segunda-feira, 11 de julho de 2016

SESSÃO 30 - 5 DE JULHO DE 2016

O EXTRAVAGANTE SENHOR RUGGLES (1935)

Foi George Bernard Shaw quem disse que “ingleses e americanos são dois povos separados pela mesma língua”. Não só, como se poderá ver pela excelente comédia de Leo McCarey, “Ruggles of Red Gap”, que parece igualmente ilustrar algumas considerações de Alexis de Tocqueville que, na sua obra dedicada à América, analisa os diferentes comportamentos das relações entre senhores e criados dos dois lados do Atlântico.
O filme baseia-se num romance de Harry Leon Wilson, que conheceu grande sucesso aquando do seu lançamento, em 1915. No mesmo ano, subiu a cena numa adaptação teatral, em musical, com escrita da responsabilidade de Harrison Rhoades, poemas de Harold Atteridge e música de Sigmund Romberg. Estreada no Fulton Theater, precisamente no dia 25 de Dezembro, data festiva que se conciliava bem com o tom geral da obra, conheceu 33 representações. Digamos que cumpriu a época de Natal e Ano Novo.
Também em cinema surgiram versões anteriores a esta assinada por Leo McCarey. Em 1918, “Ruggles of Red Gap” foi assinado por Lawrence C. Windom e tinha Taylor Holmes como protagonista. Em 1923, com idêntico título, estreou-se outra adaptação, dirigida por James Cruze, com um notável Edward Everett Horton como primeira figura. Mas o elenco da realização de 1935 é absolutamente inesquecível. Charles Laughton considerava mesmo que esta tinha sido a sua maior interpretação e este era o seu filme preferido, entre todos quantos tinha na sua vasta (e brilhante) filmografia. Há, todavia, uma outra versão, ainda de muito boa qualidade, interpretada pelo popular Bob Hope, rodada em 1950, “O Homem das Calças Pardas” (Fancy Pants), com direcção de George Marshall, e ainda no elenco Lucille Ball e Bruce Cabot. Na televisão, são diversas as versões: “The Prudential Family Playhouse” (1950), “Ruggles of Red Gap” (1951), “Producers' Showcase” (1954) ou “Ruggles of Red Gap” (1957) e as versões teatrais também abundam. Também na rádio Ruggles se tornou popular. A “Lux Radio Theater" apresentou uma versão de 60 minutos no dia 10 de Julho de 1939 com Charles Ruggles, Charles Laughton e Zasu Pitts revivendo os seus papéis do filme. Houve ainda outras passagens pela rádio norte-americana. "The Screen Guild Theater" emitiu uma em Dezembro de 1945 e "Academy Award Theater" lançou uma outra em Junho de 1946, sempre com Charles Laughton e Charles Ruggles nos principais papéis.


Leo McCarey era, entre os anos 30 e 50, um dos maiores realizadores de comédias, único rival à altura de Frank Capra. Capra resistiu melhor ao tempo, mas McCarey é, neste aspecto, um injustiçado. Era um realizador de enorme talento, com uma sensibilidade muito própria para a comédia. Nascido em Los Angeles, Califórnia, EUA, a 3 de Outubro de 1896, vindo a falecer em Santa Mónica, Califórnia, EUA, a 5 de Julho de 1969, Thomas Leo McCarey iniciou-se no cinema na década de 20, assinando um vasto conjunto de curtas-metragens, muitas delas de humor. Dirigiu obras de Bucha e Estica, W.C. Fields e dos Irmãos Marx (Duck Soup – “Os Grandes Aldrabões”, 1933), partindo depois para uma carreira de grandes sucessos. Foi um dos poucos cineastas que ganhou os três mais importantes Oscars pelo mesmo filme, Melhor Filme, Melhor Realização e Melhor Argumento (Going My Way – “O Bom Pastor”, 1944). Os outros cineastas que se lhe igualam são Billy Wilder, Francis Ford Coppola, James L. Brooks, Peter Jackson, Joel Coen /Ethan Coen, e Alejandro González Iñárritu. Outros títulos importantes na sua filmografia são “Com a Verdade Me Enganas” (1937), “Make Way for Tomorrow” (1937), “Os Sinos de Santa Maria” (1945) ou “O Grande Amor da Minha Vida” (1957). A sua sensibilidade para a comédia era igualada pela emoção que colocava nos seus melodramas.
Ruggles (Charles Laughton) é mordomo de um nobre inglês, George (Roland Young) quando este o perde ao jogo para um americano latifundiário, Egbert Floud (Charles Ruggles), casado com uma expansiva e desabrida Effie Floud (Mary Boland). O casal encontra-se a passar férias em Inglaterra e, quando regressa a casa, leva na bagagem o pomposo e rigoroso mordomo britânico, com toda a sua herança hierárquica e a etiqueta ostensiva de quem sabe qual é o seu lugar e faz questão de o demonstrar. O choque com a cultura norte-americana é brutal. Nos EUA os costumes são absolutamente diferentes, mesmo antagónicos, e ainda por cima Ruggles vai dar com uma família desregrada e boémia. Há ainda a acrescentar o facto de o filme ser de 1935, uma época de pleno New Deal, onde o cinema não tendia a mostrar bem a realidade, mas a indicar caminhos ideais para uma sã convivência social. Com o presidente Roosevelt a procurar levantar o país da ruína da Grande Depressão, o que importava era criar optimismo, mostrar as virtudes da democracia americana e insuflar esperança em melhores dias. Este é, pois, um filme de utopia, não uma obra realista que mostre a opressão dos grandes latifundiários, muitos deles racistas e fortemente classicistas. Em teoria, os EUA eram uma democracia onde todos eram (deveriam ser) iguais. Ruggles a principio estranha, mas depois os usos e costumes da casa entranham-se. De tal forma que acaba mesmo por recitar, quase no final, o célere discurso que Lincoln pronunciou em Gettysburg, onde exaltava de forma eloquente as virtudes da democracia e da sociedade americana. Charles Laughton, tempos depois, confessou que a declamação deste discurso foi "one of the most moving things that ever happened to me", o que o levava por vezes a repeti-lo em circunstâncias festivas (quando terminaram as filmagens de “Revolta na Bounty” (1935) ou “Nossa Senhora de Paris” (1939) voltou a emocionar os companheiros de elenco e equipas técnicas com esta notável obra de oratória, ainda por cima admiravelmente interpretada por um actor de invulgar talento).

Foi Charles Laughton quem pediu aos produtores para ser Leo McCarey a dirigir o filme, pois pretendia qua a sua estreia na comédia ficasse assinalada por um prestigiado autor que havia dirigido, pouco antes, uma comédia dos Marx Brothers que o havia impressionado imenso (Os Grandes Aldrabões, 1933). Teve razão na escolha. Leo McCarey era um cineasta de rara apetência para a comédia, um homem de sensibilidade e bom gosto, delicado e fino no humor, inteligente nas alfinetadas que distribuía, discreto e subtil nos gags, dirigindo com mestria os seus actores. Os paralelismos que estabelece entre a sobriedade britânica, a sua hierarquia estática, os valores tradicionais, a estrita divisão de classes, irão sofrer um rude golpe ao confrontarem-se com a expansiva truculência ianque, com a espontaneidade e a ingenuidade (por vezes o primarismo) dos comportamentos do Oeste dos EUA. A solenidade dos clubes ingleses dá lugar à vulgaridade e luxúria dos saloons norte-americanos. Desta justaposição de civilizações e culturas tira Leo McCarey o partido decisivo para um filme de um humor transbordante, deliciosamente crítico, mas de um humanismo generoso e optimista.
E o elenco é brilhante. Charles Laughton, em Ruggles, é absolutamente brilhante, mas Charles Ruggles, em Egbert Floud, não o é menos, e Mary Boland, Zasu Pitts ou Roland Young estão à altura. Uma comédia admirável, que seria bom ser muito mais conhecida nos nossos dias.


O EXTRAVAGANTE SENHOR RUGGLES
Título original: Ruggles of Red Gap
Realização: Leo McCarey (EUA, 1935); Argumento: Walter DeLeon, Harlan Thompson, Humphrey Pearson, segundo romance de Harry Leon Wilson ("Ruggles of Red Gap"); Produção: Arthur Hornblow Jr.; Música: John Leipold, Heinz Roemheld;Fotografia (p/b): Alfred Gilks; Montagem: Edward Dmytryk; Direcção artística: Hans Dreier, Robert Odell; Guarda-roupa: Travis Banton; Assistentes de realização: A.F. Erickson; Som: Philip Wisdom; Apresentação: Adolph Zukor; Companhia de produção: Paramount Pictures; Intérpretes: Charles Laughton (Ruggles), Mary Boland (Effie Floud), Charles Ruggles (Egbert Floud), Zasu Pitts (Prunella Judson), Roland Young (George), Leila Hyams (Nell Kenner), Maude Eburne ('Ma' Pettingill), Lucien Littlefield, Leota Lorraine, James Burke, Dell Henderson, Clarence Wilson, etc. Duração: 91 minutos; Distribuição em Portugal: Feel Filmes; Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 28 de Maio de 1936.

LEO McCAREY (1898-1969)
Filmografia / como realizador (principais filmes): 1921: Society Secrets (curta-metragem, filme de estreia); 1925: Isn't Life Terrible? (c-m); 1926: Mighty Like a Moose (c-m); 1927: Sugar Daddies (1927 short); 1928: Pass the Gravy (c-m); Should Married Men Go Home? (c-m); Habeas Corpus (c-m); We Faw Down (c-m); 1929: Liberty (c-m); Wrong Again (c-m); Big Business (c-m); 1931: Indiscreet (Indiscreto); 1932: The Kid from Spain (Toureiro à Força); 1933: Duck Soup (Os Grandes Aldrabões); 1934: Belle of the Nineties; Six of a Kind (Segunda Lua-de-Mel); 1935: Ruggles of Red Gap (O Extravagante Senhor Ruggles); 1936: The Milky Way (Via Láctea); 1937: Make Way for Tomorrow; 1937: The Awful Truth (Com a Verdade Me Enganas); 1939: Love Affair (Ele e Ela); 1942: Once Upon a Honeymoon (Lua Sem Mel); 1944: Going My Way (O Bom Pastor); 1945: The Bells of St. Mary's (Os Sinos de Santa Maria); 1948Good Sam (O Bom Samaritano; 1952: My Son John (Perseguem o Meu Filho); 1957: An Affair to Remember (O Grande Amor da Minha Vida); 1958: Rally 

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