência e imaginação, mas sem idênticos resultados. A verdade é que esta dupla se formou apenas a partir de 1940, numa altura em que “Bucha e Estica” anunciavam o declínio. O cinema mudo já ia longe, os efeitos puramente visuais já tinham feito a sua época, imperava agora o humor com base no diálogo e “Abbott and Costello” nunca tiveram asas para voar ao lado dos “Irmãos Marx”. Como sempre nas duplas, esta também viveu da complementaridade, aqui do anafado, simpático e ingénuo, e do magro, pragmático licenciado em truques baixos. Ao contrário de “Bucha e Estica”, aqui é o gorducho que inspira simpatia e, pelos vistos, é o mais importante no desenho do humor. Costello quase se limita a desencadear as situações ou a dar réplica ao seu partner que faz as despesas pelos dois. O seu primeiro filme é “Uma Noite nos Trópicos” e, durante década e meia, criaram alguns bons momentos em filmes onde parodiavam igualmente alguns géneros e profissões: “Ordinário, Marche!”, “Agarra-me esse Fantasma”, “Abbott e Costello, Aviadores”, “Rio Rita”, “Abbott e CosteIo, Cowboys", “Abbott e Costello, Detectives”, “Abbott e Costello nas Corridas”, “Perdidos num Harém”, “Os Campeões do Riso”, “Abbott e Costello, Automobilistas”, “Abbott e Costello e os Monstros”, “Abbott e Costello no México”, “Abbot e Costello entre Assassinos”, “Abbott e Costello em África”, “Abbott e Costello na Legião Estrangeira”, “Abbott e Costello e o Homem Invisível”, “A Galinha dos Ovos de Ouro”, “Encontro com o Capitão Kidd”, “Abbott e Costello vão para Marte”, “Abbott e Costello e o Médico e o Monstro”, “Abbott e Costello e a Múmia”, entre outros. Note-se a persistência na paródia aos filmes de terror, que eram vulgares nesse período, mas sobretudo porque o esquema permitia explorar o “medo” de Abbott que divertia as plateias. Não sendo uma sátira aos filmes fantásticos, “Abbott e Costello em África” segue a mesma construção, brincando com o filme de aventuras, e permitindo colocar o atarantado Abbott na presença de vários malfeitores, fenómenos naturais e animais selvagens como crocodilos, leões ou chimpanzés. O efeito é garantido.
Buzz Johnson (Bud Abbott) e Stanley Livington (Lou Costello) são empregados numa livraria e um dia são convencidos por uma elegante dama a partirem para África, numa expedição. Eles não sabem muito bem ao que vão, mas ficam nas mãos de um perigoso grupo de traficantes de diamantes. Depois as peripécias sucedem-se, com o desgraçado do Buzz, a quem tudo acontece, a deparar-se com uma tribo de indígenas antropófagos, e a ser perseguido por perigosos animais de dentes afiados. Nada que não fosse previsível suceder, para explorar as potencialidades do humor de Abbott, que consegue, na sua inocência, provocar fartas gargalhadas. Tudo filmado nos Nassour Studios, em Hollywood.
É um tipo de humor simples e directo, que fez uma época e conseguiu alcançar os primeiros lugares do “box office” norte-americano. Depois, o declínio foi normal e outra dupla se preparou para os substituir com imenso sucesso de bilheteira: Jerry Lewis e Dean Martin. Agora a cores e com a genialidade de Jerry Lewis a despontar. 


ABBOTT E COSTELLO EM ÁFRICA
Título original: Africa Screams
Realização: Charles Barton (EUA, 1949); Argumento: Earl Baldwin, Martin Ragaway, Leonard Stern (estes não creditados); Produção: David S. Garber, Huntington Hartford, Edward Nassour, Donald Crisp; Música: Walter Schumann; Fotografia (p/b): Charles Van; Montagem: Frank Gross; Direcção artística: Lewis H. Creber; Decoração: Edward R. Robinson; Direcção de Produção: Joe C. Gilpin; Assistentes de realização: Joseph E. Kenney; Som: Robert Pritchard; Efeitos especiais: Carl Lee; Guarda-roupa: Albert Deano; Companhias de produção: Huntington Hartford Productions; Nassour Studios Inc.; Intérpretes: Bud Abbott (Buzz Johnson), Lou Costello (Stanley Livington), Clyde Beatty (Clyde Beatty), Frank Buck (Frank Buck), Max Baer (McCoy), Buddy Baer (Boots Wilson), Hillary Brooke (Diana Emerson), Shemp Howard (Gunner), Joe Besser (Harry), Burt Wenland (Bobo), Charles Gemora, Arthur Hecht, Bill Walker, Martin Wilkins, etc. Duração: 79 minutos; Distribuição em Portugal: Sonoro Filme (1950); Distribuição em Portugal (DVD): Filmes Unimundos; Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 17 de Fevereiro de 1950.
           

ABBOTT E COSTELLO
BUD ABBOTT (1895-1974) LOU COSTELLO (1906-1959)

Bud Abbott (William Abbott) nasceu em Atlantic City (New Jersey), a 2 de Outubro de 1895, e vem a falecer a 24 de Abril de 1974, em Woodland Hills, Los Angeles, Califórnia, EUA. Actor norte-americano, filho de artistas do circo Bamum, Bud Abbott entra no mundo do espectáculo em 1916. Estreia-se na rádio e no teatro em 1930. Em 1940, forma uma parelha com Lou Costello, que atinge grande popularidade até 1950. Retira-se em 1955, depois de uma série autobiográfica para a TV.

Lou Costello (Louis Francis Cristillo) nasceu em Patterson (New Jersey), a 6 de Março de 1906, e faleceu em Hollywood (Califómia), a 9 de Março de 1959. Principia a sua actividade artística na rádio e na TV, estreando-se no teatro como secundário, passando depois ao cinema, ao lado de Bud Abbott. A parelha figurou entre os dez mais rentáveis actores dos EUA, durante os períodos de 1941-1944 e 1948-1951. Em 1959 interpreta o seu último trabalho no cinema, em estilo autobiográfico: “The Thirty Foot Bride of Candy Rock” (Costello e a Mulher Gigante), de Sidney Miller.

ABBOTT E COSTELLO

Filmografia / como actores (em dupla): 1940: One Night in the Tropics (Uma Noite nos Trópicos), de A. E. Sutherland; 1941: Buck Privates (Ordinário, Marche!), de Arthur Lubin; Hold That Ghost (Agarra-me esse Fantasma), de Arthur Lubin; Keep'em Flying (Abbott e Costello, Aviadores), de Arthur Lubin; 1942: Rio Rita (Rio Rita), de S. Sylvan Simon; Pardon My Sarong (Abbott e Costello no Paraíso), de E. C. Kenton; - Ride'em Cowboy (Abbott e CosteIo, "Cowboys"), de Arthur Lubin; Who Don It? (Abbott e Costello, Detectives), de E. C. Kenton; 1943: Hit The Ice (Abbott e Costello Patinadores), de Charles Lamont; It Ain't Hay (Abbott e Costello nas Corridas), de E. C. Kenton; 1944: In Society (Abbott e Costello na Sociedade), de J. Yarbrough; Lost in Harem (Perdidos num Harém), de Charles Reisner; 1945: Here Come The Co-Eds (Abbott e Costello Desportistas),deJ. Yarbrough; The Naughty Nineties (Abbott e Costello na Pândega), de J. Yarbrough; Abbott And Costello In Hollywood (Os Campeões do Riso), de S. S. Simon; 1946: The Time of Their Lives (Abbott e Costello Fantasmas), de Charles T. Barton; Little Giant (O Pequeno Gigante), de William A. Seiter; 1947: Buck Privates Come Home (Abbotte Costello, Automobilistas), de Charles T. Barton; The Wisful Window of Wagon (Abbott e Costello e a Viúva Alegre), de Charles T. Barton; 1948: Abbott and Costelo Meet Frankenstein (Abbott e Costello e os Monstros), de Charles T. Barton; The Noose Hangs High (Abbott e Costello cheios de Azar), de Charles T. Barton; Mexican Hayride (Abbott e Costello no México), de Charles T. Barton; 1949: Abbott and Costello Meet The Killer (Abbot e Costello entre Assassinos), de Charles T. Barton; Africa Screams (Abbott e Costello em África), de Charles T. Barton; In The Navy (Marinheiro de Água Doce), de Arthur Lubin; 1950: Abbott and Costello Foreign Legion (Abbotte Costello na Legião Estrangeira), de Charles Lamont; 1951: Abbott and Costello Meet the Invisible Man (Abbott e Costello e o Homem Invisível), de Charles Lamont;  Comin Round (Abbott e Costello Pesquizadores), de Charles Lamont; 1952: Jack and the Beanstalk (A Galinha dos Ovos de Ouro), de J. Yarbrough; Lost In Alaska (Abbott e Costello no Alaska), de J. Yarbrough; Abbott and Costello Meet Captain Kidd (Encontro com o Capitão Kidd), de Charles Lamont; 1953: Abbott and Costello Go To Mars (Abbott e Costello vão para Marte), de Charles Lamont; Abbott and Costello Meet Jekyll and Mr. Hyde (Abbott e Costello e o Médico e o Monstro), de Charles Lamont; 1955: Abbott and Costello Meet the Mummy (Abbott e Costello e a Múmia), de Charles Lamont; Abbott and Costello Meet the Keystone Cops (Abbott e Costello Polícias), de Charles Lamont; 1956: Dance with Me, Henry, de Charles T. Barton.

SESSÃO 26 - 22 DE JUNHO DE 2016 (1)


DOIS MALUCOS À SOLTA (1942)

Foi Hall Roach, em 1926, quem teve a ideia de reunir em parelha cómica Bucha (Hardy) e Estica (Laurel), transformando-a rapidamente na mais importante da história do cinema. Inicialmente, apareceram em dezenas e dezenas de curtas-metragens (filmes de uma, duas ou três bobines, como então eram designados, e que duravam entre 7, 15 ou 20 minutos). Depois, e sempre em dupla, protagonizaram várias longas-metragens, sobretudo a partir de 1931, já durante o cinema sonoro, o que lhes terá trazido uma maior celebridade por um lado, mas que terá limitado por outro a sua verve visual, muito na base do “slapstick”, o burlesco de situação, com o tradicional “pastelão”, as correrias e as perseguições, as cenas de confusões e travessuras, um humor muito físico, muito fácil de apreender pelas plateias do então cinema mudo. Charles Chaplin terá sido o seu maior cultor a título individual, “Bucha e Estica”, a nível de parelha, impuseram-se e “Os Três Estarolas”, em gang, motivaram ainda algum interesse. Claro que os Irmãos Marx jogavam num outro campeonato, tendo o sonoro como referência indispensável para os seus trocadilhos verbais. Com o advento do sonoro, o “slapstick” transferiu-se fundamentalmente para o desenho animado, do Tom e Jerry aos heróis dos Looney Tunes, com o Bugs Bunny à cabeça.
Entre as longas-metragens de Bucha e Estica mais memoráveis contam-se Laurel e Hardy a Ferros, Quem Vai à Guerra, Fra Diavolo, Os Filhos do Deserto, Era Uma Vez… Dois Valentões, Apurados para o Serviço, Um Par de Ciganos, A Caminho do Oeste, A Mania do Cinema, Os Dois Tiroleses, Campeões de Oxford, Marinheiros à Força, Em Frente, Marche, Dois Malucos à Solta, Salve-se Quem Puder, Bucha e Estica, Músicos de Jazz, Bucha e Estica, Mestres de Dança, Bucha e Estica Detectives ou Bucha e Estica Toureiros.
“Dois Malucos à Solta”, uma realização de 1942, é um pouco o exemplo deste tipo de comédias em que o argumento não era pensado para ser muito importante, mas apenas para permitir à dupla desenvolver um conjunto de gags que pusessem à prova a sua invenção e talento. São comédias de enganos, como muitas outras deste tempo. Os nossos amigos Stan e Ollie aparecem como dois vagabundos numa pequena cidade norte-americana e são avisados pela polícia que têm de deixar a terra. Dispostos a acatar as ordens da autoridade, acabam por aceitar transportar consigo um caixão contendo um corpo que eles julgam de um morto, mas afinal é de um gangster em fuga. Troca de caixões no comboio e o gangster vai parar ao tecto de uma sala de variedades onde o célebre Dante, ilusionista, multiplica as suas facetas mágicas. O resto calcula-se. O mais importante é recordar a complementaridade da dupla, o “bucha”, sentencioso, e o “estica”, ingénuo e desastrado, bem assim como alguns “gags” bem conseguidos. Mas muito do humor joga-se, e bem, no desajustado do comportamento dos dois protagonistas. Por vezes delicioso.

DOIS MALUCOS À SOLTA
Título original: A-Haunting We Will Go
Realização: Alfred L. Werker (EUA, 1942); Argumento: Lou Breslow, Lou Breslow, Stanley Rauh; Produção: Sol M. Wurtzel; Música: David Buttolph, Cyril J. Mockridge; Fotografia (p/b): Glen MacWilliams; Montagem: Alfred Day; Direcção artística: Lewis H. Creber, Richard Day; Decoração: Thomas Little; Guarda-roupa: Herschel McCoy, Sam Benson; Assistentes de realização: Paul Wurtzel; Som: Harry M. Leonard, Arthur von Kirbach; Companhias de produção:Laurel and Hardy Feature Productions, Twentieth Century Fox Film Corporation; Intérpretes: Stan Laurel (Stan), Oliver Hardy (Ollie), Dante (Dante the Magician), Sheila Ryan (Margo), John Shelton (Tommy White), Don Costello (Doc Lake), Elisha Cook Jr. (Frank Lucas), Edward Gargan, Addison Richards, George Lynn, James Bush, Lou Lubin, Robert Emmett Keane, Richard Lane, Willie Best, Harry Blackstone, Roland Carpenter, Paul Kruger, Wilbur Mack, Terry Moore, etc. Duração: 64 minutos; Distribuição em Portugal: Twentieth Century Fox; Classificação etária: M/ 6 anos; Data de estreia em Portugal: 25 de Junho de 1943.


BUCHA E ESTICA
OLIVER HARDY (1892-1957)
Oliver Norvelle Hardy nasceu em Harlém, Geórgia, EUA, a 18 de Janeiro de 1892 e faleceu em Burbank (Califórnia), a 7 de Agosto de 1957. Actor norte-americano. De família inglesa, os pais dirigem um hotel em Madison (Geórgia), estuda no Conservatório de Atlanta e chega a ser um excelente cantor, embora nunca se tenha dedicado profissionalmente à canção. Segue cursos de Direito na Georgia University e abre, em 1919, a primeira sala de cinema de Milledgeville (Geórgia), actividade que o incita a fazer-se actor em 1913, contratado pela Lubin Studios (Florida), sem ter experiência alguma como tal e sem ter passado pelo palco ou pelo music-hall. Até 1915, interpreta numerosos segundos papéis em burlescos da Lubin e da Vim Comedies (absorvida pela Lubim em 1915). De 1916 a 1918 é a vedeta da série Plump and Runt (Billy Rupge no papel de Runt), no fim da qual se instala definitivamente em Hollywood: intervém noutras séries cómicas e em vários westerns da Fox, geralmente em composições de vilão. De 1920 a 1925 alterna estes papéis com outros, junto a Larry Sernon, para a Vitagraph (chega mesmo a dirigir alguns deles), até ser contratado em 1926 por Hall Roach, que descobre as suas possibilidades cómicas como par de Stan Laurel. Assim nasce a parelha cómica Bucha (Hardy) e Estica (Laurel), a mais importante da história do cinema, cuja colaboração com Roach se prolongará até 1940, graças ao extraordinário êxito comercial das curtas-metragens e, a partir de 1936, das longas-metragens. Hardy encarna Ollie, o sempre mal-humorado companheiro de aventuras e trabalhos de Stan, pedante e arrogante, dotado de recursos expressivos menos ricos e matizados que os de Stan (o verdadeiro criador de todas as situações cómicas), complemento perfeito de uma fórmula (a da parelha cómica) muitas vezes repetida, mas nunca conseguida com os extraordinários resultados de todo o tipo obtidos neste caso. A partir de 1945, retira-se do cinema e regressa unicamente para ser o protagonista, em 1952, de um filme francês de pouco interesse. Durante este tempo, realizam digressões pela Europa e em 1945 produz-se um certo ressurgimento nos E.U.A., ao passar pela TV a maior parte da sua obra, não podendo levar-se a cabo uma série para o pequeno écran, produzida pelo filho de Hal Roach, por ter Ollie falecido em consequência de uma hemorragia cerebral.

STAN LAUREL (1890-1965)
Arthur Stanley Jefferson nasceu em Ulverston (Lancashire-Inglaterra) a 16 de Junho de 1890 e faleceu em Santa Mónica (Califórnia) a 23 de Fevereiro de 1965. Actor norte-americano. Filho de uma actriz e de um actor de vaudeville, autor e encenador, estuda na King James Grammar School (Bishop Auckland), inicia-se no mundo do espectáculo no Pickard's Muscum (Glasgow, 1906) e ingressa (1907) na troupe de Fred Karno como imitador (de Chaplin) para as digressões de circo e nos music-halls de Inglaterra e E.U.A., onde chega em 1912, tal como Chaplin. Quando este foi contratado por Sennett (1913), Stan monta um número de grande êxito, The Keystone Trio, no qual parodia Chaplin. Em 1917, a Universal oferece-lhe o seu primeiro contrato cinematográfico, adopta o apelido de Laurel e roda uma série de curtas-metragens, criando o personagem de Hickory Hiram. A partir de 1918, passa por diversas companhias e, em 1922, Hal Roach contrata-o para ser o protagonista de vinte curtas-metragens. 1924-1925: a série The Stan Laurel Comedies situa-o entre os primeiros cómicos de época. Em 1926 inicia-se, sempre sob a égide de Roach (Pathé), a frutuosa colaboração com Oliver Hardy. Ao falecer Hardy, recusa continuar no activo e retira-se do cinema. Oscar especial em 1960 pela «sua criação pioneira no campo da comédia cinematográfica». Casamentos: Lois Neilson (divorciado em 1934), Virgina Ruth (1934-1936 e 1938-1939, quando voltou a casar com ela) e Ida Kitaeva (1946).

BUCHA E ESTICA

Filmografia / Como actores: Bucha (Hardy) e Estica (Laurel) apareceram em dezenas e dezenas de curtas-metragens (filmes de uma, duas ou três bobines como então eram designados). Depois, e sempre em parelha, protagonizaram várias longas-metragens: 1931: Pardon Us (Laurel e Hardy a Ferros), de James Parrott; 1932: Pack up your Troubles (Quem Vai à Guerra), de Georges Marshall; 1933: Fra Diavolo ou The Devil’s Brother (Fra Diavolo), de Hal Roach e Charles Rogers; Sons of the Desert (Os Filhos do Deserto), de William A. Seiter; Babes In Toyland (Era Uma Vez… Dois Valentões), de Gus Meins e Charles Rogers; 1935: Bonnie Scotland (Apurados para o Serviço), de Jemes Horne; 1936: Our Relations (Irmãos Gemeos), de Harry Machman; The Bohemian Girl (Um Par de Ciganos), de James Horne e Charles Rogers; 1937: Way Out West (A Caminho do Oeste), de James Horne; Pick a Star (A Mania do Cinema), de Edward Sedgwick; 1938: Swiss Miss (Os Dois Tiroleses), de John G. Blystone; 1939: Block-Heads (O Cabeçudo das Trincheiras), de John G. Blystone; The Flying Deuces (Homens sem Asas), de Edward Sutherland; 1940: A Chump at Oxford (Campeões de Oxford), de Alfred Goulding; Saps at Sea (Marinheiros à Força), de Gordon Douglas; 1941: Great Guns (Em Frente, Marche), de Monty Banks;  1942: A-Haunting We Will Go (Dois Malucos à Solta), de Alfred Werker; 1943: Air Raid Wardens (Salve-se Quem Puder), de Edward Sedgwick; Jitterbugs (Bucha e Estica, Músicos de Jazz), de Malcolm St. Clair; The Dancing Masters (Bucha e Estica, Mestres de Dança), de Malcolm St. Clair; 1944: The Big Noice (Bucha e Estica Detectives), de Malcolm St. Clair; Nothing but Trouble (Cozinheiros do Rei), de Sam Taylor; 1945: The Bullfighters (Bucha e Estica Toureiros), de Malcolm St. Clair; 1952: Atoll K., de John Berry e Leo Joannon. Hardy e Laurel apareceram ainda em várias obras a solo, e o seu trabalho foi reunido em diversas antologias.