segunda-feira, 21 de novembro de 2016

SESSÃO 56 - 22 DE NOVEMBRO DE 2016


UMA FAMÍLIA À BEIRA 
DE UM ATAQUE DE NERVOS (2006)

Um tipo como Richard Hoover (Greg Kinnear), por muita boa vontade que ele tenha e nós para com ele, é sempre um elemento particularmente desagradável. O formador de intrépidos vencedores, de triunfantes empreendedores, motivando toda a gente que encontra para o sucesso, só pode estar destinado ao fracasso. Ele começa por afiançar: “There are two kinds of people in this world, winners and losers”. O que ele desconhece ainda é que, por vezes, os que se julgam triunfantes acabam perdedores. A começar desde logo pela sua família, um curioso agregado com algo de disfuncional: a mulher, Sheryl Hoover (Toni Collette), que vai tentando equilibrar o caos e atenuar a loucura reinante, os dois filhos, Dwayne (Paul Dano), que admira Nietzsche, quer ser piloto, se recusa a falar e vive ensimesmado, e Olive Hoover (Abigail Breslin), uma miudinha de sete anos que sonha concorrer a “Little Miss Sunshine”, um concurso de beleza para crianças talentosas de poucos anos e famílias de pouco juízo. Mas há ainda um tio, Frank Ginsberg (Steve Carell), um grande especialista, “o maior”, em Proust, acabado de sair do hospital e de uma depressão que o levou a uma tentativa de suicido, e o avô, Edwin Hoover (Alan Arkin), expulso de um lar por falta de pudor, drogas, revistas pornográficas e linguagem desbragada, personagens obviamente um pouco exóticas que compõem o ramalhete deste “road movie” de concepção “indie”, lançado inicialmente no Festival Sundance de Cinema de 2006, com enorme sucesso.
Os seus direitos foram vendidos para a Fox Searchlight Pictures num dos contratos mais caros da história do festival, tendo de imediato feito uma excelente carreira nos EUA e em todo o mundo, arrecadando uma impressionante quantidade de prémios em todo o mundo (é incrível a listagem que o IMDB apresenta de prémios ganhos por esta comédia) entre as quatro nomeações para Oscars, vencendo em duas delas (Melhor Argumento original e Melhor Actor Secundário, Alan Arkin). Esteve ainda nomeado para Melhor Filme do Ano e Melhor Actriz Secundária, a estreante Abigail Breslin.
“Uma Família à Beira de um Ataque de Nervos” foi dirigido por um casal de realizadores estreantes na longa-metragem de ficção, Jonathan Dayton e Valerie Faris, e escrito por Michael Arndt. Jonathan Dayton e Valerie Faris tinham atrás de si uma longa história em vídeos, curtas-metragens, documentarismo e episódios para televisão. Depois de “Little Miss Sunshine” conhece-se apenas uma outra comédia, igualmente bem recebida, “Ruby Sparks - Uma Mulher de Sonho” (1912) e anunciam-se dois projectos em fase de concretização, “I'm Proud of You” e “Battle of the Sexes”.


Rodado entre o Arizona e o sul da Califórnia, durante cerca de 30 dias, com um reduzido orçamente do cerca de oito milhões de dólares, o filme arrecadaria verbas astronómicas nos EUA e um pouco por todo o lado. Na semana de estreia, foi lançado nos EUA, em Junho de 2006, apenas em sete salas, e fez 370.782 dólares. O que obrigou a exploração do filme a alargar o numero de salas até atingir uma receita de 9,.626.,655, em Setembro do mesmo ano, em 1.602 ecrãs. Sem dúvida uma revelação e um fenómeno raramente verificado.
Mas a obra faz jus ao sucesso, dado tratar-se de uma comédia que parte de um argumento muito bem concebido, desenvolvido, equilibrando com argúcia a crítica social a certos aspectos da vida americana, com um tom de humor que alterna a insolência contracultura com a delicada ironia de uma família em palpos de aranha para se equilibrar. A realização é sóbria, mas explora bem as linhas de humor, sem perder o rigor da escrita e conseguindo um excelente nível de representação de um elenco magnífico, onde será injusto salientar um nome. A obra evolui á medida que a carrinha da família atravessa a América, do Arizona até à Califórnia, para que a pequena Olive Hoover possa apresentar-se a concurso nesse inimaginável “Little Miss Sunshine”, uma coisa monstruosa que nem devia ser permitida, que o filme destrói por completo, com a ajuda dessa interpretação exótica de Olive Hoover.
Mas os momentos de um delicioso humor sucedem-se nessa trepidante viagem que, por vezes, terá de ser “arrancada” com o esforço de todos a empurrarem a carripana que, aqui e ali, empena, e obriga os ocupantes a saltarem para o seu interior quando já em andamento. Andamento é o que não se perde neste filme com excelente ritmo, que vai buscar obviamente alguma influência a Frank Capra, sobretudo na pertinente crítica social a um certo “americain way of life” e á sua desmedida competitividade, mas também a Ernest Lubitsch, Preston Sturges, George Cukor, Howard Hawks e outros cineastas da melhor época do cinema norte-americano, que celebraram uma comédia de costumes elegante e sofisticada e ainda assim contundente..



UMA FAMÍLIA À BEIRA DE UM ATAQUE DE NERVOS
Título original: Little Miss Sunshine
Realização: Jonathan Dayton, Valerie Faris (EUA, 2006); Argumento: Michael Arndt; Produção: Albert Berger, Michael Beugg, Jeb Brody, David T. Friendly, Bart Lipton, Peter Saraf, Marc Turtletaub, Ron Yerxa; Música: Mychael Danna, DeVotchKa; Fotografia (cor): Tim Suhrstedt; Montagem: Pamela Martin; Casting: Justine Baddeley, Kim Davis-Wagner; Design de produção: Kalina Ivanov; Direcção artística: Alan E. Muraoka; Decoração: Melissa M. Levander; Guarda-roupa: Nancy Steiner; Maquilhagem: Susan Carol Schwary, Janis Clark, Dugg Kirkpatrick, Amy Lederman, Angel Radefeld, Torsten Witte; Direcção de Produção: Michael Bergyl, Bob Dohrmann, Michael Toji; Assistentes de realização: Thomas Patrick Smith, Heather Anderson, Kate Greenberg, Joe May, Gregory J. Smith, Thomas Robinson Harper, Bart Lipton; Departamento de arte: Tony Bonaventura, Theresa Greene, Michael Klingerman; Som: Andrew DeCristofaro, Craig Dollinger, Stephen P. Robinson; Efeitos especiais: Ian Eyre; Efeitos visuais: Adam Avitabile, Joshua D. Comen, Jenny Foster; Companhias de produção: Fox Searchlight Pictures, Big Beach Films, Bona Fide Productions, Deep River Productions, Third Gear Productions; Intérpretes: Abigail Breslin (Olive Hoover), Greg Kinnear (Richard Hoover), Paul Dano (Dwayne), Alan Arkin (avô Edwin Hoover), Toni Collette (Sheryl Hoover), Steve Carell (Frank Ginsberg), Marc Turtletaub (médico), Jill Talley (Cindy), Brenda Canela, Julio Oscar Mechoso, Chuck Loring, Justin Shilton, Gordon Thomson, Steven Christopher Parker, Bryan Cranston, John Walcutt, Paula Newsome, Dean Norris, Beth Grant, Wallace Langham, Lauren Shiohama, Mary Lynn .Rajskub, Jerry Giles, Geoff Meed, Matt Winston, Joan Scheckel, Casandra Ashe, Mel Rodriguez, Alexandria Alaman, etc. Duração: 101 minutos; Distribuição em Portugal: Twenty Century Fox Home Entertainment; Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 12 de Outubro de 2006.


segunda-feira, 14 de novembro de 2016

SESSÃO 55 - 15 DE NOVEMBRO DE 2016



UM AMOR INEVITÁVEL (1989)


Num grupo de amigos, alguém terá dito: “há 1500 comédias românticas e depois há “When Harry Met Sally...”, um pouco como quem diz “há 1500 filmes de guerra românticos e depois há “Casablanca”, o que não deixa de ser curioso, pois “Casablanca” é muito citado em “When Harry Met Sally...”. Claro que há algo de muito subjectivo nesta apreciação. O mesmo se poderia dizer de algumas outras comédias românticas, como por exemplo “há 1500 comédias românticas e depois há “Breakfast at Tiffany's”, mas a frase não deixa de referir um facto curioso em relação a esta obra de Rob Reiner, segundo argumento de Nora Ephron, aqui realizador e argumentista são dois elementos que terão de ser devidamente valorizados. Ao sublinhar deste modo a importância deste filme que fica na recordação de todos quanto o viram, e que justifica sucessivas revisões, proporcionando o mesmo prazer de sempre, o que se está a confirmar é o momento de eleição que este título representa no interior do género das comédias românticas. Que outra coisa é “When Harry Met Sally...” senão mais uma variação ou derivação do tema “boy meet girl”, apaixonam-se e afirmam viver “felizes para sempre?”. Bom, não é assim tão simples. Realmente Harry Burns (Billy Crystal) pede boleia a Sally Albright (Meg Ryan) para irem juntos para Nva Iorque, ma daí não resulta nenhum “coup de foudre”, nenhuma paixão repentina. Muito pelo contrário, pelo caminho ele alicia-a para passarem a noite num motel, e ela acho-o atrevido em demasia. Poderão ser amigos. Ele acha que não. “A amizade entre homens e mulheres não pode existir. A atração sexual impede-o”, esta é a sua teoria. Dir-se-ia que estamos na presença de um conjunto de lugares comuns ligados à vida do casal. Mas os lugares se são comuns é porque existem para muita gente. Que mal terá abordar os lugares comuns? Nenhum se na forem tratados de forma demasiado primária. “Um Amor Inevitável” tem essa característica invulgar: analisa as questões com sensibilidade, humor, delicadeza, sem, todavia, entrar na pieguice, no rodriguinho. O tom é o certo.
Alias o filme inicia-se e desenvolve-se com um verdadeiro achado narrativo. Alguns casais idosos, em tom documental, apresentam-se frente ao ecrã, informando da forma como se conheceram e o seu amor se manteve ao longo dos anos. São figuras que nada têm a ver com a história central, a não ser… quanto ao amor.


Portanto a relação entre Harry Burns e Sally Albright vai conhecendo avanços e recuos, encontros e desencontros, a vida vai-se desenvolvendo noutros aspectos, novos parceiros se conhecem e se desconhecem, o cabelo de Meg Ryan vai conhecendo diferentes etapas, mostrando como os anos a vão transformando, há quem case e se divorcie, e se lamente num estádio repleto, e acompanhe a onda mexicana se
m nenhum interesse especial, apenas como um reflexo condicionado, há quem insista que as mulheres fingem orgasmos com enorme facilidade e o exemplifique à mesa de um restaurante bem lotado de espectadores-auditores  (há mesmo uma senhora de certa idade, numa mesa ao lado, que pergunta ao empregado do restaurante: “O que é que aquela rapariga comeu? Quero o mesmo!”.
Há filmes que têm tudo para dar certo e não dão. Outros acertam na mouche à primeira. “Um Amor Inevitável” é um desses. Um casal simpático, Nova Iorque, um final em grande que vai do Natal ao Ano Novo, diálogos muito bons, inscritos num argumento inteligente e adulto, tratando de uma questão que diz respeito a toda a gente, o amor e as suas derivações, situações muito bem exploradas e desenvolvidas, cenários magníficos, excelentemente selecccionados, uma banda sonora a preceito (com temas magníficos como “Our Love Is Here To Stay”, “Don’t Get Around Much Anymore” e “But Not For Me”, todos interpretadas por Harry Connick Jr., e clássicos como “Let’s Call The Whole Thing Off” - Louis Armstrong e Ella Fitzgerald -, “Have Yourself A Merry Little Christmas” - Bing Crosby - ou “It Had To Be You” - Frank Sinatra), uma direcção de actores discreta e impecável de sobriedade e rigor, com um casal que parece que foi feito um para o outro (sem que o saibam de início, mas a maturidade se encarregará de o confirmar), e tudo o que se possa dizer mais.  
O amor é uma conquista, um combate. Uma conquista e um combate a dois. Inevitável.


UM AMOR INEVITÁVEL
Título original: When Harry Met Sally...

Realização: Rob Reiner (EUA, 1989); Argumento: Nora Ephron; Produção: Nora Ephron, Steve Nicolaides, Rob Reiner, Andrew Scheinman, Jeffrey Stott; Música: Harry Connick Jr., Marc Shaiman, Scott Stambler; Fotografia (cor): Barry Sonnenfeld; Montagem: Robert Leighton; Casting: Janet Hirshenson, Jane Jenkins; Design de produção: Jane Musky; Decoração: George R. Nelson, Sabrina Wright; Guarda-roupa: Gloria Gresham; Maquilhagem: Stephen Abrums, Joseph A. Campayno, Ken Chase, William A. Farley, Barbara Lorenz, Peter Montagna; Direcção de Produção: Mark A. Baker, Steve Nicolaides; Assistentes de realização: Aaron Barsky, Forrest L. Futrell, Lucille OuYang, Michael Waxman; Departamento de arte: Harold Thrasher, Frank Viviano; Som: George Baetz, Charles L. Campbell, Paul Timothy Carden, Larry Carow, Louis L. Edemann, Richard C. Franklin, John Fundus, Chuck Neely, Larry Singer; Companhias de produção: Castle Rock Entertainment, Nelson Entertainment; Intérpretes: Billy Crystal (Harry Burns), Meg Ryan (Sally Albright), Carrie Fisher (Marie), Bruno Kirby (Jess), Steven Ford (Joe), Lisa Jane Persky (Alice), Michelle Nicastro (Amanda), Gretchen Palmer, Robert Alan Beuth, David Burdick, Joe Viviani, Harley Jane Kozak, Joseph Hunt, Kevin Rooney, Franc Luz, Tracy Reiner, Kyle T. Heffner, Kimberley LaMarque, Stacey Katzin, Estelle Reiner, John Arceri, Peter Day, Kuno Sponholz, Connie Sawyer, Charles Dugan, Katherine Squire, Al Christy, Frances Chaney, Bernie Hern, Rose Wright, Aldo Rossi, Dona Hardy, Peter Pan, Jane Chung, Bob Ader, David Giardina, Nicholas Glaeser, Randy James, Johnny Raimondo, Marilyn Spanier, Billy Marshall Thompson, etc. Duração: 96 minutos; Distribuição em Portugal: LNK; Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 30 de Março de 1990.

domingo, 6 de novembro de 2016

SESSÃO 54 - 8 DE NOVEMBRO DE 2016


A REPÚBLICA DOS CUCOS (1978)

A “National Lampoon” foi uma revista satírica, com desenhos, fotografias, cartoons, banda desenhada e textos, que se colocava numa área muito próxima da popular “Mad”. Foi criada por um grupo de universitários da “Harvard University”, em 1969, tendo saído o primeiro número em Abril de 1970. Os fundadores foram Doug Kenney, Henry Beard e Robert Hoffman. Terminou a sua publicação em Novembro de 1998, depois de publicar 249 edições. Foi uma espécie de versão contracultura, não diremos underground, da “Harvard Lampoon”. O seu sucesso tanto de crítica como de público foi de tal forma notório durante a década de 70 que o grupo expandiu a sua actividade para os mais diversos campos, tendo uma efectiva influência no campo de humor e da comédia na sociedade norte-americana. O que se reflectiu igualmente na sua acção junto dos poderes estabelecidos sociedade, do comportamento social e mesmo na esfera política. Rapidamente o “Nacional Lampoon” se estendeu à radio, ao teatro, ao disco, aos livros e, obviamente, ao cinema e à televisão. O grupo foi incorporando muitas contribuições diversas que criaram um clã e um estilo próprio. O melhor período da revista foi o inicial, entre 1970 e 1975. Depois, durante a década de 80, o tom desagregou-se e a revista foi vendida e a marca “National Lampoon” foi utilizada indiscriminadamente, perdendo completamente a qualidade e a importância que tinham feito dela uma referência.
No cinema foram vários os títulos: “National Lampoon's Animal House” (1978), “National Lampoon's Class Reunion” (1982), “National Lampoon's Movie Madness” (1983), “National Lampoon's Vacation” (1983), “National Lampoon's Joy of Sex” (1984), “National Lampoon's European Vacation” (1985) e “National Lampoon's Christmas Vacation” (1989). A partir deste título, os seguintes pertencem já à editora “J2 Communications” que nada tem a ver com o espírito inicial e, de certa forma, descaracterizaram por completo as intenções dos criadores (1).

Realmente a primeira época do “National Lamppon” foi brilhante na forma como criticava inteligentemente a sociedade norte-americana, usando processos por vezes politicamente incorrectos. Um dos seus fundadores explicou da seguinte forma, tempos mais tarde, a conduta do grupo: “Há uma porta com um dístico, “Não passar”, nós passávamos”. Houve seguramente, aqui e ali, excessos, mas, de um modo geral, o tom surrealizante, o absurdo das situações, o humor inventivo, e a irreverência das propostas acabaram por vingar e tornar o grupo uma lenda. Uma lenda que, infelizmente, se transformou numa marca registada que qualquer um podia comprar, a partir de certa altura, para utilizar mediante uma importância estabelecida.
Em meados dos anos 70, o grupo começa a desmembrar-se. Responsáveis e colaboradores como P.J. O'Rourke, Gerry Sussman, Ellis Weiner, Tony Hendra, Ted Mann, Peter Kleinman, Chris Cleuss, Stu Kreisman, John Weidman, Jeff Greenfield, Bruce McCall, Rick Meyerowitz, Michael O'Donoghue, Anne Beatts e outros como John Hughes, John Belushi, Gilda Radner, Harold Ramis, Chris Miller  começaram a dispersar as suas colaborações por outros programas de televisão, “Saturday Night Live”, “The David Letterman Show”, “SCTV”, “The Simpsons”, “Married... with Children”, “Night Court”, "Not Ready for Primetime Players" ou por  filmes não directamente ligados ao National Lampoon, como “Caddyshack” ou “Ghostbusters”.
“National Lampoon's Animal House”, de 1978, é, pois, a primeira incursão no cinema do grupo e o filme que marcou uma época. De tal forma que, em 2001, a United States Library of Congress considerou o filme "culturally significant", e o incluiu na prestigiada lista do “National Film Registry” (obras que pelo seu significado cultural importa resguardar para o futuro).


“A República dos Cucos” é, na verdade, um filme de adolescentes, em particular de jovens universitários. Estamos nos anos 60, precisamente 1962, na Universidade Faber, numa dita fraternidade Delta (em Portugal, e em Coimbra, seria seguramente uma “República), onde vamos assistir a algumas peripécias durante um ano académico. Os caloiros andam “duplamente vigiados” (algo muito parecido com as muito portuguesas praxes, talvez menos humilhantes e, sobretudo, menos violentas), e o momento de êxtase colectivo é a “Festa da Toga”, onde os excessos ultrapassam as marcas.
O que tem este filme que muitos outros títulos ditos de adolescentes não ostentam? Porque será este um filme “culturalmente significante” e “Porky’s” ou “American Pie” não o são? A verdade é que o humor pode parecer assemelhar-se, mas é radicalmente diferente. “National Lampoon's Animal House” é um filme contra um determinado estado de coisas muitas das quais até se julgaria fazerem parte harmoniosa do contexto do filme. Mas o machismo exacerbado, um certo resquício de racismo, as orgias, com sexo e drogas à mistura, alguma misoginia, o enfrentar da autoridade, a ruptura com algumas tradições, tudo isto pode ser visto por um lado como gags, mas por outro como crítica certeira a um comportamento inquinado. Todo o humor tem um sentido, aponta a uma crítica e não explora apenas os instintos mais baixos e primitivos das plateias, como acontece em muitos outros exemplos.
Depois, há um magnifico grupo de actores, muitos dos quais se tonaram vedetas de primeiro plano (casos óbvios de Tom Hulce, John Belushi, Kevin Bacon, Karen Allen, entre outros). Também o realizador, John Landis, se tornou posteriormente um nome de referência no campo da comédia, com obras como “O Dueto da Corda” (1980), “Um Lobisomem Americano em Londres” (1981), “Os Ricos e os Pobres” (1983), “Pela Noite Dentro” (1985), “Espiões Como Nós” (1985), “Três Amigos” (1986) ou “Um Príncipe em Nova Iorque” (1988).



(1)   Eis a listagem dos restantes títulos com a chancela “National Lampoon”: National Lampoon's Loaded Weapon 1 (1993), National Lampoon's Senior Trip (1995), Vegas Vacation (1997), National Lampoon's Golf Punks (1998), National Lampoon's Van Wilder (2002), Repli-Kate (2002), Blackball (2003), National Lampoon Presents: Jake's Booty Call (2003), National Lampoon, Inc., National Lampoon's Gold Diggers (2003), National Lampoon Presents Dorm Daze (2003), National Lampoon's Barely Legal (2003), Going the Distance (2004), The Almost Guys (2004), National Lampoon's Adam & Eve (2005), National Lampoon Presents: Cattle Call (2006), Electric Apricot: Quest for Festeroo (2006), National Lampoon's Pucked (2006), National Lampoon's Van Wilder: The Rise of Taj (2006), The Beach Party at the Threshold of Hell (2006), National Lampoon's Stoned Age (2007), National Lampoon's Totally Baked: A Potumentary (2007), National Lampoon's Bag Boy (2007), National Lampoon Presents: One, Two, Many (2008), National Lampoon Presents: RoboDoc (2009), Transylmania (2009), National Lampoon Presents: Endless Bummer (2009),Cheerleaders Must Die! (2010), National Lampoon's Dirty Movie (2010), Ratko: The Dictator's Son (2010), Frat Chance (2011), The Legend of Awesomest Maximus (2011), National Lampoon's Snatched (2011), National Lampoon Presents Surf Party (2013), e Drunk Stoned Brilliant Dead: The Story of the National Lampoon (2015),tudo isto pondo de parte um considerável número de telefimes e séries de tv que foram sendo produzidos ao longo dos tempos. Recordando os produtores: National Lampoon magazine (1970–1998) J2 Communications (1991–2002) e National Lampoon, Incorporated (2002–até ao presente).


A REPÚBLICA DOS CUCOS
Título original: Animal House

Realização: John Landis (EUA, 1978); Argumento: Harold Ramis, Douglas Kenney, Chris Miller; Produção: Ivan Reitman, Matty Simmons; Música: Elmer Bernstein; Fotografia (cor): Charles Correll; Montagem : George Folsey Jr.; Casting: Michael Chinich, Don Phillips; Direcção artística: John J. Lloyd; Decoração: Hal Gausman; Guarda-roupa: Deborah Nadoolman; Maquilhagem: Lynne Brooks, Marilyn Patricia Phillips, Gerald Soucie, Joy Zapata; Direcção de Produção: Peter Macgregor-Scott; Assistentes de realização: Clifford C. Coleman, Gary McLarty, Ed Milkovich; Departamento de arte: Michael Milgrom; Som: William B. Kaplan; Efeitos especiais: Henry Millar; Companhias de produção: Universal Pictures, Oregon Film Factory, Stage III Productions; Intérpretes: Tom Hulce (Larry Kroger), Stephen Furst (Kent Dorfman), Mark Metcalf (Doug Neidermeyer), Mary Louise Weller (Mandy Pepperidge), Martha Smith (Babs Jansen), James Daughton (Greg Marmalard), Kevin Bacon (Chip Diller), John Belushi (John Blutarsky), Karen Allen (Katy), Donald Sutherland (Dave Jennings), James Widdoes (Robert Hoover), Tim Matheson (Eric Stratton), Peter Riegert (Donald Schoenstein), Bruce McGill (Daniel Simpson Day), Cesare Danova (Mayor Carmine DePasto), Joshua Daniel, Douglas Kenney, Chris Miller, Bruce Bonnheim, John Vernon, Sunny Johnson, Verna Bloom, Sarah Holcomb, Stacy Grooman, Stephen Bishop, Otis Day, Eliza Roberts, Lisa Baur, Aseneth Jurgenson, Katherine Denning, Raymone Robinson, Robert Elliott, Reginald Farmer, Jebidiah R. Dumas, Priscilla Lauris, Rick Eby, John Freeman, Sean McCartin, Helen Vick, Rick Greenough, etc. Duração: 109 minutos; Distribuição em Portugal: Universal; Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 24 de Outubro de 1980.

domingo, 30 de outubro de 2016

SESSÃO 53 - 1 DE NOVEMBRO DE 2016


O CLUBE (1985)

Os filmes de adolescentes, quer sejam em tom de paródia, quer em drama, ou mesmo nos terrenos do terror, são cada vez em maior número, tanto mais que cada vez mais são os adolescentes a assegurar as receitas nas salas de cinema. É verdade que os títulos que lhes prendem mais facilmente a atenção são os blockbusters em alta velocidade ou com heróis da Marvel, ou equivalentes, o que tem afastado compreensivelmente o público mais exigente das salas e a reservar a estas audiências de maior idade e rigor as salas de estar, frente aos écrans de televisão, onde se sucedem séries e teledramáticos muito mais interessantes.
É sobretudo desde os anos 70 que as comédias sobre teenagers e estudantes em férias ou algo parecido têm invariavelmente descaído de qualidade e de interesse na discussão dos problemas dessa faixa etária. Filmes como “Gelado de Limão”, “Porky’s”, “American Pie”, e sucedâneos levaram seguramente a que em 2001 surgisse um título curioso, mas que não infletia as propostas: “Oh, não, Outro Filme de Adolescentes” (Not Another Teen Movie). E nem obras com alguma originalidade, como “Doidos por Mary” (There is Something About Mary, 1998) conseguiam furtar-se a cenas de um evidente mau gosto, de uma escatologia vergonhosa ou de um voyeurismo sexual desajustado. Tudo vale para vender gato por lebre a essas plateias deseducadas, estética e culturalmente. O que interessa é facturar nas bilheiteiras, sem olhar a meios. O resultado deste fenómeno que se estende do cinema à televisão (e que que maneiras!) e às redes sociais está à vista de todos. Os jovens estão a ser sacrificados no altar do lucro fácil, sem que ninguém faça nada por o impedir.
Claro que há excepções e é isso mesmo que aqui nos traz. Por exemplo “Conta Comigo” (Stand by Me), de Rob Reiner (1986) é um excelente exemplo de filme de adolescentes, como também o é “Verão de 42” (Summer of ‘42), de Robert Mulligan (1971). Ou quase toda a filmografia de John Hughes que, desde finais da década de 70 até 2009 (ano da sua morte precoce), nos deu argumentos e realizações quase sempre empenhadas numa aproximação séria e apaixonada do mundo da adolescência, dos seus problemas e ambições, das frustrações e angústias, das alegrias e promessas.
“O Clube”, de 1985, é talvez o melhor exemplo (como escritor e realizador), mas toda a sua filmografia merece destaque pela seriedade como constroi a comédia. A sua série de comédias sobre adolescentes inicia-se em 1984, com “16 Primaveras” (Sixteen Candles), a que se seguem “O Clube” (The Breakfast Club), e ainda “Que Loucura de Mulher” (Weird Science, 1985) e “O Rei dos Gazeteiros” (Ferris Bueller's Day Off. 1986). Depois a sua carreira continua com comédias de um outro tipo, mas sempre com méritos acima da média: “Antes Só que Mal Acompanhado” (Planes, Trains and Automobiles. 1987), “A Vida não Pode Esperar” (She's Having a Baby, 1987), “O Meu Tio Solteiro” (Uncle Buck. 1988) e “A Pequena Endiabrada” (Curly Sue,1991). Falamos da carreira de Hughes como realizador mas, enquanto argumentista (assinou todos os argumentos das obras que dirigiu), escreveu muitas histórias para outros autores, nomeadamente “Sozinho em Casa”.


“O Clube” é um filme que trata os adolescentes de forma adulta, sem se referir a eles como idiotas apenas preocupados com sexo e drogas, violência e rebeldia. Estes adolescentes não são os grosseirões e mentecaptos do costume. Curiosamente todos estes temas estão presentes neste título, mas não da forma especulativa que a grande maioria dos filmes sobre o mesmo assunto o fazem. Aqui os temas são tratados com dignidade e complexidade, sem que, apesar disso, deixe de existir um tom de comédia, ainda que seja de admitir que se trata mais do tom de uma comédia dramática.
Cinco adolescentes são reunidos numa escola durante um fim-de-semana. Por uma razão ou por outra “portaram-se mal” durante a semana anterior e a escola, o equivalente a uma escola de ensino segundário em Portugal, reune-os para os obrigar a reflectir sobre o seu comportamento. Os pais vão conduzi-los à escola na manhã de sábado e irão recolhê-los no final do tempo de reclusão. Nesse intervalo, eles vão ser conduzidos a uma sala de aulas, onde ficarão sob vigilância de um professor, mas entregues a si próprios. Obviamente que de início de revoltam, cada um traz os estigmas da sua educação, a relação com os pais está longe de ser a melhor, mostram-se de início resistentes e hostis, lentamente vão amolecendo, falando, abrindo-se uns aos outros até atingirem um outro grau de sociabilidade. Problemas resolvidos? Nada disso. Apenas enfrentadas algumas situações e entrevsitas algumas soluções.
O filme vive de um argumento inteligente e sensível, impõe personagens verídicas na sua humanidade, afastando-se das caricaturas tradicionais e dos estereótipos abusivos, nas suas angústias e esperanças (que são poucas, diga-se) e apresenta uma galeria de tipos dificilmente esquecíveis, tal a força da sua presença, o que muito se deve ao grupo de actores reunido. Todos eles se tornaram profissionais, uns com maior destaque do que outros, mas cremos que “O Clube” continuará a ser para quase todos o momento supremo das suas carreiras. Um belo filme, uma comédia discreta e intimista que merece ser recordada e que perdura na memória de quem a viu.


O CLUBE
Título original: The Breakfast Club

Realização: John Hughes (EUA, 1985), Argumento: John Hughes; Produção: Gil Friesen, John Hughes, Michelle Manning, Andrew Meyer, Ned Tanen; Música: Keith Forsey; Fotografia (cor): Thomas Del Ruth; Montagem: Dede Allen; Casting. Jackie Burch; Design de produção: John W. Corso; Decoração: Jennifer Polito; Guarda-roupa: Marilyn Vance; maquilhagem: Ron Walters, Linle White; Direcção de Produção: John C. Chulay, Adam Fields, Richard Hashimoto; Assistentes de realização: Robert P. Cohen, James Giovannetti Jr.; Departamento de arte: Jack M. Marino, Paul Stanwyck, Ted Wilson;  Som: James R. Alexander, Charles L. Campbell, Larry Carow, Richard C. Franklin, Robert L. Hoyt, Nicholas Vincent Korda, Daniel J. Leahy, Jerry Stanford, John J. Stephens;  Efeitos especiais: William H. Schirmer; Companhias de produção: A&M Films, Channel Productions, Universal Pictures; Intérpretes: Emilio Estevez (Andrew Clark), Paul Gleason (Richard Vernon), Anthony Michael Hall (Brian Johnson), John Kapelos (Carl), Judd Nelson (John Bender), Molly Ringwald (Claire Standish), Ally Sheedy (Allison Reynolds), Perry Crawford (pai de Allison), Mary Christian (irmã de Brian), Ron Dean (pai de Andy), Tim Gamble (pai de Claire), Fran Gargano(mae de Allison, Mercedes Hall (mae de Brian), John Hughes (pai de Brian), etc. Duração: 97 minutos; Distribuição em Portugal: Universal; Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 5 de Setembro de 1985.

domingo, 23 de outubro de 2016

SESSÃO 52 -25 DE OUTUBRO DE 2016



O HOMEM DAS CALÇAS PARDAS (1950)

“Ruggles of Red Gap”, como já se falou aquando da nossa conversa sobre a versão de 1935, dirigida por Leo McCarey com o fabuloso Charles Laughton, parte de um romance de Harry Leon Wilson, que conheceu grande sucesso por ocasião do seu lançamento, em 1915. No mesmo ano, subiu a cena numa adaptação teatral, em musical, com escrita da responsabilidade de Harrison Rhoades, poemas de Harold Atteridge e música de Sigmund Romberg. Estreada no Fulton Theater, precisamente no dia 25 de Dezembro, data festiva que se conciliava bem com o tom geral da obra. Conheceu 33 representações. Digamos que cumpriu a época de Natal e Ano Novo.
Também em cinema surgiram versões anteriores a essa, assinada por Leo McCarey, e uma posterior, ainda de boa qualidade, interpretada pelo popular Bob Hope, rodada em 1950, com o título “O Homem das Calças Pardas” (Fancy Pants), com direcção de George Marshall, contando igualmente no elenco com Lucille Ball e Bruce Cabot.
A versão de Bob Hope é muito diferente da de Charles Laughton. São actores de escolas diferentes, com características muito diversas. Bob Hope era um actor que se especializara num tipo de humor que tinha muito a ver com o entertainer. Muita da sua actividade passou-se entre shows de teatro, hotéis, rádio, televisão, vaudeville e obviamente no cinema. Foi o apresentador de maior longevidade a apresentar a cerimónia dos Oscars (creio que durante dezoito edições, o que é obra!).   
Leslie Townes Hope nasceu em Eltham, Reino Unido, a 29 de Maio de 1903, e viria a falecer, com 100 anos de idade, em Toluca Lake, Califórnia, a 27 de Julho de 2003. Filho de um canteiro de Weston-super-Mare e de uma cantora de opereta, Bob Hope tinha seis irmãos, viveu em Weston-super-Mare, em Whitehall e em St. George em Bristol, antes de a família se mudar para Cleveland, no Ohio, EUA, em 1907. Hope assumiu a cidadania norte-americana quando completou 17 anos. Foi boxeur, imagine-se!, com o nome de Packy Easte e parece que não teve grande sucesso. Participou em concursos a imitar Charles Chaplin, sendo notado por um comediante da época, Fatty Arbuckle, que o empregou a partir de 1925. Forma depois um grupo a que chamou "The Dancemedians", juntamente com as irmãs Hilton. Trabalha alguns anos no vaudeville e regressa a Nova Iorque e à Broadway, em musicais onde a crítica destaca o seu trabalho. Em meados da década de 30, vamos encontrá-lo em Hollywood, ingressa na Warner Brothers, primeiro em pequenos papéis, depois ganhando cada vez maior destaque.


Em 1938, em "The Big Broadcast of 1938", aparece a cantar "Thanks for the Memory", que se transforma num hit e que se torna um símbolo para Bob Hope. O actor e cantor assemelha-se progressivamente a uma lenda viva da América, incorporando alguns dos seus valores. Filmes como “Road to Singapore”, “Road to Zanzibar”, “Nothing But the Truth”, “My Favorite Blonde”, Road to Morocco”, “Star spangled rhythm”, “The Princess and the Pirate”, “Road to Utopia”, “My Favorite Brunette”, “Variety Girl”, “Road to Rio”, “The Paleface” ou “The Great Lover” ocuparam os anos 40, transformando-o num herói nacional que frequentou a Casa Branca durante a presidência de vários ocupantes (especialmente republicanos).
A sua popularidade prosseguiu até aos anos 70, com outras comédias de sucesso: “Fancy Pants”, “My Favorite Spy”,  “The Greatest Show on Earth”, “Son of Paleface”, “Road to Bali”, “Scared Stiff”, “Casanova's Big Night”, “Beau James”, “The Five Pennies”, “Bachelor in Paradise” ou “The Road to Hong Kong”. A série “Road to…” foi das mais célebres do cinema norte-americano por essas décadas. Trabalhou muito com Bing Crosby, e actrizes como Dorothy Lamour, Lucille Ball, Jane Russell, Joan Collins ou Katharine Hepburn. Depois, foi a televisão que o ocupou durante décadas. “Porque não abandonou o trabalhou e se dedicou à pesca?”, perguntaram-lhe um dia, quando ele já merecia uma reforma dourada. Ele respondeu “Porque os peixes não costumam rir”.


Nunca ganhou um Oscar relativo a um filme (o que justificou várias piadas suas durante as cerimónias de entrega das estatuetas), mas a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood honrou-o com diversos prémios, desde 1941 até 1966. A sua contribuição para o esforço da guerra, durante o período de 1941-1954, levou-o a vários espectáculos de apoio aos militares na frente do conflito.
“Fancy Pants” é um dos títulos representativos do seu período áureo no cinema. Na versão da peça e no filme de Norma McLeod, o mordomo era um lídimo mordomo inglês que era enviado a contragosto para o Oeste norte-americano. Na versão de Bob Hope o mordomo é um actor que interpreta o papel de mordomo numa peça e que é convencido a ir para o Oeste desempenhar o mesmo papel mas não no teatro, na vida real. Obviamente que os equívocos e as trapalhadas não se fazem esperar, mas, como quase sempre nestes casos, o aldrabão do comediante é um aprendiz ao lado de outros vigaristas que ele acabará por ajudar a destapar a careca. O filme foi concebido à medida do talento e das qualidades de Bob Hope, desenrola uma sucessão curiosa de sequências bem imaginadas que desencadeiam vagas de um humor inventivo e bem coordenado. Há algumas cenas de perseguições, nomeadamente numa caçada, que resistem bem à passagem do tempo e mostram como se mantém actual este tipo de comédia de situações, com o seu quê de crítica social.


O HOMEM DAS CALÇAS PARDAS
Título original: Fancy Pants

Realização: George Marshall (EUA, 1950); Argumento: Edmund L. Hartmann, Robert O'Brien, com contributos de Richard L. Breen, Monte Brice, Frank Butler, Barney Dean, Irving Elinson, Richard English, Richard Flournoy, Segundo história de Harry Leon; Produção: Robert L. Welch; Música: Van Cleave; Fotografia (cor): Charles Lang; Montagem: Archie Marshek; Direcção artística: Hans Dreier, A. Earl Hedrick; Decoração: Sam Comer, Emile Kuri; Guarda-roupa: Mary Kay Dodson, Gile Steele;  Maquilhagem: Wally Westmore; Direcção de Produção: C. Kenneth Deland; Assistentes de realização: Oscar Rudolph, Herbert Coleman, Michael D. Moore, James A. Rosenberger; Departamento de arte: Robert Goodstein, Joe Portillo; Som: Don Johnson, Gene Merritt; Efeitos visuais: Farciot Edouart, Gordon Jennings; Companhias de produção: Production Companies, Paramount Pictures; Intérpretes: Bob Hope (Humphrey), Lucille Ball (Agatha Floud), Bruce Cabot (Cart Belknap), Jack Kirkwood (Mike Floud), Lea Penman (Effie Floud), Hugh French (George Van Basingwell), Eric Blore (Sir Wimbley), Joseph Vitale (Wampum), John Alexander (Teddy Roosevelt), Norma Varden (Lady Maude), Virginia Keiley, Colin Keith-Johnston, Joe Wong, etc. Duração: 92 minutos; Distribuição em Portugal: Feel Films Espanha; Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 15 de Junho de 1951.

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

SESSÃO 51 -18 DE OUTUBRO DE 2016


O BOLERO DE RAQUEL (1957)

Cantinflas é o mais popular actor cómico de todo o cinema latino-americano. Ignorado nalgumas partes do mundo, onde os seus filmes não penetraram (nomeadamente em certas zonas da Europa), é, todavia, célebre em países como Portugal e Espanha, cujos públicos se identificam muito com a personagem por si criada e o estilo de humor por si praticado.
Nascido na Cidade do México, a 12 de Agosto de 1913, com o nome de Mário Fortino Alfonso Moreno Reyes, Cantinflas era oriundo de uma família muito pobre. Tinha doze irmãos e o seu primeiro emprego foi como engraxador, seguindo-se aprendiz de toureiro, motorista de táxi e pugilista. A sua vida mudou quando, por volta dos vinte anos, quando trabalhava como empregado num teatro popular, teve a oportunidade de substituir o apresentador do espetáculo, que adoecera. Ao inventar frases, trocar palavras, improvisar a seu belo prazer, Cantinflas, conquistou o público. Passa pelo circo, faz tournées pelo México, exercita-se em espectáculos de cabaret e de teatro e depois, a partir de 1936, aventura-se no cinema, onde ergue uma figura inesquecível, que vai buscar influência a Charlot, mas dele se desprendendo rapidamente, optando por características próprias.
Em 1930, já era o cómico mais famoso do país. Em 1934, conhecera a actriz Valentina Subarev, com quem casou e teve o único filho, Mário Arturo Ivanova. Em 1936, com uma ampla bagagem acumulada no circo, estreou-se no filme “Não Te Enganes, Coração”, ao qual se seguiram “Na Minha Terra É Assim”, “Águila, o Sol” (1937) e “O Signo da Morte” (1939). A consagração como ídolo popular opera-se em 1940, com o filme “Aí Está o Detalhe”, em cuja última cena encerra um delirante discurso que ultrapassa as convenções sociais. O sucesso deste filme possibilitou-lhe fundar a companhia Posa Filmes que, com quase 50 filmes, bateu recordes de bilheteira nas três décadas que se seguiram.


O seu humor, essencialmente verbal, vive basicamente de trocadilhos e de uma divertida charge à linguagem "difícil" empregue pelos novos-ricos que se querem fazer passar por muito "cultos". São famosas algumas réplicas suas, como "Pode-se compenetrar?", "sem erros de topografia", "quero o banho frappé", "não abuse da minha candorosidade" e tantas outras, como aquela que o liga à sua muito invulgar indumentária, "mi gabardine". O seu discurso, desconexo, mas absolutamente torrencial, subvertendo a lógica e a sintaxe, deve algo a Groucho Marx, mas é igualmente desenvolvido por vias muito próprias, que roçam um outro discurso latino, o do napolitano Tótó.
Personagem de "descamisado" em busca de uma dignidade perdida, mas nunca negada, Cantinflas impôs um "boneco" que se recorta com nitidez no quadro dos grandes actores cómicos do cinema mundial, apesar de quase nunca ter sido servido por realizadores interessantes. Na verdade, a sua filmografia mexicana (muito mais interessante até inícios dos anos 60 do que posteriormente, onde se nota um certo anquilosamento da figura e uma evidente falta de frescura) encontra-se quase toda assinada por um anódino Miguel M. Delgado, que, na sua ausência de ambições, acabou por ajudar mais o actor do que os grandes estúdios norte-americanos que o tentaram aproveitar sem entender a personagem, em filmes como "A Volta ao Mundo em 80 Dias", de Michael Anderson (1957) ou "Pepe", de George Sidney (1960). Charlie Chaplin admirava-o enormemente e chegou a dizer que “Cantinflas foi o maior actor cómico de sempre”.
Conheceu sempre grande sucesso em Portugal, onde os seus filmes se mantinham meses em estreia. Visitou o nosso país para lançar um dos seus filmes, e conheceu uma recepção eufórica. Morreu de cancro de pulmão, na cidade do México, em 20 de Abril de 1993, com 81 anos. Dezenas de milhares de pessoas juntaram-se num dia de chuva para o seu funeral, que durou três dias. Era enorme a popularidade de Cantinflas, sobretudo nas classes populares.
Mais recentemente foi editado entre nós, em cassetes vídeo, depois em DVD, numa colecção, de venda directa, onde, até ao momento, se encontram disponíveis vários títulos, todos rodados no México, e todos dirigidos pelo seu realizador de serviço, Miguel M. Delgado: "Os Três Mosqueteiros (Los Tres Mosqueteros, 1942); "Cantinflas Bombeiro Atómico (El Bombero Atómico, 1950);"O Mata Sete" (El Sietemachos, 1950);"Cantinflas à la Minuta (El Señor Fotógrafo, 1952);"Cavalheiro Vagabundo" (Caballero a la Medida, 1953);"Vôo de Asas Cortadas" (A Volar Jovem, 1954); "O Bolero de Raquel" (El Bolero de Raquel, 1956); "Cantinflas, Faz Tudo" (El Extra, 1962); "Entrega Imediata - O Espia XU 777" (Entrega Enmediata, 1963); "Cantinflas, O Bom Pastor" (El Padrecito, 1964); "O Senhor Doutor" (El Señor Doctor, 1965); "As Minhas Pistolas" (Por Mis... Pistolas!, 1967); "D.Quixote sem Mancha" (Un Quijote sin Mancha, 1968); "O Catedrático" (El Profe, 1971); "Às Ordens de Vosselência" (Conserje para Todo, 1973); "O Ministro e Eu" (El Ministro Y Yo, 1975); "O Varredor" (El Barrendero, 1982).
“El bolero de Raquel”, datado de 1957, é um bom exemplo do seu humor e das suas preocupações sociais. Rodado em Acapulco, serve-se de algumas das experiências de vida do próprio Mario Moreno. Ele é engraxador e um dia, por morte de um amigo, descobre-se como encarregado de educação de um miúdo e como suporte de uma jovem mãe viúva. Para melhorar a sua qualidade de vida, vai frequentar uma escola onde uma bela professora lhe dá aulas e volta à cabeça. Procura outros empregos e vai passar por um night club onde acabará por dançar o “Bolero” que dá nome ao filme. Infelizmente, o seu tipo de dança não é o mais apetecível para os proprietários, que o despedem. A passagem pelos locais de veraneio de Acapulco também não é muito bem recompensada, mas finalmente a sorte parece sorrir a este pobre-diabo de coração de ouro.
“El bolero de Raquel” satiriza, como sempre nos filmes deste actor, a vida das classes altas, dos ricos e dos poderosos, pondo em destaque a dificuldade de existência de pobres e humildes. Cantinflas vinha de rodar o seu filme de estreia em Hollywood, “A Volta ao Mundo em 80 Dias”, e este seu regresso ao México foi saudado com um primeiro lugar no Box Office do seu país natal. Mas causou alguma decepção ao actor, pois os resultados não foram, apesar disso, os esperados.



O BOLERO DE RAQUEL
Título original: El bolero de Raquel

Realização: Miguel M. Delgado (México,1957); Argumento: Daniel Jiménez, Jaime Salvador, Miguel M. Delgado; Música: Raúl Lavista; Fotografia (cor): Gabriel Figueroa; Montagem: Jorge Busto; Design de produção: Gunther Gerszo; Maquilhagem: Armando Meyer; Direcção de Produção: Fidel Pizarro; Assistentes de realização: Mario Llorca; Som: José B. Carles, James L. Fields, Galdino R. Samperio; Companhias de produção: Posa Films; Intérpretes: Cantinflas (El Bolero), Manola Saavedra (Raquel), Flor Silvestre (Leonor), Paquito Fernández (Chavita), Daniel 'Chino' Herrera (Edelmiro), Mario Sevilla, Alberto Catalá, Roberto Meyer, Elaine Bruce, Leonor Gómez, Erika Carlsson, Roberto Corell, Pedro Elviro, Pablo Ferrel, Lidia Franco, Elodia Hernández, John Kelly, Carlos León, Dina de León, Salvador Lozano, Manuel Trejo Morales, Guillermo Álvarez Bianchi, etc. Duração: 101 minutos; Distribuição em Portugal: Columbia Pictures / Sony; Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 31 de Outubro de 1957.

domingo, 9 de outubro de 2016

SESSÃO 50 -11 DE OUTUBRO DE 2016


TODA NUDEZ SERÁ CASTIGADA (1973)

“Toda a Nudez Será Castigada” parte de uma excelente peça teatral de Nelson Rodrigues, inúmeras vezes encenada no Brasil e no estrangeiro, inclusive em Portugal. Quem a adapta ao cinema foi Arnaldo Jabor, um dos mais importantes nomes do chamado novo cinema brasileiro, companheiro de geração e de movimento de Glauder Rocha, Nelson Pereira dos Santos, Carlos Diegues, Ruy Guerra, Joaquim Pedro de Andrade, entre outros. Foi em meados dos anos 60 do século XX que este movimento emergiu com características muito próprias, de modernidade estilística, de crítica social, de engajamento politico, de radicalismo de propostas, algumas das quais profundamente enraizadas na cultura brasileira e no tropicalismo (donde a utilização deste termo para caracterizar algumas dessas obras iniciais desta corrente).
Arnaldo Jabor (nascido a 12 de Dezembro de 1940, no Rio de Janeiro) surgiu na longa-metragem, em 1967, com um documentário, “A Opinião Pública”, a que se seguiram “Pindorama” (1970), este “Toda a Nudez Será Castigada” (1973), “O Casamento” (1976), “Tudo Bem” (1978), “Eu te Amo” (1981), “Eu sei que Vou te Amar” (1986), e “A Suprema Felicidade” (2010), seu último trabalho no cinema até ao presente. Jabor dedica-se essencialmente à escrita, depois disso.
“Toda Nudez Será Castigada” é uma crónica familiar de maus costumes, mas onde estes maus costumes não são necessariamente os maus costumes que a sociedade normalizada costuma causticar. A crítica dirige-se fundamentalmente ao preconceito, ao puritanismo, à hipocrisia de certos princípios e valores de uma sociedade obviamente pervertida e enclausurada em dogmas e mais valias morais sem qualquer justificação.

Personagem da classe média brasileira, vivendo confortavelmente numa velha casa do Rio de Janeiro, Herculano (Paulo Porto) enviava e sente-se intimamente despedaçado e exteriormente amordaçado por uma família que não dá tréguas ao luto. As três tias e o filho impõem uma solidão total, uma clausura violenta, um silêncio austero, uma vida social inexistente. Com a morte da mulher, aquela família deixa de existir. Se as velhas tias se pautam por conceitos morais e religiosos obsoletos, será ainda um pouco compreensivo, pela tradição onde vivem. Para o filho do casal, esse luto que impõe regras desmedidas, só se compreende por um dramático desvio psicológico e uma morbidez patológica. Obviamente que as explicações não são apresentadas no filme como estritamente psicológicas, mas sim como consequência de uma educação e uma sociabilidade viciadas
Entretanto, um irmão de Herculano, Patrício (Paulo César Pereio), um malandro marginal desempregado que vive às custas de Herculano, resolve apresentar ao irmão uma bela e fogosa prostituta, Geni (Darlene Glória), que o faz regressar à vida e o enfeitiça com as suas ardentes sessões de amor e sexo. Herculano só sabe viver na dependência de uma mulher. Primeiro a legitima esposa que ele venera como “santa”, depois Geni, a prostituta que exige casamento para se continuar a entregar aos seus devaneios sexuais. Ambas o dominam e ele gosta de ser dominado. Como o seu filho Serginho (Paulo Sacks) gostará de ser dominado pelo ladrão boliviano (Orazir Pereira). Mas não antecipemos em demasia os acontecimentos desta delirante comédia de cunho social, onde perpassa uma certa ideia de libertação sexual.
A adaptação da peça ao cinema colocou alguns problemas geralmente bem resolvidos por Arnaldo Jabor que, como realizador, se mostra um inspirado autor de humor verrinoso, mas sempre comedido nos apontamentos, sem excessos escusados. O ambiente, social e urbano, é muito bem esboçado, os cenários são magníficos e ajudam de forma perfeita ao enquadramento das personagens, a fotografia explora muito bem este aspecto. Finalmente o elenco escolhido é de primeiríssima ordem. Paulo Porto e Darlene Glória, no par protagonista, oferecem uma lição de representar, com oscilações fulgurantes, cambiantes notáveis. Se o reprimido Herculano explode quando descobre as delicias do sexo selvagem, algo se muito semelhante ocorre com Geni que matiza o seu comportamento consoantes os interesses e a voz do seu coração, até ao desfecho final. Paulo César Pereio ´é brilhante como o malandro carioca, mas a representação é globalmente muito boa, característica igualmente de quase todos os filmes dirigidos por Arnaldo Jabor.


TODA NUDEZ SERÁ CASTIGADA
Título original: Toda Nudez Será Castigada

Realização: Arnaldo Jabor (Brasil, 1973); Argumento: Arnaldo Jabor, segundo peça teatral de Nelson Rodrigues; Produção: Roberto Farias, Nélio Freire, Arnaldo Jabor, Paulo Porto, Paulo Porto; Música: Astor Piazzolla; Fotografia (cor): Lauro Escorel; Montagem: Rafael Justo Valverde; Decoração: Régis Monteiro; Guarda-roupa: Régis Monteiro; Maquilhagem: Ronaldo Abreu; Direcção de Produção: Saul Lachtermacher, Abigail Pereira Nunes; Assistentes de realização: Emiliano Ribeiro; Som: Geraldo José,Alberto Vianna; Companhias de produção: Ipanema Filmes, Produções Cinematográficas R.F. Farias Ltda, Ventania Filmes; Intérpretes: Paulo Porto (Herculano), Darlene Glória (Gen), Elza Gomes (Tia), Paulo César Peréio (Patrício), Isabel Ribeiro (Tia mais jovem), Henriqueta Brieba (Tia), Sérgio Mamberti (gay), Orazir Pereira (Ladrão boliviano), Abel Pera (velho poeta, cliente), Paulo Sacks (Serginho), Hugo Carvana (Comissário), Waldir Onofre, Teresa Mitota, Orlando Bonfim, Saul Lachtermacher, etc. Duração: 102 minutos; Distribuição em Portugal: Versátil (Brasil) (DVD); Classificação etária: M/ 12 anos.