domingo, 26 de junho de 2016

SESSÃO 29 - 29 DE JUNHO DE 2016



NÃO O LEVARÁS CONTIGO (1938)

Com “Não o Levarás Contigo” surpreendemos um outro fabuloso exemplo da época de ouro de Capra e da comédia social. Parece ter ficado claro que este é um cineasta da minha particular estima e admiração, como se pode ter percebido pelas palavras que lhe enderecei, e sobretudo pelo calor com que, julgo, as ter envolvido. Na verdade, admiro muito Frank Capra, sobretudo o Capra da década de 30, até meados da década de 40, o Capra das comédias de forte componente social, o Capra da utopia.
Falemos, agora, um pouco de “Não o Levarás Contigo”, rodado em 1938, depois de Capra ter assistido entusiasmado a uma representação da peça teatral homónima, da autoria de George S. Kaufman e Moss Hart, que com ela ganhariam o Prémio Pulitzer. Como sempre seria o seu argumentista de serviço, Robert Riskin, a adaptá-la primorosamente a cinema. Mas a peça possuía já todos os elementos essenciais ao cinema de Capra. Na verdade, apesar de se tratar de uma adaptação, esta é, indiscutivelmente, outra das obras mais significativas do pensamento de Capra. Tudo o que é caro ao universo do cineasta aí se encontra.
A acção central nasce do confronto de dois estilos de vida: de um lado, um industrial de armamento, austero e egoísta, que só pensa em monopólios e lucros; do outro, a alargada família da sua secretária, generosa e caótica, onde cada um faz o que quer e o que muito bem lhe passa pela cabeça, e onde alguns não pagam impostos, simplesmente "porque não lhes apetece".  O industrial quer comprar a casa onde habita essa família de lunáticos, para aí construir mais uma fábrica. Mas...
Este esquema permite a Capra acumular um conjunto de referências absolutamente reveladoras do seu cinema e do seu pensamento humanista e utópico. O amor e a solidariedade contra o dinheiro e a febre de acumulação de capital, o ruralismo e a simplicidade de comportamento contra a grande metrópole e o artificialismo, a exaltação de valores primordiais como o patriotismo, a família, a beleza dos puros de coração, o amor e a amizade, a solidariedade social, que se expressa na singeleza de um "ama o teu próximo". E para Capra, se esse "próximo" for do sexo contrário, ainda melhor, porque não há história que não esteja nimbada de um secreto erotismo, desde “Uma Noite Aconteceu” até este “Não o Levarás Contigo”.
Por tudo o que acabámos de referir, ainda que de forma extremamente sucinta, “You Can't Take It With You” não pode estar longe de “Doido Com Juízo” ou “Peço a Palavra” e anda muito próximo de “O Mundo é Um Manicómio” ou de “Do Céu Caiu um Estrela”. Toda a filosofia de uma generosa utopia está contida neste grupo de filmes, aparentemente de uma grande simplicidade, mas realmente exemplares na forma como Capra encenava o seu cinema.
Para os mais interessados nestas questões, muitos dos filmes de Capra eram filmados com mais do que uma câmara, para assim as ligações, os chamados "raccords", serem as mais perfeitas possíveis, e permitindo um jogo de campo /contra campo muito vivo e rigoroso.
Admirador dos actores, de quem era visivelmente um amigo, além de director, Capra deixa-os respirar em planos de uma duração um pouco mais longa do que o normal, para permitir o desenvolvimento das suas capacidades, sempre que isso é benéfico para a intensidade dramática da obra. Por isso o seu ritmo de montagem varia, ora nervoso e ágil, ora mais lento e saboreado. E pode dizer-se que, com actores como James Stewart, Jean Arthur, Lionel Barrymore, Misha Auer, Edward Arnold, Ann Miller e tantos outros, Frank Capra se podia considerar um cineasta feliz.


NÃO O LEVARÁS CONTIGO
Título original: You Can't Take It With You
Realização: Frank Capra (EUA, 1938); Argumento: Robert Riskin, segundo peça de George S. Kaufman e Moss Hart; Produção: Frank Capra; Música: Dimitri Tiomkin; Fotografia (p/b): Joseph Walker; Montagem: Gene Havlick; Direcção artística: Stephen Goosson; Maquilhagem: William Knight; Guarda-roupa: Irene, Bernard Newman; Assistentes de realização: Arthur S. Black Jr.; Departamento de arte: Lionel Banks; Som: Edward Bernds, Garry A. Harris; Companhias de produção: Columbia Pictures Corporation; Intérpretes: Jean Arthur (Alice Sycamore), Lionel Barrymore (Martin Vanderhof), James Stewart (Tony Kirby), Edward Arnold (Anthony P. Kirby), Mischa Auer (Kolenkhov), Ann Miller (Essie Carmichael), Spring Byington (Penny Sycamore), Samuel S. Hinds (Paul Sycamore), Donald Meek (Poppins), H.B. Warner (Ramsey), Halliwell Hobbes (DePinna), Dub Taylor (Ed Carmichael), Mary Forbes, Lillian Yarbo, Eddie 'Rochester' Anderson, Clarence Wilson, Josef Swickard, Ann Doran, Christian Rub, Bodil Rosing, Charles Lane, Harry Davenport, Ward Bond, etc. Duração: 126 minutos; Distribuição em Portugal: Warner Home Video; Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 21 de Dezembro de 1939.


OS FILMES DE FRANK CAPRA

Filmografia / Como realizador: 1921: Fultah Fisher's Boarding House (curta-metragem); 1926: The Strong Man (Atleta à força); 1927: Long Pants (Calças Compidas); 1928: For the Love of Mike (Os Três Pais); That Certain Thing; So This Is Love; The Way Of The Strong; The Matinee Idol; Say It Whith Sables (O Preço do Amor); Submarine (O Mergulhador); The Power of the Press; 1929: The Younger Generation (A Geração Moderna); The Donovan Affaire; Fligth; 1930: Ladies of Leisure (na RTP: Damas do Prazer); Rain or Shine; 1931: Dirigible (O Dirigível); The Miracle Woman; Platinum Blonde; Forbidden (O Seu Grande Amor); 1932: American Madness (Loucura Americana); 1933: The Bitter Tea of General Yen (A Grande Muralha); Lady For a Day (Milionária Por Um Dia); 1934: It Happened One Night (Uma Noite Aconteceu); Broadway Bill (Derradeira Vitória); 1936: Mr. Deeds Goes To Town (Doido com Juízo); 1937: Lost Horizon (Horizonte Perdido); 1938: You Can't Take It Whith You (Não o Levarás Contigo); 1939: Mr. Smith Goes To Washington (Peço a Palavra); 1941: Meet John Doe (Um João Ninguêm); Arsenic And Old Laces (O Mundo é um Manicómio); 1942: Why We Fight?: Prelude To War; 1943: Why We Fight?: The Nazis Strike; Why We Fight?: Divide And Conquer; Da série Why We Fight?, Frank Capra produziu e supervisionou a realização dos outros seguintes episódios: Britain (R: Anthony Veiller); The Battle of Britain (R: Anthony Veiller); The Battle of Russia (R: Anatole Litvak); The Battle of Chine (R: Frank Capra e Anatole Litvak); The Negro Soldier in World War II (R: Stuart Heisler); Tunisian Victory (R: Hugh Stewart); War Comes to America (R: Anatole Litvak); Know Your Enemy: Germany (R: Gottfried Reinhardt e Ernest Lubitsch); Know Your  Enemy: Japan (R: Frank Capra e Joris Ivens);  Your Job in Germany; Two Down and One to Go; 1946: It's A Wonderful Life (Do Céu Caiu Uma Estrela); 1948: State of the Union (Um Filho do Povo); 1950: Riding High (Desejo) segunda versão de «Broadway Bill»; 1951: Here Comes the Groom (A Sorte Bate À Porta); 1956: Our Mr. Sun (doc.); 1957: Hemo The Magnificient (doc.); The Strange Case Of The Cosmic Rays (doc.); 1958: The Unchainned Goddess (doc.); 1959: A Hole In The Head (Tristezas Não Pagam Dívidas); 1961: Pocketful Of Miracles (Milagre Por Um Dia) segunda versão de «Lady For A Day»; 1964: Rendez Vous In Space (curta-metragem).

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