domingo, 18 de dezembro de 2016

SESSÃO 60 - 20 DE DEZEMBRO DE 2016


NATAL BRANCO (1954)

São muitos os chamados “filmes de Natal”, mas este é, seguramente, um dos mais conhecidos e celebrados. Mas, aparentemente nada faria prever o prolongado sucesso de “White Christmas”, dado que o filme nunca parece ultrapassar o nível de uma xaroposa história melodramática, com uns pozinhos de patriotice barata, umas quantas canções e números musicais e um “happy end” que nunca esteve em causa desde início, dada a previsibilidade das peripécias. Acontece que é tudo assim, tal como fica descrito, mas também não é bem assim. Não se trata de umas canções quaisquer, mas de obras com a assinatura de alguns mestres neste campo, nomeadamente Irving Berlin, de quem se ouve um tema que é dos mais populares de toda a história da música norte-americana, precisamente “White Christmas” que dá o título ao filme, e que desde 1942 se impunha como uma das canções anualmente mais tocadas em todo o mundo. Pode mesmo considerar-se “White Christmas” a canção de Natal por excelência.
A banda sonora é, portanto, magnífica, o que por si só constitui um trunfo. Enorme. Depois, há que acrescentar o elenco. Bing Crosby foi o cantor que contabilizou até hoje mais “royalties” interpretando “White Christmas” (cerca de 50% do total facturado pela canção), identificando-se por completo com este tema, e a seu lado surge um outro actor que nos anos 50 era uma vedeta em pleno, Danny Kaye.
Deve dizer-se, aliás, que Danny Kaye não foi a primeira escolha para este filme, Fred Astaire era o escolhido desde início, mas por impossibilidade não pode aceitar o convite que seria ainda endereçado a Donald O’Connor antes de chegar a vez de Danny Kaye. O’Conner também se viu forçado a recusar o contrato, por razões de saúde (nessa altura problemas com a coluna, não lhe permitam dançar, o que o filme exigia). Quando chega a vez de Danny Kaye este não hesita, mas coloca condições draconianas: exige desde logo 10% sobre os lucros da obra, mas igualmente a necessidade de colocar dois novos argumentistas ao lado de Norman Krasna, precisamente os homens de sua confiança, Norman Panamá e Melvin Frank.


A razão era fácil de perceber. Os filmes onde Danny Kaye aparecia eram imaginados e escritos em função do actor e das suas características fantasistas. “White Christmas” não era um filme com a marca Danny Kaye e era necessário adaptá-lo ao actor, ainda que no final este actor fique sempre secundarizado pela própria história. O facto dele ser um soldado raso ao lado de um Bing Crosby capitão deve ter ajudado. A acompanhar estas duas vedetas masculinas, dois nomes femininos sonantes na época, ainda que por razões diversas: Vera-Ellen era uma das maiores bailarinas daquela época e Rosemary Clooney uma das vozes mais apreciadas na década de 50 (o filme é de 1954). O ramalhete estava composto, com um pouco de tudo, para todos os gostos.
O argumento também fora criteriosamente estudado para ser bem recebido pelo público a que se dirigia. Estamos em meados da década de 50, os Estados Unidos tinham saído da II Guerra Mundial há um década, durante a qual os veteranos do conflito tinham adquirido ressonância épica e é sobre um desses homens que o filme fala. Durante os anos do conflito na Europa, os americanos tinham-se distinguido, sobretudo depois do desembarque na Normandia.
Algures numa dessas “frentes”, o general Thomas F. Waverly (Dean Jagger) comanda um destacamento de que fazem parte o capitão Bob Wallace (Bing Crosby), e o soldado Phil Davis (Danny Kaye). Numa noite de Natal, antes de iniciarem mais uma ofensiva, comemoram a efeméride debaixo de uma chuva de bombas inimigas. Anos depois, e conquistada a paz, Bob Wallace, que é um célebre cançonetista, e Phil Davis, com quem passou a constituir parelha, passeiam a sua fama pelos restaurantes, cabarets e teatros norte-americanos, até que um dia, de novo perto da época do Natal, se encontram ocasionalmente com uma outra dupla em busca de sucesso, as irmãs Haynes, Betty (Rosemary Clooney) e Judy (Vera-Ellen).
Se já existia o glamour da música, passa a aparecer agora o toque mágico do “romance”, a que se virá a acrescentar ainda a exaltação patriótica, quando todos resolvem restaurar a confiança perdida pelo general Thomas F. Waverly, que não se revela tão bom director de hotel (numa estância de turismo de Inverno, onde falta a neve) como o fora no campo de batalha. E assim se chega ao final apoteótico, onde, numa noite de Natal, tudo se conjuga para a felicidade completa: dois casais de cantores e bailarinos que assumem o seu amor, perante o olhar paternal de um general de novo passando revista às suas fieis tropas, enquanto se vão ouvindo os acordes de “White Christmas”, de Irving Berlin, e do céu começa a cair a neve que reporá justiça nos cofres do hotel.
Filme mais natalício não há, sobretudo em meados da década de 50. Com os EUA no rescaldo da II Guerra Mundial e o Plano Marshal na Europa, esta é a imagem de felicidade que convém fazer passar. Com o brilho de Inving Berling e a competência narrativa de um mestre da eficácia, Michael Curtiz.


NATAL BRANCO
Título original: White Christmas

Realização: Michael Curtiz (EUA, 1954); Argumento: Norman Krasna, Norman Panama, Melvin Frank; Música: Gus Levene, Joseph J. Lilley, Bernard Mayers, Van Cleave, Irving Berlin (canção "White Christmas"); Fotografia (cor): Loyal Griggs; Montagem: Frank Bracht; Direcção artística: Roland Anderson, Hal Pereira; Decoração: Sam Comer, Grace Gregory; Guarda-roupa: Edith Head; Maquilhagem: Wally Westmore; Assistentes de realização: John R. Coonan; Departamento de arte: Dorothea Holt; Som: John Cope, Hugo Grenzbach; Efeitos especiais: John P. Fulton; Produção: Robert Emmett Dolan; Intérpretes: Bing Crosby (Bob Wallace), Danny Kaye (Phil Davis), Rosemary Clooney (Betty Haynes), Vera-Ellen (Judy Haynes), Dean Jagger (Gen. Thomas F. Waverly), Mary Wickes (Emma Allen), John Brascia (Joe), Anne Whitfield (Susan Waverly), Bea Allen, Joan Bayley, Tony Butala, Glen Cargyle, George Chakiris, Barrie Chase, Les Clark, Lorraine Crawford, Robert Crosson, Marcel De la Brosse, Mike Donovan, Ernie Flatt, Bess Flowers, Gavin Gordon, Johnny Grant, Percy Helton, I. Stanford Jolley, Richard Keene, Vivian Mason, Peggy McKim, James Parnell, Sig Ruman, Richard Shannon, Dick Stabile, Grady Sutton, Herb Vigran, etc. Duração: 120 minutos; Distribuição em Portugal /DVD: Lusomundo Audiovisuais; Classificação etária: M/ 6 anos.

domingo, 11 de dezembro de 2016

SESSÃO 59 - 13 DE DEZEMBRO DE 2016


A RESSACA (2009)

“A Ressaca”, de Todd Phillips, bateu records de público nesse verão de 2009 nas salas dos EUA e um pouco por todo o lado. O que quase nunca é bom sinal, no campo das comédias. Mas esta é realmente divertida, tem ritmo, bons actores, que compõem personagens interessantes, e globalmente é um bom entretenimento como há muito não se via, dentro do género, vindo da América. Por isso teve sequelas: “A Ressaca - Parte II” (2011) e “A Ressaca - Parte III” (2013), até agora. De ressaca em ressaca vai perdendo graça e brilho. Demasiadas ressacas é no que dá.
Na primeira, a melhor de longe, quatro amigos, trintões, Phil Wenneck (Bradley Cooper), Stu Price (Ed Helms), Alan Garner (Zach Galifianakis) e Doug Billings (Justin Bartha), juntam-se para uma despedida de solteiro. Um é casado e engana a mulher quanto ao destino da viagem. O outro vai casar. Os outros são solteiros. Todos diferentes entre si, mas todos a quererem experimentar uma noitada de loucura na cidade que nunca dorme (Las Vegas também é assim!). Chegados à cidade, alugada a fabulosa suite de hotel, partem à aventura. Corte. Nada se sabe dessa noite, até que três deles acordam nessa mesma suite, mas agora virada de pernas para o ar. E perdido o noivo. E um dente a menos na boca do dentista profissional. E uma galinha no quarto e um tigre na casa de banho. E um colchão espetado num dos pináculos do hotel. E um bebé à porta do quarto. E uma dor de cabeça que cheira a ressaca. E uma amnésia do tamanho do mundo. Ou do céu iluminado a néons de Las Vegas.
Que terá acontecido durante aquela noite de que ninguém no grupo de três se lembra? Que terá acontecido ao noivo cujo paradeiro todos desconhecem? E assim se parte da manhã do dia seguinte para se descobrir a noite anterior. Boa ideia, que Todd Phillips explora bem, e os actores ajudam. O que aconteceu na realidade não se pode revelar aqui, mas todos supõem que bebida e droga, mulheres e jogo estejam presentes. Já poucos calculariam que Mike Tyson, himself, pudesse estar no centro desta intriga, nem que Fu Manchu, ou derivados, pudessem andar por ali, sobretudo enjaulados nas bagageiras de carros da polícia furtados.
Todd Phillips, argumentista e realizador, criou em 1994, juntamente com Andrew Gurland, o “New York Underground Film Festival”. Depois avançou para a realização, com “Frat House”, documentário sobre a fraternidade nos colégios, que acabaria por ser premiado em 1998, no Sundance Film Festival, com o Grande Premio do Júri. Continuou na realização com comédias como “Road Trip”, “Old School” e “School for Scoundrels”. Em 2006, foi nomeado para o Óscar de melhor argumento desse ano, com “Borat: Cultural Learnings of America for Make Benefit Glorious Nation of Kazakhstan”. Parecia um cineasta a despontar que mereceria ser seguido com interesse, à espera de novas surpresas. Mas depois disto, nada a assinalar de relevo. Para lá das “Ressacas”, “A Tempo e Horas” em 2010. Veremos o que nos reserva “Os Traficantes” de 2016.


A RESSACA
Título original: The Hangover

Realização: Todd Phillips (EUA, Alemanha, 2009); Argumento: Jon Lucas, Scott Moore; Produção: Chris Bender, Scott Budnick, William Fay, Daniel Goldberg, Jon Jashni, Todd Phillips, David Siegel, J.C. Spink, Thomas Tull, Jeffrey Wetzel; Música: Christophe Beck; Fotografia (cor): Lawrence Sher; Montagem: Debra Neil-Fisher; Casting: Juel Bestrop, Seth Yanklewitz; Design de produção: Bill Brzeski; Direcção artística: Andrew Max Cahn, A. Todd Holland; Decoração: Danielle Berman; Guarda-roupa: Louise Mingenbach; Maquilhagem: Tony Gardner, Lori McCoy-Bell, Janeen Schreyer;  Direcção de Produção: Julie M. Anderson, Susan E. Novick, Barbara Russo, Mark Scoon, David Siegel; Assistentes de realização: David Mendoza, Courtenay Miles, Kevin O'Neil, Paul Schneider, Jeffrey Wetzel; Departamento de arte: Ted Boonthanakit, Tom Callinicos, Marco A. Campos, Jane Fitts, Christopher Isenegger, Roderick Nunnally, Anshuman Prasad, John H. Samson; Som: Tim Chau; Efeitos especiais: Ryan Arndt, John J. Downey, Matthew J. Downey, Ron Epstein, Mario Vanillo; Efeitos visuais: Gray Marshall; Companhias de produção: Warner Bros., Legendary Pictures, Green Hat Films, IFP Westcoast Erste; Intérpretes: Bradley Cooper (Phil), Ed Helms (Stu), Zach Galifianakis (Alan), Justin Bartha (Doug), Heather Graham (Jade), Sasha Barrese (Tracy), Jeffrey Tambor (Sid), Ken Jeong (Mr. Chow), Rachael Harris (Melissa), Mike Tyson (Mike Tyson), Mike Epps (Black Doug), Jernard Burks (Leonard), Rob Riggle, Cleo King, Bryan Callen, Matt Walsh, Ian Anthony Dale, Michael Li, Sondra Currie, Gillian Vigman, Nathalie Fay, Chuck Pacheco, Jesse Erwin, Dan Finnerty, Keith Lyle, Brody Stevens, Todd Phillips (Mr. Creepy), Mike Vallely, James Martin Kelly, Murray Gershenz, etc. Duração: 108 minutos; Distribuição em Portugal: Warner Pictures; Classificação etária: M/ 16 anos; Data de estreia em Portugal: 18 de Junho de 2009. 

domingo, 4 de dezembro de 2016

SESSÃO 58 - 6 DE DEZEMBRO DE 2016



HOMEM NA LUA (1997)

“Temos que escolher onde queremos viver. Se na selva ou no jardim zoológico. Se quiseres viver na beleza e em liberdade, escolhes a selva. Se preferires a segurança, optas pelo jardim zoológico”, esta é uma das frases preferidas de Milos Forman, o realizador de “Homem na Lua”. Nascido na Checoslováquia, órfão de pai e mãe, ambos assassinados em campos de concentração nazis, estudou na escola de cinema de Praga, estreia-se na realização com curtas interessantes, e depois com três comédias críticas sobre a sociedade e o sistema checoslovaco na época, “Ás de Espadas”, “Os Amores de Uma Loira” e o magnífico “O Baile dos Bombeiros”, que lhe abriram as portas do Ocidente. Instalado nos EUA, reanima a sua obra com filmes de uma enorme coerência e unidade de tom e de temas, podemos mesmo dizer de obsessões. A marginalidade, a luta pela liberdade, a genialidade mais ou menos incompreendida, o confronto com os poderes instituídos são alguns dos grandes temas que povoam a sua obra, que se estende por “Os Amores de Uma Adolescente” (1971), “Voando Sobre Um Ninho de Cucos” (1975), “Hair” (1979), “Ragtime” (1981), “Amadeus” (1984), “Valmont” (1989), “Larry Flynt” (1996), “Homem na Lua” (1999) ou “Os Fantasmas de Goya” (2006).
“Homem na Lua” baseia-se nalguns momentos na vida de Andrew Geoffrey Kaufman (Nova Iorque, 17 de Janeiro de 1949 - Los Angeles, 16 de Maio de 1984) que foi um cantor, dançarino e actor norte-americano muito particular, com uma vida privada atribulada e uma profissional não menos conturbada. Tornou-se conhecido em shows e performances extremamente contundentes, politicamente incorrectas, imprevisíveis. Foi contratado pela American Broadcasting Company (ABC) para integrar o elenco da série televisiva “Taxi”, criando a personagem do estrangeiro Latka Gravas, com o qual o humorista quebrou todas as estruturas da comédia convencional, apresentando números vanguardistas no teatro e em eventos públicos diversos. Conquistou igualmente o sucesso ao interpretar Elvis Presley e parodiar outras personalidades. Criou mesmo personagens como o cantor Tony Clifton, que surgia do nada e ninguém conseguia localizar. Integrou igualmente o grupo que concebia o programa Saturday Night Live. Não era, portanto, um actor bem-comportado e, muitas vezes, insultava o público, irritava-o, inventava histórias falsas e queria ser o melhor artista do mundo. Depois de despedido da ABC, passou a fazer shows em ringues de luta livre, onde desafiava mulheres. Era considerado louco por muitos e génio por poucos. 


Em 1984, Kaufman anunciou que sofria de cancro no pulmão, mas raros acreditaram nessa nova sua “piada” de mau gosto, que se viria revelar verdadeira. Faleceu em Los Angeles, a 16 de Maio desse ano, mas há quem acredite que está vivo. Em Novembro de 2013, o irmão de Andy afirmara que ele pode estar vivo e escondido. Michael Kaufman revelou que tinha encontrado no arquivo do irmão um plano para fingir a sua morte. Noticiou-se que “uma alegada filha de Andy Kaufman, de 24 anos, subira ao palco numa cerimónia da entrega dos prémios com o nome do pai, para explicar que Andy Kaufman é "um óptimo pai que fica em casa, cozinha e toma conta do lar". Mas um site de entretenimento, "The Smoking Gun", revelou que a alegada filha não passava de uma atriz nova-iorquina, chamada Alexandra Tatarsky, e que não tem qualquer relação familiar com o comediante.
Tal como acontecera com “Larry Flynt”, por exemplo, Milos Forman atém-se a alguns momentos da vida de Andy Kaufman para erguer o retrato de uma personagem contraditória, difícil de definir, um ser obviamente associal, que não se integra, ou não se deixa integrar, no esquema tradicional da sociedade. Não há julgamentos morais, há quanto muito um olhar de simpatia e de certa cumplicidade, para o que concorre muito o notável trabalho de Jim Carrey, importantíssimo para conferir credibilidade a uma figura como esta.  Representando sempre no fio da navalha, entre o realismo e a toada humorista, sarcástica, Jim Carey oferece aqui um dos seus momentos de eleição. Mas Milos Forman conta ainda com uma excelente direcção artística, recriando ambientes e situações, uma fotografia a condizer, e uma montagem que subinha discretamente certas situações. Todo o elenco restante é igualmente bastante eficaz e por vezes mesmo inspirado: Danny DeVito, Paul Giamatti, Courtney Love, George Shapiro, entre outros. Um filme que nos deixa inquietos, indefinidos no olhar, perplexos quanto à personagem, por vezes incómoda, por vezes simpática, mas que é indiscutivelmente uma obra provocadora e envolvente, a que não se resiste, ame-se ou não. Curiosamente, Karaszewski e Alexander, os argumentistas, parecem especializados em temas deste tipo, já que foram eles que escreveram os argumentos de “Ed Wood”, de Tim Burton, e o já referido “Larry Flint”. Na banda sonora descobrem-se vários temas compostos pelo próprio Andy Kaufman, além de canções da banda norte-americana R.E.M. “Man on the Moon” ganhou o Globo de Ouro para Melhor Actor de Comédia ou Musical (Jim Carrey).


HOMEM NA LUA
Título original: Man on the Moon
Realização: Milos Forman (EUA, Inglaterra, Alemanha, Japão, 1999); Argumento: Scott Alexander, Larry Karaszewski; Produção: Pamela Abdy, Danny DeVito, Scott Ferguson, Michael Hausman, Michael Shamberg, George Shapiro, Stacey Sher, Howard West, Bob Zmuda; Música: R.E.M.; Fotografia (cor): Anastas N. Michos; Montagem: Adam Boome, Lynzee Klingman, Christopher Tellefsen; Casting: Francine Maisler; Design de produção: Patrizia von Brandenstein; Direcção artística: James F. Truesdale; Decoração: Maria Nay; Guarda-roupa: Jeffrey Kurland; Maquilhagem: Ve Neil, Yolanda Toussieng, Bob Zmuda; Direcção de Produção: Gerry Robert Byrne, Michael Hausman, Henning Molfenter; Assistentes de realização: Timothy Grant Engle, Stephen E. Hagen, David McGiffert, Michael Risoli, Michael Smith; Departamento de arte: Jason Bedig, Martin Bernstein, Michael Curry Sr., David Elliott, Ray Kluga, Timothy Metzger, Karla Triska; Som: Ron Bochar, Alice Byrne, Kam Chan, Gregg Harris, Pat McCarthy, Marc-Jon Sullivan, etc.; Efeitos especiais: Larry Fioritto, Virgil Sanchez; Efeitos visuais: Randall Balsmeyer, Daniel Leung; Companhias de produção:Universal Pictures, Mutual Film Company, Jersey Films, Cinehaus, Shapiro/West Productions, Tele München Fernseh Produktionsgesellschaft, British Broadcasting Corporation (BBC), Marubeni, Toho-Towa; Intérpretes: Jim Carrey (Andy Kaufman / Tony Clifton), Danny DeVito (George Shapiro), Paul Giamatti (Bob Zmuda), Courtney Love (Lynne Margulies), Gerry Becker (Stanley Kaufman, pai de Andy), Leslie Lyles (Janice Kaufman, mãe de Andy), George Shapiro (Mr. Besserman) Budd Friedman (Budd Friedman), Greyson Erik Pendry, Brittany Colonna, Bobby Boriello, Tom Dreesen, Thomas Armbruster, Pamela Abdy, Wendy Polland, Cash Oshman, Matt Price, Christina Cabot, Richard Belzer, Melanie Vesey, Michael Kelly, Miles Chapin, Isadore Rosenfeld, Vincent Schiavelli, Molly Schaffer, Howard West, Greg Travis, Maureen Mueller, Philip Perlman, Jessica Devlin, Jeff Thomas, Peter Bonerz, Howard Keystone, Howdy Doody, Brent Briscoe, Ray Bokhour, Patton Oswalt, Caroline Gibson, Conrad Roberts, Jeff Zabel, Marilyn Sokol, Angela Jones, Krystina Carson, Patricia Scanlon, Reiko Aylesworth, Michael Villani, Jim Ross, Jerry Lawler, Bob Zmuda, Johnny Legend, Doris Eaton, Yoshi Jenkins, New York City Rockettes, etc. 114 minutos; Distribuição em Portugal: Lusomundo Audiovisuais; Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 10 de Março de 2000.




segunda-feira, 28 de novembro de 2016

SESSÃO 57 - 29 DE NOVEMBRO DE 2016


O SEM-VERGONHA (1999)


Hollywood gosta de se autoparodiar e aceita de bom grado a autocrítica, se ela lhe trouxer dividendos. Desde há muito. Quem se não lembra dessa fabulosa comédia musical de Gene Kelly e Stanley Donen, “Serenata à Chuva” (Singin' in the Rain, 1952), ou mesmo desse drama denso e crispado que Billy Wilder assinou, “Crepúsculo dos Deuses” (Sunset Boulevard, 1950)?
Mas há muitos outros títulos a justificar amplamente uma citação, o que aqui se faz de forma muito rápida e sucinta, para avivar a memória de quem os recorda ou referi-los como boa escolha para quem os não conhece. Comecemos pelas comédias, algumas bem verrinosas, outras mais amenas e de olhar ternurento: “Tudo Boa Gente” (S.O.B, 1981), e “A Festa” (The Party, 1968), dois títulos de Blake Edwards, são dos retratos mais divertidos e desapiedados de Hollywood. “O Jogador” (The Player), de Robert Altman (1992), iguala-os. A considerar ainda “A Última Loucura” (Silent Movie), de Mel Brooks (1976), “O Maior Amante do Mundo” (The World’s Greatest Lover), de Gene Wilder (1977), “A Musa” (The Muse), de Albert Brooks (1999), “Três Amigos” (Three Amigos!), de John Landis, “As Três Noites de Susana” (Susan Slept Here), de Frank Tashlin (1954) ou, do mesmo Frank Tashlin, “Um Espada para Hollywood” (Hollywood or Bust, 1956), com Jerry Lewis que, por sua vez, nos deu um magnífico retrato de Hollywood em “Jerry 8 ¾” (The Patsy, 1964). Outros grandes actores cómicos nos ofereceram olhares sobre Hollywood, logo desde ainda na época do cinema mudo, como o fabuloso “Sherlock Holmes Jr.” (Sherlock Jr., 1924), de Buster Keaton. “Parada de Malucos” (Hellzapoppin), de H.C. Potter (1941), “A Quimera do Riso” (Sullivan’s Travels), de Preston Sturges (1942), “A Rosa Púrpura do Cairo” (The Purple Rose of Cairo, 1985) e “Recordações” (Stardust Memories, 1980), ambos de Woody Allen, “Quando Paris Delira” (Paris When It Sizzles), de Richard Quine (1964), “The Stunt Man - O Fugitivo” (The Stunt Man), de Richard Rush (1980) são outros exemplos, sendo que “Tempestade Tropical” (Tropic Thunder), de Ben Stiller (2008) e “O Artista” (The Artist), de Michel Hazavanicius (2011) são dois dos mais recentes.


Do lado do drama e do retrato por vezes negro da indústria do cinema haverá igualmente muito a citar, e quase sempre de boa qualidade, ou não fossem confissões de quem sabe do que está a falar. “Cativos do Mal” (The Bad and the Beautiful, 1952) e o seu prolongamento italiano “Duas Semanas Noutra Cidade” (Two Weeks in Another Town, 1962), ambos de Vincente Minnelli são bons exemplos para iniciar esta viagem. “O Grande Magnate” (The Last Tycoon), de Elia Kazan (1976), “Matar ou Não Matar” (In A Lonely Place), de Nicholas Ray (1950), “O Desprezo” (Le Mépris, 1963), de Jean-Luc Godard, “Os Insaciáveis” (The Carpetbaggers), de Edward Dmytryk (1964), “O Nosso Amor de Ontem” (The Way We Were), de Sydney Pollack (1973), “O Dia dos Gafanhotos” (The Day of the Locust), de John Schlesinger (1975), “Valentino”, de Ken Russell (1977), “Shampoo”, de Hal Ashby (1975), “Hollywood Boulevard”, de Allan Arkush, Joe Dante (1976), “Manobras na Casa Branca” (Wag the Dog), de Barry Levinson (1997), “LA Confidential”, de Curtis Hanson (1997), “Modern Romance”, de Albert Brooks (1981), “Ed Wood”, de Tim Burton (1994), “Deuses e Monstros”(Gods And Monsters), de Bill Condon (1998), “Mulholland Drive”, de David Lynch (2001), “Adaptação” (Adaptation) Spyke Jones (2002), “Barton Fink”, dos Irmãos Coen (1991), “Somewhere – Algures”, de Sofia Coppola (2010), “RKO 281”, de Benjamin Ross (1999), “Sete Psicopatas” (Seven Psychopaths), de Martin McDonagh (2012), “O Aviador” (The Aviator), de Martin Scorsese (2004), “State and Main”, de David Mamet (2000), “Mapas Para as Estrelas” (Maps To The Stars), de David Cronenberg (2014), entre muitos outros, abordam o universo da indústria cinematográfica norte-americana com resultados diversos, é certo, mas quase sempre interessantes. Há mesmo temas que oferecem visões distintas ao longo das décadas. “Assim Nasce Uma Estrela” (A Star is Born), de George Cukor, na sua versão de 1954, com Judy Garland e James Mason, é talvez o exemplo mais marcante, o mesmo Cukor dirigira “What Price Hollywood”, em 1932, com Constance Bennett e Lowell Sherman, abordando o mesmo caso da actriz envolvida com um produtor alcoólico. “Nasceu Uma Estrela” (A Star is Born), desta feita com realização de William Wellman, e interpretação de Fredric March e Janet Gaynor, data de 1937, sendo que a versão mais recente “Nasce Uma Estrela” (A Star is Born), de 1976, traz a assinatura de Frank Pierson, e a presença de Barbra Streisand e Kris Kristofferson.
Muito interessante é, pois, neste contexto, “Bowfinger”, que parte de um excelente argumento de Steve Martin com realização a condizer, de Frank Oz. Bowfinger (Steve Martin) é um pequeno produtor de Hollywood, sem grandes escrúpulos, que procura por todos os meios ao seu alcance, e não só, realizar o filme que o irá lançar na grande indústria. Acha que tem nas mãos o argumento da sua vida e precisa de um actor de prestígio para vender o produto. Kit Ramsey (Eddie Murphy) é o indicado, porém este nem sequer lê o script. Mas, como quem não tem cão caça com gato, Bowfinger resolve rodar o filme com o actor, sem este saber. O resultado será inesperado ...
Muito mais inesperado é o tom de violenta crítica que “O Sem-Vergonha” consegue manter ao longo de toda a obra, com uma sucessão de gags extremamente bem conseguidos e servidos por um elenco brilhante, que ajuda a fazer deste filme uma das melhores comédias de finais da década de 90.


O SEM-VERGONHA
Título original: Bowfinger
Realização: Frank Oz (EUA, 1999); Argumento: Steve Martin; Produção: Kathleen M. Courtney, Brian Grazer, Karen Kehela Sherwood, Bernard Williams; Música: David Newman; Fotografia (cor): Ueli Steiger; Montagem: Richard Pearson; Casting: Margery Simkin; Design de produção: Jackson De Govia; Direcção artística: Tom Reta; Decoração: K.C. Fox; Guarda-roupa: Joseph G. Aulisi; Maquilhagem: Gary Archer, Steve Artmont, Frank Griffin, Stacey Morris, Gloria Ponce, Rick Sharp, Alicia M. Tripi, Toy Van Lierop, Toni-Ann Walker; Direcção de Produção: Leslie J. Converse, Bernard Williams; Assistentes de realização: Michele Panelli-Venetis, Matt Rebenkoff, Evan Gilner, Basil Grillo; Departamento de arte: Marc Baird, Bryan Belair, Susan A. Burig, Matt Callahan, Les Gobruegge, Karl J. Martin, Melissa Mollo, Dawn Snyder, Rick Young; Som: Brendan Beebe, Ron Bochar, Martin Raymond Bolger, Lewis Goldstein, Dennis Jones; Efeitos especiais: Phil Cory, Richard Cory, Matthew W. Mungle; Efeitos visuais: Kelly G. Crawford, Syd Dutton, Bill Taylor; Companhias de produção:Universal Pictures, Imagine Entertainment; Intérpretes: Steve Martin (Robert K. Bowfinger), Eddie Murphy (Kit Ramsey / Jefferson 'Jiff' Ramsey), Heather Graham (Daisy), Christine Baranski (Carol), Jamie Kennedy (Dave), Adam Alexi-Malle (Afrim), Kohl Sudduth (Slater), Barry Newman (Hal, agente de Kitt), Terence Stamp (Terry Stricter), Robert Downey Jr. (Jerry Renfro), Alejandro Patiño (Sanchez), Alfred De Contreras (Martinez), Ramiro Fabian (Hector), Johnny Sanchez (Luis), Claude Brooks (Freddy), Kevin Scannell, John Prosky, Michael Dempsey, Walter Powell, Phill Lewis, Marisol Nichols, Nathan Anderson, Brogan Roche, John Cho, Lloyd Berman, Zaid Farid, Aaron Brumfield, etc. Duração: 97 minutos; Distribuição em Portugal.

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

SESSÃO 56 - 22 DE NOVEMBRO DE 2016


UMA FAMÍLIA À BEIRA 
DE UM ATAQUE DE NERVOS (2006)

Um tipo como Richard Hoover (Greg Kinnear), por muita boa vontade que ele tenha e nós para com ele, é sempre um elemento particularmente desagradável. O formador de intrépidos vencedores, de triunfantes empreendedores, motivando toda a gente que encontra para o sucesso, só pode estar destinado ao fracasso. Ele começa por afiançar: “There are two kinds of people in this world, winners and losers”. O que ele desconhece ainda é que, por vezes, os que se julgam triunfantes acabam perdedores. A começar desde logo pela sua família, um curioso agregado com algo de disfuncional: a mulher, Sheryl Hoover (Toni Collette), que vai tentando equilibrar o caos e atenuar a loucura reinante, os dois filhos, Dwayne (Paul Dano), que admira Nietzsche, quer ser piloto, se recusa a falar e vive ensimesmado, e Olive Hoover (Abigail Breslin), uma miudinha de sete anos que sonha concorrer a “Little Miss Sunshine”, um concurso de beleza para crianças talentosas de poucos anos e famílias de pouco juízo. Mas há ainda um tio, Frank Ginsberg (Steve Carell), um grande especialista, “o maior”, em Proust, acabado de sair do hospital e de uma depressão que o levou a uma tentativa de suicido, e o avô, Edwin Hoover (Alan Arkin), expulso de um lar por falta de pudor, drogas, revistas pornográficas e linguagem desbragada, personagens obviamente um pouco exóticas que compõem o ramalhete deste “road movie” de concepção “indie”, lançado inicialmente no Festival Sundance de Cinema de 2006, com enorme sucesso.
Os seus direitos foram vendidos para a Fox Searchlight Pictures num dos contratos mais caros da história do festival, tendo de imediato feito uma excelente carreira nos EUA e em todo o mundo, arrecadando uma impressionante quantidade de prémios em todo o mundo (é incrível a listagem que o IMDB apresenta de prémios ganhos por esta comédia) entre as quatro nomeações para Oscars, vencendo em duas delas (Melhor Argumento original e Melhor Actor Secundário, Alan Arkin). Esteve ainda nomeado para Melhor Filme do Ano e Melhor Actriz Secundária, a estreante Abigail Breslin.
“Uma Família à Beira de um Ataque de Nervos” foi dirigido por um casal de realizadores estreantes na longa-metragem de ficção, Jonathan Dayton e Valerie Faris, e escrito por Michael Arndt. Jonathan Dayton e Valerie Faris tinham atrás de si uma longa história em vídeos, curtas-metragens, documentarismo e episódios para televisão. Depois de “Little Miss Sunshine” conhece-se apenas uma outra comédia, igualmente bem recebida, “Ruby Sparks - Uma Mulher de Sonho” (1912) e anunciam-se dois projectos em fase de concretização, “I'm Proud of You” e “Battle of the Sexes”.


Rodado entre o Arizona e o sul da Califórnia, durante cerca de 30 dias, com um reduzido orçamente do cerca de oito milhões de dólares, o filme arrecadaria verbas astronómicas nos EUA e um pouco por todo o lado. Na semana de estreia, foi lançado nos EUA, em Junho de 2006, apenas em sete salas, e fez 370.782 dólares. O que obrigou a exploração do filme a alargar o numero de salas até atingir uma receita de 9,.626.,655, em Setembro do mesmo ano, em 1.602 ecrãs. Sem dúvida uma revelação e um fenómeno raramente verificado.
Mas a obra faz jus ao sucesso, dado tratar-se de uma comédia que parte de um argumento muito bem concebido, desenvolvido, equilibrando com argúcia a crítica social a certos aspectos da vida americana, com um tom de humor que alterna a insolência contracultura com a delicada ironia de uma família em palpos de aranha para se equilibrar. A realização é sóbria, mas explora bem as linhas de humor, sem perder o rigor da escrita e conseguindo um excelente nível de representação de um elenco magnífico, onde será injusto salientar um nome. A obra evolui á medida que a carrinha da família atravessa a América, do Arizona até à Califórnia, para que a pequena Olive Hoover possa apresentar-se a concurso nesse inimaginável “Little Miss Sunshine”, uma coisa monstruosa que nem devia ser permitida, que o filme destrói por completo, com a ajuda dessa interpretação exótica de Olive Hoover.
Mas os momentos de um delicioso humor sucedem-se nessa trepidante viagem que, por vezes, terá de ser “arrancada” com o esforço de todos a empurrarem a carripana que, aqui e ali, empena, e obriga os ocupantes a saltarem para o seu interior quando já em andamento. Andamento é o que não se perde neste filme com excelente ritmo, que vai buscar obviamente alguma influência a Frank Capra, sobretudo na pertinente crítica social a um certo “americain way of life” e á sua desmedida competitividade, mas também a Ernest Lubitsch, Preston Sturges, George Cukor, Howard Hawks e outros cineastas da melhor época do cinema norte-americano, que celebraram uma comédia de costumes elegante e sofisticada e ainda assim contundente..



UMA FAMÍLIA À BEIRA DE UM ATAQUE DE NERVOS
Título original: Little Miss Sunshine
Realização: Jonathan Dayton, Valerie Faris (EUA, 2006); Argumento: Michael Arndt; Produção: Albert Berger, Michael Beugg, Jeb Brody, David T. Friendly, Bart Lipton, Peter Saraf, Marc Turtletaub, Ron Yerxa; Música: Mychael Danna, DeVotchKa; Fotografia (cor): Tim Suhrstedt; Montagem: Pamela Martin; Casting: Justine Baddeley, Kim Davis-Wagner; Design de produção: Kalina Ivanov; Direcção artística: Alan E. Muraoka; Decoração: Melissa M. Levander; Guarda-roupa: Nancy Steiner; Maquilhagem: Susan Carol Schwary, Janis Clark, Dugg Kirkpatrick, Amy Lederman, Angel Radefeld, Torsten Witte; Direcção de Produção: Michael Bergyl, Bob Dohrmann, Michael Toji; Assistentes de realização: Thomas Patrick Smith, Heather Anderson, Kate Greenberg, Joe May, Gregory J. Smith, Thomas Robinson Harper, Bart Lipton; Departamento de arte: Tony Bonaventura, Theresa Greene, Michael Klingerman; Som: Andrew DeCristofaro, Craig Dollinger, Stephen P. Robinson; Efeitos especiais: Ian Eyre; Efeitos visuais: Adam Avitabile, Joshua D. Comen, Jenny Foster; Companhias de produção: Fox Searchlight Pictures, Big Beach Films, Bona Fide Productions, Deep River Productions, Third Gear Productions; Intérpretes: Abigail Breslin (Olive Hoover), Greg Kinnear (Richard Hoover), Paul Dano (Dwayne), Alan Arkin (avô Edwin Hoover), Toni Collette (Sheryl Hoover), Steve Carell (Frank Ginsberg), Marc Turtletaub (médico), Jill Talley (Cindy), Brenda Canela, Julio Oscar Mechoso, Chuck Loring, Justin Shilton, Gordon Thomson, Steven Christopher Parker, Bryan Cranston, John Walcutt, Paula Newsome, Dean Norris, Beth Grant, Wallace Langham, Lauren Shiohama, Mary Lynn .Rajskub, Jerry Giles, Geoff Meed, Matt Winston, Joan Scheckel, Casandra Ashe, Mel Rodriguez, Alexandria Alaman, etc. Duração: 101 minutos; Distribuição em Portugal: Twenty Century Fox Home Entertainment; Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 12 de Outubro de 2006.


segunda-feira, 14 de novembro de 2016

SESSÃO 55 - 15 DE NOVEMBRO DE 2016



UM AMOR INEVITÁVEL (1989)


Num grupo de amigos, alguém terá dito: “há 1500 comédias românticas e depois há “When Harry Met Sally...”, um pouco como quem diz “há 1500 filmes de guerra românticos e depois há “Casablanca”, o que não deixa de ser curioso, pois “Casablanca” é muito citado em “When Harry Met Sally...”. Claro que há algo de muito subjectivo nesta apreciação. O mesmo se poderia dizer de algumas outras comédias românticas, como por exemplo “há 1500 comédias românticas e depois há “Breakfast at Tiffany's”, mas a frase não deixa de referir um facto curioso em relação a esta obra de Rob Reiner, segundo argumento de Nora Ephron, aqui realizador e argumentista são dois elementos que terão de ser devidamente valorizados. Ao sublinhar deste modo a importância deste filme que fica na recordação de todos quanto o viram, e que justifica sucessivas revisões, proporcionando o mesmo prazer de sempre, o que se está a confirmar é o momento de eleição que este título representa no interior do género das comédias românticas. Que outra coisa é “When Harry Met Sally...” senão mais uma variação ou derivação do tema “boy meet girl”, apaixonam-se e afirmam viver “felizes para sempre?”. Bom, não é assim tão simples. Realmente Harry Burns (Billy Crystal) pede boleia a Sally Albright (Meg Ryan) para irem juntos para Nva Iorque, ma daí não resulta nenhum “coup de foudre”, nenhuma paixão repentina. Muito pelo contrário, pelo caminho ele alicia-a para passarem a noite num motel, e ela acho-o atrevido em demasia. Poderão ser amigos. Ele acha que não. “A amizade entre homens e mulheres não pode existir. A atração sexual impede-o”, esta é a sua teoria. Dir-se-ia que estamos na presença de um conjunto de lugares comuns ligados à vida do casal. Mas os lugares se são comuns é porque existem para muita gente. Que mal terá abordar os lugares comuns? Nenhum se na forem tratados de forma demasiado primária. “Um Amor Inevitável” tem essa característica invulgar: analisa as questões com sensibilidade, humor, delicadeza, sem, todavia, entrar na pieguice, no rodriguinho. O tom é o certo.
Alias o filme inicia-se e desenvolve-se com um verdadeiro achado narrativo. Alguns casais idosos, em tom documental, apresentam-se frente ao ecrã, informando da forma como se conheceram e o seu amor se manteve ao longo dos anos. São figuras que nada têm a ver com a história central, a não ser… quanto ao amor.


Portanto a relação entre Harry Burns e Sally Albright vai conhecendo avanços e recuos, encontros e desencontros, a vida vai-se desenvolvendo noutros aspectos, novos parceiros se conhecem e se desconhecem, o cabelo de Meg Ryan vai conhecendo diferentes etapas, mostrando como os anos a vão transformando, há quem case e se divorcie, e se lamente num estádio repleto, e acompanhe a onda mexicana se
m nenhum interesse especial, apenas como um reflexo condicionado, há quem insista que as mulheres fingem orgasmos com enorme facilidade e o exemplifique à mesa de um restaurante bem lotado de espectadores-auditores  (há mesmo uma senhora de certa idade, numa mesa ao lado, que pergunta ao empregado do restaurante: “O que é que aquela rapariga comeu? Quero o mesmo!”.
Há filmes que têm tudo para dar certo e não dão. Outros acertam na mouche à primeira. “Um Amor Inevitável” é um desses. Um casal simpático, Nova Iorque, um final em grande que vai do Natal ao Ano Novo, diálogos muito bons, inscritos num argumento inteligente e adulto, tratando de uma questão que diz respeito a toda a gente, o amor e as suas derivações, situações muito bem exploradas e desenvolvidas, cenários magníficos, excelentemente selecccionados, uma banda sonora a preceito (com temas magníficos como “Our Love Is Here To Stay”, “Don’t Get Around Much Anymore” e “But Not For Me”, todos interpretadas por Harry Connick Jr., e clássicos como “Let’s Call The Whole Thing Off” - Louis Armstrong e Ella Fitzgerald -, “Have Yourself A Merry Little Christmas” - Bing Crosby - ou “It Had To Be You” - Frank Sinatra), uma direcção de actores discreta e impecável de sobriedade e rigor, com um casal que parece que foi feito um para o outro (sem que o saibam de início, mas a maturidade se encarregará de o confirmar), e tudo o que se possa dizer mais.  
O amor é uma conquista, um combate. Uma conquista e um combate a dois. Inevitável.


UM AMOR INEVITÁVEL
Título original: When Harry Met Sally...

Realização: Rob Reiner (EUA, 1989); Argumento: Nora Ephron; Produção: Nora Ephron, Steve Nicolaides, Rob Reiner, Andrew Scheinman, Jeffrey Stott; Música: Harry Connick Jr., Marc Shaiman, Scott Stambler; Fotografia (cor): Barry Sonnenfeld; Montagem: Robert Leighton; Casting: Janet Hirshenson, Jane Jenkins; Design de produção: Jane Musky; Decoração: George R. Nelson, Sabrina Wright; Guarda-roupa: Gloria Gresham; Maquilhagem: Stephen Abrums, Joseph A. Campayno, Ken Chase, William A. Farley, Barbara Lorenz, Peter Montagna; Direcção de Produção: Mark A. Baker, Steve Nicolaides; Assistentes de realização: Aaron Barsky, Forrest L. Futrell, Lucille OuYang, Michael Waxman; Departamento de arte: Harold Thrasher, Frank Viviano; Som: George Baetz, Charles L. Campbell, Paul Timothy Carden, Larry Carow, Louis L. Edemann, Richard C. Franklin, John Fundus, Chuck Neely, Larry Singer; Companhias de produção: Castle Rock Entertainment, Nelson Entertainment; Intérpretes: Billy Crystal (Harry Burns), Meg Ryan (Sally Albright), Carrie Fisher (Marie), Bruno Kirby (Jess), Steven Ford (Joe), Lisa Jane Persky (Alice), Michelle Nicastro (Amanda), Gretchen Palmer, Robert Alan Beuth, David Burdick, Joe Viviani, Harley Jane Kozak, Joseph Hunt, Kevin Rooney, Franc Luz, Tracy Reiner, Kyle T. Heffner, Kimberley LaMarque, Stacey Katzin, Estelle Reiner, John Arceri, Peter Day, Kuno Sponholz, Connie Sawyer, Charles Dugan, Katherine Squire, Al Christy, Frances Chaney, Bernie Hern, Rose Wright, Aldo Rossi, Dona Hardy, Peter Pan, Jane Chung, Bob Ader, David Giardina, Nicholas Glaeser, Randy James, Johnny Raimondo, Marilyn Spanier, Billy Marshall Thompson, etc. Duração: 96 minutos; Distribuição em Portugal: LNK; Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 30 de Março de 1990.

domingo, 6 de novembro de 2016

SESSÃO 54 - 8 DE NOVEMBRO DE 2016


A REPÚBLICA DOS CUCOS (1978)

A “National Lampoon” foi uma revista satírica, com desenhos, fotografias, cartoons, banda desenhada e textos, que se colocava numa área muito próxima da popular “Mad”. Foi criada por um grupo de universitários da “Harvard University”, em 1969, tendo saído o primeiro número em Abril de 1970. Os fundadores foram Doug Kenney, Henry Beard e Robert Hoffman. Terminou a sua publicação em Novembro de 1998, depois de publicar 249 edições. Foi uma espécie de versão contracultura, não diremos underground, da “Harvard Lampoon”. O seu sucesso tanto de crítica como de público foi de tal forma notório durante a década de 70 que o grupo expandiu a sua actividade para os mais diversos campos, tendo uma efectiva influência no campo de humor e da comédia na sociedade norte-americana. O que se reflectiu igualmente na sua acção junto dos poderes estabelecidos sociedade, do comportamento social e mesmo na esfera política. Rapidamente o “Nacional Lampoon” se estendeu à radio, ao teatro, ao disco, aos livros e, obviamente, ao cinema e à televisão. O grupo foi incorporando muitas contribuições diversas que criaram um clã e um estilo próprio. O melhor período da revista foi o inicial, entre 1970 e 1975. Depois, durante a década de 80, o tom desagregou-se e a revista foi vendida e a marca “National Lampoon” foi utilizada indiscriminadamente, perdendo completamente a qualidade e a importância que tinham feito dela uma referência.
No cinema foram vários os títulos: “National Lampoon's Animal House” (1978), “National Lampoon's Class Reunion” (1982), “National Lampoon's Movie Madness” (1983), “National Lampoon's Vacation” (1983), “National Lampoon's Joy of Sex” (1984), “National Lampoon's European Vacation” (1985) e “National Lampoon's Christmas Vacation” (1989). A partir deste título, os seguintes pertencem já à editora “J2 Communications” que nada tem a ver com o espírito inicial e, de certa forma, descaracterizaram por completo as intenções dos criadores (1).

Realmente a primeira época do “National Lamppon” foi brilhante na forma como criticava inteligentemente a sociedade norte-americana, usando processos por vezes politicamente incorrectos. Um dos seus fundadores explicou da seguinte forma, tempos mais tarde, a conduta do grupo: “Há uma porta com um dístico, “Não passar”, nós passávamos”. Houve seguramente, aqui e ali, excessos, mas, de um modo geral, o tom surrealizante, o absurdo das situações, o humor inventivo, e a irreverência das propostas acabaram por vingar e tornar o grupo uma lenda. Uma lenda que, infelizmente, se transformou numa marca registada que qualquer um podia comprar, a partir de certa altura, para utilizar mediante uma importância estabelecida.
Em meados dos anos 70, o grupo começa a desmembrar-se. Responsáveis e colaboradores como P.J. O'Rourke, Gerry Sussman, Ellis Weiner, Tony Hendra, Ted Mann, Peter Kleinman, Chris Cleuss, Stu Kreisman, John Weidman, Jeff Greenfield, Bruce McCall, Rick Meyerowitz, Michael O'Donoghue, Anne Beatts e outros como John Hughes, John Belushi, Gilda Radner, Harold Ramis, Chris Miller  começaram a dispersar as suas colaborações por outros programas de televisão, “Saturday Night Live”, “The David Letterman Show”, “SCTV”, “The Simpsons”, “Married... with Children”, “Night Court”, "Not Ready for Primetime Players" ou por  filmes não directamente ligados ao National Lampoon, como “Caddyshack” ou “Ghostbusters”.
“National Lampoon's Animal House”, de 1978, é, pois, a primeira incursão no cinema do grupo e o filme que marcou uma época. De tal forma que, em 2001, a United States Library of Congress considerou o filme "culturally significant", e o incluiu na prestigiada lista do “National Film Registry” (obras que pelo seu significado cultural importa resguardar para o futuro).


“A República dos Cucos” é, na verdade, um filme de adolescentes, em particular de jovens universitários. Estamos nos anos 60, precisamente 1962, na Universidade Faber, numa dita fraternidade Delta (em Portugal, e em Coimbra, seria seguramente uma “República), onde vamos assistir a algumas peripécias durante um ano académico. Os caloiros andam “duplamente vigiados” (algo muito parecido com as muito portuguesas praxes, talvez menos humilhantes e, sobretudo, menos violentas), e o momento de êxtase colectivo é a “Festa da Toga”, onde os excessos ultrapassam as marcas.
O que tem este filme que muitos outros títulos ditos de adolescentes não ostentam? Porque será este um filme “culturalmente significante” e “Porky’s” ou “American Pie” não o são? A verdade é que o humor pode parecer assemelhar-se, mas é radicalmente diferente. “National Lampoon's Animal House” é um filme contra um determinado estado de coisas muitas das quais até se julgaria fazerem parte harmoniosa do contexto do filme. Mas o machismo exacerbado, um certo resquício de racismo, as orgias, com sexo e drogas à mistura, alguma misoginia, o enfrentar da autoridade, a ruptura com algumas tradições, tudo isto pode ser visto por um lado como gags, mas por outro como crítica certeira a um comportamento inquinado. Todo o humor tem um sentido, aponta a uma crítica e não explora apenas os instintos mais baixos e primitivos das plateias, como acontece em muitos outros exemplos.
Depois, há um magnifico grupo de actores, muitos dos quais se tonaram vedetas de primeiro plano (casos óbvios de Tom Hulce, John Belushi, Kevin Bacon, Karen Allen, entre outros). Também o realizador, John Landis, se tornou posteriormente um nome de referência no campo da comédia, com obras como “O Dueto da Corda” (1980), “Um Lobisomem Americano em Londres” (1981), “Os Ricos e os Pobres” (1983), “Pela Noite Dentro” (1985), “Espiões Como Nós” (1985), “Três Amigos” (1986) ou “Um Príncipe em Nova Iorque” (1988).



(1)   Eis a listagem dos restantes títulos com a chancela “National Lampoon”: National Lampoon's Loaded Weapon 1 (1993), National Lampoon's Senior Trip (1995), Vegas Vacation (1997), National Lampoon's Golf Punks (1998), National Lampoon's Van Wilder (2002), Repli-Kate (2002), Blackball (2003), National Lampoon Presents: Jake's Booty Call (2003), National Lampoon, Inc., National Lampoon's Gold Diggers (2003), National Lampoon Presents Dorm Daze (2003), National Lampoon's Barely Legal (2003), Going the Distance (2004), The Almost Guys (2004), National Lampoon's Adam & Eve (2005), National Lampoon Presents: Cattle Call (2006), Electric Apricot: Quest for Festeroo (2006), National Lampoon's Pucked (2006), National Lampoon's Van Wilder: The Rise of Taj (2006), The Beach Party at the Threshold of Hell (2006), National Lampoon's Stoned Age (2007), National Lampoon's Totally Baked: A Potumentary (2007), National Lampoon's Bag Boy (2007), National Lampoon Presents: One, Two, Many (2008), National Lampoon Presents: RoboDoc (2009), Transylmania (2009), National Lampoon Presents: Endless Bummer (2009),Cheerleaders Must Die! (2010), National Lampoon's Dirty Movie (2010), Ratko: The Dictator's Son (2010), Frat Chance (2011), The Legend of Awesomest Maximus (2011), National Lampoon's Snatched (2011), National Lampoon Presents Surf Party (2013), e Drunk Stoned Brilliant Dead: The Story of the National Lampoon (2015),tudo isto pondo de parte um considerável número de telefimes e séries de tv que foram sendo produzidos ao longo dos tempos. Recordando os produtores: National Lampoon magazine (1970–1998) J2 Communications (1991–2002) e National Lampoon, Incorporated (2002–até ao presente).


A REPÚBLICA DOS CUCOS
Título original: Animal House

Realização: John Landis (EUA, 1978); Argumento: Harold Ramis, Douglas Kenney, Chris Miller; Produção: Ivan Reitman, Matty Simmons; Música: Elmer Bernstein; Fotografia (cor): Charles Correll; Montagem : George Folsey Jr.; Casting: Michael Chinich, Don Phillips; Direcção artística: John J. Lloyd; Decoração: Hal Gausman; Guarda-roupa: Deborah Nadoolman; Maquilhagem: Lynne Brooks, Marilyn Patricia Phillips, Gerald Soucie, Joy Zapata; Direcção de Produção: Peter Macgregor-Scott; Assistentes de realização: Clifford C. Coleman, Gary McLarty, Ed Milkovich; Departamento de arte: Michael Milgrom; Som: William B. Kaplan; Efeitos especiais: Henry Millar; Companhias de produção: Universal Pictures, Oregon Film Factory, Stage III Productions; Intérpretes: Tom Hulce (Larry Kroger), Stephen Furst (Kent Dorfman), Mark Metcalf (Doug Neidermeyer), Mary Louise Weller (Mandy Pepperidge), Martha Smith (Babs Jansen), James Daughton (Greg Marmalard), Kevin Bacon (Chip Diller), John Belushi (John Blutarsky), Karen Allen (Katy), Donald Sutherland (Dave Jennings), James Widdoes (Robert Hoover), Tim Matheson (Eric Stratton), Peter Riegert (Donald Schoenstein), Bruce McGill (Daniel Simpson Day), Cesare Danova (Mayor Carmine DePasto), Joshua Daniel, Douglas Kenney, Chris Miller, Bruce Bonnheim, John Vernon, Sunny Johnson, Verna Bloom, Sarah Holcomb, Stacy Grooman, Stephen Bishop, Otis Day, Eliza Roberts, Lisa Baur, Aseneth Jurgenson, Katherine Denning, Raymone Robinson, Robert Elliott, Reginald Farmer, Jebidiah R. Dumas, Priscilla Lauris, Rick Eby, John Freeman, Sean McCartin, Helen Vick, Rick Greenough, etc. Duração: 109 minutos; Distribuição em Portugal: Universal; Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 24 de Outubro de 1980.

domingo, 30 de outubro de 2016

SESSÃO 53 - 1 DE NOVEMBRO DE 2016


O CLUBE (1985)

Os filmes de adolescentes, quer sejam em tom de paródia, quer em drama, ou mesmo nos terrenos do terror, são cada vez em maior número, tanto mais que cada vez mais são os adolescentes a assegurar as receitas nas salas de cinema. É verdade que os títulos que lhes prendem mais facilmente a atenção são os blockbusters em alta velocidade ou com heróis da Marvel, ou equivalentes, o que tem afastado compreensivelmente o público mais exigente das salas e a reservar a estas audiências de maior idade e rigor as salas de estar, frente aos écrans de televisão, onde se sucedem séries e teledramáticos muito mais interessantes.
É sobretudo desde os anos 70 que as comédias sobre teenagers e estudantes em férias ou algo parecido têm invariavelmente descaído de qualidade e de interesse na discussão dos problemas dessa faixa etária. Filmes como “Gelado de Limão”, “Porky’s”, “American Pie”, e sucedâneos levaram seguramente a que em 2001 surgisse um título curioso, mas que não infletia as propostas: “Oh, não, Outro Filme de Adolescentes” (Not Another Teen Movie). E nem obras com alguma originalidade, como “Doidos por Mary” (There is Something About Mary, 1998) conseguiam furtar-se a cenas de um evidente mau gosto, de uma escatologia vergonhosa ou de um voyeurismo sexual desajustado. Tudo vale para vender gato por lebre a essas plateias deseducadas, estética e culturalmente. O que interessa é facturar nas bilheiteiras, sem olhar a meios. O resultado deste fenómeno que se estende do cinema à televisão (e que que maneiras!) e às redes sociais está à vista de todos. Os jovens estão a ser sacrificados no altar do lucro fácil, sem que ninguém faça nada por o impedir.
Claro que há excepções e é isso mesmo que aqui nos traz. Por exemplo “Conta Comigo” (Stand by Me), de Rob Reiner (1986) é um excelente exemplo de filme de adolescentes, como também o é “Verão de 42” (Summer of ‘42), de Robert Mulligan (1971). Ou quase toda a filmografia de John Hughes que, desde finais da década de 70 até 2009 (ano da sua morte precoce), nos deu argumentos e realizações quase sempre empenhadas numa aproximação séria e apaixonada do mundo da adolescência, dos seus problemas e ambições, das frustrações e angústias, das alegrias e promessas.
“O Clube”, de 1985, é talvez o melhor exemplo (como escritor e realizador), mas toda a sua filmografia merece destaque pela seriedade como constroi a comédia. A sua série de comédias sobre adolescentes inicia-se em 1984, com “16 Primaveras” (Sixteen Candles), a que se seguem “O Clube” (The Breakfast Club), e ainda “Que Loucura de Mulher” (Weird Science, 1985) e “O Rei dos Gazeteiros” (Ferris Bueller's Day Off. 1986). Depois a sua carreira continua com comédias de um outro tipo, mas sempre com méritos acima da média: “Antes Só que Mal Acompanhado” (Planes, Trains and Automobiles. 1987), “A Vida não Pode Esperar” (She's Having a Baby, 1987), “O Meu Tio Solteiro” (Uncle Buck. 1988) e “A Pequena Endiabrada” (Curly Sue,1991). Falamos da carreira de Hughes como realizador mas, enquanto argumentista (assinou todos os argumentos das obras que dirigiu), escreveu muitas histórias para outros autores, nomeadamente “Sozinho em Casa”.


“O Clube” é um filme que trata os adolescentes de forma adulta, sem se referir a eles como idiotas apenas preocupados com sexo e drogas, violência e rebeldia. Estes adolescentes não são os grosseirões e mentecaptos do costume. Curiosamente todos estes temas estão presentes neste título, mas não da forma especulativa que a grande maioria dos filmes sobre o mesmo assunto o fazem. Aqui os temas são tratados com dignidade e complexidade, sem que, apesar disso, deixe de existir um tom de comédia, ainda que seja de admitir que se trata mais do tom de uma comédia dramática.
Cinco adolescentes são reunidos numa escola durante um fim-de-semana. Por uma razão ou por outra “portaram-se mal” durante a semana anterior e a escola, o equivalente a uma escola de ensino segundário em Portugal, reune-os para os obrigar a reflectir sobre o seu comportamento. Os pais vão conduzi-los à escola na manhã de sábado e irão recolhê-los no final do tempo de reclusão. Nesse intervalo, eles vão ser conduzidos a uma sala de aulas, onde ficarão sob vigilância de um professor, mas entregues a si próprios. Obviamente que de início de revoltam, cada um traz os estigmas da sua educação, a relação com os pais está longe de ser a melhor, mostram-se de início resistentes e hostis, lentamente vão amolecendo, falando, abrindo-se uns aos outros até atingirem um outro grau de sociabilidade. Problemas resolvidos? Nada disso. Apenas enfrentadas algumas situações e entrevsitas algumas soluções.
O filme vive de um argumento inteligente e sensível, impõe personagens verídicas na sua humanidade, afastando-se das caricaturas tradicionais e dos estereótipos abusivos, nas suas angústias e esperanças (que são poucas, diga-se) e apresenta uma galeria de tipos dificilmente esquecíveis, tal a força da sua presença, o que muito se deve ao grupo de actores reunido. Todos eles se tornaram profissionais, uns com maior destaque do que outros, mas cremos que “O Clube” continuará a ser para quase todos o momento supremo das suas carreiras. Um belo filme, uma comédia discreta e intimista que merece ser recordada e que perdura na memória de quem a viu.


O CLUBE
Título original: The Breakfast Club

Realização: John Hughes (EUA, 1985), Argumento: John Hughes; Produção: Gil Friesen, John Hughes, Michelle Manning, Andrew Meyer, Ned Tanen; Música: Keith Forsey; Fotografia (cor): Thomas Del Ruth; Montagem: Dede Allen; Casting. Jackie Burch; Design de produção: John W. Corso; Decoração: Jennifer Polito; Guarda-roupa: Marilyn Vance; maquilhagem: Ron Walters, Linle White; Direcção de Produção: John C. Chulay, Adam Fields, Richard Hashimoto; Assistentes de realização: Robert P. Cohen, James Giovannetti Jr.; Departamento de arte: Jack M. Marino, Paul Stanwyck, Ted Wilson;  Som: James R. Alexander, Charles L. Campbell, Larry Carow, Richard C. Franklin, Robert L. Hoyt, Nicholas Vincent Korda, Daniel J. Leahy, Jerry Stanford, John J. Stephens;  Efeitos especiais: William H. Schirmer; Companhias de produção: A&M Films, Channel Productions, Universal Pictures; Intérpretes: Emilio Estevez (Andrew Clark), Paul Gleason (Richard Vernon), Anthony Michael Hall (Brian Johnson), John Kapelos (Carl), Judd Nelson (John Bender), Molly Ringwald (Claire Standish), Ally Sheedy (Allison Reynolds), Perry Crawford (pai de Allison), Mary Christian (irmã de Brian), Ron Dean (pai de Andy), Tim Gamble (pai de Claire), Fran Gargano(mae de Allison, Mercedes Hall (mae de Brian), John Hughes (pai de Brian), etc. Duração: 97 minutos; Distribuição em Portugal: Universal; Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 5 de Setembro de 1985.

domingo, 23 de outubro de 2016

SESSÃO 52 -25 DE OUTUBRO DE 2016



O HOMEM DAS CALÇAS PARDAS (1950)

“Ruggles of Red Gap”, como já se falou aquando da nossa conversa sobre a versão de 1935, dirigida por Leo McCarey com o fabuloso Charles Laughton, parte de um romance de Harry Leon Wilson, que conheceu grande sucesso por ocasião do seu lançamento, em 1915. No mesmo ano, subiu a cena numa adaptação teatral, em musical, com escrita da responsabilidade de Harrison Rhoades, poemas de Harold Atteridge e música de Sigmund Romberg. Estreada no Fulton Theater, precisamente no dia 25 de Dezembro, data festiva que se conciliava bem com o tom geral da obra. Conheceu 33 representações. Digamos que cumpriu a época de Natal e Ano Novo.
Também em cinema surgiram versões anteriores a essa, assinada por Leo McCarey, e uma posterior, ainda de boa qualidade, interpretada pelo popular Bob Hope, rodada em 1950, com o título “O Homem das Calças Pardas” (Fancy Pants), com direcção de George Marshall, contando igualmente no elenco com Lucille Ball e Bruce Cabot.
A versão de Bob Hope é muito diferente da de Charles Laughton. São actores de escolas diferentes, com características muito diversas. Bob Hope era um actor que se especializara num tipo de humor que tinha muito a ver com o entertainer. Muita da sua actividade passou-se entre shows de teatro, hotéis, rádio, televisão, vaudeville e obviamente no cinema. Foi o apresentador de maior longevidade a apresentar a cerimónia dos Oscars (creio que durante dezoito edições, o que é obra!).   
Leslie Townes Hope nasceu em Eltham, Reino Unido, a 29 de Maio de 1903, e viria a falecer, com 100 anos de idade, em Toluca Lake, Califórnia, a 27 de Julho de 2003. Filho de um canteiro de Weston-super-Mare e de uma cantora de opereta, Bob Hope tinha seis irmãos, viveu em Weston-super-Mare, em Whitehall e em St. George em Bristol, antes de a família se mudar para Cleveland, no Ohio, EUA, em 1907. Hope assumiu a cidadania norte-americana quando completou 17 anos. Foi boxeur, imagine-se!, com o nome de Packy Easte e parece que não teve grande sucesso. Participou em concursos a imitar Charles Chaplin, sendo notado por um comediante da época, Fatty Arbuckle, que o empregou a partir de 1925. Forma depois um grupo a que chamou "The Dancemedians", juntamente com as irmãs Hilton. Trabalha alguns anos no vaudeville e regressa a Nova Iorque e à Broadway, em musicais onde a crítica destaca o seu trabalho. Em meados da década de 30, vamos encontrá-lo em Hollywood, ingressa na Warner Brothers, primeiro em pequenos papéis, depois ganhando cada vez maior destaque.


Em 1938, em "The Big Broadcast of 1938", aparece a cantar "Thanks for the Memory", que se transforma num hit e que se torna um símbolo para Bob Hope. O actor e cantor assemelha-se progressivamente a uma lenda viva da América, incorporando alguns dos seus valores. Filmes como “Road to Singapore”, “Road to Zanzibar”, “Nothing But the Truth”, “My Favorite Blonde”, Road to Morocco”, “Star spangled rhythm”, “The Princess and the Pirate”, “Road to Utopia”, “My Favorite Brunette”, “Variety Girl”, “Road to Rio”, “The Paleface” ou “The Great Lover” ocuparam os anos 40, transformando-o num herói nacional que frequentou a Casa Branca durante a presidência de vários ocupantes (especialmente republicanos).
A sua popularidade prosseguiu até aos anos 70, com outras comédias de sucesso: “Fancy Pants”, “My Favorite Spy”,  “The Greatest Show on Earth”, “Son of Paleface”, “Road to Bali”, “Scared Stiff”, “Casanova's Big Night”, “Beau James”, “The Five Pennies”, “Bachelor in Paradise” ou “The Road to Hong Kong”. A série “Road to…” foi das mais célebres do cinema norte-americano por essas décadas. Trabalhou muito com Bing Crosby, e actrizes como Dorothy Lamour, Lucille Ball, Jane Russell, Joan Collins ou Katharine Hepburn. Depois, foi a televisão que o ocupou durante décadas. “Porque não abandonou o trabalhou e se dedicou à pesca?”, perguntaram-lhe um dia, quando ele já merecia uma reforma dourada. Ele respondeu “Porque os peixes não costumam rir”.


Nunca ganhou um Oscar relativo a um filme (o que justificou várias piadas suas durante as cerimónias de entrega das estatuetas), mas a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood honrou-o com diversos prémios, desde 1941 até 1966. A sua contribuição para o esforço da guerra, durante o período de 1941-1954, levou-o a vários espectáculos de apoio aos militares na frente do conflito.
“Fancy Pants” é um dos títulos representativos do seu período áureo no cinema. Na versão da peça e no filme de Norma McLeod, o mordomo era um lídimo mordomo inglês que era enviado a contragosto para o Oeste norte-americano. Na versão de Bob Hope o mordomo é um actor que interpreta o papel de mordomo numa peça e que é convencido a ir para o Oeste desempenhar o mesmo papel mas não no teatro, na vida real. Obviamente que os equívocos e as trapalhadas não se fazem esperar, mas, como quase sempre nestes casos, o aldrabão do comediante é um aprendiz ao lado de outros vigaristas que ele acabará por ajudar a destapar a careca. O filme foi concebido à medida do talento e das qualidades de Bob Hope, desenrola uma sucessão curiosa de sequências bem imaginadas que desencadeiam vagas de um humor inventivo e bem coordenado. Há algumas cenas de perseguições, nomeadamente numa caçada, que resistem bem à passagem do tempo e mostram como se mantém actual este tipo de comédia de situações, com o seu quê de crítica social.


O HOMEM DAS CALÇAS PARDAS
Título original: Fancy Pants

Realização: George Marshall (EUA, 1950); Argumento: Edmund L. Hartmann, Robert O'Brien, com contributos de Richard L. Breen, Monte Brice, Frank Butler, Barney Dean, Irving Elinson, Richard English, Richard Flournoy, Segundo história de Harry Leon; Produção: Robert L. Welch; Música: Van Cleave; Fotografia (cor): Charles Lang; Montagem: Archie Marshek; Direcção artística: Hans Dreier, A. Earl Hedrick; Decoração: Sam Comer, Emile Kuri; Guarda-roupa: Mary Kay Dodson, Gile Steele;  Maquilhagem: Wally Westmore; Direcção de Produção: C. Kenneth Deland; Assistentes de realização: Oscar Rudolph, Herbert Coleman, Michael D. Moore, James A. Rosenberger; Departamento de arte: Robert Goodstein, Joe Portillo; Som: Don Johnson, Gene Merritt; Efeitos visuais: Farciot Edouart, Gordon Jennings; Companhias de produção: Production Companies, Paramount Pictures; Intérpretes: Bob Hope (Humphrey), Lucille Ball (Agatha Floud), Bruce Cabot (Cart Belknap), Jack Kirkwood (Mike Floud), Lea Penman (Effie Floud), Hugh French (George Van Basingwell), Eric Blore (Sir Wimbley), Joseph Vitale (Wampum), John Alexander (Teddy Roosevelt), Norma Varden (Lady Maude), Virginia Keiley, Colin Keith-Johnston, Joe Wong, etc. Duração: 92 minutos; Distribuição em Portugal: Feel Films Espanha; Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 15 de Junho de 1951.